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domingo, 2 de setembro de 2012

A Colômbia, de novo, fala em paz


     
     Ninguém sabe ao certo quando tudo começou – e quem sabe não conta –, mas não deve ter sido há muitos meses. Após décadas de violência desmesurada e incontrolável, o governo da Colômbia e as FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, a mais antiga guerrilha em atividade na América Latina – estão, uma vez mais, mantendo conversações de paz. Acaba de ser anunciado que no dia 5 de outubro, uma sexta-feira, esse processo que vem sendo levado a fogo lento será formalmente oficializado em Oslo, a capital da Noruega.
     Houve, em ocasiões anteriores, disposição para levar o assunto adiante, apesar de todas as muitas dificuldades. Em 1984, por exemplo, o presidente Belisario Betancur chegou a assinar um cessar-fogo com Pedro Antonio Marin, o lendário fundador das FARC, que também usava o codinome de Manuel Marulanda e o apelido de ‘Tirofijo’. Acabou dando em nada. Anos mais tarde, outro presidente, Andrés Pastrana, negociou com as FARC. De novo, deu em nada. E se acabaram as tentativas.
     Com Álvaro Uribe, aconteceu o contrário. Nada de diálogo: uma repressão sem precedentes foi desatada país afora, dizimando parte considerável das FARC e levando junto um número até hoje não determinado de vítimas civis, causando traumas profundos. Vale recordar que à frente do banho de sangue desatado por Uribe estava o seu ministro da Defesa, o mesmo Juan Manuel Santos que agora preside a Colômbia. Durante esse período as FARC sofreram suas baixas mais dramáticas. O número dois da organização, Raúl Reyes, foi morto enquanto dormia, num acampamento clandestino no Equador. Três meses depois, morreu, de causas naturais, Tirofijo, ícone da cruenta luta armada na Colômbia desde 1964.
     Juan Manuel Santos se elegeu pela mão de Uribe. Entre suas promessas de campanha estava a busca a paz – coisa que todo candidato colombiano vem fazendo há décadas. Por que dessa vez seria diferente? Por uma série de razões.
     Do lado das FARC, o deterioro é inegável. Nos últimos oito anos, a organização perdeu a metade dos seus 18 mil homens. Nem todos foram mortos: o número de desertores e arrependidos, alguns de grosso calibre, aumentou rapidamente após a morte de Tirofijo. Em 2010, dois golpes tremendos abalaram ainda mais os já carcomidos alicerces das FARC. Primeiro, foi morto seu chefe militar, Mono Jojoy. E três meses depois, caiu outra lenda, Alfonso Cano, sucessor de Tirofijo.
     Além disso, desde o começo dos anos 90 as FARC foram perdendo apoio externo. Com dificuldade crescente para financiar sua enorme estrutura (o grupo chegou a estar presente em todo o país, e controlava áreas imensas), desatou uma gigantesca maré de seqüestros, inclusive de pequenos comerciantes e sitiantes. Isso corroeu sua imagem, e significou perda de simpatia na população, principalmente do interior. Para culminar, os vínculos entre guerrilha e cartéis de drogas, cujos primeiros indícios surgiram no começo dos anos 80, se tornaram mais e mais visíveis. Assim corroeu-se também o parco apoio que as FARC ainda recebiam do exterior.
     Nada disso, porém, estancou o poder da organização. Se já não dominava áreas do interior, sua capacidade de ação se manteve elevada. Agora mesmo, em maio passado, uma série de atentados em Bogotá e em várias regiões do país serviu para mostrar que as FARC ainda podem causar grandes estragos.
     Para arrematar, nem mesmo as dramáticas distâncias e abismos sociais da Colômbia foram suficientes para justificar, aos olhos da opinião pública, a luta anacrônica de uma guerrilha que perdeu sua aura revolucionária.
     Claro que os últimos governos colombianos fizeram de tudo para realçar além dos limites essa imagem negativa, como forma, inclusive, de diluir seu próprio braço podre – o dos paramilitares igualmente seqüestradores, igualmente associados ao narcotráfico. Muitos dos assassinatos cometidos por eles foram atribuídos, acobertados pelo silêncio cúmplice dos presidentes e da imprensa, às FARC.
     Já do lado do governo, o deterioro também é inegável. Não há como prosseguir com o banho de sangue praticado com o argumento de combate à guerrilha. Juan Manuel Santos entendeu isso, e resolveu mudar o cenário.
     Não que se trate de um humanista preocupado com a pacificação do país e a reconciliação entre os colombianos. Trata-se de um tecnocrata frio e pragmático, que ainda acredita piamente nas crenças neoliberais, tanto assim que está esquartejando a Colômbia e privatizando tudo a preço de ocasião. Mas que sabe que nada disso terá futuro nesse turbilhão de sangue e fogo.
     Assumiu a presidência e abriu diálogo com Rafael Correa, presidente do Equador, com Hugo Chávez, na Venezuela, e com Raúl Castro em Cuba. Enquanto Uribe, seu mentor, espumava de ódio, Santos continuou avançando. Implantou leis que poderão afetar a concentração de terras em mãos dos grandes latifúndios, e outras, que poderão esclarecer crimes cometidos pelos paramilitares.
     O país continua, é verdade, absurdamente desigual. A economia cresce muito acima da média latino-americana (5,9% no ano passado, por exemplo), mas a miséria não diminui. Faltam obras de infra-estrutura, falta um mundo de coisas por fazer. Como preencher essas lacunas entre nuvens de horror e violência?
     Os termos da negociação parecem bem esboçados. A cada passo, a Colômbia consultou discretamente os governos de Cuba, da Venezuela e do Equador. Mas ainda falta muita coisa.
     Por exemplo: chegar a um acordo aceitável para os dois lados, de maneira que as FARC se desmobilizem e seus remanescentes se integrem à vida civil.
     Há um antecedente importante: o Exército M-19, que nos anos 70 e 80 chegou a rivalizar, em poder de ação, com as FARC, se desmobilizou depois de delicadas negociações de paz.
     Hoje, o prefeito de Bogotá é um ex-integrante do M-19, que faz uma administração dinâmica e de profundo cunho social.
    Não deixa de ser uma esperança.
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