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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010


Em 1805 um comerciante francês chamado M. Wante, publicou em Paris um livro que apontava dados para 1789 onde a colônia francesa de Saint Dominique, ou São Domingos ostentava uma produção de riquezas da ordem de 161 milhões de libras de Tours, ou três vezes o que o imenso Brasil produzia.  Ciro Flamarion Cardoso (A Crise do Colonialismo Luso na América Portuguesa - 1750/1822), in História Geral do Brasil, Rio de Janeiro, Edit. Campus, 1990, destaca que mesmo que os dados não sejam necessariamente precisos, eles "...fornecem uma ordem de grandeza...".
A antiga São Domingos era um território uno, mas que hoje divide-se em Haiti e República Dominicana, e além da riqueza de outrora, destaca-se na história por ter sido a segunda colônia europeia nas Américas a se livrar do domínio colonial e a primeira em que tal movimento foi liderado por negros - escravizados ou não.
A independência haitiana foi alimentada pela própria emancipação da Nova Inglaterra (EUA) e também pelos ecos da Revolução Francesa e do Iluminismo.
Iniciada com uma revolta da escravaria contra a exploração e os maus tratos, em 1791, culminou em 1804 com a proclamação de emancipação.
Nos vinte anos precedentes à revolta, o território produzia cerca de 35 mil toneladas de açúcar/ano, e para tocar este frenético complexo açucareiro eram necessários cada vez mais escravos.  A partir de 1787 entravam cerca de 40 mil africanos anualmente.
Iniciada a Revolução Francesa, colocou-se o tema da igualdade e da escravidão.  Se os homens são iguais, como podiam alguns ser propriedade de outros?  Era a mesma discussão que se colocaria depois no Brasil:  para os negros, libertar o Brasil de Portugal só fazia sentido se a iberdade também os atingisse como indivíduos.
Mesmo que a Assembleia Constituinte de 1791 tenha extendido o direito de voto aos mulatos, as tensões sócio-étnicas literalmente "explodiram" na ilha.  Deflagrou-se uma revolta de escravos que levou ao extermínio de brancos e a destruição dos canaviais.  A revolta se alastrava cada vez mais e sob a liderança de Toussaint L'Overture, os vários exércitos negros foram unificados para enfrentar a repressão colonialista, habilmente jogando com diferentes alianças com a Inglaterra, a França e a Espanha, todos interessados no domínio do rico território.
Nos anos seguintes, com a França mergulhada na instabilidade política que levou à queda da monarquia, instauração da República (primeiro jacobina e depois dos girondinos burgueses) com a Convenção e o Diretório, completando-se com a ascensão de Bonaparte ao poder, a revolta negra sobreviveu.  Mas com a estabilização política na antiga metrópole, Napoleão enviou um exército de 47 mil homens para retomar o controle da ilha.  Acuado, porém sem ser efetivamente derrotado, L'Overture negociou um acordo com os franceses e foi à França para encontrar-se com as autoridades, sendo recompensado por sua "boa vontade", com uma cela de prisão onde ficou até morrer.
Agora sob a liderança de Dessalines (outro general negro), os franceses foram derrotados e a independência foi proclamada, denominando-se então o território como Haiti.  Naquele momento calculava-se em 200 mil os mortos da revolta.
Nos anos seguintes, a instabilidade levou a separação do território em dois, tendo a parte oriental sido reocupada pelos espanhóis, proprietários "originais" da ilha anteriormente.
Até 1957, golpes, motins e intervenções estrangeiras se sucederam e mantiveram o país num contexto caótico.  Mas a chegada de Papa Doc  Duvalier instaurou uma feroz ditadura policial que exterminou os opositores e enfrentou a Igreja Católica perseguindo-a e valorizando as manifestações de caráter sincrético: o vodu.
Substituído em 1971 por seu filho, o Baby Doc, que governou até 1986, as condições materiais e políticas foram continuamente se deteriorando e alimentando uma crescente revolta e insatisfação popular contra o regime.
Mesmo com a queda do regime as condições políticas estavam longe da estabilidade.  Eleições com grande índice de abstenções, golpes militares, fuga crescente da população rumo aos EUA, ameaças de intervenção, mandatos interrompidos, Junta Militar, fraudes...
Todo este quadro culminou com uma intervenção da ONU, antecedida por um bloqueio total da ilha para o restabelecimento do estado de direito mínimo no território (lógico que sua parte ocidental) em 1994.
Como esta intervenção foi insuficiente, a ONU autorizou, por meio do Conselho de Segurança, que uma Força Multilateral sob liderança brasileira fosse enviada - constituindo-se na MINUSTAH, ou Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti, em 2004.
Toda esta turbulenta trajetória tornaram a outrora própera colônia no país mais pobre das américas.
Tem uma população estimada de pouco mais de 8 milhões de habitantes e apresenta uma expectativa média de vida de pouco menos de 61 anos. A mortalidade infantil é de quase 49 para cada mil nascimentos.
O terremoto de janeiro de 2010, para além do ainda impreciso número de mortos (50 mil segundo a Cruz Vermelha, ou até 100 mil segundo especulações) agravou um quadro já desesperador e supradimensionou a tragédia.
O que foi construído ou reconstruído desde a entrada da ONU no país, ou seja, nos últimos 15 anos, virou pó em alguns segundos do tremor principal e nos terremotos secundários.

Nota:
Sobre a revolta escravista, ver Revolução Negra, de Aloisio Milani, in História Viva nº 51, ano V, pp 64 a 69.
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