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sábado, 24 de novembro de 2012

Gaza ou a revisão da História

Atacar os palestinos dá votos e legitima o imobilismo político do governo de Israel
http://graphics8.nytimes.com/images/2012/11/16/timestopics/gaza-strip/gaza-strip-sfSpan.jpg 
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Há sessenta e quatro anos que Israel usa dois discursos para legitimar as suas intervenções nos territórios ilegitimamente ocupados da Palestina: um é o discurso da "eliminação definitiva do terror palestino"; o outro é o da "legítima defesa contra os ataques de que Israel é alvo". Ambos projetam uma revisão ardilosa da História.

Há sessenta e quatro anos que Israel anuncia a vitória definitiva contra os seus inimigos próximos. Para só citar dois momentos recentes, foi assim quando da guerra contra o Hezbollah em 2006 e foi assim de novo na "Operação Chumbo Fundido", de 2008-2009, contra o Hamas. Em ambos os casos, o uso claramente desproporcional da força por Israel foi justificado como necessário para pôr fim definitivo às agressões contínuas pelo grupo pró-iraniano no Sul do Líbano ou do grupo dominante na Faixa de Gaza contra o Estado de Israel. Afinal, ambas as eliminações definitivas do terror foram um fiasco absoluto: os foguetes continuam a ser lançados de Gaza e o Hezbollah tem hoje um arsenal de mísseis e uma influência política no Sul do Líbano bem maiores do que os que possuía em 2006.

Falsa é igualmente a narrativa da resposta em legítima defesa. Cada violação dos sucessivos cessar-fogo é, invariavelmente, apresentada como simples retaliação de ataques anteriores e exteriores. Invariavelmente, Israel projeta nos palestinianos a imagem de um povo que faz da agressão o seu modus vivendi, ao passo que Israel será uma vítima inocente que não faz mais do que defender-se. Para ajudar à composição do argumento, os palestinos atacam sempre com poucos mísseis, mas maus e agressivos (neste caso, iranianos) e Israel defende-se sempre com muitos mísseis, mas bons e defensivos (neste caso, norte-americanos de última geração).

Esta onda de violência que de novo atingiu os 1,7 milhões de pessoas presas no gueto de Gaza voltou a ser explicada da mesma forma enganosa. Faltou dizer, nessa narrativa para consumo preguiçoso, que Netanyahu e Liberman vão a votos em janeiro e que a aliança de governo entre os dois está longe de ter sondagens animadoras.
E faltou dizer também que o assassinato do dirigente do Hamas Ahmed Jabari, associado nesse momento às negociações de um acordo, foi o momento em que a guerra escalou vertiginosamente.

A aposta de Israel num clima de permanente crispação que lhe permita assegurar o apoio dos Estados Unidos e da União Europeia tem no rigor da História o seu grande inimigo. E a História tem três aspetos que nenhuma estratégia israelita de revisionismo conseguirá apagar: primeiro, a ocupação dos territórios palestinos, contra o Direito Internacional, é a causa primeira e última do conflito; segundo, o povo da Palestina continua privado de ter um Estado, de ter comércio normal, de ter liberdade de movimentos, de ter dignidade; terceiro, o macabro número de mortos (16 palestinos por cada israelita, tendo sido de 111 por 1 em 2009) é como todos os números: alimenta-se a si própria.

É por isso que este ataque contra Gaza não foi senão o último antes do próximo. Porque, haja calma ou não, atacar Gaza dá votos e legitima o imobilismo político de Tel Aviv. E, sobretudo, desvia a atenção da História real para uma História conveniente.

*artigo originalmente publicado no Diário Nacional, de Portugal
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/25586/gaza+ou+a+revisao+da+historia.shtml 
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