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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Economia Russa Precisa Mudar

     Embora haja atualmente muita especulação sobre o desempenho da economia mundial em 2012, uma coisa parece evidente: os países capitalistas desenvolvidos vão apresentar uma retração econômica ou crescimento lento enquanto as nações em desenvolvimento irão prosperar. De acordo com o recente relatório Prospectos Econômicos Globais do Banco Mundial, a zona do euro pode retrair até 0,3% enquanto os Estados Unidos irá, na melhor das hipóteses, ter um ganho de 2,2%. A economia mundial como um todo irá crescer até 2,5%, graças a uma expansão de 5,4% prevista nas economias dos países em desenvolvimento.
     Assim como ocorreu três anos atrás, o mundo será resgatado do colapso econômico pelo desenvolvimento em países emergentes, sobretudo pelo seu principal grupo, o Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Esse fenômeno irá comprovar a previsão do Fundo Monetário Internacional de que as economias emergentes como um todo irão, até 2013, gerar mais da metade da produção mundial, levando em consideração a paridade de poder aquisitivo (PPA). Essa histórica mudança global é a consequência de duas décadas de expansão econômica em quatro dos países-membros do Brics.
     Desde 1992, o PIB da China cresceu 5,3 vezes, o da Índia subiu até 3,5 vezes e o brasileiro, mais do que três vezes. Vale ressaltar que esse crescimento veio de mãos dadas com a diversificação estrutural das economias, renovação da base industrial e infraestrutura nesses países, bem como aumento do poder aquisitivo, serviços sociais e bem-estar social.
     Mas e a Rússia? Durante o mesmo intervalo de tempo, a Rússia sofreu uma degradação industrial e tecnológica que foi mais devastadora do que os prejuízos gerados pela Segunda Guerra Mundial. Como resultado, a Rússia atingiu seu nível de 1990 somente em 2007, embora o volume de produção industrial permaneça inferior ao da época soviética. Em termos de PIB, a Rússia é agora a sexta maior economia mundial, enquanto a China ocupa a segunda posição. Em contraste com a China e outros membros do grupo Brics, que cada vez mais aumentam sua produção industrial, os principais motores da economia russa continuam a ser o consumo interno e a exportação de matéria-prima. A maioria das empresas russas não está crescendo por falta de investimento fixo. O governo russo sonha em aumentar o investimento fixo para 25% do PIB, enquanto na China sua participação já é de 45% do PIB. O fluxo de saída de capital da Rússia (US$ 85 bilhões em 2011) é mais do que duas vezes maior do que investimento estrangeiro direto (cerca de US$ 36 bilhões). Mas nem mesmo um orçamento equilibrado, superávit em transações correntes e consideráveis reservas de moeda forte (US$ 398 bilhões no fim de 2011) garantem o ressurgimento tecnológico da Rússia e maior competitividade no cenário global.
     A economia pouco diversificada, viciada em importações de bens tecnológicos e até mesmo de alguns produtos agrícolas, torna a Rússia completamente dependente dos caprichos dos mercados mundiais de commodities. O país pode enfrentar uma crise este ano mesmo se os preços globais de petróleo forem abaixo de US$ 60 por barril. A repetição da séria retração do PIB russo ocorrida em 2009 (-7,8%), após uma forte queda do preço do petróleo, é bastante provável, e em setembro do ano passado, o Banco Mundial já projetou uma desaceleração do crescimento do PIB de 4% em 2011 para cerca de 2% neste ano.
     A Rússia possui outra vulnerabilidade, que é pouco mencionada. No auge da crise de 2009, o jornal de negócios “Vedemosti” observou que a crise deixou claro o fato da economia russa ser controlada não pelo governo, mas por alguns oligarcas que monopolizavam os setores rentáveis e influenciavam as políticas econômicas do Estado. A informação do veículo foi confirmada quando os passivos dos oligarcas foram socorridos pelo governo do primeiro-ministro, Vladímir Pútin, a um custo de mais de 3 trilhões de rublos extraídos do orçamento federal. Isso aconteceu numa época em que as empresas de pequeno e médio porte russas estavam extremamente necessitadas de fundos para sobreviver à crise e os problemas do país relacionados à ultrapassada infraestrutura estavam se tornando agudos.
      O jornal “Vedemosti” também revelou que os ativos das empresas desses oligarcas estão concentrados em companhias offshore e eles mantêm até seu capital de giro em bancos ocidentais para, assim, evitar os impostos praticados em casa. A economia interna não só perdeu esses enormes investimentos de capital, como os ativos multimilionários de empresas internas não estão mais sujeitos à jurisdição russa.
     Se o desenvolvimento econômico sustentável e suas importantes estratégias são os principais critérios para avaliar a posição global das nações emergentes, a Rússia, então, não pertence a tal grupo. Sua atual posição de patinho feio da economia entre os países do Brics é uma consequência direta da decisão tomada há duas décadas, quando a economia russa passou do socialismo com um aspecto feio ao capitalismo com uma aparência distorcida. Esta distorção impediu a construção de uma economia de mercado e de um sistema de bem-estar social baseado no modelo europeu.
     Essas estratégias neoliberais que a economia russa continua a seguir foram emprestadas pela equipe de reformadores norte-americanos do então presidente Boris Iéltsin. Atualmente, muitos economistas progressistas do Ocidente reconhecem os problemas dessa ideologia neoliberal e apontam para o fenomenal sucesso da China, cuja elite dominante adotou uma estratégia de desenvolvimento nacional que reúne planejamento estatal e políticas industriais com orientação de mercado e estímulo a empresas. Isso torna ainda mais evidente que a decisão da Rússia de proclamar a supremacia das forças de mercado no desenvolvimento econômico estavam completamente erradas.
     Os recentes protestos de rua que abalaram a Rússia não se referem apenas à fraude de votos nas eleições parlamentares. Eles também estão fundamentalmente relacionados ao fracasso do regime para garantir o desenvolvimento socioeconômico, minimizar a desigualdade de renda, coibir a corrupção e estimular o empreendedorismo. Na era da internet e de viagens baratas ao exterior, os russos observam que mesmo os países que antes eram atrasados vêm desenvolvendo estratégias eficientes de crescimento econômico e melhorias sociais. Os últimos debates entre os candidatos presidenciais da Rússia revelam que a mudança radical da estratégia econômica e social é um aspecto importante para discussão entre os membros da elite política. Porém, só depois do dia 4 de março que saberemos se reformas reais irão, de fato, fazer parte do futuro do país.

Felix Goriunov é jornalista econômico baseado em Moscou e há mais de 30 anos cobre temas relacionados a comércio e economia internacional.
FONTE: Gazeta Russa
http://gazetarussa.com.br/articles/2012/02/02/economia_russa_precisa_mudar_estrategia_14152.html
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