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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Brasil e o Rafale...o tedioso FX-2

O MMRCA é o maior programa de aquisição de meios aéreos em curso no mundo, envolvendo a aquisição de 126 aeronaves e podendo chegar até 200 aviões.
Em novembro de 2011 houve  a seleção das propostas mais atraentes a partir de uma short list que incluía os F-16 e MIG-35 além do Grippen NG, o F-18 e o Rafale - que afinal foi o vitorioso.
Iniciado em 2006, o MMRCA chegou à sua fase final com a Dassault  e o consórcio EADS (com o Typhoon) disputando o bilionário negócio.
As entregas serão de 18 caças em até 36 meses e os restantes produzidos na própria Índia pela Industan Aeronautics - em um pacote que inclui a transferência de tecnologia.
O programa passou, portanto, por 5 anos de negociações, análises, pareceres contrapropostas, etc.  Mas entre a finalização e a decisão final, foram apenas 2 meses num negócio que estimado em cerca de US$ 10 bilhões - pode chegar a 15 bilhões de dólares devido a aumentos de custos como a inflação.
E o FX-2?
Concentradas as decisões diretamente na Presidência da República, tanto o Ministério da Defesa como o da Aeronáutica permaneceram mudos diante das repercussões da notícia.
Comparativamente o chamado Programa FX se arrasta numa longuíssima, tediosa e ciclotímica novela que nunca se conclui.
Foi iniciado ainda no governo FHC (oito anos) com o então Programa FX, passou para o presidente Lula (mais oito anos) e rebatizado como FX-2 e cruzou o primeiro ano da presidenta Dilma Roussef sem maiores perspectivas de definição.
Alegam as fontes que o governo brasileiro aferrou-se aos custos operacionais do Rafale para justificar a protelação decisória.  Mesmo considerando que um país com recursos tão mal gastos e inúmeras outras prioridades de natureza não-militar, um programa de reaparelhamento que já dura quase duas décadas é, para dizer o mínimo, uma perda de tempo e esforço - desconsiderando-se a falta de política de Estado para um tema que afinal, pouco toca na própria população.
Verdade que ao contrário da Índia, que vê na ascensão da China uma ameaça real à sua integridade, o Brasil não tem em seu horizonte imediato uma ameaça sequer próxima daquela.  Daí a diluição do tema em termos de interesse da população e da própria imprensa.
Mesmo assim o próprio arrastar-se das negociações com a Dassault tinham um aliado importante no fato de que NENHUMA UNIDADE do Rafale havia sido vendida e que em tese, para viabilizar o negócio tanto a empresa como o governo de Paris poderiam chegar uma solução mais vantajosa para os brasileiros.
A conclusão do MMRCA parece apontar para uma sensível redução deste argumento, além de dar uma margem de manobra para os franceses que antes não havia.
No programa indiano o custo de cada aeronave ficará en torno de US$ 82 milhões por unidade, enquanto a venda de 36 caças para a FAB custaria US$ 110 milhões cada.  Mesmo considerando a assimetria entre os 36 negociados pelo Brasil e os 126 a serem adquiridos pela Índia, ressalve-se que estas 36 aeronaves seriam uma encomenda inicial, podendo chegar a 120 aparelhos e extendendo-se para a MB que usaria a versão naval para equipar o NAe São Paulo (ex-Foch).
Os números finais não seriam assim tão diferentes dos indianos.
Mas ao contrário do que se colocava como uma estratégia destinada a arrancar um preço menor pelo avião francês, a extensão do FX-2 (que já foi cogitado para ser cancelado e recomeçar todo o processo desde o início) para uma conclusão que nunca chega, parece ser, agora, um desperdício de tempo.
Dificilmente haverá uma redução de preços de aquisição e operação tão significativamente aceitável para justificar a demora.  Mas, por outro lado, isso pode apressar enfim uma decisão.
O Brasil deve definir de forma mais consistente QUANTOS caças pretende adquirir e construir mediante a transferência de tecnologia, para que se possa chegar a um valor pelo menos próximo ao obtido pelos indianos - se for essa a proposta vencedora.
A FAB já se pronunciou intramuros favoravelmente ao Grippen NG mas aceitaria certamente com poucos resmungos a adoção do Rafale.  A principal questão levantada pela Aeronáutica e que os custos mais elevados do Rafale comprometerão uma parcela expressiva de recursos futuros; no que o Grippen leva uma grande vantagem.
Porém o NG só existe nas pranchetas e o que oferece em termos de tecnologia desenvolvida conjuntamente, não anula a necessidade de uma aeronave que urgentemente substitua a decrépita aviação de caça do Brasil.
O Rafale já foi testado em combate (Líbia), o Brasil tem uma parceria estratégica com a França e não tem mais o argumento de ser uma aeronave muito boa "mas que ninguém compra exceto os franceses".
Chegou a hora de decidir.....
Ou levamos o melhor já construído dentre os que ainda estão na disputa (o Rafale) ou investimos no projeto futuro mais interessante em termos de aquisição de capacidades (Grippen NG).
E este assunto não interessa só ao Brasil.

Para cobrir "todo" o território nacional, só espalhando NGs (o que acontecerá certamente até por questões de segurança).  Já o Rafale alcança todo o território nacional:

E além disso cobre as áreas do pré-sal, o espaço aéreo de vários dos nossos vizinhos, acessos marítimos importantes e a liberdade de navegação até de grandes potências.
O acréscimo de poder de fogo e raio de ação da FAB certamente cria expectativas - não necessáriamente hostis - em relação ao Brasil e seus vizinhos, que podem se sentir "ameaçados".  Mas isso não é um argumento válido pois além de não termos uma tradição de guerras agressivas, não existem litígios de fronteira ou por recursos que criem tensões com os vizinhos.
Temos que lembrar que a maior parte do nosso comércio se faz por mar, existe uma imensa riqueza sob o oceano e uma fortuna investida em plataformas e campos de exploração petrolífera, e que tudo isso está insuficiente e indesculpavelmente desprotegido.  
Não existe de fato a necessidade de armar toda a FAB com Rafales pois inúmeras operações podem ser executadas com muitos menos custos por aeronaves menos sofisticadas.
Mas com toda a riqueza potencial do país, a mesma não pode ficar à mercê do improviso ou da falta de ameças imediatas.
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