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sábado, 24 de março de 2012

O Falso debate Sobre o Irã


É COLUNISTA, ESCRITOR, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES - O Estado de S.Paulo
Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic, tem sido talvez a voz mais vigorosa, influente e informada a transmitir a opinião de que o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, enxerga a liderança iraniana como um "culto messiânico apocalíptico" e pretende bombardear o Irã para deter seu programa nuclear.
     Numa matéria que ganhou a capa da Atlantic em setembro de 2010, ele previu que Israel atacaria o Irã com uma centena de aviões no primeiro semestre de 2011. Este mês, depois que Netanyahu se reuniu com o presidente Barack Obama, ele escreveu para a Bloomberg que as palavras de Obama - "Garanto a segurança de Israel" - significaram alguma coisa, mas não foram "suficientes para deter Netanyahu".
     Então ocorreu a virada. Goldberg escreveu outro artigo complementar para a Bloomberg dizendo que "Netanyahu poderia estar blefando". Tudo que o premiê israelense estava mobilizando eram "grandes saraivadas de palavras embebidas de dramaticidade que profetizavam uma catástrofe". As variações de Goldberg, vindas de um jornalista que entrevistou tanto Netanyahu quanto Obama a respeito do Irã, são dignas de nota.
     Nunca acreditei que, mesmo sem o apoio dos EUA, Netanyahu se arriscaria a atacar o Irã - cujo intermitente programa nuclear ainda está um pouco distante da capacidade de criar uma bomba, que dirá produzi-la. A análise da relação custo-benefício não justificaria tal rumo: não é preciso ser Meir Dagan, ex-chefão do Mossad, para perceber isso.
     Dar início a um conflito regional, enfurecer os EUA, isolar a república islâmica durante toda uma geração, e levar o Estado moderno de Israel a uma guerra contra a Pérsia pela primeira vez para conseguir como resultado um atraso de poucos anos no zigue-zague nuclear do enfraquecido Irã? Os israelenses não são mais loucos do que os iranianos.
     Por outro lado, parece evidente que, se um dia o Irã afastar-se de sua zona de conforto, expulsar os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que monitoram suas operações de enriquecimento de urânio, combinar os elementos de suas pesquisas nucleares e balísticas e acelerar a busca pela bomba, o país enfrentaria um ataque conjunto por parte de Israel e dos EUA. Nenhum dos dois pode permitir uma mudança tão decisiva na equação estratégica do Oriente Médio. Obama fala sério quando diz que a contenção de um Irã nuclear não é uma opção.
     Neste sentido, todo o debate envolvendo o Irã - com suas "linhas vermelhas" que avançam e recuam, suas cambiantes "zonas de imunidade", suas ameaças e contra ameaças, suas metáforas péssimas e símiles ainda piores - é falso. Sabemos aquilo que pode dar início a uma guerra e aquilo que não levará a esse resultado. Ao menos, deveríamos saber.
     Como os EUA aprenderam na última década, erros podem ocorrer sob a forma de escolhas irracionais impulsionadas pela política. Agora, depois do acúmulo de sanções ocidentais, e depois que os árabes fizeram mais do que o Ocidente para enfraquecer a república islâmica ao exigir que fé e democracia caminhem juntas, as negociações serão retomadas no dia 13 entre Irã, EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha, França e Alemanha. Já vimos antes este péssimo filme. Se não queremos uma reprise do seu final (ou falta de final), vale a pena a tentativa de pensar grande.
     Minha visão da psicologia iraniana, com base nas cinco semanas que passei no país em duas visitas ocorridas em 2009 e na atenta observação que mantive desde então, inclui estes elementos. O programa nuclear é o equivalente moderno da nacionalização da indústria do petróleo anunciada pelo primeiro-ministro Mohammed Mossadegh- uma afirmação do orgulho persa contra a tutela do Ocidente, afirmação cuja determinação e força de vontade dos iranianos não permitirão que termine numa humilhação como a queda de Mossadegh no golpe orquestrado por britânicos e americanos em 1953.
     Influência. Trata-se de uma jogada pela ampliação da influência regional, de um protesto contra o tratamento diferenciado (Israel, Paquistão e Índia têm armas nucleares), uma pedra de toque nacionalista para um cansado regime revolucionário e uma proteção calculada - o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, é o "guardião da revolução" e deve equilibrar afirmação e preservação, levando ao comportamento limítrofe que mantém o Irã a poucos passos do limiar que, segundo seus cálculos, daria início a uma guerra.
     É difícil passar por Teerã sem que alguém arregace uma manga da camisa, mostre uma cicatriz apavorante e diga "Estados Unidos". Os ferimentos foram causados pelos ataques com gás durante o conflito entre Irã e Iraque, no qual o Ocidente forneceu armas químicas a Saddam Hussein. A geração de jovens oficiais que combateram na guerra entre 1980 e 1988 está agora no comando no Irã.
     A guerra teve seu impacto sobre eles. Como observou John Limbert, um americano que foi mantido refém no Irã, o país enxerga os EUA como um país "beligerante, farisaico, imoral e sem Deus, materialista, calculista, intimidador, explorador, arrogante e dado a interferências". Os EUA, por sua vez, enxergam o Irã como um país "indigno de confiança, falso, fanático, violento e incompreensível".
     Este é o marco zero das negociações que estão prestes a começar. É o que temos depois de 30 anos de perigosa recusa em manter a comunicação.
     Haverá uma maneira de superar este impasse? Talvez não: Khamenei é um personagem brejneviano de ideias imutáveis, em cuja visão de mundo os EUA são o grande satã. Mas talvez haja uma saída, se concessões reais forem feitas por ambos os lados e a questão nuclear não for tratada isoladamente.
     A pergunta fundamental que o Ocidente precisa responder é como satisfazer o orgulho do Irã e afastá-lo dos ressentimentos históricos ao mesmo tempo em que se limita as atividades de enriquecimento nuclear do país a níveis baixos e rigorosamente inspecionados, distantes do necessário para a fabricação de armas (acho difícil uma solução que não permita certo nível de enriquecimento). A pergunta fundamental para a republica islâmica é se ela será capaz de se abrir para o Ocidente e preservar seu sistema, um risco que a China decidiu correr há 40 anos - saindo vitoriosa. Tudo o mais não passa de "grandes saraivadas de palavras". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
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