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domingo, 6 de maio de 2012

Nacionalização na Bolívia e Argentina dá espaço para Brasil, dizem analistas


04/05/2012 22h03 - Atualizado em 04/05/2012 22h03
Simone Cunha
Expropriações são arma de governos em crise contra alvo fraco, afirmam.
Investir na Bolívia é mais seguro que na Argentina, segundo especialistas.

     A nacionalização de empresas espanholas do setor de energia da Bolívia e da Argentinacom uma semana de intervalo deve abrir caminho para os investimentos brasileiros, dizem especialistas. "Todos estão de olho. Vai precisar de equipamento, sonda, navio", diz o cientista político Luciano Dias, autor do livro "A Questão do Petróleo no Brasil".
     Para o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da Universidade do Rio de Janeiro (GESEL-UFRJ), Nivalde J. de Castro, a Bolívia é um investimento mais seguro que a argentina. "Investir na Argentina, eu acho melhor na Bolívia. Na Argentina não há política tarifária clara, então é difícil atrair investidores estrangeiros."
     A presidente argentina, Cristina Kirchner, anunciou em 16 de abril que enviaria um projeto ao Congresso para nacionalizar a YPF, controlada pela espanhola Repsol. Nesta sexta-feira (4) a presidente promulgou a lei. A Bolívia assinou no dia 1º de maio o decreto de nacionalização da também espanhola Rede Elétrica da Espanha (REE). Os dois governos alegaram baixos investimentos das empresas.
     Além dos ganhos financeiros diretos, em termos de investimentos, o Brasil ganha em imagem, acredita Dias."Quanto mais besteira eles fazem, mais sério o governo brasileiro parece, mais parecemos responsáveis e com empresas organizadas. Temos exemplos como Eike Batista, uma empresa privada emergindo, o que afasta o país do figurino latino americano."
     Para Castro, os projetos binacionais que o Brasil tem com os dois países - como Garabi, no Rio Uruguai com a Argentina, e Guajará-Mirim, no Rio Madeira com a Bolívia - mostram que há boas oportunidades para empresas brasileiras como a Eletrobras. No entanto, ele diz ser preciso cuidado com a legislação dos países, que tem de trazer segurança jurídica às empresas que querem investir. "A possibilidade de investimento do Brasil na Bolívia tendem a ser ampliar, a única barreira é a insegurança jurídica como vimos com a OAS (empresa que teve contrato de construção de uma estrada anulado pelo governo)."
     A insegurança é o que ele aponta como diferença entre as intervenções argentina e boliviana. No primeiro caso, ele vê a nacionalização como uma forma de resolver problemas cambiais ou políticos. Já na Bolívia ele percebe uma atitude contínua, explicada pela crise de oferta no setor elétrico do país. Segundo ele, desde 2006 o governo sinaliza vem tomando medidas para fortalecer a Rede Elétrica, a "Eletrobras boliviana" e nacionalizou outras empresas.
Decisões políticas
     Em comum entre as duas decisões, os especialistas veem a decisão dos governos de terem uma posição mais proativa em relação à política energética e os problemas políticos enfrentados internamente. "A ação mais proativa se faz por meio da nacionalização de ativos do setor de energia", diz Castro.
     A Argentina enfrenta acusações de controle da imprensa, manipulação da inflação e a presidente busca gestos que aumentem o apoio ao governo, avaliam. Evo Morales, na Bolívia, também vem tendo declínio de aprovação. "Por terem bases políticas muito pouco sólidas, eles precisam andar permanentemente em busca de apoio, o que conseguem dessa forma por haver certa tolerância com os movimentos nacionalistas", diz Dias.
Alvo fraco
     A fato de duas empresas espanholas, a YPF e Red Elétrica, estarem na mira das privatizações não é coincidência, tem raízes na crise econômica que abala a Europa e no governo de direta que comanda o país, avalia Dias. "Eles aproveitam a fraqueza da Espanha, que hoje não pode buscar apoio. O oponente está fraco. Coitada da Espanha, com um desemprego de 20%, tem de fazer pactos fiscais, não tem condições internacionais de reagir a isso. É o momento ideal."
     Diante da alegada falta de investimentos por parte da Repsol e das notícias de que a empresa buscava financiamento chinês para realizar os aportes, a Argentina pode ter se inspirado a fazer o mesmo, acredita o cientista político. "Como a Repsol estava buscando dinheiro no exterior, a Argentina pode ter pensado que ganhava mais se fizesse ela mesma isso. Nem Bolívia nem Argentina certamente têm o dinheiro para investir como imaginam e terão de voltar ao mercado externo, mas o que importa é fazer com que essas empresas funcionem como deveriam e a dúvida é se os governos vão conseguir fazer isso."
     Alegação de que há falta de investimento é a mesma de sempre, diz Dias."Há 80 anos os países da América Latina alegam que as estrangeiras não fizeram os investimentos. Depois os acadêmicos vão pegar os dados e mostrar que há regulação sobre remessas de lucro, preços, não há mercado livre. Investimentos são feitos em função do retorno."
Fonte:  G1
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