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sábado, 7 de janeiro de 2012

Turquia quer ser resposta para questões do Oriente Médio

Autoridades turcas buscam papel de liderança em nova ordem de estabilidade política e integração econômica no Oriente Médio.


The New York Times
30/09/2011

     Há pouco tempo a política externa da Turquia girava em torno de uma única questão: a dividida ilha de Chipre. Atualmente, seu primeiro-ministro pode ser a figura mais popular no Oriente Médio, seu ministro das Relações Exteriores vislumbra uma nova ordem e autoridades conseguiram fazer o que o governo Obama até agora não conseguiu: posicionar-se firmemente do lado da mudança nas revoltas e revoluções árabes.
     Ninguém está pronto para declarar uma Pax Turkana no Oriente Médio – de fato, sua política externa este ano está cheia de erros, crises e conquistas que parecem em grande parte retóricas, e o país ainda carece de diplomatas suficientes. Mas em um mundo árabe onde os Estados Unidos parecem estar em retirada, a Europa é ineficaz e poderes como Israel e Irã são instáveis e inseguros, autoridades de uma Turquia assertiva e ocasionalmente ousada têm oferecido uma visão do que pode emergir da turbulência que atingiu dois continentes e abalou décadas de suposições.
     Não inesperadamente, o eixo dessa nova visão é a Turquia.
     "A Turquia é o único país que tem um senso de para onde as coisas estão indo e tem vento impulsionando suas velas", disse Soli Ozel, professor de relações internacionais da Universidade Istambul Bilgi.
     A política externa do país tem atraído a atenção de muitos no Oriente Médio e outros lugares do mundo, principalmente depois que o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan visitou na semana passada três países árabes que testemunharam revoluções nos últimos meses: a Tunísia, o Egito e a Líbia. Mesmo os críticos de Erdogan ficaram impressionados com o simbolismo da viagem.
     Embora muitos critiquem o seu autoritarismo em casa, o público no exterior parecia diante de um homem que retrata a si mesmo como o líder orgulhosamente muçulmano de um país democrático e próspero que se posicionou do lado da revolução e em defesa dos direitos dos palestinos.
     Um jornal turco, que apoiou Erdogan, chamou as visitas de “início de uma nova era na nossa região". Um colunista egípcio elogiou o que chamou de "qualidades de liderança" de Erdogan. Dias depois, o ministro turco das Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu, falou abertamente de um eixo entre Egito e Turquia, dois dos países mais populosos e militarmente poderosos da região, que sustentaria uma nova ordem segundo a qual Israel ficaria à margem até que fizesse as pazes com seus vizinhos.
     "O que está acontecendo no Oriente Médio é uma grande oportunidade, uma oportunidade de ouro", afirmou um oficial turco de alto escalão em Ancara. Ele chamou a Turquia de "o novo garoto do quarteirão".
     A viagem marcou uma mudança depois do que muitos tinham visto como uma série de contratempos para um país que, como a maioria do mundo, fracassou totalmente em prever as revoltas na região.
     Após tratar o mundo árabe com certo desdém por muito tempo – Israel e Turquia foram aliados estratégicos na década de 1990 – a Turquia passou anos cultivando laços com Muamar Kadafi, na Líbia, e Bashar Al-Assad, na Síria. Mais de 25 mil turcos trabalham na Líbia e a Síria era vista como a porta de entrada para as ambições da Turquia de integrar economicamente o Oriente Médio.
     Mesmo após o início das revoltas, a Turquia se opôs à intervenção da Otan na Líbia. Até o mês passado, o país tinha esperança de que Assad poderia supervisionar uma transição na Síria, apesar das evidências em contrário.
     Embora Erdogan tenha logo no início exigido que o presidente Hosni Mubarak deixasse o cargo no Egito – enquanto autoridades americanas tentavam encontrar formas para que ele cumprisse seu mandato – , tal posição implicava poucos riscos. Mubarak e Erdogan não gostavam um do outro e as autoridades egípcias se ressentiam do crescimento cada vez maior da Turquia.
     "A velha política entrou em colapso e uma nova é necessária para o Oriente Médio", disse Ersin Kalaycioglu, professor de ciência política na Universidade Sabanci, em Istambul.
     Em entrevista, o ministro das Relações Exteriores, Davutoglu, visto por muitos como o arquiteto do engajamento da Turquia com a região, explicou a nova política. Além de uma proposta de aliança com o Egito, ele disse que a Turquia iria se posicionar do lado das revoltas, especialmente na vizinha Síria, que representa o maior desafio para o país. Ele insistiu que a Turquia poderia ajudar a integrar a região em virtude de sua economia, com suas exportações tendo quase triplicado desde que o Partido de Justiça e Desenvolvimento de Erdogan assumiu o poder em 2002.
     Davutoglu disse que tal arranjo exigiria, eventualmente, pelo menos um certo grau de cooperação militar. "Deve haver uma propriedade regional", disse ele. "Não turca, não árabe e não iraniana, mas uma apropriação regional. A participação regional é importante para nós”.
     Essa visão é reconhecidamente ambiciosa e a afirmação precoce de Davutoglu sobre "problemas zero" com os vizinhos tem se deparado com a dura realidade da região. A Turquia enfrenta uma crescente crise sobre os direitos da exploração de gás no mar ao largo de Chipre, ainda dividida entre as regiões grega e turca e responsável por uma bagunça na política externa para a Turquia.
     As relações com Israel entraram em colapso depois que as tropas israelenses mataram nove pessoas a bordo de uma frota turca que tentou romper o bloqueio de Gaza no ano passado.
     O Irã, vizinho da Turquia e seu concorrente na região, se ressente da decisão turca de aderir à pressão dos Estados Unidos e hospedar uma estação de radar como parte de um sistema de defesa antimísseis da Otan.
     Os líderes sírios e turcos já não falam uns com os outros.
     Mas a sensação de ascensão do poder e influência turcos é tão acentuada no país atualmente que às vezes beira o ufanismo. Ela tocou no profundo nacionalismo dos religiosos do país que, talvez com uma pitada de romantismo, acreditam no retorno da Turquia ao mundo árabe que governou por mais de quatro séculos.
     "Não estamos aqui para recriar o Império Otomano", disse Suat Kiniklioglu, o vice-presidente de assuntos externos para o partido de Erdogan. "Mas estamos aqui para aproveitar ao máximo a influência que temos em uma região que está abraçando a nossa liderança."
     Mesmo aqueles que se irritam com o que veem como arrogância de Erdogan reconhecem que ele representa um fenômeno, tanto em casa quanto no exterior. Ele trouxe seu populismo para o mundo árabe, onde mostrou uma percepção intuitiva da ressonância que a questão palestina ainda atrai, em contraste com autoridades dos Estados Unidos que aparentemente ainda não entenderam ou valorizaram isso.
     Para uma região há muito agitada pela raiva direcionada a líderes aparentemente impotentes, submissos a exigências dos Estados Unidos e de Israel, Erdogan parece independente e forte.
     Cengiz Çandar, um colunista turco famoso no mundo árabe desde o início dos anos 1970, chamou isso de “intuição política quase-animal” de Erdogan.
     “Essa instituição diz a ele se está no caminho certo. Assim, a Turquia está consolidando a sua estatura como uma potência regional cada vez maior enquanto ele se torna um ator cada vez maior no cenário internacional”, afirmou.
     Há um debate na Turquia sobre os objetivos a longo prazo dessas ações. Ninguém duvida que as autoridades de seu partido – profundamente religiosas e com raízes no Islã político – simpatizam com movimentos islâmicos que pretendem entrar na política tradicional, como a Irmandade Muçulmana, no Egito e principalmente o Partido Nahda na Tunísia.
     Mas suas relações continuam boas com os Estados Unidos, mesmo que as autoridades americanas acusem Erdogan de excesso de confiança. Alguns oficiais turcos temem que a crise com Israel acabe prejudicando o relacionamento com Washington, enquanto outros acreditam que a Turquia quer ser um sócio minoritário dos Estados Unidos no Oriente Médio.
     Os desafios maiores parecem estar na própria Turquia. Embora o país tenha aberto novas embaixadas na África e na América Latina, sua equipe diplomática permanece pequena e o Ministério dos Negócios Estrangeiros está tentando contratar 100 novos funcionários por ano. Kiniklioglu estima que menos de 20 pessoas elaborem a política externa do país.
     A exuberância das autoridades turcas também corre o risco de ser alvo de reações. A antiga suspeita do mundo árabe em relação à Turquia desvaneceu, ajudada pelo poder de populares séries de televisão turcas e pelo apelo de Erdogan. No entanto, oficiais de alto escalão reconhecem o potencial para uma reação árabe em uma região muito alérgica a qualquer indício de intervenção estrangeira. Geralmente reflexivos, os islâmicos do Egito despertaram na semana passada após comentários de Erdogan sobre um Estado secular e alertaram contra a interferência em seus assuntos.
     E em todo o espectro na Turquia, que ainda luta com sua própria insurgência curda no sudeste, críticos e admiradores reconhecem que a visão de uma região liderada pelo país, que seja próspera e estável, permanece sendo uma promessa fugaz em meio a todo o tumulto.
    "A imagem é boa", disse Kalaycioglu. "Agora, se terá frutos ainda é uma incógnita. Até agora nada parece estar acontecendo além da criação de uma imagem."

Por Anthony Shadid


http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/turquia-quer-ser-resposta-para-questoes-do-oriente-medio/n1597248781385.html
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Apesar de antigo, esta abordagem da política externa turca me pareceu interessante para divulgação.



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