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sábado, 26 de maio de 2012

Egito vai às urnas para escolher presidente e pôr fim à era militar


Cinquenta milhões de egípcios estão habilitados para votar nesta quarta (23) e quinta-feira (24). Há dois candidatos favoritos entre os 13 candidatos: Amr Moussa, ex-líder da Liga Árabe, e o islamista moderado Abdel-Mon'em Aboul Fotouh. Se junta militar realmente deixar o poder, Irmandade Muçulmana pode iniciar a sua era hegemônica. Movimento 6 de Abril, criado na internet e que ganhou a Praça Tahrir, enfrenta o desafio de se reinventar.
Caio Sarack
     São Paulo – Com eleições marcadas para esta quarta (23) e quinta-feira (24), o Egito tenta pôr um ponto final ao período de instabilidade da era pós-Hosni Mubarak. A junta militar que governa o país anunciou que suas forças trabalharão para garantir eleições limpas aos 50 milhões de eleitores habilitados a votar.
     Concorrerão, nesta que pode ser a primeira eleição presidencial democrática egípcia, 13 candidatos. Dois são favoritos - Amr Moussa, ex-líder da Liga Árabe, e o islamista moderado Abdel-Mon'em Aboul Fotouh.
    Mas há dúvidas sobre o sucesso das eleições. Questiona-se a transparência do processo eleitoral e até se junta militar deixará o poder quando um dos candidatos for proclamado vencedor. O professor de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Vladimir Safatle visitou o Egito no início do ano e recorda-se que a Irmandade Mulçumana, um dos movimentos sociais e políticos mais fortes do país, tentou fechar um acordo com os militares para as eleições.
     “O acordo seria ao modo turco, com um partido islâmico moderado no poder e os militares como moderadores. Mas isso não deu certo”, disse ele à Carta Maior.
     Esse cenário de incerteza política ajudou a pôr foco em outro grupo social egípcio importante, o Movimento 6 de Abril. Formado por jovens que se envolveram nos protestos da Praça Tahrir, o “6 de Abril” se caracteriza pela diversidade “de contextos, idades e tendências”, como seus próprios militantes o descrevem em sua página na internet. Está reunido desde 2008 e age em apoio aos trabalhadores e suas greves.
     Por sua característica difusa e horizontal, é pouco provável que o movimento tenha uma influência decisiva em prol de um único candidato. Como explica Safatle, é a flexibilidade ideológica que permite ao grupo crescer. Entretanto, o 6 de Abril já possui força para atuar sobre seus dois grandes alvos: a queda do governo militar e a superação do déficit democrático do país.
     Ainda que ao menos o primeiro objetivo possa estar próximo, o pesquisador brasileiro Aldo Cordeiro Sauda, que vive no Egito, alerta que o futuro ainda é incerto, justamente pela falta de coesão política dos jovens egípcios. Isso abriria espaço para que militares e grupos muçulmanos dividissem as rédeas do país.
     “A organização política na sociedade egípcia ainda é frágil, as movimentações de protesto ainda são germinais no que diz respeito à mobilização e cultura política. O processo das movimentações por si vai demandar proposições alternativas, mas sem organização, sem clareza político-ideológica, é mais complicado. Outros hábitos, como machismo e a religião, por exemplo, vão se apropriando destas demandas”, adverte Sauda à Carta Maior.
     O risco, nesse caso, será a apropriação das conquistas de mobilização pelo grupo que é mais organizado, ou seja a Irmandade Mulçumana. “Do ponto de vista político seria uma catástrofe, porque ficariam no poder por 20, 30 anos”, concorda Safatle.
     Um desfecho desse tipo tornaria ainda mais difícil a transformação do Egito em termos de cultura democrática. “É uma sociedade em que se for cristão você não pode ser governador do Estado, nem reitor de uma universidade. Onde pelo menos 70% das mulheres têm que usar o véu”, diz o professor da USP.
Fonte: Carta Maior  http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20195
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