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domingo, 23 de setembro de 2012

Paraguai repensa integração regional após suspensão do Mercosul



Participação no bloco é demonizada por um inflamado discurso nacionalista, que resgata a Guerra do Paraguai (1864-1870)

A suspensão do Paraguai do Mercosul, anunciada no final de junho, trouxe à tona um discurso nacionalista, amparado em acusações de que a decisão -- tomada conjuntamente por Argentina, Uruguai e Brasil -- se assemelham à investida da Tríplice Aliança na Guerra do Paraguai, no século XIX. Com isso, o novo governo, empossado após um golpe de Estado, começa a investir em tratados de livre comércio, rejeitando os mecanismos de integração regional.

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"A Rendição de Uruguaiana" durante a Guerra da Tríplice Fronteira, retratada pelo artista brasileiro Ricardo Salles (1870)

Para Lucas Arce, pesquisador do Cadep (Centro de Análise e Difusão da Economia Paraguaia), não somente a suspensão do país, como também a adesão da Venezuela ao bloco sem a aprovação do poder legislativo paraguaio, agravaram uma visão negativa do Mercosul, alimentada há anos e derivada de expectativas frustradas sobre os benefícios que o bloco geraria para a industrialização do país.

Segundo ele, o momento de questionamento é propício para refletir sobre os objetivos da integração paraguaia ao continente. “O Paraguai sempre foi um país isolado. A abertura de canais diplomáticos, de aumento de intercâmbios, é muito recente. Na opinião pública de um país onde há reminiscências da Tríplice Aliança, aumenta ainda mais essa ideia nacionalista, fundada na história. A rejeição ao Mercosul aumentou por uma conjunção de erros e más interpretações tanto internas como externas”, afirmou.

Nesta conjuntura, explica Arce, as propostas de empresários e políticos para uma possível saída do Mercosul podem ser bem recebidas em nível interno, mas desconsideram os custos. “Em um país que por si já está convulsionado é muito mais fácil unir-se contra algo que está fora para lidar com o momento de crise interna”, disse.

De fato, após a suspensão do país, o governo paraguaio mostrou crescente interesse em integrar-se à Aliança do Pacífico, formada pelo México, pela Colômbia, pelo Peru e para o Chile, que se disseram de braços abertos.

“A entrada da Venezuela faz com que o desenvolvimento da política comercial comum do Mercosul retroceda, o que prejudica os países pequenos. Neste cenário, o que convém para um país pequeno como o Paraguai é dar um passo atrás e voltar à zona livre de comércio, onde cada um administra sua política comercial e todos somos uma zona livre de comércio”, defendeu Oscar Stark, diretor da Rediex (Rede de Investimentos e Exportações), dependente do Ministério de Indústria e Comércio do Paraguai.

Segundo Stark, a economia da Venezuela está muito distante da política comum do bloco, o que é “um sinal de que para o Mercosul, não interessa tanto o aspecto comercial, mas sim o político”. Para ele, a decisão tomada em Mendoza, em detrimento da adequação aduaneira, permite ao Paraguai exigir a permanência no bloco, mas com liberdade para negociar com terceiros. “Poderíamos, dentro do bloco, negociar com o Bloco do Pacífico, com a Coreia, com os EUA, México e outros países”, considerou.

O diretor da Rediex descarta, no entanto, abandonar definitivamente o bloco regional. “O melhor comercio paraguaio é com o Mercosul, com a exportação de produtos de maior valor agregado, como confecções têxteis, plásticos, colchões, que tem um componente importante de mão de obra. O Mercosul é importante para o Paraguai, apesar dos problemas enormes que temos sempre com as travas impostas pela Argentina e pelo Brasil."

Opinião negativa

No Paraguai, a expectativa inicial era a de que o ingresso ao bloco geraria um fluxo de capitais brasileiros e argentinos para desenvolver indústrias com potencial exportador. No momento da assinatura do Tratado de Assunção, em 1991, o cenário industrial era negro.

Luciana Taddeo/Opera Mundi
“Era um país isolado, sem infra-estrutura para mandar mercadorias ao exterior e sem produção nacional de manufaturados”, explicou Arce. “A resistência [ao Mercosul] se deve, em parte, por uma desilusão com um processo de desenvolvimento da economia, uma espécie de boom, como se pensava”.
[Arce: "rejeição ao Mercosul aumentou por uma conjunção de erros e más interpretações"]

O sistema produtivo local nem se comparava ao do Uruguai, no qual também há opiniões divergentes quanto aos benefícios da participação no bloco comercial. Enquanto o país platino já apresentava capacitação da mão de obra e contava com certa industrialização, o Paraguai tinha sua economia centrada nos commodities agrícolas e indústrias insipientes, nascidas nos anos 80 com, em um processo recente.

Segundo Arce, o Paraguai pecou com a falta de vantagens de investimento, ausência de aglomeração produtiva e de infra-estrutura e a baixa qualidade de educação no país. Apesar de esforços governamentais para aumentar o impacto do Mercosul, o país ainda é deficiente em aspectos como facilidade para investimentos, promoção dos produtos locais, criação de uma marca do país, solução para os altos custos de transporte de cargas e diplomacia ativa para resolver conflitos comerciais.

Por outro lado, afirma o pesquisador, meios de comunicação alimentam a negatividade. “Por trás destas ideias negativas, há certos grupos econômicos, que tentam exportar e que enfrentam travas reais. E os que não têm problemas, acabam não aparecendo nestes veículos”, exemplificou.

Na avaliação de Arce, os benefícios do Mercosul não são evidentes na realidade diária. “Estes processos se dão em um prazo muito longo. Houve crescimento de exportação de bens com valor agregado, com um processo de ampliação do mercado que gerou incentivos para certas indústrias que não tinham escala para exportar, serviu muito para desenvolver o país”, pontuou.

Os efeitos da ampliação da produção se refletiram também na expansão de mercados extra-zona para os produtos paraguaios. “Quando se analisa o tipo e a qualidade dos bens exportados ao Mercosul ampliado, o valor agregado é muito maior em comparação ao que existia anteriormente. Quando se olha os números de exportação prévios aos anos 90, quase todos os componentes exportados são da industria agroalimentar”.

Integração

Segundo Arce, em um cenário de saída definitiva do Paraguai do bloco, é preciso comparar custos e benefícios da decisão. Um dos cursos seria o fim dos acordos de livre trânsito de produtos destinados à importação, que teriam que chegar aos portos. “A partir disso, o Brasil e a Argentina teriam que estabelecer taxas, porque já não estaria mais sob o acordo do Mercosul”.

Outro é o poder de negociação de tratados com novos mercados. “Uma plataforma maior para negociar é uma das questões. Eu posso, com o Mercosul, negociar tratados de livre comércio com a União Europeia e ter mais força de negociação, porque estou com o Brasil e com a Argentina. Ou seja, não sou um mercado de 5 milhões de pessoas, mas sim 350 milhões, o que representa um PIB per capita muito mais alto”.

“É preciso questionar o porquê de estar integrado e o que se busca com isso. Se paga um custo por estar dentro do Mercosul, porque eu não sou livre para decidir com quem me integro, tenho necessariamente que negociar com os outros membros. O principal ponto é definir a estratégia de desenvolvimento do Paraguai para o futuro. Assim se podem considerar objetivos, se quero permanecer no Mercosul, instalar multinacionais no país. Mas se meu projeto de desenvolvimento econômico não está claro, não se pode tomar definições”, pondera.

Para Arce, os próximos meses devem expor, na sociedade civil, a necessidade de debater as opções de desenvolvimento do país. “A opinião pública é propensa a dizer que não ao Mercosul, porque por mais benefícios ou custos que este gere, porque os efeitos não se notam na realidade do dia a dia, e há poucos estudos sobre os impactos do bloco no país. Mas esta suspensão é bom exercício para repensar a integração em nível sul-americano, sobre como escolhemos nos integrar, nos desenvolver e nos inserir em plano mundial”.
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/24413/paraguai+repensa+integracao+regional+apos+suspensao+do+mercosul.shtml
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