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segunda-feira, 2 de abril de 2012

'Tática de Cristina Leva País a Beco sem Saída' diz cientista político



Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires
BUENOS AIRES - "A estratégia do governo da presidente Cristina Kirchner para reaver as Ilhas Malvinas aprofunda o ressentimento dos ilhéus com a Argentina. Sua posição é cada vez mais rígida e desprovida de alternativas. É um beco sem saída". A frase é de Vicente Palermo, sociólogo e cientista político, pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet), membro da Associação Brasileira de Ciência Política e autor de "Sal nas Feridas", obra que analisa o simbolismo das Malvinas na sociedade argentina. A seguir, entrevista concedida ao Estado por Palermo, que integra um recém-criado grupo de 17 intelectuais de prestígio que pedem uma revisão da política da presidente Cristina sobre o disputado arquipélago.
Estado: Nas escolas, desde a primária, semanalmente as crianças aprendem que 'as Malvinas são argentinas'. Qual é o peso simbólico das ilhas hoje no imaginário coletivo argentino?
     Vicente Palermo: Antes de 1982, a coisa era muito mais "light", pois não havia ocorrido a guerra. Mas a derrota no conflito do Atlântico Sul deixou uma marca dura no ego. E isso provocou a ideia de uma perda, que talvez seja definitiva. Acho que o argentino médio atual não destina muita atenção ao tema, felizmente, apesar das convicções nacionalistas do governo. Mas muitos argentinos consideram que os direitos de nosso país sobre as Ilhas Malvinas são inquestionáveis e a presença britânica no arquipélago é colonialismo.

Estado: Diversos historiadores afirmam que a junta militar, em caso de sucesso nas Malvinas, tinha planos para uma guerra com o Chile....
     Vicente Palermo: Sim, com certeza, o próximo alvo teria sido o Chile. Vários setores muito importantes pensavam que nossa capacidade militar era elevada...

Estado: Quais as chances de a Argentina recuperar as ilhas?
     Vicente Palermo: Considero que fica cada vez mais complicada uma eventual recuperação das ilhas. A estratégia atual de pressão não favorece. Se o governo pretende recuperar as ilhas desse jeito, está perdido. Os kelpers se aferrarão mais ainda aos britânicos. E estes, por seu lado, também afirmam-se mais em sua posição de não entregar as ilhas e seus habitantes. Mas se o governo não puder conseguir as Malvinas, a segunda opção é a de definir os britânicos como os inimigos permanentes.
  
Estado: O respaldo dos países latino-americanos nos esforços do governo argentino para reaver as ilhas possui um efeito prático?
     Vicente Palermo: Não terá efeito prático na negociação com a Grã-Bretanha. Acontece que a faixa de negociação de Buenos Aires com Londres é muito estreita. Ou melhor: a Argentina simplesmente não coloca nada na mesa de negociações e somente diz que quer a soberania plena das Ilhas Malvinas. E, por isso, Londres não vai ceder. Além disso, essas pressões sobre a Grã-Bretanha complicam as relações dos outros países sul-americanos com o governo de Londres. E a ideia de uma “soberania compartilhada” parece inverossímil.

Estado: O governo Kirchner argumenta que os ilhéus não contam nestas negociações porque são uma comunidade "transplantada".
      Vicente Palermo: Existem dois artifícios entre os preferidos da ortodoxia argentina quando o assunto são os ilhéus. O primeiro é um jogo de números que pergunta qual a relevância de 3 mil pessoas diante de 40 milhões (população da Argentina). Mas acho que mais importante do que isso é que os ilhéus possuem identidade.
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