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domingo, 28 de novembro de 2010

Da ponte de César ao Complexo do Alemão (RJ)

Conta-se que certa vez, Júlio César mandou que seus engenheiros e legionários contruíssem uma ponte para cruzar o rio Reno, pois se na margem onde estava os bárbaros haviam sido dominados, na outra eles continuavam resistindo à Roma.
A rápida correnteza e o solo arenoso dificultaram a tarefa, mas a ponte foi erguida.
César então cruzou-a, não à testa de suas tropas, mas solitariamente.  Na margem oposta andou para lá e para cá sem que nenhum germano aparece-se.  Ele então recruzou a ponte para a margem original onde estavam suas tropas e mandou desmantelar a ponte recém-construída.
Moral da história?  Entendeu-se que a construção em sí serviu para mostrar que Roma e suas legiões, em geral, e César em particular, íam aonde queriam!

Hoje, novembro de 2010, a invasão do complexo do Alemão por uma força-tarefa das polícias civil, militar, federal, rodoviária federal e mais as forças oriunda do Exército (Brigada Pára-quedista), Marinha (apoio logístico) e Força Aérea (helicópteros) teve, para além do objetivo óbvio de assumir uma área que a anos está sob controle de traficantes, também de mostrar o que deveria ser evidente e corriqueiro - e não excepcional: o Estado também vai aonde quer!
A décadas se perpetuava uma relação espúria entre as organizações policiais e certas atividades criminosas vistas, àquela época, como até inocentes, como a contravenção do Jogo do Bicho.  Esta relação azeitava canais de comunicação, negócios e influência entre o crime e a instituição policial.
Mas à partir dos anos 80/90, novos personagens foram se instalando e herdando esses canais de convivência e conivência.  As "pontes" entre crime e ordem que precisavam ser eliminadas.
Ao longo das últimas décadas um misto de tolerância, da parte do poder público e da sociedade, aliado com estes canais de comunicação existentes com o crime, atrapalharam ou bloquearam até que se realizassem operações contra o crime capazes de conter a ação criminosa.
Anos de expurgos de agentes policiais envolvidos com a criminalidade, a mudança de postura da sociedade em relação ao crime, uma exacerbação crescente e acintosa da violência e uma melhor seleção e treinamento das forças policiais, permitiram que os golpes contra as organizações criminosas se repetissem de forma exitosa.
O ataque contra o Alemão, apesar de não decorrer de um planejamento prévio demorado, e sim reagindo à própria dinâmica do conflito instalado na cidade entre o governo e os bandos marginais, em certa medida só foi possível devido ao desmantelamento dos canais de comunicação entre a instituição policial e os criminosos.  Ainda que não acreditemos numa "demolição" completa destes canais, eles certamente estão grandemente reduzidos neste momento.
De quebra não deixou de ser irônico que numa das entradas da comunidade havia um comércio denominado Itararé.  Para quem imaginava que haveria um grande combate ou "banho de sangue" entre policiais e narcotraficantes, a tomada do complexo de forma quase incruenta, mostrou similaridade com a célebre Batalha de Itararé, onde na Revolução de 1930 forças revolucionárias e legalistas - contadas em milhares - se prepararam para uma sangrenta batalha...que acabou não ocorrendo.
Como em 1930, a batalha de novembro de 2010 foi uma outra batalha de Itararé: ao invés de um combate sangrento, quase nenhum sangue foi derramado!
Graças a Deus! 

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