Pesquisar este blog

sábado, 11 de agosto de 2012

Coreia do Norte dá sinais de “perestroika”


     Primeiro, os meios de comunicação de massa da Coreia do Norte deixaram os observadores internacionais intrigados com fotografias de Kim Jong-un em companhia de uma mulher atraente. Depois, a televisão estatal confirmou as suposições – aquela era Ri Sol-ju, esposa do líder norte-coreano.
     A mudança no estilo político despertou agitação. Afinal, aparições públicas das primeiras-damas, como na URSS e na República Popular da China, são absolutamente incomuns na Coreia do Norte. O jovem Kim quebrou a tradição, como fez o reformador soviético Mikhail Gorbatchov no passado.
     Kim Jong-un e a esposa vistoriaram as obras de um parque de diversões em Pyongyang, onde há um circuito de minigolfe, uma piscina e um aquário com golfinhos. Os construtores militares cumprimentaram o casal aos gritos de “hurra!” e ofereceram um buquê de flores ao líder norte-coreano, segundo informações da agência de notícias estatal KCNA.
     Para países de regimes fechados, como o da Coreia do Norte, isso é mais um sinal de grande abertura e de abrandamento da imagem do líder inacessível.
     No início de julho, um espetáculo com atores vestidos de Mickey Mouse, ursinho Pooh, Branca de Neve e outros heróis famosos, foi exibido no canal de televisão estatal. A apresentação foi feita pelo grupo Moranbong, formado por ordem pessoal do líder norte-coreano alguns meses atrás.
     No vídeo, os personagens dançavam enquanto, ao fundo, eram mostradas cenas de alguns desenhos animados populares, como “Dumbo” e “A Bela e a Fera”. Seria o mesmo que mostrar, na Broadway, a ópera revolucionária coreana “Mar de sangue”.
     Tão impressionante quanto tem sido a transmissão das Olimpíadas de Londres até cinco horas por dia, em vez do antigo resumo de 15 minutos apresentado no noticiário da noite. Os norte-coreanos receberam até permissão para assistir à entrega das medalhas a esportistas sul-coreanos, fato inédito na história da Coreia do Norte.
Reformas de base
     “Por enquanto, estamos vendo mudanças no estilo da administração, mas ainda é difícil afirmar se mudaram também os objetivos políticos do governo”, afirma o diretor dos programas coreanos do Instituto de Economia da Academia de Ciências da Rússia, Gueórgui Toloraia.
      O especialista diz, no entanto, que há precondições para a mudança de objetivos políticos. “Em especial, vazaram informações de que a Coreia do Norte está experimentando novas formas na economia rural.”
      Segundo ele, fala-se especificamente que, em 28 de junho, foi encaminhada a instrução de formar brigadas de quatro a seis pessoas no campo em substituição aos grupos mais numerosos. “Ou seja, trata-se, na verdade, de uma família à qual caberá um lote de terra para cultivo e que poderá ficar com 30% da colheita”, explica.
     Gueórgui Toloraia afirma ainda que, se essa instrução for posta em prática estará comprovado então que, no interior da elite norte-coreana, a noção de reformas começa a amadurecer.
     É preciso lembrar que as reformas na China e no Vietnã tiveram início com medidas semelhantes na área rural. Elas permitiram a solução rápida do problema da fome, e o Vietnã, três anos depois, passou de importador a exportador de arroz. Quebras crônicas nas safras é o calcanhar-de-aquiles do regime norte-coreano.
Política estrangeira
     É notável que todas essas medidas tenham acontecido no pano de fundo do afastamento do chefe do Exército, Ri Young-ho, explicado de modo bastante nebuloso nos meios de comunicação oficiais, o que testemunha claramente a redução da influência dos conservadores das fileiras militares.
     “Tudo isso indica que estão acontecendo processos muito interessantes na Coreia do Norte, e o vetor desse processo é determinada reviravolta no regime, a passagem de formas de administração duras e persistentes a outras mais maleáveis, em busca de novos pontos de referência”, ressalta Gueórgui Toloraia.
     Entretanto, tudo isso está relacionado apenas à situação interna do país. Ainda não está claro como vai evoluir a questão do programa nuclear da Coreia do Norte.
      Foram realizadas há pouco, em Singapura, negociações não anunciadas entre diplomatas da Coreia do Norte e uma delegação norte-americana extraoficial. No final do encontro, a vice-ministra norte-coreana das Relações Exteriores, Choi Sung Hee, enviou uma mensagem eletrônica ao serviço coreano da “Voz da América”.
     O resultado do encontro, segundo ela, foi o entendimento de que “não há outra saída, a não ser a retomada da questão nuclear em função da hostilidade da política norte-americana”. Se não houver mudança na posição dos EUA, declarou a diplomata na mensagem, a perspectiva de desnuclearização da Coreia do Norte ficará muito remota.
      “Se os EUA começarem a dialogar realmente e mudarem a sua política de hostilidade, não em palavras, mas na prática, com o objetivo de solucionar a questão nuclear e melhorar as relações entre os dois países, então estaremos prontos a trabalhar nesse sentido”, afirmou Choi Sung Hee em uma comunicado.
      Mais uma vez, o apelo direto aos órgãos de comunicação de massa norte-americanos é mais uma ação de relações públicas para os norte-coreanos. E, nas entrelinhas, nem tanto as ameaças habituais quanto o apelo ao diálogo. 
Postar um comentário