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domingo, 23 de dezembro de 2012

Uma terceira intifada palestina está no horizonte?

Hebron, Palestina – Batalhões da União Nacional, um novo grupo que reúne partidários de todo o espectro político palestino, convocou uma terceira intifada (levantamento popular) contra a ocupação, ao mesmo tempo em que a espionagem israelense alerta que estão dadas as condições para isso na Cisjordânia. Os dois pronunciamentos ocorrem após uma série de protestos e confrontos entre soldados de Israel e jovens palestinos em diferentes localidades da Cisjordânia no final da semana passada, após a morte de Mohammad Salayma, de 17 anos, às mãos de um guarda fronteiriço em Hebron.

Seguidores de Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), Fatah, Jihad Islâmica e Frente Popular de Libertação da Palestina anunciaram a criação dos Batalhões da União Nacional (BUN), por intermédio de um vídeo distribuído no mesmo final de semana.

O novo grupo propõe-se consolidar a luta contra Israel. Embora tenha apoiado o reconhecimento pela Organização das Nações Unidas (ONU) da Palestina como membro observador, declarou que lutará para “recuperar toda a Palestina, do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão”. Segundo o vídeo, “este é o começo da terceira intifada palestina, que começa no coração de Hebron e se propagará por toda a Palestina”. As duas revoltas populares anteriores aconteceram entre 1987 e 1993 e de 2000 a 2005.

Os membros dos BUN ameaçaram sequestrar soldados de Israel caso as forças militares desse país não suspendam a detenção de cidadãos palestinos. Também disseram que se o Estado judeu continuar a matar civis com impunidade pagará pela mesma moeda.

As exigências do grupo incluem a eliminação dos postos de controle na Cisjordânia, a libertação de todos os presos palestinos das prisões de Israel, a retirada deste país dos territórios que ocupa e a transferência para a Autoridade Nacional Palestina (ANP) da arrecadação de impostos, confiscada pelo Estado judeu desde que melhorou o seu status na ONU. Também reclamam a abertura de todas as passagens fronteiriças e o fornecimento de água e eletricidade à assediada Faixa de Gaza.

A declaração foi difundida no dia 14, um dia após a morte de Salayma, sobre a qual soldados israelenses alegaram que foram ameaçados com uma arma de plástico. Contudo, a família do jovem deu à IPS uma outra versão para o caso. “Duvido que Mohammad tivesse uma arma de plástico. Creio que os israelenses a colocaram depois do disparo”, denunciou à IPS o tio do rapaz, um polícia da ANP. Ele acrescentou que “era o aniversário de Salayma, que saiu para comprar um bolo para comemorar. Para ir à loja tinha que passar por um posto de controle militar, na ida e na volta. Se tivesse a réplica de uma arma, a máquina de raio X tê-la-ia detetado”.

Nasim Salayma, de 22 anos, primo da vítima, afirmou que “era um estudante feliz e inteligente, e representou a equipa palestina de luta na França. Voltava para casa com o bolo e somos obrigados a acreditar, de repente, que tentou impor-se a um grupo de soldados treinados e fortemente armados? Ele não era estúpido”.

Organizações internacionais defensoras dos direitos humanos, bem como palestinos e israelenses, registaram ao longo dos anos numerosos casos de palestinos assassinados por soldados israelenses em circunstâncias extremamente controversas. Do que não resta dúvida é que este último assassinato gerou um profundo mal-estar. Centenas de jovens saíram às ruas de Hebron no dia 13 para expressar o seu descontentamento contra os soldados israelenses, atirando pedras e queimando pneus.

Dezenas deles ficaram feridos, alguns gravemente, atingidos por munições reais e gás lacrimogêneo. Os protestos espalharam-se a outros povoados e outras cidades da Cisjordânia. A IPS testemunhou confrontos em Hebron no dia seguinte, durante uma manifestação de partidários do Hamas que comemoravam o 25º aniversário da criação desse movimento.

Foi a primeira vez em anos que a ANP permitiu ao Hamas organizar uma manifestação na Cisjordânia, no contexto de uma aproximação entre essa organização e o Fatah, principais partidos palestinos arquirrivais. Os pequenos passos para a unidade foram dados após o fortalecimento político do Hamas, depois do último ataque israelita contra Gaza, de 14 a 21 de novembro, que uniu os palestinos de todas as facções. As forças de segurança dos dois partidos também reduziram drasticamente o número de detenções mútuas.

Essa situação fez com que a imagem do Hamas crescesse na Cisjordânia, somada à próxima transferência por Israel de vários presos dessa organização de Gaza para a Cisjordânia, e pode consolidar mais a sua presença neste território palestino. Outro elemento que pode contribuir para nova insurreição popular é o possível colapso ou a dissolução da ANP pelo fato de o Estado judeu confiscar mais de 1 milhão de dólares de impostos dos palestinos.

A ANP é a fonte de rendimento de várias centenas de famílias palestinas, o que faz numerosos especialistas preverem que um desemprego em massa se seguirá à dissolução desta entidade e deixará os palestinos numa situação desesperante. A indignação dos palestinos aumentou com o recrudescimento de ataques de colonos israelitas e a contínua expropriação das suas terras. Além disso, depois do reconhecimento internacional que significou a melhora de status dentro ONU, cresceu o sonho de um Estado próprio.

Enquanto isso, a Shin Bet, a agência de espionagem interna, observou que o mal estar generalizado nos territórios ocupados pode fomentar o desenvolvimento de um tipo de infraestrutura capaz de incentivar uma terceira intifada, segundo a imprensa israelense.

domingo, 28 de dezembro de 2008

A Espiral Satânica

O ATAQUE
O fim da trégua entre Israel e o Hamas em novembro deste ano, restaurou o crescente clima de desgaste contra a fronteira oeste dos israelenses. Duzentos ataques de morteiros e foguetes depois, a máquina militar de Israel - sob pressão interna para agir - reagiu, provocando um banho-de-sangue absolutamente desproporcional, pois as duas centenas de ataques (segundo o Estadão) não haviam provocado a morte de nenhum judeu; mas a resposta israelense fulminou 271 mortos e um impreciso número de feridos que vão de 700 a 900. Entre os mortos estão mais de cem homens que estavam numa cerimônia de formatura, e que reforçariam militarmente os Hamas.
Uma sucessão de ataques aéreos atingiu instalações do Hamas como delegacias, depósitos diversos, veículos e até uma mesquita, mas mesmo assim os ataques contra o território de Israel não sofreram, aparentemente, nenhum dano já que logo depois da ofensiva aérea, os bombardeios recomeçaram com morteiros e mísseis caseiros Kassam, matando uma mulher e ferindo outros quatro cidadãos israelenses.
O Egito abriu sua fronteira com Gaza para permitir a saída de feridos e o socorro e abastecimento da população local e viu sepultada no curto prazo, a possibilidade de intermediar um novo cessar-fogo entre os oponentes.
O governo israelense afirma que o ataque foi levado à cabo por 60 aviões F-16 (fabricação norte-americana e que extende aos EUA a fúria dos fundamentalistas) e levou a Autoridade Nacional Palestina (ANP) a conclamar a população da Cisjordânia para doar sangue. O governo judeu também afirma ter destruído 95% dos alvos previstos, todos eles de natureza militar, e embora poupando alvos religiosos, foi lembrado ue uma sinagoga foi atingida por bombas palestinas.
Talvez a população local, em pânico em meio aos foguetes ar-terra disparados pela FAI tenham uma opinião diferente acerca dos acertos do ataques de Israel.

DESDOBRAMENTOS
O passo seguinte de Israel parece ser uma ofensiva terrestre para reassumir o controle sobre Gaza, abandonada em 2005 e que ao invés de melhorar as relações com os palestinos, permitiu a intensificação de ataques na fronteira ocidental. Uma ofensiva terrestre restauraria o domínio militar sobre a região e permitiria confrontar abertamente o Hamas.
Os países árabes estudam uma resposta conjunta ao massacre israelense, mas deve limitar-se à ações diplomáticas, exceto se no caso de um ataque terrestre, produzir-se alguma mudança neste quadro.
É plausível que o Irã estimule e dê cobertura ao Hezbolah (movimento xiita de resistência no Líbano) para abrir uma outra frente de luta contra Israel na fronteira oriental do Estado Judeu, tanto para demonstrar solidariedade e resistência, como para aliviar a pressão contra os palestinos de Gaza.
O próprio Irã ganha mais argumento para prosseguir com seu programa de desenvolvimento de mísseis e que, por si só, tem sido um ponto de atrito nas relações internacionais já que está associado com o desenvolvimento do programa nuclear do país, e, potencialmente, poderia dotar os iranianos de Armas de Destruição em Massa (ADM) de alcance intermediário, cobrindo o território de Israel.
A Síria volta a ganhar força também ao apoiar - ainda que sorrateiramente - os grupos resistentes à Israel e ela continua sendo uma importante peça do tabuleiro libanês.
Os EUA são atropelados pela iniciativa militar de Israel e, mais uma vez, conduzidos à situação de sendo espectadores, não são imunes à reação dos jihadistas, já que os vínculos norte-americanos/israelenses são amplos e antigos. Também vale lembrar que a administração Bush está em seu ocaso e como Barack Obama vai lidar concretamente com os conflitos regionais no médio oriente ainda é uma incógnita, apesar das declarações do "candidato" Obama reafirmarem a histórica aliança e confirmar o apoio da Casa Branca ao governo de Tel Aviv. Para a administração norte-americana, cabe ao Hamas agir, evitando as iniciativas militares de Israel pela repressão aos ataques fronteiriços. A única mudança visível no curto prazo parece ser a orientação de enfatizar uma solução via ONU, com mais parceria e menos unilateralidade.
Esta, por sua vez, convocou uma sessão de emergência do Conselho de Segurança mas nenhuma ação efetiva deve ocorrer, já que os Estados Unidos tem poder de veto e certamente o usarão, apesar do ônus político da decisão. Assim, a atuação do mesmo limitar-se-á "a um apelo".
Enquanto não se concretiza alguma ação política de pacificação que leve o Hamas a renunciar à destruição de Israel, aceitar a existência de fronteiras reconhecidas internacionalmente e que, da parte de Israel contemple a formação efetiva de um Estado palestino, não parece ser possível renunciar ao uso da força.

Manifestações, apelos, ameaças, mais ódio e redicalismos alimentam, na Terra Santa, a inconclusa descida ao Inferno.