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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Nahum Sirotsky - Sobre Gaza

Guerra em Gaza piora e cheira mal

30/12 - 00:15 , atualizada às 09:25 30/12 - Nahum Sirotsky, correspondente iG em Israel
ISRAEL - Já escrevi que o bombardeio de Gaza tornou-se inevitável quando o pânico nas áreas atingidas pelos mísseis Qassams palestinos chegou a níveis incontroláveis. Sentindo-se indefesas, inúmeras pessoas ameaçaram abandonar suas casas. A região reúne centenas de milhares de habitantes e vários centros de importância estratégica. Deixá-la com defesas insuficientes significaria ceder ao Hamas. Andei por lá varias vezes nesses tempos.
A luta contra forças guerrilheiras com recurso ao terrorismo é o grande desafio do Estado moderno. Na minha juventude se dizia: "ou o Brasil acaba com a saúva - uma gigantesca e gulosa formiga - ou a saúva acaba com o Brasi". A guerrilha opera como a saúva combinada com o cupim: destrói as bases.

A opção pelo emprego inicial da Força Aérea resulta de considerações sobre custos e benefícios de vidas e bens. Depois das recentes guerras no Iraque e Líbano, país algum imagina poder vencer uma guerra contra guerrilhas e grupos terroristas usando combates aéreos.

O que foi aprendido nas primeiras guerras, há milhares de anos, ainda é valido. Só o infante, a força que ocupa espaço, assegura a vitória. E é essencial conhecer o inimigo até os limites de suas crenças e da competência de seus comandos.

Nada a criticar na eficiência da Força Aérea que buscou os alvos para destruir o máximo da resistência do Hamas e facilitar a entrada de tropas.

Não seriam exércitos estrangeiros. Abu Mazen, presidente da Autoridade Palestina no lugar do falecido Arafat, expulso de Gaza pela força do Hamas, tem agora tropa bem treinada, armada e motivada. A reocupação da região faria com que o futuro Estado Palestino volte a ter um só governo. Ficam menos complexas as negociações de paz e mais provável um resultado aceitável.

O atual presidente de Israel, Shimon Peres, prevê uma paz dentro de três anos. O Hamas é a Frente Islâmica de Resistência - que não admite reconhecer a existência de Israel – e quer uma Palestina islâmica como o Irã. São aliados da Jihad Islâmica e outros grupos menores igualmente fundamentalistas, de vocação terrorista.

O Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Bahrein e outros países árabes muçulmanos têm seus problemas internos com organizações islâmicas que, por conveniências políticas, não condenam publicamente. O Hamas é da linha que não agrada. E tem o apoio do Irã, que quer ser a potência muçulmana dominante no Oriente Médio. É persa de origem, logo, não se inclui entre os descendentes de Ibrahim (Abraão).

O mundo árabe choraria lágrimas de crocodilo se o Hamas for derrubado. O Egito declarou ao Hamas que só promoverá um cessar-fogo se este for incondicional. Não quer fortalecê-lo face ao mundo árabe.

Aparentemente, Israel cometeu três erros de apreciação no caso do ataque. O primeiro foi a fraqueza do preparo do meio diplomático internacional, com ineficaz setor de Relações Públicas.

O segundo foi esquecer que os palestinos de Gaza governados pelo Hamas tenderiam a ser vitimados em ataques. A "massa árabe" é solidária com os palestinos, seus irmãos, o que determina atitude semelhante de seus governos. O Hamas recebe a solidariedade que não é dele.

O terceiro erro está relacionado à proibição do acesso da mídia internacional a Gaza . Nós, jornalistas, sempre nos viramos. O campo ficou livre para o Al Jazeera e toda a mídia árabe. O que se viu na mídia foi cedido pela mídia árabe à mídia internacional – e guerras são temas ideais para imagens pela sucessão de pequenas e grandes tragédias sem mocinhos, só vitimas.

Assisti a inúmeras guerras em minhas décadas de jornalismo. Não esqueço que tem cheiro das fezes do medo, sob o qual se pode perder o controle do corpo. Foi o que me tornou místico, pois num segundo se está com alguém que fala e no outro tem-se a sensação de que algo sai do corpo que esvazia. Como se a vida fosse esse algo invisível, intocável e incompreensível. Será possível que existe em si, independente do invólucro? Pergunto a cientistas que não sabem me responder. Mas, desde a primeira delas, guerra civil entre camponeses armados de foices e facões e soldados com suas armas, que tenho pesadelos. Foi antes da televisão.

No fim da última segunda-feira, o Hamas, que lançava primitivos Qassams de pequeno alcance, passou a lançar mísseis direcionados de médio alcance. Matando e ferindo. Derrotá-lo ficou complicado.

Ao longo da fronteira entre Israel e Gaza sem obstáculos naturais eram visíveis concentrações de tropas em posição ofensiva. Vai ser uma longa guerra que pode se espalhar. Já sinto o cheiro.
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