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sábado, 4 de agosto de 2012

Instabilidade árabe e estratégia dos EUA

 



Um ano e meio depois do que a imprensa e funcionários do governo dos EUA insistem em chamar de “Primavera Árabe”, há bem pouca democracia nos países árabes, inclusive nos países que derrubaram ditaduras e ditadores apoiados pelos EUA. A principal mudança na região é o fim da estabilidade que havia e a implantação de uma nova instabilidade que tem efeitos negativos para os investimentos do capital imperial e sobre toda a estratégia imperial na região.
Isso não implica dizer que, apesar das vacilações iniciais, o imperialismo estadunidense não tenha conseguido recapturar vários fios do novo jogo político na região e que já não os esteja manipulando. Só implica dizer que o imperialismo estadunidense já não controla todos os fios. A evidência de que os EUA não têm controle total significa que Washington ainda não foi capaz de restaurar a estabilidade, a qual, em termos estadunidenses, é definida como governos ditatoriais inchados de funcionários que são obedientes cumpridores do diktat dos EUA e seus parceiros juniores na região: a colônia-ocupação judeu-sionista.
Instabilidade sem democracia
No Iêmen, os EUA tornaram-se novos ditadores diretos absolutos do país, no qual já dispensaram o agente local. Estão prendendo e matando iemenitas à vontade, sob o pretexto de combater o terror da al-Qaeda, que sequer existia no Iêmen antes de os
EUA decidirem intervir naquele país empobrecido. O terror que as forças e o embaixador dos EUA naquele país, Gerald Feierstein, ali impuseram é a principal realização do governo Obama desde o início das revoltas árabes, em janeiro de 2011.
O outro país árabe sobre o qual os EUA exercem controle quase absoluto é o Bahrein, apesar de todas as tentativas empreendidas pela ditadura bahreini, mercenários sauditas operam – sabidamente ajudados por militares e forças de segurança dos EUA e Grã-Bretanha, que operam no apoio e consultoria – para esmagar a revolta, violência contra a qual continua a levantar-se o valente povo oprimido do Bahrein.
Enquanto o capital regional e imperial vai lentamente abandonando o Bahrein, trocando-o pelos vizinhos Qatar, Arábia Saudita e Dubai, com êxodo em massa da comunidade de expatriados, a presença militar dos EUA, para nem falar da hegemonia dos mercenários sauditas, só se intensifica. De fato, os sauditas lançaram a ideia-teste, em maio, de anexar o Bahrein, de vez, ao reino; e transformá-lo demograficamente, o que seria feito pelo mecanismo de usar-se uma monarquia sunita sectária para oprimir uma maioria xiita.
Na revolta que prossegue, os sauditas das regiões de Qatif e Al-Ahsa responderam àquela proposta, nos últimos dias – pregando, em aberto desafio ao despotismo dos sauditas e suas decisões imperiais sobre o Bahrein, a secessão: querem separar-se da Arábia Saudita e reunificar-se ao Bahrein, como antes de o estado saudita ter-se apossado da região.
Na Líbia, cujo neonome é “instabilidade” (exceto no setor do petróleo), a situação é semelhante à do Iraque nove anos depois de os EUA terem invadido e ocupado o país. Recentes eleições na Líbia confirmaram no poder o homem da OTAN, Mahmoud Jibril, apesar de sua comprovada capacidade-zero para controlar o país (exceto os campos de petróleo, policiados diretamente pela OTAN).
Quanto à competição eleitoral entre Qatar e Arábia Saudita nas eleições na Tunísia e no Egito (os sauditas apoiam as forças dos regimes depostos; o Qatar apoia a Fraternidade Muçulmana), os qataris venceram, mas sem nocaute; e os sauditas estão impondo condições.
Agentes do governo dos EUA, como sempre, jogam em todos os times, aliados, ao mesmo tempo, aos ditadores militares egípcios e aos Irmãos da Fraternidade Muçulmana, para não falar dos partidos liberais seculares.
Na Tunísia, a instabilidade do novo governo manifestou-se em disputas pelo poder entre o presidente e o primeiro-ministro, seculares e grupos salafistas, e entre o aparelho repressivo de segurança e as massas nas ruas, em protesto. O vacilante partido Ennahdha está vendo expostas ao escrutínio público as suas armações e maquinações, a mais recente das quais é ter dado passaporte diplomático ao líder do partido, Rashid al-Ghannushi, que não foi jamais nem eleito nem nomeado para cargo algum, e, mesmo assim, contra todas as convenções, obteve o tal passaporte. Acrescentando insulto à injúria, essa semana funcionários do estado tunisiano xingaram a mãe de Muhammad Bouazizi – o primeiro mártir das revoltas árabes – e a meteram na cadeia, por alegados insultos a um funcionário da Justiça.
No Marrocos, na Jordânia e em Omã, repressão e cooptação – métodos de controle tradicionalmente patrocinados pelos imperialistas – continuam ativados por governos que se mantêm no poder mediante diferentes ameaças contra diferentes grupos de cidadãos.
Exceto em três casos – Egito, Tunísia e Líbia –, o Qatar, a Arábia Saudita e os EUA mantêm-se em perfeito acordo sobre como lidar com as revoltas no resto da região (Bahrein, Omã, Jordânia e Marrocos e, claro, no Iêmen, onde as diferenças que houvesse foram superadas pela remoção de Abdullah Saleh, que foi substituído no governo pelo embaixador dos EUA, Gerald Feierstein[1]), inclusive na Síria, onde a estratégia unificada de todos, para o curto prazo, é derrubar o governo de Assad.
Persistem os desacordos, é verdade, sobre como lidar com a Autoridade Palestina. Investigação conduzida recentemente pela rede Al-Jazeera sugeriu que a morte do presidente da Autoridade Palestina Yasser Arafat pode ter sido provocada por exposição a elemento altamente radiativo, o polônio. A ideia, por sua vez, disparou por todos os lados a crença de que Arafat pode ter sido assassinado por um complô no qual cooperaram agentes israelenses e da Autoridade Palestina. Tudo isso aumenta a fragilidade e a instabilidade da Autoridade Palestina – a qual, além do mais, parece estar falida, apesar dos esforços empenhadíssimos de Israel para obter empréstimos do FMI à Autoridade Palestina, os quais, até agora, deram em nada.
O Qatar talvez goste de ver a desgraça da Autoridade Palestina, mas EUA e Israel (e os sauditas) não estão gostando. Fato é que Mahmoud Abbas correu para a Arábia Saudita, para pedir dinheiro para manter à tona a Autoridade Palestina.
A estratégia dos EUA
Nada disso opera a favor nem do capital nem da estratégia estadunidenses. De fato, o aspecto mais importante de todas as estratégias dos EUA na região é abrir caminho até, e preços baixos para, o petróleo, sempre – além de estimular o mais possível todas as rixas e atritos entre todos os países da região, para assim justificar que todos aqueles países consumam todos os lucros que auferem do petróleo, para comprar armas que os EUA vendem a todos eles e as quais, para que continuem a comprá-las, os países têm, é claro, que usar e gastar (armas e munição) – ao mesmo tempo em que mantêm viva a indústria bélica dos EUA.
No fundo, Washington pouca importância dá às rivalidades entre Omã e Emirados Árabes Unidos, ou entre Omã e Arábia Saudita – menos ainda, às brigas de Iêmen e Arábia Saudita, e praticamente dão importância-zero ao que o Qatar pense da ou faça à Arábia Saudita... desde que esses países não se envolvam em confronto militar real.
Em matéria de conflito real, os EUA só admitem um: guerra combinada de todos essas ditaduras, unidas e acrescidas de Kuwait e Bahrein, contra a República Islâmica do Irã.
Nessa arena, nada mudou. Embora a “instabilidade” interna no Bahrein, em Omã e na região leste da Arábia Saudita seja preocupante, funcionários do governo dos EUA (com os israelenses aplaudindo e, não raras vezes, tomando a dianteira) investem grandes esperanças e muito tempo numa pesada campanha de propaganda contra o Irã – o único, dentre os três produtores gigantes de petróleo da região (além de Iraque e Arábia Saudita), que se mantém fora da órbita na qual os EUA exercem pleno controle.
O fato de os regimes sectários do Golfo identificarem como xiitas as massas em revolta no Bahrein e na Arábia Saudita; e como ibadis, em Omã (mas o sultão de Omã é também crente ibadi; então, os sauditas puseram-se a falar mais sobre uma dita opressão que os sunitas sofreriam em Omã) facilitou a conexão que funcionários dos governos de EUA e estados do Golfo estão inventando entre a chamada “ameaça iraniana” e as revoltas locais.
Assim, conseguem explicar compras cada vez mais gigantescas de armas, e preços mais em conta a pagar pelo petróleo... o que se chama “sucesso das metas políticas dos EUA”.
O petróleo e a estrutura de governo do Iraque continuam sob tutela dos EUA. Isso, aliado à transferência discreta do controle sobre os campos de petróleo líbio, para as potências europeias, tem conseguido manter a estabilidade por hora e para o futuro próximo.
Circularam rumores de que os qataris teriam sugerido que alugariam o Canal de Suez. Os rumores foram desmentidos. Mas bastaram para tranquilizar ainda mais os funcionários do governo dos EUA: parece já não haver dúvidas de que a “Primavera Árabe”, boa parte da qual foi patrocinada pelo Qatar, não prejudica nem impõe grave ameaça aos interesses dos EUA. Como sempre, não percebem que o que poderia proteger os interesses dos EUA seria a estabilidade. E o que se vê na região é só instabilidade e revolta.
Os qataris aconselham paciência. Argumentam que a região voltará à estabilidade, tão logo se implantem ali novos governos islamistas amigos do ocidente e do Golfo; então o bolo econômico afinal crescerá e poderá incluir empresários e empresárias islamistas. E dali em diante será business como sempre para os EUA, eternamente.
Egito
O recente confronto entre Muhammad Mursi, presidente do Egito, o Judiciário, o comando do Exército e os EUA e, talvez, a questão mais quente do momento. Diz-se que Washington teria encorajado o recém-eleito presidente egípcio a confrontar o Judiciário e o alto comando militar, por causa da dissolução do Parlamento. O movimento, que foi precipitado, saiu pela culatra e Mursi teve de voltar atrás, depois de ameaçado pelo Judiciário (juízes nomeados por Mubarak).
O recente movimento dos EUA, de apoiar a Fraternidade Muçulmana contra o conselho dos militares, como principal aliado, explica-se: Washington afinal percebeu que os generais não poderão mais ajudar os interesses dos EUA, porque não conseguirão impor qualquer estabilidade ao país. A oposição popular, contra os militares da era Mubarak é uniforme e forte. Nem repressão massiva, de estilo sírio, é possível, porque causaria revolta ainda mais massiva, não promoveria qualquer estabilidade e apressaria o fim desses militares.
Por outro lado, os EUA têm recebido repetidas garantias e promessas, de Khayrat al-Shatir, um dos líderes dos Irmãos Muçulmanos, neoliberal e multimilionário, de que a Fraternidade será aliada neoliberal mais confiável do capital dos EUA e a favor da estratégia dos EUA para o Oriente Médio, que Mubarak. Os qataris não se cansam de elogiar a presteza da Fraternidade Muçulmana, para tudo que signifique promover os interesses dos EUA.
Essa foi a situação que tornou menos provável o coup d’état, dos militares, contra Mursi, depois de eleito; os agentes dos EUA opuseram-se ao golpe, não porque haja alguma restrição norte-americana democrática a ditaduras (nem pensar!), mas porque havia novas análises estratégicas que indicavam que golpe algum restabeleceria a estabilidade; e, muito provavelmente, aumentaria a instabilidade.
Mas os generais, esses, estão decididos a provar a Washington que apostou no cavalo errado, ao apoiar a Fraternidade Muçulmana. Por isso, adotaram a estratégia de minar qualquer possibilidade de o governo de Mursi vir a dar certo; por isso limitaram seus poderes e negaram-lhe o apoio da maioria parlamentar eleita. Quanto aos liberais egípcios, eles não apenas aprovaram a dissolução politicamente motivada do Parlamento (estranha aprovação, por liberais democratas, mas considerada ‘normal’ no Egito acometido de fobia-anti-Fraternidade-Muçulmana; e considerada ainda mais normal entre liberais ocidentalizados arrogantes e islamófobos); além de aprovar a dissolução do Parlamento, outro daqueles liberais democratas, empresário e capitão de indústria milionário, Mamduh Hamza, conclamou o exército a derrubar imediatamente o presidente recém-eleito.
Como parte da estratégia geral para a região, os estadunidenses continuam a manter as relações de concubinato que sempre os ligaram aos Generais e aos liberais do país, apesar da forte atração que sentem pela Fraternidade Muçulmana.
O fato de os sauditas terem convidado o presidente Mursi a interromper seu trabalho de governar e ir visitá-los e mostrar-se totalmente subserviente (apesar de os sauditas terem feito oposição à candidatura de Mursi), e o fato de Mursi ter obedecido servilmente, e ter sido humilhado durante a visita, faz perfeito sentido e comprova os laços de subserviência e conivência que unem Fraternidade Muçulmana e sauditas, desde os anos 1950.
Velhas alianças
Para recordar à Fraternidade Muçulmana quem manda e quem obedece, os jornais sauditas desenterraram uma foto, publicada há uma semana, em que se vê o fundador da Fraternidade Muçulmana Hasan al-Banna, beijando a mão do rei Abd al-Aziz, como evidência de submissão, nos anos 1940s[2].
Os sauditas deram a Mursi recepção humilhante. O novo príncipe coroado saudita recebeu Mursi no aeroporto (o rei não apareceu). E nem o novo príncipe coroado apareceu para despedir-se, nem na partida. Embora seja possível que Mursi seja independente, ou que venha a governar como presidente independente, seus inimigos insistem em apresentá-lo como testa de ferro de al-Shatir. Se for verdade, e seja lá quem for o conselheiro que Mursi ouve, é mau conselheiro. Até agora, as duas principais ações de Mursi na presidência saíram-lhe pela culatra: desafiar o Conselho Militar e visitar a Arábia Saudita.
O resultado de tudo isso para o futuro do Egito permanece incerto e obscuro, com Washington continuando a jogar dos dois lados da quadra e controlando vários cordões do jogo, mas não todos. É verdade que os EUA estão hoje menos apavorados e trêmulos de medo do que estavam imediatamente depois da queda de Mubarak. Os grandes players, ainda são os generais do Exército, além dos EUA; na fila, em sequência, vêm a Fraternidade Muçulmana apoiada pelo Qatar, e os sauditas, tradicionais apoiadores do regime de Mubarak.
Os funcionários dos EUA ainda não sabem a que o atual curso de eventos levará a região. A situação na Jordânia está ligada à do Egito, Síria, Cisjordânia, Iraque e o resto do Golfo, e permanece a mais volátil, dentre as monarquias ainda “estáveis”, situação semelhante à de Omã. As recentes manifestações massivas no Sudão visam a enfraquecer o governo despótico de Omar al-Bashir, levado ao poder por golpe contra a democracia sudanesa em 1989 (e cujas relações com os EUA azedaram nos anos 1990s), mas, até aqui, sua resposta às manifestações populares tem sido tão violenta quanto a dos sauditas ao lidar com o levante que lhes cabe.
Os estadunidenses continuam comprometidos não com alguma “democracia”, mas com a estabilidade – estratégia identificada pelo acadêmico e consultor do governo dos EUA Samuel P. Huntington, em seu livro clássico de 1968 sobre a importância da ordem e da estabilidade política no mutável Terceiro Mundo, para os interesses imperiais.
Tomar as democracias por estruturas inerentemente instáveis e as ditaduras por garantia de estabilidade já não é curso viável de ação para os agentes do governo dos EUA, mas eles ainda não decidiram se mantêm esse ideário para alguns países e o abandonam em outros casos.
Embora a região continue a carecer da democracia pela qual seus povos lutam há mais de um século, contadas a “Primavera Árabe” e as mudanças de regime que geraram, a principal conquista dos levantes populares, até agora, foi a instabilidade.
Essa instabilidade pode, sim, forçar uma mudança das regras estratégicas do jogo que os EUA introduziram na região depois da II Guerra Mundial. Essa é a boa notícia para todos os povos árabes.
(*)Joseph Massad é professor de Política e História Intelectual Árabe Moderna na Columbia University, em New York
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/23466/instabilidade+arabe+e+estrategia+dos+eua.shtml 
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