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domingo, 22 de janeiro de 2023

Sobre a troca no comando do Exército - instituição republicana mas com pretendentes à uma Guarda Pretoriana!

Revista Piauí
Tem uma parcela das FFAA que continuam se comportando como se fossem recrutas do "exército" privado de Bolsonaro,  e não como servidores militares da República. 
A lista de "insubordinações" vem desde muito tempo.  Elas incluem insinuações  - como sempre - de chefes militares sobre mudanças,  o estado de saúde Lula, tolerância com os acampamentos antidemocráticos, a entrega antecipada dos cargos dos comandantes para não serem exonerados pelo presidente eleito, a mais absoluta inação diante do golpe frustrado do dia 8 de janeiro, a movimentação militar diante do acampamento golpista com a colocação de blindados e tropa para impedir que envolvidos na destruição das sedes dos três poderes fossem capturados - finalmente pela ação da PM (por que esse aparato não foi visto antes e nem naquele dia?), a recusa do comandante do Exército em permitir mesmo com a intervenção do ministro da Justiça Flávio Dino que fossem presos [segundo relatos o general disse "Ali ninguém será preso"], a omissão do GSI/BGP* em relação a tudo que transformou no dia 8 e finalmente culminando coma nomeação de um conhecido oficial da confiança de Bolsonaro para comandar uma tropa importante perto da capital.   Essa foi a gota d'água pois Lula fez saber pelo ministro da defesa que o militar devia ser exonerado e o comandante do Exército se recusou.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Pensando sobre os acontecimentos de domingo, dia 08 de janeiro de 2023.

Primeiro que esses criminosos não são "patriotas". Nunca foram senão foras da lei pois o que propunham era contrário à Constituição.   Não é  questão ideológica e lamento até pessoas queridas que entendem de outra forma mas que não levam seu raciocínio "libertário" a temas como pedofilia, feminicídio ou consumo de entorpecentes.
Segundo, o silêncio dos militares.  Acho que quando não se manifestam já é um avanço pois nas últimas décadas deixamos de nos preocupar com o que diziam as ordens do dia.  Os últimos anos não serão varridos da noite para o dia, mas também não serão varridos se forem para baixo dos tapetes: que se averigue e cobre uma ação - ainda que corporativa de autocrítica - ou se exponham a uma ação externa.  A anarquia em seu sentido mais pejorativo,  devia, a priori, causar urticária nos militares e chama a atenção a recusa do comandante da Marinha em a passar o comando para o sucessor.
Terceiro os danos patrimoniais e culturais são inestimáveis e em alguns casos irrecuperáveis.  Mas talvez sejam o sacrifício para salvar a democracia que sofreu seu ataque mais violento.  E isso não foi pouco dentro de uma quadra onde os ataques contra ela foram de uma escalada crescente.  Porém podemos entender e esperar que uma direita democrática pode ser a herdeira dessa extrema direita fascistóide e em grande parte amorfa, simploria, rasteira e meramente cimentada por uma pauta vaga o suficiente para juntar qualquer um vagamente insatisfeito e acrítico.
Quarto aspecto é  que o processo contra os detidos - irrelevantes suas desculpas sobre uma certa "irresponsabilidade" por falsas crenças,  manipulação digital, desemprego etc - pois esse raciocínio não exime ninguém.  Desconhecer a lei não isenta o homicida, o motorista infrator ou o sonegador.  Logo .... Portanto deverão arcar com sua participação ainda que inerte na destruição perpetrada.  Fazer parte de organização criminosa não cria interstícios entre quem comanda e quem serve o café! Pode afetar o peso do castigo, mas não fabrica "per si" inocentes.
Quinto é a questão dos financiadores.  Residentes por aqui ou não é  vital, é talvez mais eficaz no curto prazo, seguir o rastro do dinheiro.  Na justiça os processos hão de levar tempo até que se chegue a termo, o que não impede que pelo constrangimento e nos empecilhos cotidianos aos envolvidos junto aos órgãos do Estado, a penalização já possa ocorrer.  Mas os financiadores dessa trama criminosa podem sentir muito mais rapidamente o peso da mão do Estado democrático.  Identificar os orquestradores do caos deve ser seguida pelo levantamento de seus débitos (caso existam) junto ao mesmo, execução destas dívidas e impedimento de acesso ao crédito via instituições bancárias e financeiras.  Mais uma vez, não são inocentes, são criminosos contra as instituições.
E finalmente,  assim como estes, é necessário apurar as responsabilidades daqueles que se omitiram, seja por incompetência,  covardia, preguiça ou simpatia política.  Apurar e punir aqueles que prevaricaram - em todos os níveis - é fundamental!  E destaque-se o papel do STF, que resistiu institucionalmente praticamente só aos desmandos e arroubos autoritários do bolsonarismo.  Não por acaso, dos três prédios sede dos poderes republicanos, foi o do STF que foi mais danificado, destruído,  vandalizado pela turba criminosa.
E quem pensou que o fio da navalha tinha sido a eleição,  fomos confrontados com uma realidade mais crua: a tentativa de golpe do domingo, dia 08 de janeiro.
Escapamos de ambas, mas estejamos alertas para que não haja uma terceira, nem que não seja para abusar da sorte.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Tentativa de golpe II

Começa o desmonte dos acampamentos golpistas por determinação judicial.  Idiotas aqui insuflados por arruaceiros que estimulam guerra civil , mentiras e contestação ao Estado de Direito que estão em outros países,  especialmente Estados Unidos!

domingo, 18 de dezembro de 2022

O É da Coisa - rádio Band News FM do dia 16/12/2022

O jornalista Reinaldo Azevedo esmiúça a questão do orçamento mentiroso de 2023, a leniência com os golpistas bolsonaristas e as posturas da PGR e do Exército  https://www.youtube.com/live/yxaePEOFl08?feature=share

quarta-feira, 31 de março de 2021

viagem no tempo ou mais uma cortina de fumaça?

 Encerrada em 1985 com a transição para um regime democrático,  processo que levou alguns anos e balizou temporalidades distintas de conclusão, a ditadura militar e as questões das casernas pareciam cada vez mais restritas aos seus temas internos.
Sua duração e tempos de encerramento foram objeto de reflexão de diferentes historiadores que apontavam distinções sobre se o regime instituído em 1964 e formalmente terminado naquele 1985 tinha sido uma ditadura em todo esse período ou não, se este regime tinha terminado em 1985 com a eleição indireta da chapa Tancredo-Sarney, se com a posse de José Sarney, com a Constituição de 1988 ou ainda com a eleição e posse de Fernando Collor de Melo (primeiro civil eleito desde 1961 e Jânio da Silva Quadros).
Mas eis que desde a eleição e posse de Jair Bolsonaro a narrativa celebrativa daquela época,  depois de anos de progressivo obscurecimento,  voltaram a povoar o centro das atenções. 
E hoje, 31 de março de 2021, quase 6 décadas depois daquele momento de ruptura institucional estamos desde segunda-feira discutindo se haverá ou não golpe militar, se o presidente protagonizará um autogolpe, o que acham as casernas sobre isso, a politização das Forças Armadas e o risco disso,  o teor das ordens do dia das diferentes forças sobre a data,  a crise militar orquestrada pelo próprio Palácio do Planalto,  a saída dos ministros militares em apoio ao ministro da defesa - defenestrado de surpresa na segunda-feira - e a nota hoje do novo velho ministro Braga Neto cheia de mentiras históricas mas bem ao os o do presidente. 
No pano de fundo, vamos registrar aqui o vídeo de Gabriela Priolli que esmiuça mais uma manobra diversionisa deste que desgoverna governando ou governa desgovernado!
Bons eram os tempos en que não precisávamos saber o que os militares pensavam sobre a tomada do poder e ruptura institucional democrática pela força. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A África no Plural



FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DUQUE DE CAXIAS – FEUDUC
FACULDADE DE FILOSOFIA CIÊNCIAS E LETRAS DE DUQUE DE CAXIAS
Centro de Pós-graduação, Especialização e Aperfeiçoamento – CEPEA
Departamento de História
Curso de Pós-graduação Lato Sensu: História e Cultura Africana(s) e Afro-brasileira(s)









Trabalho final da disciplina Ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira apresentado ao professor Cláudio Honorato.





Aluno(a): Cláudio de Almeida









Rio de Janeiro
Outubro de 2016








                Desde longe cristalizavam-se no imaginário europeu visões negativas acerca do continente africano e dos povos que lá habitavam.  São exemplares expressões como “Cuidado com a baía de Benin, para cada um que dali sai, vinte ali tem fim” que enfatizava o caráter de lugar fervilhando de doenças, “a terra mais enferma que há” disse um missionário¹.  Tais visões pejorativas foram reforçadas posteriormente à medida em que as teorias atribuíam às diferenças biológicas o que antes era fruto de justificações religiosas: dos amaldiçoados filhos de Cã à inferioridade racial das populações negroides apenas se transitava da crendice ao cientificismo da biologização das relações sociais.  Outrossim, as visões eurocêntricas enxergavam a África e os africanos como um todo unidos pelo preconceito do branco europeu ou ocidental em relação ao outro.
            Por sobre séculos de violência, exploração e desencontros, populações, culturas e trajetórias foram sendo niveladas por uma visão totalizante, idealizada e imprecisa onde pensar a África e seus povos, significava pensar não no plural, mas no singular.  Da costa berbere ao extremo sul, da Costa do Ouro à Etiópia, tudo era cristalizado num estereótipo reducionista.  Hoje, superar esta visão, torna-se mister quando se busca reafirmar as diferenças, enriquecendo e complexificando as abordagens sobre o tema.  Assim sendo, descortinar esse painel como um mosaico, e não como uma expressão monocromática ou monotemática, é reforçar a necessidade do pluralismo, seja cultural, confessional, econômico, histórico etc.
            Dentro desta visão multifacetada que urge revelar, que temos a inciativa decorrente da lei 10.639/03.  Ao enfatizar a necessidade de uma História da África e das africanidades, busca-se trazer para o cotidiano das relações sociais e da vivência política étnico-cultural a percepção da existência do outro e a necessidade de lidar com as diferenças de forma democrática, multicultural e até intercultural.  Ver o outro é criar a oportunidade de se ver, também, como um sujeito histórico; rejeitar a visão estreita do etnocentrismo é desenvolver, de forma saudável, a alteridade.  E nisso a História tem um papel fundamental.
            A História não pode, porém, a pretexto de se rever as visões consolidadas, incorrer na armadilha de trocar um conjunto de representações distorcidas por outro.  Ou seja, aceitar que as análises, críticas em relação por exemplo ao caráter passivo dos escravizados, sejam “sequestradas” por um discurso que se nutre da necessidade de superar defasagens – reais e históricas – criando todo um outro conjunto de estereótipos, por razões políticas ainda que legítimas, me parecem pouco contribuir para produzir uma visão real acerca do que houve.  Exaltar a revolta dos malês, na Bahia oitocentista como manifestação de resistência libertária dos negros, e assim apropriada pelo movimento negro contemporâneo, implica ocultar o seu caráter mantenedor do próprio escravismo.
            É fundamental que a academia tenha condições de propor e explorar temas correlatos em função da desconstrução daquilo que existe como senso comum em relação aos escravizados e suas dinâmicas de vida.  Cito por exemplo o conceito de brecha camponesa: tema já mais que explorado por historiadores, e que tem se diversificado em inúmeras situações relacionais no binômio senhor/escravo. Esta contribuía não só para descomprimir um sistema que tinha na violência física e moral um caráter nuclear, mas se apresentava sob inúmeras configurações acomodando as contradições e diluindo as tensões rotineiramente dialéticas entre o “opressor e o oprimido”.
            Ademais portanto, não uma, mas diversas brechas existiam no interior do sistema escravista colonial/imperial luso e brasileiro tais como a coartação, o apadrinhamento nas fugas ou castigos, greves, quilombos urbanos, o acúmulo de pecúlio pelos escravos de ganho ou que faziam o comércio de retalhos, autorizações para escravos transportarem e venderem sua produção em carros e barcos dos senhores, etc.²
Ressalvando-se, portanto que, longe do estereótipo anômico e passivo dos escravizados, existia um sujeito histórico ativo capaz de desenvolver refinadas estratégias de convívio, sobrevivência e libertação podemos redefinir, a visão acerca da escravidão.  Entender que apesar de toda a violência intrínseca à escravidão aqueles indivíduos desenraizados, violentados e mercantilizados, foram, ainda assim capazes não só de viver, mas sobreviver e superar seus traumas, medos e violência cotidiana, convertendo a escravidão em espaço de negociação.


NOTAS
¹ ALENCASTRO, Luiz Felipe de.  O Trato dos Viventes – Formação do Brasil no  Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 1ª Reimpressão. P. 55.
²  PAIVA, Eduardo França.  Escravidão e Universo Cultural na Colônia: Minas Gerais, 1716-     1789.  Editora UFMG, 2001.
LIBBY, Douglas C.  A Escravidão no Brasil.  Editora Moderna. São Paulo, 2000, p. 45.

Uma República Entre Mitos, Expectativas e Realidades.

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
CENTRO DE ESTUDOS GERAIS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU - HISTÓRIA DO BRASIL
TRABALHO PARCIAL 3 - MÓDULO REPÚBLICA - LIVRO 1
UMA REPÚBLICA ENTRE MITOS, EXPECTATIVAS E REALIDADES
por Cláudio de Almeida  Turma C    Niterói   2007
Resenha crítica sobre CARVALHO, José Murilo de
“A Formação das Almas - O Imaginário da República no Brasil”. Companhia das Letras, 15ª reimpressão, 2005, São Paulo. 1990. 

O Império no 9º Círculo - Trajetórias de uma Elite e um País.

Resenha Crítica sobre o Livro A Construção da Ordem - a elite política imperial / Teatro das Sombras - a política imperial.   José Murilo de Carvalho, Civilização Brasileira, RJ. 2003, 4ª edição..


https://www.4shared.com/office/6iFyIrsx/O_Imprio_no_Nono_crculo.html

domingo, 25 de agosto de 2013

Carta Maior - Para especialistas, política de segurança de Cabral vive risco de esgotamento



     Rio de Janeiro – A implementação da política de polícia pacificadora pelo Governo do Rio de Janeiro trouxe à população do estado a sensação de que o perfil de atuação da Polícia Militar havia melhorado como um todo. Antes identificada por sangrentos e quase diários conflitos armados nas comunidades dominadas pelo tráfico de drogas, pelo total desrespeito aos direitos humanos dos moradores dessas comunidades e pela abordagem violenta e extorsiva a qualquer cidadão de baixa renda - usuário de drogas ou não –, a PM fluminense dava sinais, com a formação de uma nova leva de profissionais com nova mentalidade para atuar nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), de que poderia iniciar uma nova etapa em sua história centenária. Esse sempre foi um dos principais trunfos, talvez o principal, da gestão do governador Sérgio Cabral nesses seis anos e meio de governo.
     Uma série de episódios ocorridos nos últimos dois meses, no entanto, faz com que uma nova onda de desencanto do habitante do Rio de Janeiro com a atuação de sua PM contribua decisivamente para o atual momento de desgaste acentuado na popularidade de Cabral. Tudo começou com a excessiva resposta aos tumultos ocorridos nas manifestações de rua, passou pela bárbara invasão do Complexo da Maré pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope), que culminou com oito mortes, e teve seu ápice com o desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza após ser levado por policiais da UPP da Rocinha, em uma caso ainda sem explicação.
     Na mesma semana em que os índices mensais divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) revelaram um aumento de 35% no número de “homicídios decorrentes de intervenção policial” no estado em relação a junho do ano passado, alguns dos principais especialistas em segurança pública do Rio de Janeiro, embora reconheçam acertos na política de UPPs, apontam os riscos de seu esgotamento, além da expectativa de aumento das dificuldades logísticas e operacionais com a expansão para outras comunidades. A mudança do perfil da PM, por sua vez, ainda é considerada uma construção em estágio inicial, como comprovam os fatos recentes: “Seria ingenuidade pensar que se consegue mudar fundamentalmente o comportamento da polícia em um curto espaço de tempo, seja no Rio de Janeiro, seja em qualquer lugar do Brasil”, diz a socióloga Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes.
     Julita concorda que a gestão das UPPs enfrenta mais dificuldades desde que a polícia pacificadora chegou a comunidades maiores e onde o tráfico de drogas era mais forte e enraizado, como Complexo do Alemão, Rocinha e Mangueira, entre outras: “É claro que, no início, com um número pequeno de UPPs, a possibilidade de acompanhamento era maior e um maior controle era mais fácil. No início, com meia dúzia de UPPs e uma preocupação muito grande de que o projeto se consolidasse, esse trabalho minucioso de acompanhamento era mais simples. Na medida em que cresce o número de UPPs, é evidente que cresce o número de problemas e a dificuldade de controle. Então, muito do que a gente está vendo é o resultado da escala, pois hoje você tem um número de UPPs muito grande, com milhares de policiais envolvidos”, diz.
     O sociólogo Ignacio Cano, do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), diz que vários elementos explicam o atual momento de questionamento à gestão da política de polícia pacificadora: “Na medida em que as UPPs vão crescendo, evidentemente a possibilidade de incidentes e de problemas aumenta. Hoje, o clima político contribui para o desgaste do processo das UPPs, e há também a mudança ocorrida agora no Comando da PM, as manifestações”, diz, antes de apontar outro elemento bastante objetivo: “Os homicídios foram caindo, não só pelas UPPs, mas por várias políticas durante muito tempo. Mas, nos últimos meses eles já não estão caindo mais, inclusive aumentaram. Então, há um certo esgotamento das políticas atuais. Agora, precisamos de novas políticas para continuar melhorando”.
     Professor de História Contemporânea do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Francisco Carlos Teixeira é taxativo: “A política de polícia pacificadora está errada desde o início, e era inevitável que nessa fase ela se desmantelasse. Em primeiro lugar, o governo estadual entendeu o combate ao tráfico como sendo ocupação de território, mas o tráfico nunca precisou de ocupação de território para existir, como mostra a realidade em outros países como a Alemanha, a França ou os Estados Unidos. Ele se constitui como uma rede, e ainda mais hoje, quando envolve também tráfico de armas e lavagem de dinheiro. É uma coisa extremamente complexa”, diz.
     Essa capacidade de articulação e adaptação do tráfico, diz Teixeira, desgasta a política de UPPs: “O tráfico não saiu das comunidades ditas pacificadas. No momento seguinte à ocupação, mesmo no Alemão, o tráfico já estava lá. O tráfico voltou e se instalou, se é que ele saiu. Aí, começou uma ficção na qual a polícia pacificadora fingia que o tráfico não existia para não desmoralizar a própria política pública de segurança, e o tráfico fingia que não estava fazendo os seus negócios tal como antes. Quando chegou o momento em que essa relação ficcional entrou em colapso - por mero atrito (porque, enfim, essas partes não podem viver juntas o tempo todo sem atrito), por questões mínimas, às vezes por questões pessoais entre protegidos do tráfico e da polícia, às vezes por questão de propina - o negócio todo explodiu e a tensão entre as duas partes voltou a aparecer”.
Efetivo
     “A grande questão das UPPs é a sustentabilidade no longo prazo”, diz Julita Lemgrubrer, apontando como maior dificuldade a necessidade de envolvimento de um contingente cada vez maior de policiais militares: “A proporção policial/habitantes nas áreas das UPPs é enormemente maior do que no resto do estado. É um número de policiais com o qual a cada dia se torna mais difícil contar. Além disso, o orçamento não é elástico. Então, você conseguir incorporar ao contingente da PM um número infinito de policiais é absolutamente impensável. É uma questão impensável para o futuro”, diz a socióloga.
     Para Ignacio Cano, a questão do efetivo policial para atender à demanda das UPPs deve ser a principal preocupação do governo estadual na área de segurança pública nos próximos meses: “A experiência do Alemão, sobretudo, mostra que o contingente talvez não tenha sido suficiente para controlar o território, e acho que agora o governo está com receio disso. Portanto, vão tomar mais cuidado e colocar um número de policiais maior nas próximas UPPs. O cobertor é curto no início porque o nível do investimento em capital humano na UPP é muito elevado. O cobertor já era curto e vai continuar sendo curto. A questão é que ele não é só curto, mais também muito seletivo, age em determinadas áreas e esquece outras”, diz.
     Francisco Carlos Teixeira faz uma comparação: “A mesma premissa errada da política do Bush no Iraque nós cometemos, em outra dimensão e proporção, na ocupação das comunidades do Rio de Janeiro. Cá, como lá, você pode colocar um cara dentro de cada domicílio que não vai resolver. O governo arrisca fazer como os Estados Unidos, que tentaram passar de 80 mil homens para 120 mil homens e depois para 180 mil homens e acabaram tendo de virar as costas e agora está lá no Iraque aquele inferno”.
Avanços
     Apesar da constatação dos desgastes sofridos pela política de UPPs, os especialistas em segurança pública reconhecem os avanços trazidos, sobretudo para as comunidades beneficiadas e os bairros em seu entorno. Para Julita Lemgrubrer, “é muito importante não jogar fora a criança junto com a água do banho” ao se estudar possíveis correções de rumo: “É preciso procurar realmente preservar alguns avanços que aconteceram em função da política de UPPs, como a redução de uma série de delitos, não só nas UPPs, mas no entorno das UPPs. A gente teve uma redução significativa na violência letal da polícia nessas áreas. Isso não quer dizer que a violência policial não continue e que não tenha que ser reprimida e punida. Agora, não se pode também negar – os números estão aí para confirmar e inúmeras pesquisas mostram isso – que houve uma redução do número dos autos de resistência nessas áreas. Então, isso é alguma coisa que tem de ser preservada”.
      Para Ignacio Cano, é preciso separar a propaganda da realidade: “Seria fantasia – e foi uma fantasia compartilhada por muitos – achar que a UPP iria resolver tudo e que não haveria mais problema. Não existe isso. Vamos continuar tendo abusos, denúncias, incidentes e alguns atos de violência. O importante é que esses fatos sejam claramente inferiores ao período anterior como vêm sendo. Esse é um desafio da expansão das UPPs que traz como conseqüência o aumento da probabilidade da ocorrência de incidentes e problemas”.
      Para estrangular de fato o tráfico de drogas, Francisco Carlos Teixeira propõe uma colaboração que transcenda o governo estadual: “Você teria que fazer um trabalho extremamente complexo com a Receita Federal, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal, com inteligência e, principalmente, com o controle dos fluxos de capital, para secar o tráfico”, diz. Teixeira, no entanto, lamenta: “Mas, isso não está disponível para ser feito porque se criou essa mítica de que aquelas pobres pessoas que ficam de arma na mão dando uma de caubói são os chefões do tráfico, quando na verdade não são e muitos nunca sequer tiraram o pé da comunidade. Os grandes chefões estão fora dali, e o controle dos grandes fluxos de capital iria revelar isso”, aposta.
Velha polícia
     As sucessivas ações policiais violentas nas comunidades e bairros sem UPP, aliadas à chacina da Maré e ao desaparecimento de Amarildo, revelam que a sensação de que uma Polícia Militar com nova mentalidade está sendo constituída no Rio de Janeiro se restringe a algumas áreas do estado e que vigora a prática dos dois pesos e duas medidas, sobretudo, em relação à população mais pobre: “Fora das UPPs, a realidade não mudou, a letalidade continua sendo elevada, a doutrina é a de sempre. É ingenuidade pensar que a UPP transformou completamente a polícia. Há um desafio que caminha nessa direção, mas é claro que em paralelo nós temos ainda helicópteros da polícia dando tiro a rodo, temos o Bope se vingando da morte do sargento na Maré. O velho modelo de segurança continua plenamente vigente na maior parte do território”, diz Ignacio Cano.
     Julita Lemgrubrer afirma que o governo pratica uma política dúbia: “Infelizmente, o Rio de Janeiro tem duas vertentes de política de segurança pública. Uma, constituída pelas UPPs, para o bem e para o mal, com o que tem de bom e ruim das UPPs, que também se constituem em uma forma de controle autoritário dessas áreas. Agora, não há dúvida de que você tem, em todas as outras áreas do Rio de Janeiro, a mesma polícia de sempre, que é uma polícia violenta, desrespeitadora dos direitos da cidadania, que em nada se diferencia da polícia que sempre tivemos. Esse é o grande dilema da segurança pública do Rio de Janeiro. É a convivência, no mesmo Estado e na mesma área metropolitana, de duas propostas de segurança pública fundamentalmente diversas”.
     Francisco Carlos Teixeira compara a ação da PM na invasão da Maré e durante as manifestações de rua: “Não tenha dúvida de que nunca deixaram de atirar com balas de verdade na periferia do Rio de Janeiro, nas comunidades e na Baixada Fluminense. Eles só começaram a atirar com bala de borracha na classe média porque foi na Zona Sul, foi no Centro, foi sob a lente da televisão, inclusive da televisão internacional. Sempre foi bala de verdade na periferia e nas comunidades. Há dois pesos e duas medidas”, diz.

domingo, 3 de março de 2013

Uma terrível normalidade: os massacres e as aberrações da História


01/02/2013 - 19h12 | Michael Parenti | Nova York

Nós precisamos nos esforçar de toda forma possível pelo desenrolar revolucionário, uma revolução de democracia

Ao longo de boa parte da história, o anormal tem sido a norma, Este é o paradoxo que vamos examinar. Aberrações, tão abundantes que formam uma terrível normalidade própria, caem sobre nós com uma consistência medonha.

A quantidade de massacres na história, por exemplo, é quase maior do que nós podemos nos lembrar. Houve o holocausto do Novo Mundo, que consistiu no extermínio de povos indígenas americanos nativos por todo o hemisfério ocidental, estendendo-se por quatro ou mais séculos e continuando até tempos recentes na região amazônica.

Foram séculos de escravidão cruel nas Américas e em outros lugares, seguidas por um século inteiro de linchamentos a da segregação de Jim Crow nos Estados Unidos, e pelos numerosos assassinatos e prisões da juventude negra pela polícia atualmente.
Wikicommons

Linchamento público de Henry Smith, negro norte-americano morto por espancamento em 1893 em Paris, Texas

Não nos esqueçamos do extermínio de 200 mil filipinos pelo exército dos Estados Unidos no começo do século 20, o massacre genocida de 1.5 milhão de armênios pelos turcos em 1915, e a matança em massa dos africanos pelos colonialistas ocidentais, incluindo as 63 mil vítimas do genocídio de hererós e namaquas, no sudoeste africano alemão, em 1904, e a brutalização e escravização de milhões de belgas do Congo desde o final dos anos 1880 até a sua emancipação em 1960 – seguida pelos anos de exploração do livre-comércio neocolonial e pela repressão no que era o Zaire de Mobutu.

Os colonizadores franceses mataram 150 mil argelinos. Mais tarde, muitos milhões faleceram em Angola e Moçambique ao lado de outros 5 milhões na impiedosa região hoje conhecida como a República Democrática do Congo.

O século vinte nos deu – além de outros horrores – mais de 16 milhões de vidas perdidas e de 20 milhões de feridos ou mutilados na Primeira Guerra Mundial, seguidos pelos estimados 62 a 78 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial, incluindo 24 milhões de militares e civis soviéticos, 5.8 milhões de judeus europeus, e somados como um todo, muitos milhões de sérvios, poloneses, ciganos, homossexuais e uma porção de outras nacionalidades.

Nas décadas depois da Segunda Guerra Mundial, muitos, se não a maioria, dos massacres e guerras foram abertamente ou secretamente patrocinados pelo estado de segurança nacional dos Estados Unidos. Isso inclui os mais ou menos dois milhões deixados mortos ou desaparecidos no Vietnã, ao lado dos 250 mil cambojanos, 100 mil laosianos e 58 mil americanos.

Em boa parte da África, Ásia Central, e no Oriente Médio, hoje, existem guerras “menores”, cheias de atrocidades de todos os tipos. A América Central, a Colômbia, a Ruanda e outros lugares numerosos demais para listar sofreram massacres e extermínios em massa de centenas de milhares, uma constância de horrores violentos. No México, uma “guerra contra as drogas”, tirou a vida de 70 mil pessoas e deixou 8 mil desaparecidas.

Houve a chacina de mais de meio milhão de indonésios socialistas ou nacionalistas democráticos pelo exército indonésio patrocinado pelos Estados Unidos em 1965, que terminou seguida pelo extermínio de 100 mil timorenses do leste pelo mesmo exército apoiado pelos Estados Unidos.

Considere os 78 dias de destruição aérea da Iugoslávia pela OTAN, completada com [armas de] urânio empobrecido, e o bombardeio e invasão do Panamá, Granada, Somália, Líbia, Iêmen, Paquistão Ocidental, Afeganistão, e agora a guerra devastadora do atrito intermediado contra a Síria. Enquanto eu escrevo (no começo de 2013) sanções patrocinadas pelos Estados Unidos contra o Irã estão plantando severas dificuldades para a população civil daquele país.

Tudo o que foi citado acima faz parte de uma muito incompleta lista da injustiça feia e violenta no mundo. Um inventário completo encheria volumes. Como nós registramos os outros incontáveis abusos que marcam vidas, os muitos milhões que sobreviveram a guerras e massacres, mas seguem para sempre com corpos e espíritos quebrados, condenamos a uma vida de sofrimento e privações sem dó, refugiados que não têm comida ou remédios ou água e serviços sanitários em países como Síria, Haiti, o sul do Sudão, Etiópia, Somália e Mali?

Pense nas milhões de mulheres e crianças ao redor do mundo e ao longo dos séculos que foram traficadas de maneiras impronunciáveis, e os milhões em cima de milhões presos em uma armadilha de exploração, sejam eles escravos, servos, ou trabalhadores mal pagos. O número de empobrecidos está agora crescendo em uma taxa que supera a população mundial. Some a isso os incontáveis atos de repressão, encarceramento, tortura e outros abusos criminosos que se abateram sobre o espírito humano em todo o mundo e todos os dias.

Não deixemos passar batidas a onipresente corrupção corporativa e as massivas fraudes financeiras, a pilhagem dos recursos naturais e o envenenamento industrial de regiões inteiras, o deslocamento forçado de populações inteiras, as catástrofes intermináveis de Chernobyl e Fukushima e outros desastres iminentes esperando o envelhecimento de muitos reatores nucleares.

As mais horrorosas aberrações do mundo são tão comuns e implacáveis que elas deixam de ser extremas e nós nos tornamos acostumados ao horror de tudo. “Quem hoje se lembra dos armênios?”, é uma pergunta que Hitler teria feito enquanto planejava sua “solução final” para os judeus. Quem hoje se lembra dos iraquianos e da morte e destruição que eles sofreram em larga escala pela invasão norte-americana de suas terras? William Blum nos faz lembrar que mais da metade da população do Iraque está ou morta, ou ferida, traumatizada, presa, deslocada ou exilada, enquanto seu meio-ambiente é saturado com urânio empobrecido (do armamento estadunidense) provocando horrorosos defeitos de nascimento nos bebês.
Padrões

O que será feito disso tudo? Primeiro, nós não podemos atribuir essas aberrações ao acaso, a confusões inocentes e a consequências não intencionais. Nem deveríamos acreditar nas justificativas comuns sobre espalhar a democracia, lutar contra o terrorismo, promover resgates humanitários, proteger os interesses nacionais dos Estados Unidos e outras palavras de ordem gritadas pelas elites dominantes e seus porta-vozes.

Os padrões repetitivos de atrocidade e violência são tão persistentes que nos convidam a suspeitar que eles geralmente sirvam a interesses reais; eles são estruturais e não incidentais. Toda essa destruição e chacina deu altíssimos lucros aos plutocratas que buscam a expansão econômica, a aquisição de recursos, o domínio de territórios e a acumulação financeira.

Os interesses dominantes estão bem servidos por sua superioridade em armas de fogo e força de ataque. A violência é do que nós estamos falando aqui, não apenas a do tipo selvagem e arbitrária, mas a persistente e bem organizada. Como um recurso político, a violência é o instrumento da autoridade suprema. A violência permite a conquista de terras inteiras e das riquezas que elas contêm, enquanto se aproveita de trabalhadores deslocados e outros escravos.

Os governantes da plutocracia acham necessário maltratar ou exterminar multidões inquietas para fazer com que elas morram de fome enquanto os frutos de suas terras e o suor de seu trabalho enriquecem os círculos sociais privilegiados.

Assim, nós tivemos uma lei imperial regida pelo lucro que ajudou a causar a grande fome no norte da China, entre 1876-1879, resultando na morte de por volta de 13 milhões de pessoas. Mais ou menos ao mesmo tempo, a fome de Madras, na Índia, levou as vidas de nada menos que 12 milhões enquanto as forças coloniais enriqueceram ainda mais. E noventa anos antes, a Grande Fome na Irlanda levou a um milhão de mortes, com outro desesperado milhão emigrando de sua terra natal. Nada acidental aí: enquanto os irlandeses morriam de fome, seus patronos ingleses exportavam carregamentos de grãos e gado para a Inglaterra e outros países, ganhando para si lucros consideráveis.

Essas ocorrências devem ser vistas como algo mais que apenas anomalias históricas flutuando sem rumo no tempo e no espaço, causadas apenas por impulsos arrogantes ou casualidades. Não é suficiente condenar os eventos monstruosos e os tempos ruins, nós precisamos tentar entendê-los. Eles devem ser contextualizados no quadro mais amplo das relações sociais históricas.
Crises econômicas

O sistema socioeconômico dominante atual é o capitalismo de livre-comércio (em todas as suas variações). Junto com seu terrorismo imperialista implacável, o capitalismo de livre-comércio proporciona “anomalias normais” dentro de sua própria dinâmica, criando escassez e um excesso mal distribuído, cheio de duplicações, desperdício, superprodução, destruição ambiental assustadora, e variedades de crises financeiras, trazendo inchadas recompensas para um grupo seleto e dificuldades contínuas para multidões.

Wikicommons
As crises econômicas não são excepcionais; elas são o modus-operandi do sistema capitalista. Outra vez, o irracional é a norma.
[Grafitti em Milão, na Itália, manda aviso ao ex-premiê Silvio Berlusconi: "Pague você a crise!]
Considere a história do livre-comércio: depois da Guerra da Independência dos Estados Unidos, houve as rebeliões de débito do final dos anos 1780, o pânico de 1791, a recessão de 1809 (que durou muitos anos), os pânicos de 1819 e 1837, as recessões e quebras ao longo de boa parte do restante daquele século. A séria recessão de 1893 continuou por mais de uma década.

Depois do desemprego industrial de 1900 a 1915 veio a depressão agrária dos anos 1920 – escondida atrás do que ficou conhecido entre nós como a “Era do Jazz”, seguida de uma horrenda quebra da bolsa e da Grande Depressão de 1929-1942. Ao longo de todo o século 20 nós tivemos guerras, recessões, inflação, lutas laborais, alto desemprego – raramente um ano que pudesse ser considerado “normal” em qualquer sentido agradável. Um período normal estendido seria ele mesmo uma anormalidade. O livre-comércio é desenhado para ser inerentemente instável em todos os aspectos fora o acúmulo de riquezas para os poucos selecionados.

O que nós estamos testemunhando não é um acaso irracional em uma sociedade basicamente racional, mas o contrário: o “racional” (a ser esperado) é o acaso de uma sociedade fundamentalmente irracional. Isso significa não podemos escapar aos horrores? Não, eles não feitos por forças sobrenaturais. Eles são produzidos pela ganância plutocrática e pela decepção.

Então, se o anômalo é a norma e o horror é crônico, na nossa revanche nós temos que dar menos atenção ao idiossincrático e mais ao sistêmico. Guerras, massacres e recessões ajudam a aumentar a concentração do capital, o monopólio de mercado e dos recursos naturais, e destroem organizações trabalhistas e a resistência popular transformadora.

Os caprichos brutais da plutocracia não são produto de personalidades particulares, mas de interesses sistêmicos. O presidente George W. Bush foi ridicularizado por errar as palavras, mas sua construção de impérios e remoção de serviços e regulamentos governamentais revelou uma grande devoção aos interesses da classe dominante. Da mesma maneira, o presidente Barack Obama não é covarde. Ele é hipócrita, mas não confuso. Ele é (em sua própria descrição) um antigo “liberal republicano”, ou como eu diria, um fiel servidor das corporações da América.

Nossos diferentes líderes são bem informados, não iludidos. Eles vêm de diferentes regiões e diferentes famílias, e têm personalidades diferentes, mas ele buscam basicamente as mesmas políticas representando a mesma plutocracia.
Ações

Então não é suficiente denunciar atrocidades e guerras, nós também temos que entender quem as propaga quem lucra com elas. Nós temos que perguntar porque a violência e a decepção são ingredientes constantes.

Consequências não intencionais e outras esquisitices acontecem em assuntos mundanos, mas nós também temos que levar em consideração as intenções racionais orientadas pelo lucro. É mais comum que as aberrações – sejam elas guerras, quebras de mercado, fomes, assassinatos individuais ou matanças em massa – tomem forma porque aqueles no topo estão buscando expropriações lucrativas. Muitos podem sofrer e perecer, mas alguém em algum lugar esta lucrando sem limites.

Conhecer nossos inimigos e o que eles são capazes de fazer é o primeiro passo na direção de uma oposição efetiva. O mundo deixa de ser uma confusão terrível. Nós podemos resistir a esses agressores quando nós vemos quem eles são e o que eles estão fazendo conosco e com nosso sagrado meio-ambiente.

As vitórias democráticas, não importa se são pequenas ou parciais, devem ser abraçadas. Mas as pessoas não devem ficar satisfeitas com favores cintilantes oferecidos pelos líderes suaves. Nós precisamos nos esforçar de toda forma possível pelo desenrolar revolucionário, uma revolução de democracia, o tipo de onda irresistível que parece surgir do nada enquanto leva tudo que está à sua frente.

* Michael Parenti é um escritor e historiador norte-americano. Seus livros mais recentes são The Culture Struggle (2006), Contrary Notions: The Michael Parenti Reader (2007), God and His Demons (2010), Democracy for the Few (9th ed. 2011), e The Face of Imperialism (2011). Para mais informações sobre o trabalho dele, visite seu site: www.michaelparenti.org. Artigo originalmente publicado no site Global Research. 
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/26931/uma+terrivel+normalidade+os+massacres+e+as+aberracoes+da+historia.shtml

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os "barbudos" do Cairo e a islamização do poder


Egito: barba de premiê vira centro de debate sobre islamização


     O novo primeiro-ministro do Egito (a direita) é o primeiro na história do país a usar barba. A nomeação de Hesham Kandil, um engenheiro de 50 anos de idade, causou muita discussão no país e marca uma nova fase na sociedade egípcia, que convive com uma visibilidade cada vez maior de símbolos associados ao islamismo na esfera de poder.
     A barba, que já foi vista como um símbolo de piedade religiosa, agora representa uma atitude política e é um sinal de como as coisas estão mudando rapidamente no país. Tradicionalmente, usar barba é uma prática de muçulmanos devotos que seguem à risca os preceitos do profeta Maomé. Mas no Egito, país que há muitos anos preza o secularismo, muitos clérigos islâmicos não usam barba.
     Nos últimos 60 anos, aqueles que usavam barba no país, de maioria muçulmana (mas aliado do Ocidente, sobretudo dos Estados Unidos), eram vistos como indivíduos com tendências fundamentalistas. Na maioria das vezes, eram mantidos sob constante vigilância pela polícia de segurança do ex-líder Hosni Mubarak (que esteve no poder por mais de 30 anos) e era muito raro ver um homem de barba ocupando um cargo de alto escalão em instituições estatais, incluindo a polícia e emissoras de rádio e TV públicas.
     Anos depois, o Egito tem um presidente e um primeiro-ministro de barba. Após semanas de expectativa, Mohammed Mursi, o novo chefe do Executivo recentemente eleito, apontou Hesham Kandil como premiê. Kandil já havia chamado atenção na política egípcia em 2011, quando se tornou o primeiro político egípcio barbado a assumir um cargo de ministro.
Medo da islamização
     Na época, a barba de Kandil foi interpretada como um sinal positivo, de que os islâmicos não estavam mais sendo alvo de "caça às bruxas" no país. Mas, no entanto, agora que Kandil foi escolhido para ser o novo premiê do país e após a ascensão do islamismo como nova força política no Oriente Médio, a barba já não é mais tão bem-vinda assim.
     Nas redes sociais, muitos egípcios chegaram a comentar a indicação com sarcasmo, dizendo que Mursi teria deixado de lado opções como Mohamed ElBaradei e Ahmed Zewail, ambos detentores de um prêmio Nobel, em função da barba de Kandil. "Só no Egito vale mais ter uma barba do que um prêmio Nobel", disse no Twitter o egípcio Hamdy Ibrahim.
     Gamal Fahmy, jornalista e ativista político, considera os debates nas redes sociais "reveladores". "A Irmandade Muçulmana conseguiu convencer os americanos e o Ocidente, mas fracassaram em convencer os egípcios. Os egípcios estão com medo de uma islamização da sua nação", disse em entrevista à BBC.
Muito a fazer
      Pouco após assumir o poder, Mursi deixou claro que optaria por um primeiro-ministro independente e patriota, sem afiliação, sobretudo sem ligações com o Partido da Justiça e Liberdade, da Irmandade Muçulmana. De fato, Kandil não é membro do partido, mas críticos do grupo insistem que ele segue os preceitos da Irmandade, e o fato de usar barba só parece reforçar esta desconfiança entre os egípcios.
     "Kandil pertence ao Islã político. Ele é uma figura respeitada, e pode não estar envolvido com nenhum partido, mas é aliado com a Irmandade Muçulmana, ao menos mentalmente", diz Fahmy, um ativista.
     Já Salah Abdel Maqsoud, jornalista e analista político, diz que o julgamento de Kandil por sua aparência é irrelevante, e que é necessário esperar e analisar suas escolhas de ministros e como lidará com os desafios do país.
     Entre executivos, empresários e industriais também há desconfiança, já que muitos espearavam um premiê com extensa experiência financeira para tentar reerguer a economia do país. Além disso, ele é o premiê mais jovem da história do país.
     Em seu primeiro discurso, Kandil reforçou o compromisso com promessas de Mursi, de garantir pão, combustível, limpeza, trânsito e segurança pública. "Vocês ainda vão ouvir muito isso de mim. Nós temos que nos esforçar muito e atingir os objetivos da revolução. Temos muito a fazer", disse em seu primeiro discurso na TV.
Fonte:  Terra