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domingo, 14 de agosto de 2011

Progresso e Ceticismo em Cabul


O bairro Karte Seh, em Cabul, mescla ricos e pobres, parlamentares e os que veem a democracia com ceticismo. Nova geração de afegãos anseia incansavelmente por melhor educação e por tempos melhores.
Com a queda do regime talibã, em 2001, Cabul contabilizava aproximadamente 600 mil habitantes. Hoje, estima-se que vivam na metrópole de quatro a cinco milhões de pessoas. O quadro atual da cidade pode ser especialmente observado em um de seus bairros, que traz consigo as insígnias do novo poder. Nele, a voz do povo está em casa: trata-se de Karte Seh, localizado no oeste da capital afegã.
Cabul é, hoje, um verdadeiro canteiro de obras. O que em outros lugares do mundo seria considerado uma praga, é, na capital afegã, uma notícia boa. "A esperança é que onde há obras, há investimento", diz Mirwais, um motorista de táxi.

Riqueza ao lado de barracos precários

Antes que seus proprietários fossem obrigados a fugir para o exílio, era a classe média de Cabul que vivia em Karte Seh, tanto em casas ornamentadas quanto em habitações discretas. Depois disso, começaram a surgir as casinhas de barro, bem simples, reflexos da guerra e do êxodo rural da população rumo à metrópole.
Diversidade em Karte Seh é visível
Hoje, há ali mansões que esbanjam ostentação, ao estilo das de Dubai ou ao gosto dos negociantes paquistaneses, com colunas douradas na fachada. Nas imediações de Pol-e-sorkh, a ponte vermelha, a Karte Seh antiga encontra-se com a nova, em um caldeirão colorido de etnias. Mulheres de burca, vestimenta que cobre o rosto, são ali uma exceção. Apenas a rua principal é asfaltada. Os caminhões jogam uma grossa nuvem de poeira nos pedestres que andam pela área.

Talibãs extorquiam dinheiro

Cada negociante no bazar tem uma história para contar. "Eu sou Haji Murad Ali", diz um homem baixo, com a boina que os afegãos usam para orar. "Os talibãs me acossaram 32 vezes", conta o proprietário de uma confeitaria onde se pode comprar biscoitos e outros doces típicos.
Ali abriu seu negócio no bairro há mais de dez anos. "Os talibãs já vinham se você estivesse com uma roupa nova. Eles afirmavam que você era um comandante rico e começavam a espancar você com cabos", lembra. Segundo Ali, eles torturavam as pessoas e ainda tinham prazer com isso, sempre movidos pelo dinheiro.  (grifo meu)
Ali tira um cadeado arrombado de uma gaveta e mostra seus pedaços destruídos. "Fui assaltado há duas semanas. A polícia veio, mas, em vez de me ajudar, queria meu dinheiro", conta. Hoje, segundo ele, as coisas estão melhores, mas não necessariamente mais justas. "Quando você briga com a polícia, vai preso. Ou seja, fico de boca fechada, caso contrário acabo na prisão, num buraco soturno", prevê.

Parlamentares que se enriquecem

Até mesmo para os russos Cabul se tornou, novamente, uma alternativa. Sonia, uma jovem moscovita, vive na cidade com seu marido afegão, Sanjar, também no bairro de Karte Seh. Eles se conheceram na Polônia, onde ele cursou a universidade como bolsista. Os dois vivem nos arredores do parlamento. "Nosso vizinho do lado é deputado. Ele enriqueceu muito em pouco tempo, embora venha do campo. Aí você se pergunta: de onde ele tem, como funcionário público, tanto dinheiro", questiona Sanjar.
Lavagem de dinheiro resultante do comércio de petróleo, do tráfico de drogas e de outros negócios. Essa é a explicação, dizem não só as más línguas, para grande parte do boom da construção civil em Cabul. Tudo isso modificou a imagem que Sanjar tinha da cidade. "Fico com raiva. Antes eu pensava que votar era uma obrigação civil, que eu tinha que fazer isso. Mas agora penso que temos a ver com uma máfia, e não com um governo", conclui.
O parlamento e a guerra civil no início dos anos 1990 são, para Sanjar, dois lados de uma mesma medalha: "A casa dos representantes do povo está cheia de assassinos. Eles destruíram o bairro. E são responsáveis pela morte de 60 mil pessoas. Antigamente atiravam com espingardas na gente. Agora têm cadeiras no parlamento", observa. Sanjar não compreende como diplomatas de países ocidentais podem elogiar esses representantes do povo como símbolos de uma nova democracia. Para ele, todos deveriam ser julgados.

Universidades particulares para saciar a fome de educação

A um quarteirão dali, jovens mulheres sorriem de becas em pôsteres publicitários de universidades particulares. As universidades públicas do país não conseguem mais responder à enorme demanda dos jovens que terminam o ensino médio. Diante disso, dezenas de instituições privadas de ensino tentar saciar a fome de educação. Uma delas, a Ibn Sina, leva o nome de um dos grandes sábios islâmicos.
Ali Amiri, um de seus fundadores e autor de uma tese de doutorado sobre o filósofo Ludwig Wittgenstein, explica por que a afluência de estudantes é tão grande. "Parte deles, que pertencem à minoria Hazara, foi por longo tempo menos favorecida. Eles não podiam, por exemplo, se tornar oficiais das Forças Armadas ou estudar Direito e Política. Essa proibição agora foi abolida e eles agora estão tentando recuperar isso", observa.
Entre os 300 estudantes da universidade, há muitas mulheres, às quais é dado um desconto nas taxas semestrais. "Não quero me tornar deputada, isso só traz problemas. Estudo Direito porque quero fazer alguma coisa pelas mulheres maltratadas", diz uma estudante. Na sala de aula, os homens sentam-se separados, nas fileiras de trás. As mulheres usam lenços muçulmanos coloridos, algumas vêm maquiadas.

Em Cabul mulheres têm mais liberdade

"O que vocês veem aqui, só se vê em Cabul. Somente aqui uma mulher pode usar como quiser o véu muçulmano (e não a burca). No interior do país, as mulheres não podem nem sair sozinhas de casa ou estudar. E, quando podem, geralmente são obrigadas a usar a burca", relata outra estudante. Segundo ela, a mulher afegã no interior é uma mera máquina de procriação para os homens. "Há mulheres que dão à luz 18 crianças", finaliza.

Autor: Martin Gerner (sv)

Revisão: Roselaine Wandscheer
FONTE: Deustch Welle -
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,15286802,00.html




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