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domingo, 24 de janeiro de 2010

Haiti: Brasil e E.U.A disputam espaço.


Após o caos instalado no país caribenho, cuja cifra oficial de mortos atingiu ontem 111 mil vítimas, segundo o governo do país - é ainda têm um governo! - vão ficando mais nítidas certas imagens que apontam para o que também está ocorrendo alhures.
As autoridades norte-americanas deflagraram uma grande operação militar onde eles não só se apropriaram do gerenciamento do que restou do aeroporto da capital, como de fato transferiram este controle para Tucson - em território dos EUA.  Como um efeito colateral de tal usurpação, eles negaram autorização de pouso para aviões com auxílio humanitário mas franqueram, no mesmo momento, o pouso de aeronaves com autoridades civis e militares dos Estados Unidos.
Além disso, navios e aviões foram enviados para dar suporte às operações de socorro, que já íam se configurando numa "invasão humanitária" capitaneada pelos marines e tropas aerotransportadas da 82ª Divisão (Força de Intervenção Rápida).






Tudo isso à revelia da ONU e de forma mais constragedora ou claramente humilhante, ao Brasil.  Não por ufanismo de 2ª categoria, mas pelo fato do Brasil comandar as ações da MINUSTAH, e portanto com aval da ONU, as autoridades brasileiras lá no Haiti ou aqui, deveriam ter merecido a cortesia de uma real parceria.  Que os norte-americanos têm mais recursos é óbvio.  Mas até por isso, deveria haver um esforço maior de Washington para convergir as suas operações com os interesses legítimos representados pela missão da Organização das Nações Unidas.
Os helicópetros desembarcando tropas nos jardins do destruído palácio de governo tiveram a intenção - inconfessada - de marcar o espaço das tropas norte-americanas, e isso só têm sentido se buscarmos o endereço da mensagem.
Para o Brasil em particular, a ONU em geral e a comunidade centro-sul americana em especial, a demonstração de força embutida no "auxílio" era para marcar a posição de que se eles quiserem podem fazer o que quiser, reiterando a monótona arrogancia dos norte-americanos, e que ainda hoje eles se surpreendem com o seu reverso: o antiamericanismo!
Chavez, Fidel e Raul Castro, Daniel Ortega, etc, são mais uma vez lembrados de que os EUA fazem o que acham que podem fazer, sem que governos como das Ilhas Salomão, Papua ou o Vaticano sejam consultados.
E neste ponto, a assimetria de meios foi fundamental.
Enquanto o Brasil demorava a reagir, a ponto de só agora o contingente militar estar sendo reforçado e timidamente preparar o envio de um navio (01) e mais alguns helicópteros, os EUA puseram em ação mais de uma dezena de embarcações e milhares de soldados.
Ontem, foi simbólico o que ocorreu diante do palácio governamental.
Numa cerimônia comandada pelo general Floriano Peixoto, tropas e veículos blindados brasileiros começaram a organizar uma distribuição de comida e água para os refugiados haitianos.  Era o Brasil, por sua vez, marcando posição.
Mas eis que os norte-americanos chegaram, de novo com seus helicópteros e fizeram uma ventania daquelas, a ponto de uma das bandeiras brasileiras hasteadas vir ao chão, sem nem procurarem esconder o prazer que o incidente produziu.
Lula se aproxima de Chavez e Ahmadinejad?  Bom,... melhor ficar esperto e ver afinal quem é que manda no pedaço!
O Brasil está envolvido num processo pelo qual busca, talvez com acerto, ocupar de fato o papel de uma liderança regional.  Para que isso ocorra, os interesses devem ficar claros e as vezes, serão divergentes com a grande potência do norte.  Para Washington o fortalecimento do Brasil deve ser um contraponto à influência do chavismo na AL, e não constituir-se num outro foco de atrito.
Daí que é importante o fortalecimento institucional, econômico e militar do Brasil, mesmo que contraditoriamente ocorra um crescimento das divergências entre Brasília e Washington.  Basta lembrar que a poucos meses houve muito incômodo da diplomacia brasileira e regional com o acordo de cessão de bases colombianas para uso das forças norte-americanas.
Alguém imagina que o Brasil venha a ficar à reboque de Caracas e do presidente Chavez?  E se ocorrer, isso será permanente?
A sociedade civil, o ambiente de liberdade de crítica e o póprio fortalecimento dos meios militares - exigindo mais e mais profissionalização dos mesmos e menos politização - são garantias de médio e longo prazo para a autonomia da nossa política externa.
Mas as ambições brasileiras estão atreladas ao nível de desenvolvimento e posse dos meios necessários para sustentar estas ambições, e mais que isso, as responsabilidades.
O Haiti é um teste e ainda não se completou.
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