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sábado, 19 de maio de 2012

Poder americano e pragmatismo

Autor(es): Martin Wolf
Valor Econômico - 16/05/2012
   Qual será o papel dos Estados Unidos no século XXI? Essa é a questão que aceitei, imprudentemente, discutir na semana passada no Carnegie Council em Nova York. Na análise, também levei em conta um assunto bastante relacionado, que também mexe com os americanos: Será que o futuro dos EUA está em suas próprias mãos? A resposta é: sim, mas apenas até certo ponto. Os EUA podem controlar o que fazem, mas não podem controlar o que os outros fazem.
    O domínio histórico dos EUA é fruto de seus atributos excepcionais. O país é uma potência continental cercada por oceanos a leste e oeste e por vizinhos amigáveis ao norte e sul. Possui imensos recursos naturais, embora declinantes. Tem a maior economia do mundo e a maior produção per capita desde o fim do século XIX. Sua economia, orientada pelos mercados, é a mais inovadora do mundo desde, pelo menos, a mesma época.
     Os EUA são lar dos mercados financeiros mais influentes do mundo, embora tenham sido os mesmos que desencadearam a Grande Depressão e, nos últimos anos, a Grande Recessão. São emissores da principal moeda de reserva cambial desde a primeira Guerra Mundial. São um dos maiores mercados de importações do mundo, superados apenas pelas importações externas da União Europeia (UE).
       Não importa o que ocorra nos Estados Unidos, sua influência será menor no século XXI do que foi no XX. Ainda assim, podem manter uma influência imensa, possivelmente inigualável, uma vez que seus principais rivais enfrentam desafios ainda maiores.
    Os EUA possuem as Forças Armadas mais fortes e avançadas do mundo. Desde a Segunda Guerra Mundial o país é sede de mais universidades e institutos de pesquisa importantes do que qualquer outro. Tem a cultura popular mais influente do mundo. Seus valores políticos ainda estão arraigados à imaginação mundial, mesmo que, na prática, tenham deixado a desejar. Seu sistema democrático mostrou-se suficientemente legítimo e flexível para lidar com os vários desafios que a história lhe jogou pela frente.
     De posse de todos esses atributos, o país conseguiu formar alianças fortes e vencer suas guerras no século XX, tanto a quente como a fria. Modelou a economia aberta internacional que nasceu após a Segunda Guerra Mundial e tornou-se global depois do colapso do império soviético. Apresentou o modelo de modernidade mais influente do mundo. Goste-se ou não, vivemos, todos, no mundo que os EUA fizeram.
      Quantos desses atributos os EUA vão manter neste século?
     A ameaça mais óbvia é a que se apresenta contra sua posição de maior economia do mundo. Pelas taxas de câmbio de mercado, sua economia ainda tem aproximadamente o dobro de tamanho em comparação à chinesa. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), no entanto, pela paridade do poder de compra (PPC), é apenas 30% maior. Como o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, pelo PPC, da China ainda é de apenas 20% do verificado nos EUA, ainda há grande distância a ser percorrida pelos chineses. O crescimento da China deverá desacelerar-se nas próximas décadas, mas convergirá ainda mais para os níveis de produtividade dos EUA. A probabilidade é de que a China tenha uma economia maior do que a dos EUA no início dos anos 2020. A China, ao contrário, por exemplo, do Japão, tem os números a seu lado. Se seu PIB per capita chegasse à metade do observado nos EUA, seria tão grande quanto as economias dos EUA e UE somadas.
     As exportações brutas de bens da China já superaram as dos EUA. Em breve, o mesmo ocorrerá com suas importações. Sendo um país relativamente pobre em recursos, a China deverá continuar uma maior comerciante externa em relação ao PIB do que os EUA. Uma questão mais controversa é como o yuan vai rivalizar com o dólar como moeda de reservas internacionais. A ascensão do comércio exterior chinês indica que a resposta seria: em breve. Eu poderia argumentar que o Estado de partido único da China, não estando sujeito ao Estado de direito e com o receio de perder o controle, não teria condições de abrir os mercados de capitais no grau que os estrangeiros desejariam caso fossem manter seus ativos mais seguros investidos em yuans. Essa mudança deverá levar décadas, não anos.
     Em princípio, os EUA também poderiam manter sua posição de liderança em inovações comerciais e científicas. Como meu colega Edward Luce mostra em seu novo e intelectualmente instigante livro, no entanto, a combinação de xenofobia com hostilidade à ciência, restrições fiscais autoimpostas e prioridades peculiares de gastos ameaça roubar dos EUA seu acesso aos maiores talentos do mundo e seu compromisso de liderança mundial em inovação e pesquisa *. Nada captura melhora essa ideia do que esta declaração implacável: "Em 1990, [a Califórnia] gastava em suas universidades o dobro que em suas prisões. Agora, gasta quase o dobro em suas prisões." O fato de os EUA terem o maior índice de encarceramento do mundo não é só uma estatística social; também é econômica. O mesmo vale para o alto custo e a ineficiência do sistema de assistência médica, que é o principal motivo para as perspectivas fiscais de longo prazo do país parecerem tão sombrias.
O que se precisa são de reformas sérias. Isso, entretanto, tornou-se impossível, em função do papel cada vez maior do dinheiro na política e da crescente intransigência do Partido Republicano. Em um sistema construído sob um governo dividido, considerar as concessões como uma fraqueza ameaça trazer o caos repetidas vezes.
     A economia dos EUA não vem trazendo mais benefícios que sejam compartilhados amplamente pela população, como outrora. Em seu último ciclo econômico completo, entre 2002 e 2007, cerca de 65% do aumento de renda foi absorvido pela faixa dos 1% mais ricos, sendo que quase 35% ficou com a parcela dos 0,1% mais ricos. Uma economia de soma zero desse tipo gera desespero e insatisfação. A crise agravou muito mais essa irritação.
      Tudo isso também afetará a capacidade de os EUA desempenharem seu papel histórico no mundo. O aperto fiscal que se aproxima vai corroer os gastos militares. Ainda mais importante, a crise financeira e outros grandes erros roubaram dos modelos sociais, econômicos e políticos dos EUA o prestígio do qual gozavam. A Europa não está em melhor situação, mas isso apenas significa que o Ocidente como um todo está menos confiável e, por enquanto, menos capaz para atuar como líder.
      Não importa o que ocorrer dentro dos EUA, sua influência será menor no século XXI do que foi no XX. Isso, em grande parte, porque os demais aprenderam muito com o país. Ainda assim, os EUA podem manter uma influência imensa, possivelmente inigualável, uma vez que seus principais rivais enfrentam desafios ainda maiores. Para que os EUA, no entanto, sejam de fato o que podem ser, precisam redescobrir o pragmatismo que por tanto tempo marcou sua elaboração de políticas. Nenhuma democracia pode prosperar se seus cidadãos veem o próprio governo como o maior inimigo. Se os americanos optarem por fazer seu governo fracassar, o mesmo acontecerá com os EUA.
* "Time to Start Thinking" (hora de começar a pensar, em inglês), Atlantic Monthly Press, 2012." (Tradução de Sabino Ahumada)
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.
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