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domingo, 25 de março de 2012

Contraponto - Ainda é tempo de deter o Irã


     A BOMBA E O BOMBARDEIO
Por Ari Shavit, correspondente do NYT e Haaretz.

     Se o Irã se tornar nuclear isso mudará nosso mundo. Uma bomba atômica iraniana forçará Arábia Saudita, Turquia e Egito a conseguir suas bombas nucleares. Dessa maneira, uma arena nuclear multipolar se estabelecerá na região mais volátil da Terra.
     Cedo ou tarde, esse desenvolvimento sem precedente produzirá um evento nuclear. O mundo que conhecemos deixará de ser o mundo que conhecemos após Teerã, Riad, Cairo ou Tel-Aviv se tornarem a Hiroshima do século 21.
     Uma bomba iraniana provocará uma proliferação nuclear universal. A maior conquista da humanidade de 1945 para cá foi controlar os armamentos nucleares limitando o número de membros do exclusivo clube atômico. Esse arranjo injusto criou uma ordem mundial que garantiu uma relativa paz mundial.
     Mas se o Irã se tornar nuclear e o Oriente Médio também o mesmo ocorrerá com o Terceiro Mundo. Se os aiatolás puderem ter o brinquedo mortal de Robert Oppenheimer, toda potência emergente na Ásia e na África terá o direito de tê-lo. A ordem mundial de 60 anos que garantiu a paz mundial ruirá.
     Uma bomba atômica iraniana dará uma influência avassaladora ao Islã radical. Uma vez nuclear, o ascendente poder xiita dominará o Iraque, o Golfo Pérsico e os preços internacionais do petróleo. Ele disseminará o terror, provocará guerras convencionais e desestabilizará nações árabes moderadas.
     Da mesma forma que as ogivas nucleares iranianas colocarão em risco Israel, elas colocarão em risco a Europa. Pela primeira vez, centenas de milhões de cidadãos de sociedades livres viverão sob a sombra do poderio militar de fanáticos religiosos. A união do fundamentalismo extremo com a arma extrema imbuirá o mundo em que vivemos de um viés infernal.
     Se Israel atacar o Irã isso mudará nosso mundo. Um ataque israelense a instalações nucleares do Irã criará a crise internacional mais dramática da era pós-Guerra Fria. Se o Estado judeu e a república xiita se atacarem, o Oriente Médio será abalado. Crescerão as tensões entre Rússia, China e Índia pró-Irã e Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Alemanha anti-Irã. À medida que os preços do petróleo subirem fortemente, os mercados financeiros entrarão em pânico e a economia mundial experimentará um verdadeiro retrocesso.
      Um ataque israelense a instalações nucleares iranianas desencadeará uma guerra regional cujas consequências poderiam ser catastróficas. O Irã contra-atacará com tudo que tem: Hezbollah, Hamas, mísseis, surpresas estratégicas. O Irã bloqueará o Estreito de Ormuz e convocará todos os muçulmanos a virem em sua ajuda. Embora a maioria dos regimes árabes seja secretamente favorável a uma operação israelense, as massas árabes poderão se erguer.
      Por todo o mundo, milhões de muçulmanos verão o ataque ao Irã como um ataque ao próprio orgulho e dignidade. A disputa religiosa provocada pela ação israelense poderá durar décadas.
      Um ataque israelense a instalações nucleares iranianas poderá arrastar os EUA para a guerra. Israel tem um poder aéreo limitado. As cidades israelenses estão ameaçadas por 200 mil foguetes. Se uma contraofensiva liderada pelo Irã colocar Tel-Aviv em chamas e matar milhares de civis israelenses, os EUA se sentirão obrigados a intervir. Em vez de iniciar um ataque cirúrgico americano bem planejado e internacionalmente respaldado ao projeto nuclear do Irã, os EUA ficarão reféns de uma guerra entre Israel e o Irã que poderá fugir do controle. Após sair do lamaçal iraquiano e quando tenta sair do deserto afegão, os EUA se verão atolados num conflito fortemente carregado e muito dispendioso com a República Islâmica.
     A questão internacional chave que o Ocidente vem enfrentando nos primeiros 12 anos do século 21 é o Irã. O desafio estratégico fundamental da última década foi como evitar duas ameaças: uma bomba (iraniana) e um bombardeio (israelense). Mas o Ocidente não conseguiu se colocar à altura do desafio em tempo.
     Durante anos, ele cometeu cada erro possível. Primeiro, o presidente George W. Bush concentrou-se no Iraque e não no Irã. Depois, o presidente Barack Obama gastou um tempo precioso numa diplomacia inútil. Grã-Bretanha e França fizeram o melhor que podiam, mas a União Europeia fez corpo mole na hora de tomar decisões cruciais. As sanções econômicas que deveriam ter sido ativadas dez anos atrás só foram ativadas no ano passado.
     As sanções paralisantes que deveriam ter sido impostas em 2005 ainda não o foram. O viés da diplomacia assertiva não foi seguido a sério quando teria sido eficaz. O viés da solução política criativa nunca foi realmente explorado. A liderança ocidental não endossou uma terceira via estratégica dura, consistente, abrangente e engenhosa que pudesse evitar bomba e bombardeio.
     Dentro de nove meses, os iranianos estarão imunes a um ataque aéreo israelense. Assim, o verão de 2012 (junho a setembro no Hemisfério Norte) está com ares de verão da última oportunidade. Se nos próximos meses não forem impostas sanções incapacitantes ao Irã e Israel não houver obtido garantias substanciais para a sua sobrevivência futura, tudo pode acontecer. As portas do inferno poderão se abrir. Se o Ocidente não agir em conjunto neste momento, ele poderá ter de enfrentar, em breve, as consequências terríveis de sua impotência. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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