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domingo, 14 de outubro de 2012

A crise na Síria e a política da Turquia

Turquia Síria conflito fronteira rebeldes curdos


     O início de outubro foi marcado por nova espiral de contraposição na Síria.
     Após recuperar do ataque inesperado dos combatentes da oposição em duas grandes cidades do país Damasco e Aleppo em julho, as forças governamentais começaram a vencer seus adversários em todo o país. Em algumas regiões, por exemplo, na capital, isto ocorre com mais êxito. Mas em Aleppo e nas províncias do norte, o exército sírio tem sérias dificuldades.
     Os combates no norte têm sido especialmente violentos. Além disso, um poderoso fator que contêm os esforços das tropas fiéis a Assad é a Turquia. No território turco encontraram asilo muitos refugiados, entre os quais há civis e adversários armados do líder sírio. Através da fronteira turco-síria passa uma torrente ininterrupta de armas para as forças oposicionistas.
     Ancara, aproveitando-se do incidente trágico na região de Akçacale, passou para a táctica de desfechar ataques de artilharia contra as posições das tropas sírias perto da fronteira. A morte de cidadãos turcos formalmente dá à Turquia o direito a tal reação, apesar de Damasco ter admitido oficialmente a culpa e pedido desculpas. Entretanto, deve-se reconhecer que, dando apoio à oposição armada, a Turquia é responsável pela escalada da violência na Síria e suas consequências (inclusive os incidentes com projéteis).
     A análise da situação mostra que Ancara não quer combater com a Síria. Se a direção política turca tivesse a intenção de se envolver no conflito armado, ela o teria feito em 22 de junho, quando a defesa antiaérea síria abateu um avião-espião da Força Aérea da Turquia. Por enquanto, nem mesmo se trata das chamadas operações trans-fronteiriças, permissão para as quais foi dada pelo parlamento turco.
     Até mesmo o incidente com o sequestro do avião sírio, que realizava um voo de Moscou a Damasco não pode ser classificado como bloqueio aéreo da Síria. Sua introdução seria de fato declaração de guerra. O mais provável é que a Turquia simplesmente queira aumentar a pressão sobre Damasco, inclusive psicológica.
     Provavelmente, Ancara por enquanto é contida por algumas circunstâncias. Em primeiro lugar não está clara a posição dos EUA. É pouco provável que Washington se decida a envolver-se no conflito armado no Oriente Médio antes das eleições presidenciais de novembro. Ora, sem o apoio americano a Turquia não começará operações de combate de envergadura contra a Síria.
     Em segundo lugar, é muito difícil para a Turquia agora definir sua linha estratégica se não for envolvida no conflito militar direto com Damasco. O preço da vitória militar não será pequeno e o resultado é duvidoso. Pois, a julgar pelas ações da oposição armada, em suas fileiras há muitos elementos radicais, que podem transformar por muito tempo a região em barril de pólvora, sendo que os dividendos para Ancara serão muito duvidosos.
     Finalmente, a Turquia é obrigada a considerar a posição do Irã. Teerã já declarou que não ficará de fora em caso de ataque militar contra a Síria. A direção iraniana, não sem fundamentos, supõe que o próximo da fila será justamente o Irã. Por isso envida todos os esforços para apoiar Bashar al-Assad.
     A Síria e o Irã já acionaram no mínimo uma alavanca de pressão sobre a Turquia – a curda. Damasco praticamente concedeu ampla autonomia às suas províncias curdas. Desse modo, no mapa do Oriente Médio, além do Curdistão iraquiano autônomo, pode surgir perfeitamente o Curdistão sírio.
     Na própria Turquia agravou-se bruscamente a contraposição entre o exército turco e os grupos armados curdos. Por enquanto, não há quaisquer fatos que indiquem diretamente que a Síria ou o Irã estão por trás disto. O mais provável é que os líderes dos curdos turcos estejam a reagir à situação geral na região, supondo que em breve pode surgir o momento propício para atingir seus objetivos.
     Nestas condições, é muito duvidoso que a Turquia queira uma guerra com a Síria, pelo menos neste momento. Mas a situação pode mudar já em um futuro próximo. O jogo em torno de Damasco, no qual está envolvida uma série de atores com grandes ambições geopolíticas, está longe de terminar.
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