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domingo, 29 de janeiro de 2012

Especialistas põem em dúvida eficácia de sanções


Se a experiência com o uso de sanções internacionais servir de lição, são baixas as chances de sucesso do embargo que a União Europeia impôs ao petróleo iraniano na semana passada. É isso que dizem pesquisadores que estudam o uso de sanções econômicas ao longo da História. Mesmo quando funcionam - ou seja, quando o objetivo político desejado inicialmente é alcançado -, é difícil dizer se elas são a principal causa da "vitória".
O fim do apartheid na África do Sul costuma ser citado como o grande exemplo de sucesso no uso de sanções econômicas. A partir de meados dos anos 80, sob intensa campanha do bispo Desmond Tutu, vários países adotaram medidas unilaterais e a ONU reforçou o embargo de armas a Pretória. Isolado, o regime racista teria apressado a transição rumo à democracia.
Há ainda um caso em curso, pouco evidente no noticiário, no qual as sanções econômicas parecem estar surtindo efeito: Mianmar. Após décadas de isolamento e pressão externa, a junta militar que controla o país asiático decidiu negociar com a principal figura da oposição, a Nobel da Paz Aung Sun Suu Kyi, que deve disputar as próximas eleições. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, esteve no mês passado na capital Rangum para coroar a "vitória".
Mas episódios em que as sanções foram realmente eficientes são raros e, em alguns momentos, elas se provaram catastróficas. É o caso do Iraque. Um estudo da Universidade Yale conclui que o embargo imposto nos anos 90 fez explodir a mortalidade infantil - entre 600 mil e 800 mil crianças teriam morrido em razão do cerco aprovado pela ONU. As sanções a Cuba e à Coreia do Norte, em vigor desde os anos 60, são outros exemplos de fracasso.
Gary Clyde Hufbauer, do Peterson Institute for International Economics, de Washington, analisou 174 casos de uso de sanções desde a Primeira Guerra. Ele afirma que as chances de sucesso desse tipo de medida são inversamente proporcionais às ambições de transformação. Em outras palavras: objetivos modestos, como a libertação de dissidentes ou a investigação de um massacre, são alcançados em 40% dos casos. "Mas metas mais ambiciosas, como a mudança de regime ou o gelo a um programa nuclear, não passam de 20%", disse o analista ao Estado.
'Cavaleiro negro'. Há três fatores que contribuem para a eficiência das sanções, explica Hufbauer. O governo do país alvo deve ser fraco, dependente de ajuda externa e aqueles que impõem a medida "devem dar uma alternativa viável ao regime". Grifo meu!!!!
É comum as sanções provocarem três efeitos contraproducentes. A população muitas vezes se une em apoio ao regime e a cúpula do governo acaba ainda mais poderosa, ao controlar recursos cada vez mais escassos. Por fim, uma potência estrangeira - batizada de "o cavaleiro negro" pelos especialistas - pode se aproveitar do isolamento do país pária para reforçar sua própria influência e diluir os efeitos do cerco.
Embaixador da França no Irã entre 2001 e 2006, François Nicoullaud afirma que, desde a revolução, iranianos veem sanções como mais uma prova da truculência dos poderosos e dos esforços do Ocidente para impedir que Teerã se torne uma potência moderna. "As primeiras sanções foram impostas já em 1979 (ano da revolução) e atingiram a indústria do petróleo", disse ao Estado. "O embargo recém-adotado busca, na verdade, minar o regime iraniano. Vai funcionar? Duvido."
Djavad Salehi-Isfahani, economista iraniano do Brookings Institution, afirma que, embora as sanções reforcem o ressentimento entre a população no Irã, é improvável que o regime ganhe apoio popular com o embargo.
"As feridas provocadas pela repressão de 2009 contra opositores ainda não cicatrizaram", diz. "Mas a força moral das sanções dentro do Irã é muito fraca. Não são sanções como as da África do Sul, caso em que mesmo dentro do país havia uma consciência de que elas eram necessárias." / R.S
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