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sábado, 28 de abril de 2012

Os riscos de uma guerra contra o Irã



A arma de destruição em massa do Irã não é nem uma frota de motor de popa, nem a informática, muito menos uma bomba nuclear: é o preço do petróleo. E, para usá-la, Teerã não fecharia o Estreito de Ormuz. Se todas as sanções internacionais fossem aplicadas, faltaria cerca de 2 milhões de barris/dia de petróleo no mundo
por Gary Sick

É preferível um Irã sem armas nucleares a um que as possua. Até Teerã admite isso. Sempre signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP), o país aceita que suas principais instalações sejam inspecionadas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). E seus dirigentes, em primeiro lugar o aiatolá Khamenei, declaram regularmente que a posse, a fabricação ou a utilização de armas dessa natureza são contrárias ao Islã.
Desde a época do xá, o país apoia a ideia de um Oriente Médio livre de armas nucleares. James Clapper, diretor de Inteligência Nacional (DNI), que coordena todas as agências de segurança dos Estados Unidos, garante que a república islâmica não tomou a decisão de construir a bomba – decisão que, aliás, seria impossível dissimular.1 Porém, a história nuclear do país tem furos e inconsistências que não inspiram confiança, e a retórica inflamada de seus líderes contribui para as suspeitas.
Uma opinião bastante difundida é a de que somente a coerção poderia persuadir Teerã a mudar de rumo. Essa política foi desenvolvida a partir de meados da década de 1990, sob a administração de Bill Clinton. George W. Bush e Barack Obama seguiram o mesmo caminho.2 Os Estados europeus, de início relutantes, acabaram também se agregando a ela, a começar pela França e Reino Unido, que assumiram a liderança do movimento, preconizando sanções mais duras.
Antes da adoção dessa estratégia, o Irã tinha um programa nuclear dos mais rudimentares, sem uma única centrífuga de enriquecimento de urânio. Quase duas décadas depois, a AIEA informa que o país dispõe de um programa consistente, com cerca de 8 mil centrífugas operando em duas instalações principais, além de um estoque de cerca de 5 toneladas de urânio de baixo enriquecimento. O fracasso da coerção é evidente.
As sanções se transformam em guerra
Em vez de perceber isso, os Estados Unidos e seus aliados responderam com a intensificação das sanções, chegando a impedir o Irã de vender seus produtos petrolíferos, o que o priva de mais da metade de suas receitas. Tais medidas são muito semelhantes a um bloqueio militar dos portos de petróleo, ou seja, muito semelhantes a um ato de guerra. As sanções, que deveriam evitar uma guerra, gradualmente se transformam em guerra econômica. O boicote aos bancos e ao petróleo iraniano deveria estar em pleno funcionamento até a metade de 2012. Isso permite falar em conflito não declarado. Ninguém sabe como a república islâmica responderá, mas não podemos imaginar que seus dirigentes vão capitular nem que permanecerão de braços cruzados.
A escolha pela coerção baseia-se na crença de que ela não pode se virar contra quem a pratica. E é justamente essa a convicção que parece reinar entre os grupos que travam uma guerra clandestina contra o Irã por meio de assassinatos de cientistas e ataques cibernéticos – por exemplo, em 2010, com o worm Stuxnet, projetado para interferir no funcionamento de centrífugas.3 Drones norte-americanos sobrevoam o território iraniano. Fontes confiáveis revelam o apoio a movimentos separatistas na região do Baluquistão – onde israelenses se fazendo passar por agentes norte-americanos da Agência Central de Inteligência (CIA) teriam recrutado agentes – e na província de população árabe do Cuzistão, no Curdistão iraniano ou em áreas de população azerbaijana.4
Esses desenvolvimentos suscitam grande satisfação em Israel, nos Estados Unidos e em certas capitais europeias. A despeito das declarações de que o Irã é uma ameaça à paz e à estabilidade internacional, a política ocidental fundamenta-se na hipótese implícita de que Teerã não pode responder de maneira eficaz às ameaças financeiras e clandestinas contra sua segurança. Nenhuma das partes envolvidas toleraria tais ações em seu território. Qual poderia então ser a resposta da república islâmica?
O Irã não constitui grave perigo para ninguém, nem para seus vizinhos mais próximos. O orçamento militar do país é uma fração minúscula não apenas do orçamento dos Estados Unidos ou da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), mas até do conjunto das despesas dos membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG, que reúne Omã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein e Kuwait).5 O país está cercado por forças norte-americanas e pela Otan, incluindo bases e forças navais. Consciente de sua relativa fraqueza, até agora o Irã tem evitado confrontos militares diretos.
Em compensação, tem investido pesadamente numa estrutura de defesa robusta, embora relativamente barata, que tornaria qualquer potencial invasão bastante perigosa. Também aperfeiçoou técnicas de guerra assimétrica, como a guerrilha e o uso de barcos rápidos que poderiam confundir e até vencer navios de guerra. O país desenvolveu baterias de mísseis de cruzeiro, armas relativamente simples, mas potencialmente muito eficazes quando usadas em massa, mesmo contra um alvo grande.
Outro terreno no qual o Irã tem grande competência: o da guerra de informação, na qual todos, ou quase todos, têm sua chance. A repressão após a eleição presidencial contestada de junho de 2009 demonstrou a capacidade do governo de controlar o ciberespaço. Ao contrário dos Estados árabes que vivem protestos em massa desde o início de 2011, o Irã conseguiu desativar seletivamente frações da internet e impedir o uso de Facebook, Twitter e o envio de SMS, sem causar grandes danos a seu comércio. Também conseguiu penetrar as mídias sociais para identificar potenciais líderes da oposição e usar suas propostas e ações para processá-los na justiça. O país dispõe ainda de uma reserva de jovens e brilhantes engenheiros da computação, que compõem um ciberexército semiclandestino. Até o momento, essa força tem sido colocada principalmente a serviço da repressão, mas pode ser facilmente dirigida contra um inimigo externo.
A arma de destruição em massa do Irã, no entanto, não é nem uma frota de motor de popa, nem a informática, muito menos uma bomba nuclear inexistente: é o preço do petróleo. E, para usá-la, Teerã nem precisa fechar o Estreito de Ormuz. Se todas as sanções internacionais fossem aplicadas, faltariam cerca de 2 milhões de barris/dia de petróleo no mundo. A Arábia Saudita indicou que pode aumentar sua produção, e a retomada da produção da Líbia também poderia ajudar a compensar a escassez. Além disso, os Estados Unidos e outros países, especialmente europeus, poderiam usar suas reservas estratégicas.
Mas a Europa teria de encontrar, por conta própria, um modo de substituir os cerca de 600 mil barris diários que importa do Irã. Essa demanda parte principalmente de suas três economias mais vulneráveis – Grécia, Itália e Espanha –, cujas importações atualmente se baseiam em acordos de troca e contratos relativamente vantajosos a longo prazo, para os quais será difícil encontrar equivalente em termos de preço e qualidade. Novos contratos precisariam ser negociados, outros circuitos de fornecedores acionados, e refinarias redimensionadas.
Essa transformação pode ser feita suavemente, sem aumento significativo do preço do petróleo? Em janeiro de 2012, quando Irã e Estados Unidos trocaram ameaças sobre o Estreito de Ormuz, o preço do barril aumentou mais de 6% e se estabilizou nesse patamar, sem que a menor troca de tiros tenha ocorrido. Mas qualquer aumento tem repercussões globais não apenas no preço – politicamente sensível – da gasolina, mas em quase tudo que é fabricado e transportado.
Imaginemos, em quatro meses, o seguinte cenário: enquanto o mundo luta para substituir o petróleo iraniano, e o Irã enfrenta cada vez mais dificuldades para manter sua receita, o mercado tem uma tendência de alta. Nesse momento, oleodutos ou instalações de carregamento no sul do Iraque são atingidos por explosões inexplicadas, cujo resultado é retirar do mercado 1 milhão de barris/dia. Ao mesmo tempo, panes misteriosas afetam refinarias sauditas e kuwaitianas, e as operações de carregamento nos Emirados Árabes Unidos são atrasadas em razão de dificuldades técnicas imprevistas, resultado de controles computacionais ou talvez de sabotagem orquestrada por Teerã. É impossível prever a que nível subiria então o preço do barril, e por quanto tempo...
Qual é o objetivo?
Esse cenário mostra que as sanções máximas não afetariam apenas o Irã: elas poderiam ter graves consequências em escala internacional. Assumir tais riscos certamente vale a pena quando se persegue um objetivo político bem definido e realista. Se a questão é fazer Teerã capitular e eliminar seu programa de enriquecimento nuclear, qualquer um que conheça um pouco o país é capaz de afirmar que isso é um sonho. Aliás, nesse ponto, pouco importa quem está no governo.
Se o objetivo fosse trazer de volta a república islâmica à mesa de negociação, o Irã já declarou, há mais de um ano, que deseja um diálogo sem condições prévias, ou seja, sem ter de aceitar uma cessação completa de seu programa de enriquecimento de urânio, como exigem as resoluções do Conselho de Segurança da ONU – ainda mais quando o TNP permite o enriquecimento. Mas é exatamente isso que pede a alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Catherine Ashton, em carta do dia 21 de outubro de 2011, que convida o país a retomar as conversações.6 Aí está uma falha fundamental da estratégia ocidental, que torna a situação perigosa.
Por fim, se o objetivo é punir o Irã na esperança de provocar uma guerra, então há realmente chances de sucesso. Mas isso não elimina a ameaça nuclear – pelo contrário. Assim se fortalece um governo extremista em sua postura de desafio e rejeição da “comunidade internacional”, em sua determinação de dominar um ciclo completo do combustível nuclear e, finalmente, em acelerar a construção da bomba.
Gary Sick
Ex-conselheiro do presidente Jimmy Carter e autor de October surprise: America's hostages in Iran and the election of Ronald Reagan {Surpresa de outubro: reféns norte-americanos no Irã e a eleiçaõ de Ronald Reagan}, IB Tauris & Co, Londres, 1991

1 Meredith Buel, “US: Iran keeping open option to develop nuclear weapons” [EUA: Irã mantém aberta opção de desenvolver armas nucleares], Voice of America, 2 fev. 2010.
2 Ler “Tempête sur l’Iran” [Tempestade no Irã], Manière de Voir, n.93, jun./jul. 2007.
3 Ler Philippe Rivière, “Cyberattaque contre Téhéran” [Ciberataque contra Teerã], Le Monde Diplomatique, mar. 2011.
4 Alain Gresh, “Quand Israël attaquera-t-il l’Iran? Il y a deux ans…” [Quando Israel atacará o Irã? Há dois anos...], blog Nouvelles d’Orient, 17 jan. 2012.
5 O orçamento militar da Arábia Saudita é de US$ 45 bilhões; o do Kuwait, de US$ 4,6 bilhões; e o do Irã está estimado em US$ 9 bilhões.
6 Peter Jenkins, “The latest offer to Iran of nuclear talks: don’t hold your breath” [A última oferta ao Irã sobre a questão nuclear: não prenda a respiração], 30 jan. 2012. Disponível em: www.lobelog.com
Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1122
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