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domingo, 4 de abril de 2010

Os atentados de Moscou

Nesta semana, após uma série de atentados na Rússia, a questão étnica e separatista no país voltou ao noticiário.
O governo russo reagiu de imediato anunciando medidas duras contra os terroristas que por intermédio de ataques suicidas mataram mais de 50 pessoas, sem apontar, de forma explícita, como serão aplicadas e quais são estas medidas.
O líder Doku Oumarov assumiu a autoria dos primeiros ataques ocorridos no metrô de Moscou onde se destacam três aspectos:
  1. Novamente foram desfechados por "mulheres-bomba" - o que é um fenômeno ainda por ser analisado de forma mais profunda, pois o Alcorão fala em recompensar os mártires da Jihad, com a entrada no Paraíso e o desfrute de 72 huris (as virgens); não há referências de em sendo mulheres que tipo de recompensas elas terão!  Portanto não existe garantia de recompensa nem de Paraíso;
  2. No primeiro atentado, o alvo foi próxima a antiga sede da outrora temida KGB (Comitê para a Segurança do Estado).  Alvo simbólico cujo objetivo era humilhar a atual capacidade dos serviços de segurança russos em deter um inimigo que alia despojamento pela própria vida com uma causa digna do seu martírio;
  3. As primeiras notícias deram conta que no segundo alvo, a estação do Parque Cultura, a mulher-bomba, ou "viúva-negra" como chamam as autoridades russas, escolheu um grupo de policiais já ali posicionados para impor vigilância ostensiva.
Não é de hoje que ações terroristas usam muitas vezes a tática de dois ataques: no primeiro, as baixas impostas acarretam o deslocamento de equipes de segurança e de socorro para conter o caos gerado pela ação agressiva; e no momento seguinte, estas mesmas equipes tornam-se um alvo - tentador até por que se este segundo ataque ocorrer na área do anterior, têm-se a garantia de muitas câmeras e cobertura midiática.
Nos ataques de Moscou, a segunda operação prescindiu de atingir o mesmo local, pois contaram que haveria um reforço ao longo de todo o sistema de transporte metroviário.  A segunda atacante não precisava estar no local do primeiro atentado, pois poderia conseguir o mesmo efeito em qualquer outra estação da rede de metrô moscovita.
Em 2009, sob uma aparente calma, proveniente mais de nossa desinformação do que por falta de ações dos separatistas islâmicos, ocorreram, segundo o jornal Gazeta do Povo, uma série de ataques que resultaram nas mortes de 280 vítimas na Chechênia, 319 na Ingushétia e outras 263 no Daguestão.
Desde 1999, quando ocorreu a 2ª Guerra da Chechênia (mas que se estendeu também ao Daguestão), a militância separatista dos resistentes islâmicos se perpetuou.  Naquela ocasião, a fúria devastadora e genocida dosmilitares russoslonge da cobertura da imprensa ocidental (mantida à distância) e também fora do alcance dos observadores internacionais, que foram convidados, de forma firme, a abandonarem as áreas conflagradas para a sua própria segurança.  Assim, os relatos de massacres e torturas foram episódicos e não sujeitos a confirmação independente.  Os militantes acusavam os militares russos e estes reagiam alegando propaganda de guerra dos separatistas, e no fim nada de oficial.
A região do Cáucaso russo está fervendo e não é de hoje.
Ali se cruzam interesses econômicos crescentes em torno da exploração e distribuição de recursos naturais, especialmente petróleo e gás, e os dividendos e projetos associados ao TRACECA: o Corredor de Transporte Europa, Cáucaso e Ásia Central, que corresponde a um sistema multimodal de transporte de energia e derivados.
E a estes interesses econômicos juntam-se os de natureza nacionalista (o separatismo regional) e religiosos.  Este, forte desde 1979 e a vitoriosa Revolução Islâmica no Irã, seguiu crescendo a partir da Invasão Soviética no Afeganistão e a derrota subsequente destes, a gestação e expansão das atividades da Al Qaeda e a ação dos talibãs.
Certa vez vi uma frase cuja autoria se perdeu na memória, mas que se aplica ao que hoje ocorre: "Lênin e Stálin, (...) morreram sem imaginar que haviam plantado em pleno coração da Ásia central soviética, a mais formidável bomba de efeito retardado da história dos povos".
Tashkent, Grozni, Ingushétia...muitos nomes para um mesmo dilema.
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