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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Escolha de Amorim pode azedar reaproximação do Brasil com os Estados Unidos



A escolha de Celso Amorim como ministro da Defesa gerou desconforto entre os militares, algo que ele começou a equacionar na tarde de sábado (6), em reunião com os comandantes das Forças Armadas no Palácio do Planalto.
Há outras arestas a serem aparadas, porém. O histórico da atuação do diplomata poderá atrapalhar a política de reaproximação do Brasil com os Estados Unidos iniciada no governo Dilma Rousseff. A simpatia que Amorim demonstrava em relação ao Irã nos tempos em que era chanceler, principalmente a posição enfática a favor do processo de enriquecimento de urânio, jamais foi vista com bons olhos pela Casa Branca. A situação agora se agrava: titular da Defesa, Amorim será responsável pelo programa nuclear brasileiro. “Como explicar aos norte-americanos que o programa de desenvolvimento de um submarino com propulsão nuclear não vai se transformar em um empreendimento para a fabricação de um submarino com armamento nuclear?”, questiona o coordenador do curso de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), de São Paulo, Gunther Rudzit.
Há dois anos, quando estudava nos Estados Unidos, Gunther participou de uma audiência na Comissão de Segurança do Senado norte-americano. Ouviu de um senador democrata que o Brasil, depois de um longo tempo, voltou a ser incluído no radar de alerta após as declarações de simpatia de Amorim e do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad. O especialista em defesa lembra que o Senado dos EUA tem amplos poderes para influenciar a política externa e não seria improvável que a nomeação de Amorim para a Defesa aumentasse o grau de incerteza dos americanos em relação ao Brasil. “A luz amarela passaria para vermelha rapidamente”, afirmou Gunther ao Correio.
A questão da compra dos caças para renovar a frota brasileira também gera outro ponto de interrogação. Estimulado por Lula, que sempre quis manter uma relação próxima com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, Amorim defendia a aquisição dos caças Rafale, da fabricante Dassault. A Força Aérea Brasileira elaborou um estudo técnico mostrando as vantagens de se adquirir as aeronaves da empresa sueca Gripen. O documento foi fuzilado pelo Planalto, a gritaria acabou amplificada pelo veto do assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, e a Aeronáutica teve que revisar o parecer técnico. A exemplo dos militares, Nelson Jobim também preferia os aviões suecos. Mas teve que engolir a seco.
Quando Dilma Rousseff assumiu a cadeira no Planalto, a compra dos aviões deixou de ser prioridade e o tema foi relegado a segundo plano, o que também desagradou Jobim, embora as Forças Armadas tenham um projeto de modernização. Gunther acreditava que, na linha de uma reaproximação com os Estados Unidos, o Brasil poderia rever as questões ideológicas e optar pelos aviões da Boeing, embora não haja qualquer garantia que os americanos vão transferir a tecnologia desejada pelo governo brasileiro.
Desavenças
Além das questões práticas, ainda existem as desavenças profissionais. Tanto a diplomacia quanto a área de Defesa são consideradas carreiras de Estado, o que, inevitavelmente, gera ciúmes entre os profissionais dos dois setores. A nomeação de Amorim ressuscita um questionamento, feito em 2003, quando Lula resolveu indicar o também diplomata José Viegas para o cargo de ministro da Defesa. “Os diplomatas gostariam de ver um general quatro estrelas chefiando o Itamaraty? Pois é, os militares pensam exatamente da mesma forma”, reforçou Gunther.
Uma nuance que pode ajudar nessa relação e diminuir a desconfiança dos quartéis à indicação de Amorim é o estilo mais low profile do novo ministro em relação ao antecessor. Ninguém espera ver Amorim vestido com fardas camufladas ou fazendo operações pirotécnicas na selva. O ex-chanceler também nunca tomaria banho nu durante a cerimônia religiosa do Kuarup no Rio Xingu, como fez Jobim, em 1995. Ambos são vistos por pessoas próximas como detentores de egos inflados, mas o novo ministro é mais “disciplinado hierarquicamente”, acredita Gunther. “Se ele começar a extrapolar em suas palavras e ações, Dilma poderá falar: ‘Menos, Amorim, menos’ ”, brincou o professor.
Há quem enxergue, também, uma saia justa para o atual ministro de Relações Exteriores, Antonio Patriota. Ele foi uma escolha pessoal da presidente Dilma para dar um novo rumo à política externa brasileira, menos benevolente com governos de esquerda, como Bolívia, Equador e Venezuela, e mais voltada a uma reaproximação com os Estados Unidos. Além disso, o atual ministro de Relações Exteriores era secretário executivo de Amorim no Itamaraty. “Ele substituiu o chefe e, agora, o antigo superior passa a ser colega dele na Esplanada. Será constrangedora a reunião ministerial”, aposta um interlocutor da área diplomática brasileira.
Um especialista ainda lembrou que a própria aproximação de Amorim com os países “bolivarianos” vai provocar questionamentos entre os comandantes militares. Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula foram obrigados a rever conceitos. O tucano teria dito “esqueçam o que escrevi”. Lula, ao adotar a política econômica conservadora para domar a inflação, autointitulou-se de “metamorfose ambulante”. “Agora, diante da tropa, Amorim dirá: esqueçam quem eu admirava?”, provoca um diplomata.
Fonte: Correio Brasiliense  via by Angelo D. Nicolaci 08/08/11 06:31
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