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domingo, 6 de março de 2011

Do Cairo a Trípoli – pq não há homens-bomba?

Gustavo Chacra direto do Estado de São Paulo on line
Os levantes árabes começaram depois de um jovem tunisiano se imolar em protesto contra a situação econômica. Mas, até agora, não vimos nenhum homem-bomba no Egito, Tunísia, Líbia, Bahrein, Yemen e Argélia. Ninguém no mundo árabe se suicidou com o objetivo de matar outras pessoas durante as manifestações contra o regime.
No Cairo e em Tunis, assim como agora em Sanaã, os opositores, com raras exceções, sempre mantiveram a calma e evitaram confrontações. A violência partiu dos regimes. Na Líbia, há rebeldes armados contra o governo. Porém eles atuam como guerrilhas, usando fuzis, e não utilizando seres humanos recheados de explosivos para entrar em atos pró-governo e se explodir. Os regimes, obviamente, usam armamentos convencionais.
O mesmo fenômeno pôde ser observado na Guerra de Gaza. O Hamas não utilizou homens-bomba contra as forças israelenses. Aliás, quando foi o último atentado suicida em Israel? O Hezbollah tampouco apelou para esta tática na guerra em 2006.
Na minha avaliação, a queda nos ataques suicidas variam de acordo com o caso. A Tunísia teve um levante de uma classe média secular, sem ligação com religiosos islâmicos. No Egito, também houve uma organização para evitar os mais radicais. Jovens estiveram na liderança das manifestações. Os líbios não têm tradição de atentados suicidas. Mais importante, os opositores conseguiram armamentos com os militares desertores no leste do país.
Na guerra contra Israel, o Hezbollah, que é a guerrilha mais avançada do mundo, usou a estratégia mais viável para seus comandantes militares, que era a de lançar mísseis contra Haifa e outras cidades do norte israelense. É preciso lembrar que o grupo xiita libanês nunca cometeu um atentado suicida dentro de Israel. O Hamas talvez tenha sido contido pelos muros israelenses e, principalmente, por ter percebido que ataques terroristas com homens-bomba apenas deterioravam a imagem do grupo ao redor do mundo. Usar foguetes dá um ar de guerrilha, mais aceito do que o uso de suicidas, que os classificaria como terroristas.
Para completar, todos os países acima, incluindo o Líbano e Gaza (que não é independente), sempre tiveram regimes com ojeriza à Al Qaeda. Muamar Kadafi ainda insiste que a rede terrorista drogou os jovens líbios. Mubarak sempre eliminou o radicalismo islâmico e mesmo a Irmandade Muçulmana não gosta de ser relacionada a Bin Laden. O Hamas mata membros da Al Qaeda (grifo meu). O Hezbollah, por ser xiita, sempre considerou a organização terrorista sunita uma inimiga e impede que eles atuem no Líbano.
Ao mesmo tempo, ficando apenas no mundo árabe, as ações suicidas ainda ocorrem em larga escala no Iraque. Todas as semanas, homens-bomba se explodem em Bagdá e  outras regiões iraquianas. Com a queda de Saddam e a chegada dos americanos, a rede terrorista foi penetrando aos poucos. Não foi de repente. Os EUA até achavam que haviam ganho a guerra. Mas os ataques terroristas começaram. Órfãos de Saddam, antes inimigos da Al Qaeda, se aliaram à organização. Depois, romperam com a aliança com os americanos no “surge”. Mas o grupo já havia fortalecido a presença no território iraquiano.
Fenômeno similar pode ocorrer no Yemen. Especialmente porque a Al Qaeda na Península Arábica tem sua base neste que é o mais pobre país árabe. Porém a tendência da organização não deve ser lutar contra o regime. O objetivo será torcer pelo caos. Assim podem transformar o território iemenita em um bastião para os seguidores de Bin Laden e líderes da nova geração, de onde possam lançar ataques terroristas contra os EUA e, acima de tudo, a monarquia saudita. Mais ou menos como o Sudão e o Afeganistão nos anos 1990.
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