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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Afeganistão - Hoje Igual a Ontem

O jornalista Willian Waack é conhecido não só por sua erudição como repórter, mas também pela qualidade do que escreve.
Este post abaixo é antigo e está localizado no blog do próprio Wack no G1.com.br, mas achei atualíssimo, especialmente o 3º parágrafo. 
Boa leitura e iguais reflexões.


O QUE KABULOV TEM A DIZER AOS OCIDENTAIS

Postado por William Waack em 20 de outubro de 2008 às 19:28

De volta das férias nesta segunda-feira (20), achei que a eleição americana e o esforço político internacional em torno da crise econômica poderiam esperar um pouquinho. A causa foi uma excelente matéria do John Burns – um dos veteranos correspondentes do “The New York Times” – sobre o novo oráculo de Cabul: o ex-espião da KGB, ex-chefe da KGB e atual embaixador russo na capital do Afeganistão, Zamir Kabulov.



Ele passou a ser ouvido por diplomatas e por militares ocidentais, e não tem nada de bom para dizer a eles. Kabulov, o homem que ajudou a preparar, iniciar e administrar a invasão soviética do Afeganistão, há 29 anos, afirma que os americanos e a Otan estão repetindo os mesmos erros dos soviéticos. Erros que ele compara até mesmo aos que os britânicos cometeram ao ocupar o país no século XIX.



As listas de decisões erradas, segundo Kabulov, são praticamente idênticas: permanecer muito tempo ocupando o país; fazê-lo com número inadequado de tropas; acreditar que ocupar as cidades decide a guerra; ignorar a profunda aversão dos vários contingentes populacionais do Afeganistão aos estrangeiros, especialmente não muçulmanos; tentar resolver a situação militar com ataques muito agressivos e confiança apenas em armas de grande poder de destruição, especialmente forças aéreas.



Kabulov, na conversa com Burns, diz que não tem espírito de vingança nem quer ver os Estados Unidos e seus aliados ocidentais – que mantém 65 mil combatentes no Afeganistão, contra os 140 mil soviéticos no auge da invasão, em 1987 – sofrendo o mesmo destino que a ex-URSS. “Para que? Para ver a mesma gente que nos combateu na Chechênia nos atacando de novo?”, pergunta o veterano homem da KGB. O perfil de Kabulov tem pouco a ver com o clichê que se faz de integrantes do famoso serviço secreto da União Soviética. Gente do nível dele constituía o que os russos consideravam sua elite administrativa e tecnocrática – desculpem a comparação, algo como a Escola Superior de Administração da França, que há décadas forma alguns dos principais quadros da administração estatal.



Interessante é notar a defesa que Kabulov faz da fracassada invasão soviética. Ele compara a “modernização” de costumes e da educação pretensamente trazida pelos soviéticos aos afegãos, além de portentosas obras de infraestrutura iniciada pela ex-URSS, ao que considera “completa ausência” de medidas semelhantes no caso da atual ocupação pela Otan.Seu conselho aos ocidentais: saiam o mais rápido possível do Afeganistão, treinem e equipem forças armadas afegãs capazes de se identificarem com o próprio país. Diante do fato de que americanos e iraquianos parecem caminhar rapidamente para algum tipo de entendimento sobre a retirada de tropas do país, o Afeganistão (e Paquistão) tornou-se a prioridade zero de quem for eleito para a Casa Branca e 4 de novembro.



Obama quer ganhar a guerra lá? Não vai conseguir, lembra Kabulov, se continuarem agora treinando os afegãos no uso de armas individuais ocidentais, em detrimento da velhíssima e conhecidíssima Kalashnikov (a AK-47), que qualquer criança afegã sabe disparar. Taí uma oferta interessante do ex-homem da KGB aos ocidentais embarcados numa guerra sem fim no Afeganistão: armas e conselhos
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