Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Hamas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hamas. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de novembro de 2015

Após guerra, situação palestina passou de desastrosa para 'completamente desumana', diz representante da ONU

Chris Gunness viu um amigo e o filho morrer no bombardeio feito por Israel contra uma escola da ONU durante a chamada Operação Margem Protetora, realizada em 2014. Ao falar sobre o assunto com a emissora Al Jazeera, ele, que é porta-voz da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina), irrompeu em lágrimas, em vídeo que viralizou na internet. O britânico trabalha há oito anos no organismo da ONU para refugiados palestinos e, em entrevista, disse ter testemunhado a situação dos palestinos em Gaza passar de “desastrosa para francamente, completamente desumana”.
A UNRWA foi estabelecida em 1950 para realizar programas de trabalho e auxílio aos refugiados do conflito árabe-israelense de 1948. Única em seu compromisso de longa data com um grupo específico de refugiados, a UNRWA deu apoio a quatro gerações de refugiados palestinos desde sua origem. A organização atualmente provê assistência e proteção a 5 milhões de refugiados palestinos registrados, espalhados por Gaza, Cisjordânia, Síria, Líbano e Jordânia.


Wikicommons

Míssil disparado pelo sistema de defesa anti-aéreo Cúpula de Ferro durante a Operação Margem Protetora, de 2014
Gunness trabalhou para a BBC por 25 anos até que a perda de seu companheiro o levou a buscar por uma mudança. Integrou-se, então, ao escritório da UNSCO (Coordenação Especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio) e, a partir daí, abriu caminho para seu cargo na UNRWA.  Ele disse estar plenamente consciente de que a nova tarefa envolvia um conflito de décadas, mas declarou que “não fazia nenhuma ideia da mais pura desumanidade na qual as pessoas podem afundar”.
Lágrimas virais
Durante a guerra de Gaza em 2014, Gunness irrompeu em lágrimas depois de uma entrevista à Al Jazeera. Israel havia acabado de bombardear uma escola da ONU, matando 15 pessoas, incluindo um colega dele e seu filho. Sem que Gunness soubesse, enquanto ele “desmoronava descontroladamente”, a câmera ainda estava filmando. O vídeo foi transmitido na TV e, dentro de horas, se tornou viral. Gunness passou a ser a notícia.
Veja o momento em que ele começa a chorar:

“Pensei que poderia perder meu emprego”, disse Gunness. Mas, em vez disso, afirmou, a reação dos colegas da ONU foi “de uma esmagadora simpatia”. Ele disse ter recebido “e-mails de pessoas do gabinete do Secretário-Geral dizendo que aquela tinha sido a coisa mais eloquente que tinham ouvido sobre o conflito fazia um bom tempo”.
Um alto funcionário da UNRWA, disse ele, escreveu: “Não há nada pior do que uma escorregada humanitária... siga em frente”.
Por que ele acha que suas lágrimas tiveram tanta ressonância? “Acho que demonstraram para muitas pessoas no mundo que existe senso verdadeiro de ultraje e indignação”, disse ele. “Se autoridades da ONU, e não só porta-vozes da ONU, perdem contato com a dignidade humana que se insere no âmago do trabalho que fazemos, então, estão gravemente pobres.”
Wikicommons

Milhares de casas foram destruídas durante guerra em 2014

Embora alguns o tenham criticado por causa do choro, ele permanece sem remorsos: “Se minhas lágrimas atraíram a atenção mundial para as lágrimas que estavam sendo derramadas em Gaza, então não tenho que pedir desculpas de modo algum”.
'Completamente desumano'
Nos últimos oito anos de trabalho para a UNRWA, Gunness disse ter testemunhado a situação dos palestinos em Gaza passar de “desastrosa para francamente, completamente desumana”.
"Veja o bloqueio de Gaza," disse ele. "No ano 2000, havia 80 mil pessoas dependendo da UNRWA para se alimentarem. Hoje, há 860 mil. Por uma questão de opção política, a comunidade internacional decidiu condenar aproximadamente 1 milhão de pessoas… à indignidade da dependência de ajuda”.
Ele é um crítico dos governos ocidentais – principais doadores da UNRWA – por não fazerem o suficiente para pôr fim ao conflito.
“Nós nunca vemos de fato ação política suficientemente robusta para fazer a diferença”, disse ele. A UNRWA “lida com o impacto do fracasso político, e é por esse motivo que nós sempre estamos defendendo que seja adotada ação política”. É a “falta de progresso político, a falta de ação política o que eu acho tão chocante, e permanece sendo algo que precisa acontecer se tiver de haver justiça para os palestinos”.
Por que Gaza não foi reconstruída?
Atualmente, diz ele, a UNRWA está atravessando a maior crise financeira de sua história, que limita gravemente o que se é capaz de fazer, incluindo a reconstrução de Gaza, estimada em quase “meio bilhão de dólares”. Durante a guerra de Gaza, 140 mil propriedades de refugiados foram “total ou parcialmente destruídas, ou impactadas pela guerra”. Passado um ano, somente uma casa foi reconstruída. “Essa “desgraça” leva a uma “sensação de real desespero em Gaza”.
Mas a reconstrução apenas não vai mudar a situação para quem está em Gaza, diz ele.

PUBLICIDADE
"Mesmo que Gaza fosse reconstruída amanhã de manhã e todo mundo vivesse em lindas casas, ainda seria preciso levantar o bloqueio. Gaza tem uma economia exportadora, “tem de receber de volta sua economia porque, sem ela, haverá continuamente instabilidade e conflito”, disse ele.
O peso financeiro sobre a UNRWA não podia ter vindo num pior momento: “É tão triste e irônico que a UNRWA tenha tido a pior crise financeira em sua história em um momento em que se tem extremismo sem precedentes na região e fluxos de refugiados sem precedentes para a Europa”. Ele considera que uma “UNRWA com plenos recursos” seria uma grave “ameaça ao extremismo, e um elemento entre muitas respostas internacionais distintas que deveríamos estar vendo”.
A atual intifada palestina
Desde outubro, a violência israelo-palestina deixou 65 palestinos e nove israelenses mortos. “Temos uma situação na qual do lado palestino há um senso de frustração e desespero”, disse ele.
Wikicommons

Ruínas em 
Beit Hanoun, no norte da Faixa de Gaza
Gunness citou “a violência dos colonos, que acontece amplamente com impunidade”, “não ter acesso à mesquita de Al-aqsa” e o “uso desproporcional da força” pelo Exército israelense como fatores “que levam os palestinos, especialmente uma nova geração de palestinos mais jovens, a sentir que não há futuro político”.
O porta-voz enfatizou que nem ele nem a ONU desculpam os ataques de palestinos com faca, “mas por outro lado, todos eles têm um contexto, e esse contexto é o aprofundamento da ocupação e a brutalidade que vem com ela”. A realidade tem “uma nova geração de palestinos mais jovens” que sentem que não há futuro político”.
Permanecendo neutro
Quando questionado sobre ficar neutro no que muitos consideram um conflito desequilibrado, Gunness disse concordar que “é um conflito muito desequilibrado, em que você tem um lado jogando pedras e o outro lado com frequência usando armas”, mas “só podemos fazer esse trabalho se permanecermos neutros” e a “neutralidade da UNRWA é a prata da família”.
Agência Efe

Palestino lança pedras contra tropas israelenses durante protesto realizado na última sexta-feira (16/11)

Ele fundamenta sua causa “dentro do escopo do humanitário” e “na lei internacional, sem desviar para o político”.
Guerra civil síria
A guerra civil síria impôs mais pressão à UNRWA: “Nosso apelo para a Síria foi 52% financiado. Nós nos reduzimos a dar aos refugiados o equivalente a 60 centavos de dólares diários por pessoa, no contexto da Síria”. Refugiados palestinos na Síria são “duplamente vulneráveis porque agora estão no Líbano, refugiados pela segunda vez”.
De 12 acampamentos de refugiados na Síria, sete “foram arrastados para a guerra e ficaram gravemente danificados, por isso as opções de fuga dos palestinos são severamente limitadas”.
Flickr/CC/Michael-Ann Cerniglia

Campo de refugiados palestinos nos arredores de Damasco, Síria, em 2009

O fluxo de refugiados sírios também impõe mais pressão sobre os refugiados no Líbano, disse ele: “No Líbano, os palestinos que vieram da Síria estavam conseguindo uma provisão de US$ 100 mensais como subsídio para aluguel. Isso acabou”, isso significa que milhares de famílias agora estão sem teto. Gunness pediu que o “Conselho de Segurança adote ação política significativa para iniciar o longo processo de parar com a guerra civil síria”: “guerras civis já foram interrompidas antes”, disse ele. “Isso não está além da inteligência do homem”.
Esperança
Gunness disse que a “UNRWA não quer nada mais do que fazer as malas e ir embora, mas isso acontecerá quando houver uma solução duradoura e justa para os refugiados palestinos, baseada na lei internacional, nas resoluções da ONU e, a propósito, em consultas aos refugiados.
Apesar do processo de paz ser quase inexistente, Gunness está otimista e acredita que a paz possa enfim se tornar realidade – embora diga que isso pode não acontecer enquanto está vivo.
“Os palestinos vão encontrar justiça e paz”, disse ele. “Assim que os palestinos puderem encontrar justiça e paz e segurança… outras pessoas na região também poderão ter justiça, paz e segurança.”
Até lá, Gunness não está indo para parte alguma.
“Existe muito trabalho bom para ser feito”, disse ele. “Assim que o trabalho com os refugiados palestinos se impregna na sua pele, não há caminho de volta… se você trabalha com comunidades que estão em tal desvantagem, você simplesmente fica lá. Você não tem escolha, a não ser seguir em frente”.
A entrevista completa pode ser escutada abaixo (em inglês):

Texto publicado originalmente pelo site Midle East Eye
*Tradução: Maria Teresa de Souza
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/42262/apos+guerra+situacao+palestina+passou+de+desastrosa+para+completamente+desumana+diz+representante+da+onu.shtml 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Oito pontos para entender a história do Hamas e do Islã político - Opera Mundi

Há algumas perguntas as quais é necessário responder para que se entenda o conflito palestino-israelense e atual situação no Oriente Médio
Efe
1. Quando surge o Islã político?
Em 1928 é fundada a Irmandade Muçulmana no Egito que, com o passar dos anos, foi se expandindo para vários países do mundo árabe. Esta foi a primeira organização moderna a adotar o Islã como base de seu projeto político.
[Faixa de Gaza, na manhã deste domingo]
Apesar de sua criação precoce e desenvolvimento teórico ao longo do século XX, durante décadas foi ignorada pelos governos nacionalistas ou pró-ocidentais que dominavam a região. Por conta das perseguições, seu trabalho foi eminentemente social.
A irrupção massiva e expansão do islamismo se deu, então, a partir de 1979, com a chegada da Revolução Iraniana ao governo do país.
2. Quais são seus fundamentos? 
O islã político parte da premissa de que os postulados do Islã são aplicáveis a um programa político e integral para a sociedade. Daí resulta a sharia, ou Direito Islâmico.
É necessário esclarecer que não existe uma única forma de interpretar o Corão (livro sagrado dos muçulmanos) e os preceitos do Islã. Isso se reflete, por sua vez, nas distintas organizações que promovem o islamismo.
A sharia não é a mesma no Sudão (onde se pratica a mutilação genital feminina), na Nigéria (onde é permitido apedrejar até a morte uma mulher adúltera) ou no Irã, onde as mulheres podem dirigir e ir para a universidade.
O cientista político francês François Burgat, especialista em Oriente Médio, toca em um ponto básico, mas que carece de explicação: “São as personalidades islâmicas que fazem o islamismo, e não o contrário”. Além disso, afirma que “segundo a natureza do terreno social que atravessa, das forças políticas que dela se apropriam, e das reações dos governos, a corrente islâmica se expressa com multiplicidade de registros e através de modos muito distintos. Nenhum deles pode ser uma chave de leitura única e atemporal”.
Por isso, é incorreto dizer que o Hamas, na Palestina, é o mesmo que o Boko Haram, na Nigéria, ou então a Irmandade Muçulmana, no Egito.
3. Que setores sociais representa o Islã político?
Com a revolução iraniana de 1979 e o primeiro governo islâmico da história, irrompem na política setores sociais que haviam sido relegados àquele rincão do mundo.
O estudioso francês Gilles Keppel aborda essa questão ao defender que “o movimento islâmico é dúbio. Nele, encontramos a juventude urbana pobre, oriunda da explosão demográfica do terceiro mundo, do êxodo rural massivo e que, pela primeira vez na história, tem acesso à alfabetização.” Keppel explica que também o integram “a burguesia e as classes médias piedosas que foram marginalizadas no momento da descolonização, levada a cabo pelos miliares e por dinastias fundadas por meio do poder".
Isso quer dizer que o islamismo tem um apoio popular significativo, especialmente em sua versão mais radical, e também nacional. Mas não significa necessariamente que incorpore um projeto político ligado às reivindicações populares progressistas ou de esquerda.
Efe

Militantes pró-Hamas fazem protesto contra Israel no Yêmen neste fim de semana
4. Por que o islamismo se dividiu em duas correntes majoritárias?
Toda revolução gera uma reação, e o caso do Irã não foi a exceção. A chegada ao poder do Aiatolá Khomeini em 1979 determinou o auge do Islã político e também a sua radicalização, em contraposição aos esforços reformistas da histórica Irmandade Muçulmana.
É assim que aparecem e ganham força, na década de 1980, grupos armados islâmicos, como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, na Palestina.
Em resposta, a dinastia da Arábia Saudita emerge como foco de contenção à radicalidade desses novos movimentos. O islamismo conservador passou, assim, a ser financiado por um dos países mais ricos do mundo e seus aliados estratégicos.
Para sufocar a tentativa de estender a revolução iraniana ao resto do Oriente Médio, a Arábia Saudita impulsionou sua própria “cruzada”: a guerra do Afeganistão. Milhares de mujahidines foram enviados como combatentes internacionalistas a deter o avanço do comunismo soviético por meio da dinastia de Riad. Dessa situação nasceu a ligação do saudita Osama Bin Laden ao Taliban, que então governava o Afeganistão.
5. Como e por que surge o Hamas?
Neste contexto convulsionado do Oriente Médio, com o Islã político no auge durante a década de 80, surge o Hamas (“Despertar”, em árabe). Embora suas origens estejam ligadas à Irmandade Muçulmana egípcia, devido ao trabalho social que realizava principalmente na Faixa de Gaza, a nova organização expressou e expressa uma das versões do islamismo radical, como consequência da influência da Revolução Iraniana.
A primeira Intifada (“levantar a cabeça”), que começou em 1987 e durou até os Acordos de Oslo de 1993, foi o contexto no qual emergiu este novo movimento político-militar. Durante estes anos, as populações palestinas de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental se rebelaram contra a ocupação israelense.
6. O Hamas foi impulsionado por Israel?
Poucas mentiras sobre o conflito palestino-israelense foram tão difundidas e aceitas, inclusive em ambientes ocidentais progressistas.
Como citado anteriormente, o Hamas surgiu de organização do trabalho social realizado nas mesquitas palestinas, muito similar ao promovido pela Irmandade Muçulmana no Egito. Durante décadas, Israel permitiu a proliferação do trabalho religioso islâmico por considerá-lo inofensivo e por representar um freio à posição laica, democrática e de libertação nacional da OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Aqui nasce o erro e a distorção histórica.
Efe

Palestinos na Grécia prestam homenagem a mortos na Faixa de Gaza
Foi esta construção subterrânea que permitiu ao Hamas desenvolver uma hegemonia muito forte entre a população (fundamentalmente de Gaza). A Revolução Iraniana e a politização massiva do Islã no Oriente Médio catapultaram o trabalho social ao plano político.
7. Quais as diferenças entre o Hamas e a OLP?
Primeiramente, o Hamas é uma organização cujo objetivo é construir um Estado islâmico na região histórica da Palestina, enquanto a Organização para a Libertação da Palestina é laica, e portanto luta por um Estado palestino democrático e similar ao estilo ocidental.
Outro ponto de divergência na década de 90 foi o reconhecimento do Estado de Israel como tal. Após anos de luta, a OLP optou por negociar, e dessa forma se alcançou os Acordos de Oslo, que deram origem à Autoridade Nacional Palestina (ANP), governo do proto-Estado que nunca se constituiu devido às violações por parte de Israel.
O Hamas, por sua vez, nasceu e postula, em sua carta orgânica, a destruição do Estado de Israel. Por isso, rejeitou, no começo, os Acordos de Oslo e a ANP. Esta postura inicial, entretanto, se converteu com o tempo em posições mais realistas.
8. Qual é a política atual do Hamas?
No início, o Hamas adotou um linha de ação radical, que incluía a realização de atentados suicidas entre 1994 e 2004 (desde então não voltou a realizá-los, embora a propaganda israelense os cite sistematicamente). A radicalização, somada à posição mais diplomática da OLP, permitiu ao grupo crescer e se consolidar como uma alternativa diferente ao povo palestino.
No entanto, sua política tem variado. Em 2001, Ahmed Yassin, dirigente máximo da organização, assassinado em 2004 por Israel, afirmou: “Não lutamos contra povos de outras religiões ou judeus pelo fato de serem judeus. Lutamos contra os que ocuparam nossas terras, tomaram nossas propriedades, transformaram em refugiados nossas famílias e massacraram nossos filhos e mulheres".
Em 2006, o Hamas concorreu pela primeira vez às eleições legislativas para a ANP. Em um dos pleitos mais democráticos da região, saiu vencedor. Mas Israel e Estados Unidos tentaram dividir e deslegitimar o triunfo do grupo islâmico. Com certo consentimento do Fatah (a organização preponderante a OLP), o governo palestino se fragmentou em dois: Hamas em Gaza e OLP na Cisjordânia.
Esta divisão favoreceu e favorece a política israelense de negar a criação de um Estado palestino autônomo e soberano. Porém, no início deste ano, Hamas e OLP haviam firmado acordo para reunificar o governo palestino mediante uma administração de transição, até que se realizassem novas eleições. A decisão palestina provocou a ira do governo de Israel, que poucos meses depois, principiou a ofensiva que perdura até agora.
(*) Artigo originalmente publicado no portal Notas; tradução por Anna Beatriz Anjos, da Revista Fórum 
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/37395/oito+pontos+para+entender+a+historia+do+hamas+e+do+isla+politico.shtml

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Gaza tem dia mais sangrento e mortos em ofensiva passam de 425 - BBC Brasil

Shejaiya (Reuters)
Mulher reage após a morte de parentes em Gaza: ofensiva israelense já deixou mais de 400 palestinos mortos
O conflito em Gaza teve o dia mais sangrento neste domingo, com pelo menos 87 palestinos mortos em ataques israelenses, a grande maioria na mesma área.
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, disse que as mortes no distrito de Shejaiya, no leste de Gaza, são um "massacre". Testemunhas relataram que corpos estavam espalhados pelas ruas.
Mais de 425 palestinos morreram desde o início da operação israelense, há 13 dias, segundo autoridades médicas. A maioria são civis, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). São mais de 3 mil feridos.
O Exército israelense disse que 13 soldados foram mortos em uma emboscada na madrugada, elevando para 18 o número de oficiais mortos na ofensiva. Os militares eram da Brigada Golã, segundo o Exército.
Uma trégua humanitária havia sido acertada, mas durou menos de uma hora. Uma equipe da BBC na região relatou troca de tiros menos de uma hora após o início do cessar-fogo temporário. Ambos os lados trocaram acusações pela quebra da trégua.
Apesar da ofensiva israelense, militantes continuam a lançar foguetes contra Israel, e um deles atingiu a cidade de Ashkelon.

'Famílias devastadas'

A correspondente da BBC Yolande Knell, em Gaza, disse ter visto cenas de pânico com milhares de moradores deixando a área de Shejaiya, foco dos ataques de Israel.
Paramédicos disseram que equipes de resgate ainda não conseguiram chegar à região leste do distrito.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse em entrevista à BBC Árabe que Shejaiya é um "reduto do terror" e base de lançamento de foguetes contra Israel.
No hospital Shifa, o principal de Gaza, havia um congestionamento de ambulâncias na entrada.
"O hospital está completamente lotado. Para muitos de nós, estas são as piores cenas que já tivemos, não só pela quantidade de pacientes e o colapso da nossa capacidade, mas também pela dor e agonia", disse o médico norueguês Mads Gilbert, que tem atuado na emergência desde a noite passada.
"Havia crianças com dores enormes. Famílias totalmente devastadas estavam trazendo crianças mortas e se jogando ao chão, gritando".
Shajaiyeh (AP)
Fumaça é vista no distrito de Shejaiya, em Gaza, alvo de intenso bombardeio, segundo residentes
Hospital em Gaza (Reuters)
ONU diz que o estoque de suprimentos para ajudar palestinos em Gaza está chegando ao fim
O Exército israelense disse em comunicado que "forças adicionais" se juntaram ao "esforço de combater o terror" em Gaza.
O coronel Peter Lerner, porta-voz do Exército israelense, disse que a ofensiva terrestre estava sendo ampliada para "restabelecer a segurança e a estabilidade dos moradores e cidadãos de Israel".
A ONU alertou para o fim do estoque de suprimentos para ajudar mais de 50 mil palestinos que se abrigam em escolas da entidade em Gaza.
Uma autoridade da ONU disse que o número de pessoas deixando suas casas é maior do que o esperado, com as fronteiras de Gaza com Israel e Egito fechada para palestinos.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, deverá se reunir com Abbas no Catar como parte de esforços na região para que israelenses e palestinos "encerrem a violência e encontrem um caminho", disse a entidade.
Soldados israelenses invadiram Gaza na quinta-feira após 10 dias de uma grande ofensiva aérea e naval que não conseguiu interromper o disparo de foguetes contra Israel por militantes palestinos que atuam no território.
Israel diz que a operação terrestre é necessária para atingir a rede de túneis do Hamas.
Esforços diplomáticos para um cessar-fogo não chegaram a um acordo. O Hamas rejeitou um cessar-fogo mediado pelo Egito na semana passada, alegando que qualquer acordo com Israel deve envolver um fim ao bloqueio à Gaza

ONU pede cessar-fogo imediato em Gaza - BBC Brasil

prédio destruído em Gaza | AFP
Domingo foi o dia mais sangrento em Gaza desde início da operação no início de julho
O Conselho de Segurança da ONU pediu um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza, após uma reunião de emergência realizada a portas fechadas no domingo.
A reunião foi convocada a pedido da Jordânia, que teria proposto um duro rascunho de resolução para consideração.
Entretanto, membros do Conselho concordaram apenas em "elementos para a imprensa", o que segundo o correspodente da BBC na ONU, Nick Bryant, é a forma mais fraca de ação do Conselho de Segurança.
O embaixador da Ruanda na ONU, Eugene Gasana, disse a jornalistas que membros do Conselho expressaram grande preocupação com a escalada da violência, a morte de civis, e "pediram mais respeito às leis humanitárias internacionais".
No total, 501 pessoas morreram em Gaza desde que Israel lançou a operação Margem Protetora contra militantes palestinos no dia 8 de julho, informaram fontes do Ministério da Saúde em Gaza. Elas informaram também que 3.135 pessoas ficaram feridas.
Nesta segunda-feira, 20 palestinos morreram em consequência dos últimos bombardeios, a maioria no sul do território.

'Dia mais sangrento'

Domingo foi o dia mais sangrento da operação, com mais de cem palestinos mortos. Do lado israelense, 18 soldados morreram.
O foco da ação israelense foi o distrito de Shejaiya, onde 60 pessoas perderam a vida.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse em entrevista à BBC Árabe que Shejaiya é "um reduto do terror" e serve de base de lançamento de foguetes contra Israel.
Já o presidente palestino, Mahmoud Abbas, chamou a ação em Shejaiya de "massacre".
Na noite de domingo, o Hamas afirmou ter capturado um membro das Forças de Defesa Iraelenses, desencadeando comemorações em Gaza e na Cisjordânia.
No entanto, Israel negou que um de seus soldados esteja sob poder dos palestinos.
"Não há nenhum soldado sequestrado e esses rumores não são verdadeiros", disse Ron Prosor, embaixador de Israel na ONU.

Esforço diplomático

Na frente diplomática, o secretário de Estado americano, John Kerry, está a caminho do Egito, onde deve se reunir com autoridades no Cairo para discutir a crise em Gaza.
Segundo a ONU, 83.695 pessoas já deixaram suas casas no território em busca de locais seguros contra os bombardeios.
Soldados israelenses invadiram Gaza na quinta-feira após dez dias de uma grande ofensiva aérea e naval que não conseguiu interromper o disparo de foguetes contra Israel por militantes palestinos que atuam no território.
Israel diz que a operação terrestre é necessária para atingir a rede de túneis do Hamas.
Esforços diplomáticos para um cessar-fogo não chegaram a um acordo. O Hamas rejeitou um cessar-fogo mediado pelo Egito na semana passada, alegando que qualquer acordo com Israel deve envolver um fim ao bloqueio à Gaza.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/07/140721_gaza_onu_cessarfogo_fl.shtml

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Foguetes da Faixa de Gaza têm marca do Hezbollah - Voz da Rússia

 Israel, Palestina, califato, extremismo
Novamente se ouvem sirenes nas cidades de Israel. Novamente civis descem para abrigos antiaéreos. A Cúpula de Ferro interceptaos foguetes disparados a partir dos territórios autônomos palestinianos. Trezentos mísseis israelenses atingiram trezentos alvos militares na Faixa de Gaza. Quarenta mil reservistas israelenses estão sendo mobilizados na preparação para uma nova operação militar.
O escritor e ativista social francês Marek Halter analisa, em entrevista à Voz da Rússia, a situação no Oriente Médio:
“O que está acontecendo hoje no Oriente Médio adquiriu uma escala diferente do que antes. Você diz que já foi assim. Não. Foi, mas não assim.
Quando George Bush começou a guerra no Iraque, ele comprometeu o equilíbrio de forças que se tinha instalado na zona. Eu acho que ele deveria ser levado a julgamento em Haia por crimes contra a paz. Ele é um criminoso de guerra. Ele mentiu a todos quando disse que Saddam Hussein tinha armas nucleares. Ele começou uma guerra e, como consequência, “abalou” o Oriente Médio. Hoje vemos uma guerra inter-árabe, o que em árabe é chamado de “fitna”, ou guerra civil entre xiitas e sunitas.
Além disso, vemos uma deslocação dos centros de terrorismo do Afeganistão para o Oriente Médio. Depois da morte de Bin Laden surgiu um novo chefe no Oriente Médio, Abu Bakr al-Baghdadi. O que ele faz, é calculado e incrivelmente perigoso: ele propõe a criação de um califado. Foi justamente através de um califado que originou o Islã, através de um califado baseado não em nações mas em religião. Assim, sucede que fronteiras já não importam, só a religião é que importa.
Al-Baghdadi está tentando unir xiitas e sunitas, parar a guerra entre as duas fações do Islã. E ele se está aproximando das fronteiras da Jordânia.
Pessoalmente, eu acho que o que está acontecendo hoje na Faixa de Gaza é uma manobra de distração para que os norte-americanos não intervenham na Jordânia para proteger o rei. Esta é uma estratégia extremamente complexa.
Há dois anos atrás, durante o nosso encontro em Damasco, o presidente do politburo do partido palestiniano do Movimento Islâmico de Resistência Khaled Meshaal disse-me algo que naquele momento me pareceu incrível: “Diga a seus amigos, os israelenses, que eles deveriam negociar connosco, o Hamas. Porque se eles não o fizerem, em breve na Faixa de Gaza poderá aparecer outra força, mais extremista do que nós. Eles não se permitirão sequer a ideia da possibilidade de negociações.”
Eu acho que os foguetes que hoje estão caindo sobre cidades israelenses foram lançados não pelo Hamas, mas por jihadistas. Eles têm muito dinheiro. Eles compram armas ao Hezbollah e trazem-nas por mar. O Hamas não os controla.
Para Israel é conveniente pensar que está sendo bombardeado pelo Hamas. Assim ele conhece o inimigo de rosto e sabe onde retaliar. Mas Israel não sabe onde procurar o Hezbollah.
Estes tempos são difíceis, porque Israel precisa de tempo para reconhecer o seu inimigo. Eu quero aproveitar o momento para lembrar que é necessário que todos se sentem à mesa de negociações. Precisamos encontrar forças para começar tudo de novo”.
Leia mais: http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_07_11/Misseis-da-Faixa-de-Gaza-tem-marca-do-Hezbollah-5360/

No “cinema de Sderot”, israelenses assistem a ataque noturno a Gaza - Opera Mundi

O jornalista Allan Sorenson, correspondente do jornal dinamarquês Kristeligt Dagblad, postou em seu Twitter na noite de quarta-feira (09/07), segundo dia dos ataques de Israel contra a Faixa de Gaza, uma foto em que mostra israelenses assistindo e celebrando o bombardeio noturno à região.
Ver imagem no Twitter 
À jornalista Sahar Habib Ghazi, do Global Voice, Sorenson confirmou a veracidade da imagem. Em seu post, ele afirma que “israelenses levaram cadeiras para uma colina em Sderot para assistir às últimas novidades de Gaza” e “bateram palmas quando explosões foram ouvidas”.
Sderot tem uma população de 24 mil pessoas. A imprensa internacional tem constantemente reportado a tensão em que vivem estes cidadãos devido à quantidade de foguetes que são lançados de Gaza.
Mais de 550 foguetes foram lançados por palestinos desde o começo da Operação Margem Protetora ou Penhasco Sólido . Até o momento, não há o registro de nenhuma morte de cidadão israelense. Nesta sexta-feira (11/07), o governo de Tel Aviv afirmou que o número de palestinos mortos chegou a 100 e mais de 700 ficaram feridos pelos ataques aéreos de Israel contra Gaza.
O morador de Sderot, Kogan Baruch, afirmou ao site da emissora alemã Deutsche Welle que é "o governo do Hamas" que está atacando. “No momento, não tenho sentimento algum pelos que vivem na Faixa de Gaza. Se quiserem fazer alguma coisa e viver em paz, precisam mudar o próprio governo", disse.
A escalada de violência israelense ocorreu após a morte de três adolescentes israelenses na Cisjordânia no final de junho. Como “vingança”, um jovem palestino foi queimado vivo e assassinado em Jerusalém.
Logo após a descoberta dos corpos dos três jovens, Israel iniciou uma ofensiva contra o Hamas. Aviões de guerra passaram a bombardear Gaza destruindo casas e instituições e foram realizadas execuções extrajudiciais. Até agora, quase 600 palestinos foram sequestrados e presos.
A tensão aumentou na região após anúncio, no começo de junho, do fim da cisão entre o Fatah e o Hamas, que controlam a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, respectivamente. Israel considera o Hamas um grupo terrorista e por isso suspendeu as conversas de paz que vinham sendo desenvolvidas com os palestinos com a mediação do secretário de Estado norte-americano, John Kerry.
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/35988/no+cinema+de+sderot+israelenses+assistem+a+ataque+noturno+a+gaza.shtml

domingo, 23 de dezembro de 2012

Uma terceira intifada palestina está no horizonte?

Hebron, Palestina – Batalhões da União Nacional, um novo grupo que reúne partidários de todo o espectro político palestino, convocou uma terceira intifada (levantamento popular) contra a ocupação, ao mesmo tempo em que a espionagem israelense alerta que estão dadas as condições para isso na Cisjordânia. Os dois pronunciamentos ocorrem após uma série de protestos e confrontos entre soldados de Israel e jovens palestinos em diferentes localidades da Cisjordânia no final da semana passada, após a morte de Mohammad Salayma, de 17 anos, às mãos de um guarda fronteiriço em Hebron.

Seguidores de Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), Fatah, Jihad Islâmica e Frente Popular de Libertação da Palestina anunciaram a criação dos Batalhões da União Nacional (BUN), por intermédio de um vídeo distribuído no mesmo final de semana.

O novo grupo propõe-se consolidar a luta contra Israel. Embora tenha apoiado o reconhecimento pela Organização das Nações Unidas (ONU) da Palestina como membro observador, declarou que lutará para “recuperar toda a Palestina, do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão”. Segundo o vídeo, “este é o começo da terceira intifada palestina, que começa no coração de Hebron e se propagará por toda a Palestina”. As duas revoltas populares anteriores aconteceram entre 1987 e 1993 e de 2000 a 2005.

Os membros dos BUN ameaçaram sequestrar soldados de Israel caso as forças militares desse país não suspendam a detenção de cidadãos palestinos. Também disseram que se o Estado judeu continuar a matar civis com impunidade pagará pela mesma moeda.

As exigências do grupo incluem a eliminação dos postos de controle na Cisjordânia, a libertação de todos os presos palestinos das prisões de Israel, a retirada deste país dos territórios que ocupa e a transferência para a Autoridade Nacional Palestina (ANP) da arrecadação de impostos, confiscada pelo Estado judeu desde que melhorou o seu status na ONU. Também reclamam a abertura de todas as passagens fronteiriças e o fornecimento de água e eletricidade à assediada Faixa de Gaza.

A declaração foi difundida no dia 14, um dia após a morte de Salayma, sobre a qual soldados israelenses alegaram que foram ameaçados com uma arma de plástico. Contudo, a família do jovem deu à IPS uma outra versão para o caso. “Duvido que Mohammad tivesse uma arma de plástico. Creio que os israelenses a colocaram depois do disparo”, denunciou à IPS o tio do rapaz, um polícia da ANP. Ele acrescentou que “era o aniversário de Salayma, que saiu para comprar um bolo para comemorar. Para ir à loja tinha que passar por um posto de controle militar, na ida e na volta. Se tivesse a réplica de uma arma, a máquina de raio X tê-la-ia detetado”.

Nasim Salayma, de 22 anos, primo da vítima, afirmou que “era um estudante feliz e inteligente, e representou a equipa palestina de luta na França. Voltava para casa com o bolo e somos obrigados a acreditar, de repente, que tentou impor-se a um grupo de soldados treinados e fortemente armados? Ele não era estúpido”.

Organizações internacionais defensoras dos direitos humanos, bem como palestinos e israelenses, registaram ao longo dos anos numerosos casos de palestinos assassinados por soldados israelenses em circunstâncias extremamente controversas. Do que não resta dúvida é que este último assassinato gerou um profundo mal-estar. Centenas de jovens saíram às ruas de Hebron no dia 13 para expressar o seu descontentamento contra os soldados israelenses, atirando pedras e queimando pneus.

Dezenas deles ficaram feridos, alguns gravemente, atingidos por munições reais e gás lacrimogêneo. Os protestos espalharam-se a outros povoados e outras cidades da Cisjordânia. A IPS testemunhou confrontos em Hebron no dia seguinte, durante uma manifestação de partidários do Hamas que comemoravam o 25º aniversário da criação desse movimento.

Foi a primeira vez em anos que a ANP permitiu ao Hamas organizar uma manifestação na Cisjordânia, no contexto de uma aproximação entre essa organização e o Fatah, principais partidos palestinos arquirrivais. Os pequenos passos para a unidade foram dados após o fortalecimento político do Hamas, depois do último ataque israelita contra Gaza, de 14 a 21 de novembro, que uniu os palestinos de todas as facções. As forças de segurança dos dois partidos também reduziram drasticamente o número de detenções mútuas.

Essa situação fez com que a imagem do Hamas crescesse na Cisjordânia, somada à próxima transferência por Israel de vários presos dessa organização de Gaza para a Cisjordânia, e pode consolidar mais a sua presença neste território palestino. Outro elemento que pode contribuir para nova insurreição popular é o possível colapso ou a dissolução da ANP pelo fato de o Estado judeu confiscar mais de 1 milhão de dólares de impostos dos palestinos.

A ANP é a fonte de rendimento de várias centenas de famílias palestinas, o que faz numerosos especialistas preverem que um desemprego em massa se seguirá à dissolução desta entidade e deixará os palestinos numa situação desesperante. A indignação dos palestinos aumentou com o recrudescimento de ataques de colonos israelitas e a contínua expropriação das suas terras. Além disso, depois do reconhecimento internacional que significou a melhora de status dentro ONU, cresceu o sonho de um Estado próprio.

Enquanto isso, a Shin Bet, a agência de espionagem interna, observou que o mal estar generalizado nos territórios ocupados pode fomentar o desenvolvimento de um tipo de infraestrutura capaz de incentivar uma terceira intifada, segundo a imprensa israelense.

sábado, 24 de novembro de 2012

Gaza ou a revisão da História

Atacar os palestinos dá votos e legitima o imobilismo político do governo de Israel
http://graphics8.nytimes.com/images/2012/11/16/timestopics/gaza-strip/gaza-strip-sfSpan.jpg 
http://graphics8.nytimes.com/images/2012/11/16/timestopics/gaza-strip/gaza-strip-sfSpan.jpg

Há sessenta e quatro anos que Israel usa dois discursos para legitimar as suas intervenções nos territórios ilegitimamente ocupados da Palestina: um é o discurso da "eliminação definitiva do terror palestino"; o outro é o da "legítima defesa contra os ataques de que Israel é alvo". Ambos projetam uma revisão ardilosa da História.

Há sessenta e quatro anos que Israel anuncia a vitória definitiva contra os seus inimigos próximos. Para só citar dois momentos recentes, foi assim quando da guerra contra o Hezbollah em 2006 e foi assim de novo na "Operação Chumbo Fundido", de 2008-2009, contra o Hamas. Em ambos os casos, o uso claramente desproporcional da força por Israel foi justificado como necessário para pôr fim definitivo às agressões contínuas pelo grupo pró-iraniano no Sul do Líbano ou do grupo dominante na Faixa de Gaza contra o Estado de Israel. Afinal, ambas as eliminações definitivas do terror foram um fiasco absoluto: os foguetes continuam a ser lançados de Gaza e o Hezbollah tem hoje um arsenal de mísseis e uma influência política no Sul do Líbano bem maiores do que os que possuía em 2006.

Falsa é igualmente a narrativa da resposta em legítima defesa. Cada violação dos sucessivos cessar-fogo é, invariavelmente, apresentada como simples retaliação de ataques anteriores e exteriores. Invariavelmente, Israel projeta nos palestinianos a imagem de um povo que faz da agressão o seu modus vivendi, ao passo que Israel será uma vítima inocente que não faz mais do que defender-se. Para ajudar à composição do argumento, os palestinos atacam sempre com poucos mísseis, mas maus e agressivos (neste caso, iranianos) e Israel defende-se sempre com muitos mísseis, mas bons e defensivos (neste caso, norte-americanos de última geração).

Esta onda de violência que de novo atingiu os 1,7 milhões de pessoas presas no gueto de Gaza voltou a ser explicada da mesma forma enganosa. Faltou dizer, nessa narrativa para consumo preguiçoso, que Netanyahu e Liberman vão a votos em janeiro e que a aliança de governo entre os dois está longe de ter sondagens animadoras.
E faltou dizer também que o assassinato do dirigente do Hamas Ahmed Jabari, associado nesse momento às negociações de um acordo, foi o momento em que a guerra escalou vertiginosamente.

A aposta de Israel num clima de permanente crispação que lhe permita assegurar o apoio dos Estados Unidos e da União Europeia tem no rigor da História o seu grande inimigo. E a História tem três aspetos que nenhuma estratégia israelita de revisionismo conseguirá apagar: primeiro, a ocupação dos territórios palestinos, contra o Direito Internacional, é a causa primeira e última do conflito; segundo, o povo da Palestina continua privado de ter um Estado, de ter comércio normal, de ter liberdade de movimentos, de ter dignidade; terceiro, o macabro número de mortos (16 palestinos por cada israelita, tendo sido de 111 por 1 em 2009) é como todos os números: alimenta-se a si própria.

É por isso que este ataque contra Gaza não foi senão o último antes do próximo. Porque, haja calma ou não, atacar Gaza dá votos e legitima o imobilismo político de Tel Aviv. E, sobretudo, desvia a atenção da História real para uma História conveniente.

*artigo originalmente publicado no Diário Nacional, de Portugal
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/25586/gaza+ou+a+revisao+da+historia.shtml 

Danos causados pela ofensiva israelense em Gaza passam de US$ 300 milhões

A agricultura foi o setor que mais sofreu perdas, cerca de US$ 120 milhões, enquanto o comércio, outros US$ 40 milhões
 http://www.operamundi.com.br/media/images/20121123_634892946295140917m.jpg
 Os danos causados pela operação israelense "Pilar Defensivo" em Gaza já passam de US$ 300 milhões, mais de um terço no setor agrícola, informou neste sábado (24/11) um relatório da câmara de Comércio da Faixa de Gaza. O relatório, que pede que Gaza seja declarada como zona de desastre econômico, inclui nessas estatísticas a destruição ocasionada pelos oito dias de bombardeios israelenses e as despesas extraordinárias de saúde. Na operação, quase 170 foram mortos e mais de 1.300 ficaram feridos.
 Por setores, o agrícola foi o que mais sofreu perdas, cerca de US$ 120 milhões, enquanto a atividade comercial perdeu outros US$ 40 milhões. O resto das perdas se concentram nos danos às casas, edifícios públicos e infraestruturas de todo tipo que foram atacadas pela Força Aérea israelense.

Para devolver a Gaza seu ritmo habitual de atividade econômica, a Câmara de Comércio pediu que Israel levante as restrições que impôs à Faixa em 2006 e que foram aliviadas em 2010.

Hoje, o escritório do primeiro-ministro Ismail Haniyeh informou que, no marco das negociações para resolver todos os tipos de problemas que são foco de tensão na zona, Israel aceitou a ampliação da zona de pesca em Gaza de três a seis milhas e autorizou que os agricultores trabalharem em suas terras nas zonas próximas à fronteira.
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/25608/danos+causados+pela+ofensiva+israelense+em+gaza+passam+de+us%24+300+milhoes.shtml

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Israel cometeu um erro que custará muitas vidas, diz pacifista

Líder militar do Hamas, Ahmed Jabari, foi assassinado em meio às conversações sobre uma trégua de longo prazo. Para o pacifista israelense Gershon Baskin, que ajudou na mediação com o Hamas para a libertação do soldado Gilad Shalit, Israel cometeu um erro que custará as vidas de “pessoas inocentes de ambos os lados”. Horas antes de ser assassinado, Jabari recebeu o rascunho de um acordo permanente de trégua com Israel, que incluía mecanismos para manter o cessar-fogo.

Tel Aviv - Horas antes de o homem forte do Hamas, Ahmed Jabari, ser assassinado, ele recebeu o rascunho de um acordo permanente de trégua com Israel, que incluía mecanismos para manter o cessar-fogo, em caso de uma escalada entre Israel e as facções da Faixa de Gaza. Isso é o que diz o militante pacifista israelense Gershon Baskin, que ajudou a mediar o acordo entre Israel e o Hamas para a libertação de Gilad Shalit e, desde então, mantém relações com líderes do Hamas.

Baskin disse ao Haaretz nesta quinta-feira que altos oficiais de Israel sabiam de suas relações com o Hamas e com a inteligência egípcia com vistas à formulação de uma trégua permanente, mas mesmo assim aprovaram o assassinato.

“Eu penso que eles cometerem um erro estratégico”, disse Baskin, um erro “que custará a vida de um número considerável de pessoas inocentes em ambos os lados”.

“Esse sangue poderia ter sido poupado. Quem tomou essa decisão deve ser julgado pelos eleitores, mas para o meu lamento, eles terão mais votos por causa disso”, acrescentou.

Baskin conheceu Jabari quando serviu como mediador entre David Meidin, o representante israelense das negociações pela libertação de Shalit e Jabari. “Jabari era o encarregado todo poderoso. Ele sempre recebeu as mensagens via uma terceira parte, Razi Hamad, do Hamas, que o chamava de Senhor J.”.

Por meses, Baskin enviou mensagens antes da formulação do acordo. Ele manteve um canal de comunicação aberto com Gaza até mesmo após o acordo de libertação de Shalit estar completo.

De acordo com Baskin, durante os últimos dois anos, Jabari internalizou o entendimento de que a rodada de hostilidades com Israel não beneficiaria nem o Hamas nem os habitantes da Faixa de Gaza e só causaria sofrimento, e muitas vezes intercedeu para evitar ataques do Hamas contra Israel.

Ele disse que até mesmo quando o Hamas foi levado a participar do lançamento de foguetes, os seus foguetes eram sempre dirigidos a áreas abertas. “E isso era intencional”, esclareceu Baskin.

Nos últimos meses, Baskin esteve em contato permanente com representantes do Hamas, com membros da inteligência egípcia e também com oficiais de Israel, cujos nomes ele se recusa a divulgar. Há alguns meses Baskin apresentou ao ministro da defesa Ehud Barak um rascunho de um acordo preparado para constituir uma base para uma trégua permanente entre Israel e o Hamas, que evitaria as repetidas trocas de tiros.

“Em Israel”, disse Baskin, “eles decidiram não decidir, e nos meses recentes eu tomei a iniciativa de fazer pressão de novo”. Nas últimas semanas ele retomou os contatos com o Hamas e com o Egito e só nesta semana ele esteve no Egito e se encontrou com altos dirigentes do aparelho de inteligência e com um representante do Hamas. Ele disse que ficou com a impressão de que a pressão dos egípcios sobre os palestinos para pararem de lançar foguetes era séria e sincera.

“Ele estava na linha de tiro, não era um anjo nem um homem justo da paz”, disse Baskin sobre Jabari e de seus sentimentos no começo da matança, “mas seu assassinato também matou a possibilidade de se chegar a uma trégua e com a capacidade dos mediadores egípcios funcionarem. Depois do seu assassinato eu falei com as pessoas em Israel iradamente e eles me disseram: ‘nós escutamos você e estamos ligando para perguntar se você escutou alguma coisa dos egípcios ou de Gaza”.

Desde o assassinato de Jabari, Baskin tem estado em contato com os egípcios, mas não com os palestinos. De acordo com ele, os egípcios estão de cabeça fria. Eles disseram que é necessário deixar o sangue acalmar. “As pessoas da inteligência egípcia estão fazendo o que estão fazendo com a permissão e a autorização do regime e aparentemente acreditam muito no seu trabalho”, diz ele.

“Eu estou sobretudo triste. Isso é triste para mim. Eu estou vendo gente ser assassinada e é isso o que me entristece. “Eu digo a mim mesmo que com cada pessoa que é morta estamos engendrando a próxima geração de odiadores e terroristas”, acrescentou Baskin.

Tradução: Katarina Peixoto

BBC Brasil - Tensão em Israel

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Israel e Hamas rumam para conflito inútil em Gaza



Faz quatro anos que Israel lançou uma ampla operação na Faixa de Gaza para tentar conter o lançamento de foguetes do Hamas e outras organizações palestinas contra o sul do território israelense. Depois de três semanas de bombardeios e invasão terrestre, cerca de 1.300 palestinos e 13 israelenses morreram. Eu cobri este conflito para o Estadão.
Agora, o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, cogita levar adiante uma nova ofensiva para conter o lançamento de foguetes. Obviamente, é uma repetição do cenário da virada do ano de 2008 para 2009. O resultado tende a ser parecido, com o agravante de o Hamas ter alguns foguetes com capacidade de atingir Tel Aviv e aumentar as baixas israelenses.
Israel ainda precisará lidar com o apoio do governo do Egito ao Hamas. As fronteiras não ficarão fechadas. O aliado Hosni Mubarak foi derrubado do poder nos protestos da praça Tahrir e  a atual administração da Irmandade Muçulmana no Cairo não fechará a passagem de Rafah como fez o ditador há quatro anos.
Neste momento, os israelenses possuem problemas mais graves. Primeiro, a guerra civil na Síria. Bashar al Assad e seu pai Hafez mantiveram a segurança nas colinas do Golã por mais de 30 anos. Esta estabilidade acabou. O aliado rei Abdullah da Jordânia corre o risco de cair em protestos pró-democracia. O Sinai aos poucos se transforma em um oásis de militantes de organizações inspiradas pela Al Qaeda. O Hezbollah, no Líbano, ainda é a mais poderosa milícia do mundo. Para completar, há a questão iraniana.
Já o Hamas demonstra mais uma vez uma inabilidade total. Consegue, como sempre, deteriorar a imagem dos palestinos. Exatamente no mês em que o presidente Mahmoud Abbas, do Fatah, decide ir à ONU buscar o reconhecimento do Estado com o status de não-membro da organização em votação na Assembleia Geral, a organização responsável pelo controle de Gaza decide armar mais um conflito contra os israelenses.
A Cisjordânia, com todos os seus problemas, evoluiu bastante ao longo dos últimos quatro anos. Gaza regrediu na história. Se os palestinos quiserem ter um Estado, devem se inspirar em Ramallah, não em Gaza.
_______________________
     Acrescentaria alguns aspectos.
a)A eliminação do líder do Hamas se foi pertinente do ponto de vista militar, do ponto de vista político entendo não ter sido.  Ele exercia uma liderança de fato entre a militância e defendia a trégua com Israel;
b)Aumentar o atrito com os palestinos é conveniente porque reforça a unidade interna num momento em que as eleições estão se aproximando e arrastam os EUA para uma reafirmação de sua aliança com Tel Aviv;
c)A deterioração geral das condições anteriores favoráveis tanto no Egito como na Síria, podem vir a arrastar os iranianos para algum envolvimento.  A atualização desta condição de fortaleza sitiada dá ao governo de Israel meios para atrair apoio moral para sua autodefesa e até, no limite, um ataque ao Irã.