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domingo, 17 de junho de 2012

Deem a Obama uma chance na questão do Irã


O Estado de S.Paulo
WASHINGTON - A última rodada de negociações com o Irã sobre a questão nuclear terminou num impasse e as perspectivas não são nada animadoras quanto a um eventual avanço na reunião da próxima semana em Moscou.

Neste momento, dois fatores fundamentais determinam a estratégia de negociação de Washington. O primeiro é o obstrucionismo do Congresso e o limitado espaço de manobra do presidente Barack Obama num ano eleitoral. O segundo são as expectativas exageradas sobre o resultado que as atuais sanções contra o Irã possam alcançar. Ambos terão de ser abandonados para que as conversações tenham sucesso.
Obama necessita de um constante esforço diplomático para acalmar os mercados petrolíferos em razão das próximas eleições. Entretanto, justamente por isso, ele não tem muita possibilidade de oferecer aos iranianos algum alívio em matéria de sanções em troca de concessões no programa nuclear.
O Congresso americano tenta por todos os meios impossibilitar um acordo impondo limites inviáveis, estabelecendo objetivos inatingíveis - e privando o Executivo da liberdade de barganhar.
Pouco antes das conversações que se realizaram em Bagdá, no mês passado, o Congresso aprovou uma resolução que endossava a condição estabelecida pelo primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, sobre a questão nuclear (o Irã não deverá ter capacidade para enriquecer urânio), em contraposição à condição preferida pelo Pentágono e pelo presidente (o Irã não pode ter uma arma nuclear). O problema é que o limite estabelecido por Netanyahu não é viável e não deixa nenhuma margem para negociar.
Então, em 2010, mais uma vez a política nacional e as atividades do Congresso acabaram fazendo com que o governo Obama rejeitasse um avanço nessa área intermediado por Brasil e Turquia, pelo qual o estoque de urânio do Irã deveria ser reduzido pela metade e o país não teria a possibilidade de enriquecer o urânio a níveis elevados.
Em Bagdá, o Congresso conseguiu retirar dos negociadores americanos o poder de oferecer concessões ao Irã. Os iranianos estavam concentrados no que pudessem conseguir, Obama teve de se concentrar no que não poderia dar.
Em nome da paz, é preciso que o Congresso abandone o obstrucionismo. As sanções contra o Irã devem ser utilizadas para promover as negociações e obter concessões nucleares concretas, verificáveis e importantes dos iranianos na questão nuclear.
Embargo. O segundo problema com que se defronta a estratégia de Obama é uma exagerada confiança nos resultados concretos que as sanções possam de fato apresentar. Aparentemente, alguns membros do governo americano acham que o embargo do petróleo iraniano poderá derrubar o regime dos mulás. Convencido de que esses resultados estão próximos, o governo de Washington parece hipnotizado por suas sanções e parece duvidar da utilidade de usá-las como moeda de troca. Consequentemente, há uma crescente resistência a retirá-las, quaisquer que sejam as concessões que Teerã possa oferecer. Seria um grave erro.
Já vimos essa armadilha antes. Sempre que uma das partes acredita ser a dona do jogo, o desejo de cumprir o compromisso diminui, e o desejo de colocar em xeque o outro lado aumenta. Mas se não negociamos quando estamos fracos (porque somos fracos) e não negociamos quando estamos fortes (porque não precisamos), então quando é que vamos negociar?
Além disso, o histórico dos embargos não corrobora a ideia de que essa pressão possa depor a autoridade clerical em Teerã e conduzir à democracia.
Dos 35 países que realizaram a transição do autoritarismo para a democracia desde 1955, apenas um o fez sob a pressão de um embargo: a África do Sul. Vinte países sofreram sanções limitadas, e os 14 restantes encontraram o caminho da democracia sem nenhuma sanção.
Dos dez estados que sofreram embargos, apenas um se democratizou e desistiu de seu programa nuclear: a África do Sul. Os outros se tornaram mais antidemocráticos, reacionários e muitas vezes mais perigosos. É a direção oposta à que desejamos para o Irã.
Se o Irã concordar em Moscou em aceitar a exigência americana de parar com o enriquecimento de urânio no nível de 20%, isso efetivamente obstruirá qualquer atalho que os iranianos possam usar para chegar à bomba. O Congresso precisa conceder a Obama o espaço político para obter um "sim" como resposta.
O Congresso dos Estados Unidos precisa se decidir. Ele quer impedir que o Irã construa uma bomba nuclear ou quer continuar com as sanções? Se continuar assim, não terá nem uma coisa nem outra. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
Fonte: O Estado de São Paulo  http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,deem-a-obama-uma-chance-na-questao-do-ira-,886579,0.htm

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