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domingo, 10 de novembro de 2013

Rússia coleta saliva de muçulmanas para se proteger de “potenciais terroristas” - Opera Mundi




 

     A apenas três meses do início das Olimpíadas de Inverno de Sochi, a Rússia está colhendo amostras de saliva de mulheres muçulmanas no norte do Cáucaso como parte da medida de segurança para os Jogos. A ideia é que o DNA extraído de “potenciais terroristas” possa ser usado posteriormente para identificar aquelas que venham a executar ataques com bombas durante as Olimpíadas.
      “É discriminação pura e uma verdadeira agressão aos direitos humanos, um desrespeito às muçulmanas conservadoras. Esse tipo de medida não consegue impedir eventuais ataques terroristas. A única coisa que consegue é piorar este clima de guerra”, afirmou a Opera Mundi Louisa Dibirova, coordenadora-chefe da organização humanitária Corpus Civil no Daguestão e presidente da União Social-Democrata Russa da Juventude no norte do Cáucaso. “Com estas medidas, a quantidade de ataques terroristas, assassinatos e sequestros só vai aumentar. A política de linha-dura do Kremlin deteriorou a questão do Caúcaso”, diz.
     O Kremlin justifica a medida com estatísticas. Nos últimos 13 anos, pelo menos 49 mulheres suicidas foram responsáveis por ataques na Rússia, segundo informação do site Caucasian Knot.
      As “viúvas-negras”, como são conhecidas as mártires da Jihad islamista na Rússia, recebem este apelido porque muitas delas são viúvas de homens mortos pelas forças russas durante as duas guerras da Chechênia (1994-1996 e 1999-2000).

Divulgação
     Em maio deste ano, dois carros explodiram no centro de Makhatchkala, capital do Daguestão (entidade federativa da Rússia), resultando em quatro mortos e mais de 50 feridos. A explosão foi orquestrada por controle remoto e aparentemente direcionada a policiais e advogados de um tribunal local. Como resposta, forças de segurança russas destruíram casas de parentes dos insurgentes, fechou vilarejos e interrogou centenas jovens suspeitos de envolvimento com os militantes jihadistas. Muitas escolas islâmicas e instuições de caridade salafistas foram fechadas. No povoado de Novosasitli, no Daguestão, duas madrassas (escolas corânicas) tiveram suas atividades encerradas. Os alunos foram fotografados e tiveram suas digitais registradas.
["É discriminação pura", afirma Louisa Diribova, coordenadora de organização humanitária]
     O FSB, serviço secreto russo, declarou estar preocupado com os 400 cidadãos do país, majoritariamente do norte do Cáucaso, que estão lutando na Síria. Acredita-se que muitos deles voltarão à Rússia para os Jogos Olímpicos.
     O ministro do Interior, Vladimir Kolokoltsev, disse ao Parlamento russo que as autoridades estão recebendo “informações alarmantes” e estão tentando eliminar líderes e membros de grupos armados. “Não outra maneira de combater estes monstros desumanos”, disse Kolokoltsev.

     Para garantir a segurança das Olimpíadas de Sochi, o FSB informou também que todas as ligações e comunicações por Internet serão monitoradas durante os Jogos. A cidade de Sochi será dividida em zonas de segurança e o controle de tráfego aturará em conjunto com os serviços de segurança.
     No entanto, ataques fora da região de Sochi não podem ser completamente evitados, segundo as autoridades, especialmente em grandes cidades do sul, como Volgogrado, Krasnodar e Rostov-do-Dom.
     Em julho deste ano, Doku Umarov, líder da oposição islamista do Cáucaso, pediu que seja usada “máxima força” para sabotar o evento esportivo, que começa em 7 de fevereiro. O Cáucaso vem observando na última década o aumento do número de salafistas, explicado em parte pela influência dos residentes que foram estudar no Oriente Médio e voltaram à Rússia. Alguns deles aderiram à insurgência islâmica que cresceu depois das guerras separatistas da Chechênia.

Repressão
     Críticos indicam que a repressão do Kremlin tem apenas alimentado a insurgência na região. Nos últimos 10 anos, mais de 3,5 mil membros da resistência armada do Cáucaso do norte foram mortos e cerca de outros 8 mil foram detidos, segundo Sergey Chenchik, chefe do Departamento do Ministério da Administração Interna (MIA) da Federação Russa para o norte do Caúcaso.
     “Há 15 anos, não havia tantas pessoas radicais no Cáucaso, mas a ideologia jihadista tem ficado cada vez mais popular aqui. Eu não apoio o movimento [jihadista], mas, entendo que os jovens estejam dando uma resposta tão dura quanto os ataques que sofremos do Kremlin”, conta um jovem do Daguestão que preferiu não se identificar por medo de ser (mais uma vez) entrevistado pelo FSB (serviço secreto russo), “devido aos seus muitos amigos estrangeiros”.
     Para Abdullah Bokov, diretor de uma escola de idiomas em Grózni, capital da Chechênia, as pessoas no norte do Cáucaso não têm perspectivas e “acabam tendo somente três opções – imigrar, esperar ou unir-se às guerrilhas.”.
     Em Moscou, o sentimento anti-Cáucaso e o medo de ataques terroristas aumentam. Há duas semanas, o líder do Partido Liberal-Democrata da Rússia (LDPR, na sigla em russo), Vladimir Jirinóvski, declarou em um programa de televisão que o norte do Cáucaso deveria ser separado da Rússia com “arame farpado” e que a região deveria ter a natalidade limitada a dois filhos por mulher.
     No domingo (03/11), o presidente Vladimir Putin assinou um projeto de lei antiterror que exige que os parentes de terroristas paguem pelos danos causados ​​pelos seus ataques. A lei pretende conter uma possível escalada de violência nos meses que antecedem os jogos olímpicos.
     As Olimpíadas de Inverno de Sochi já são as mais caras da história dos Jogos, com os gastos ultrapassando 1,5 trilhão de rublos (cerca de R$ 100 bilhões). Os Jogos de Verão de Londres custaram menos da metade – R$ 42 bilhões.
     Os escândalos de corrupção nos Jogos também vêm acompanhados de denúncias de desastres ambientais, desrespeito aos direitos de minorias étnicas e sexuais e não-pagamento de salários de trabalhadores imigrantes.

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