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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Venezuela solicitará mais caças Sukhoi para a Rússia - Tecnologia e Defesa



Imagem 2 FAV-Sukhoi
Os primeiros Su-30MK2 começaram a chegar para a AMB em 2006. (Imagem: Aviação Militar Bolivariana)

De acordo com a imprensa oficial local, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, informou, no último domingo (19), que o governo venezuelano solicitará ao presidente russo Vladimir Putin pelo menos 12 novos aviões de combate fabricados pela Sukhoi Su-30 com o propósito de manter a defesa do país. Vale lembrar que a Aviação Militar Bolivariana (AMB) possui atualmente uma frota de 23 Su-30 MK2.
Durante declarações durante as homenagens póstumas prestadas aos dois pilotos da AMB que perderam a vida em acidente ocorrido com um avião de combate Sukhoi Su-30 MK2, Maduro confirmou as negociações com a China com vistas à aquisição de um conjunto de equipamentos militares.
O mandatário ressaltou que instruiu o ministro da Defesa, Vladimir Padrino Lopez, fortalecer a AMB e repor o Sukhoi Su-30 MK2 perdido. Maduro insistiu também na necessidade de combater o narcotráfico e informou que emitiu instruções para recrudescimento da luta por ar, terra, rios e mar.
Essas declarações do presidente venezuelano coincidem com o clima de tentativa de reconciliação entre Venezuela e Colômbia. Maduro e seu par colombiano, Juan Manuel Santos, encontraram-se na última segunda-feira (21) em Quito, Equador, para discutir a crise na fronteira entre os dois países.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A Venezuela se afoga em seu petróleo

Caracas pagou uma parte das importações de alimentos com títulos do Tesouro, sugerindo que faltam divisas ao país. É possível que o governo tenha cometido erros de direção, mas a Venezuela, que possui as maiores reservas de petróleo, sofre por causa de sua riqueza: uma renda que sai do país sem irrigar a economia.


por Gregory Wilpert
É evidente que alguma coisa está errada. Filas de espera intermináveis na entrada das lojas para se abastecer com produtos básicos como leite, farinha, óleo e papel higiênico; aumento da economia paralela, em que vendedores de rua propõem os mesmos bens por preços excessivos. Se os venezuelanos estão sofrendo penúrias pontuais há muito tempo, a piora dessa situação desde o início do ano pegou as pessoas de surpresa. Ela oprime ainda mais a população por ser acrescida dos problemas de infraestrutura que provocam cortes de água e eletricidade. Os que podem enchem as banheiras, para fazer reservas, e todo mundo reza para não perder o que está no congelador...
Nas últimas semanas, o governo anunciou a cada dia, ou quase, novas medidas, prometendo remediar a inflação e a escassez de produtos. A causa dessas dificuldades e as soluções que necessitam são objeto de controvérsias entusiasmadas. Enquanto o regime bolivariano denuncia uma sabotagem econômica perpetrada conjuntamente pela oposição, os meios empresariais e a administração norte-americana, a direita incrimina a negligência do presidente Nicolas Maduro e sua equipe. A polêmica, no entanto, só toca de leve o coração do problema, que consiste em saber como a Venezuela, um dos maiores produtores de petróleo do planeta, deveria administrar o maná que tira de seus recursos naturais.
Antes da chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999, os enormes lucros do ouro negro só enriqueciam as companhias petroleiras. O ex-presidente, assim que foi eleito, inverteu essa política, por um lado ao militar combativamente no seio da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) por um aumento do preço do barril, por outro obrigando os exploradores privados a pagar o que deviam à coletividade. Antes, a indústria venezuelana de combustíveis depositava apenas 30% de seus ganhos no Tesouro; ao longo dos anos seguintes, a taxação aumentou para 70%.
Quando os cofres do Estado começaram a se encher de petrodólares, e depois que a oposição fracassou, em 2003, em bloquear a exploração petroleira com o objetivo de derrubar Chávez, a pergunta sobre para que todo esse dinheiro deveria servir e qual política monetária seria a mais adequada se tornou crucial para o futuro da revolução bolivariana. Seria preciso fazer um fundo de reserva para o caso de dias difíceis, como a Noruega; investir em grandes e opulentas infraestruturas, como o Catar; ou destinar o dinheiro a programas sociais e à luta contra a pobreza? A jovem República Bolivariana optou pela terceira solução, combinada com uma política de controle das taxas de câmbio para frear a fuga de capitais, que se tornou o maior desafio para o governo depois da tentativa de golpe de Estado fracassada, da oposição, em 2002.
Unida ao crescimento demográfico, essa política permitiu aos venezuelanos consumir 50% a mais de calorias do que em 1998, ao mesmo tempo em que reduziu as desigualdades bem mais rápido que em outros lugares na região. Mas a redistribuição da renda petroleira aos pobres apresentava evidentemente um risco de inflação, já que, ao aumentar o consumo interno bem mais rápido do que o crescimento da produção, provoca-se consequentemente a elevação dos preços.
Porém, já fazia vinte anos que a Venezuela sofria com a loucura dos preços, desde a “sexta-feira negra” de 18 de fevereiro de 1983, quando o país desvalorizou bruscamente sua moeda. Durante a década das duas presidências anteriores à de Chávez, a inflação atingiu em média 52% ao ano. Uma das primeiras missões do presidente bolivariano consistiu em dominar essa instabilidade. Com uma taxa anual de 22% em média entre 1999 e 2012, esse objetivo foi parcialmente atingido. Contudo, a calmaria não sobreviveu à morte de Chávez, em março passado. A inflação disparou novamente este ano, para culminar em 49% em setembro.
Contrabando e fuga de capital
O segundo desafio econômico é o fenômeno desmoralizante do esgotamento dos estoques, sobre o qual até mesmo o Banco Central da Venezuela registrou a quase duplicação em um ano. Segundo o poder socialista, a alta burguesia local estaria orquestrando a sabotagem das redes de abastecimento e a especulação sobre o mercado negro, a fim de colocar em xeque a política do governo. O presidente Maduro reiterou essas acusações no dia 8 de outubro, em um discurso diante da Assembleia Nacional: “A economia venezuelana atravessa uma conjuntura particular, na qual o aparelho de produção do país sofre diretamente a ofensiva da especulação, da apropriação, do contrabando e do mercado negro de câmbio”.1
O chefe de Estado compara as dificuldades atuais da Venezuela às que o Chile conheceu antes do golpe de Estado de Augusto Pinochet, quando o setor privado, ajudado pela CIA, fomentou penúrias para enfraquecer o presidente Salvador Allende. A oposição, por sua vez, imputa as dificuldades do país à má gestão governamental. Não está fora de cogitação que ambos os lados tenham razão... O governo deixou, efetivamente, campo livre para os empresários se lançarem nas falcatruas das quais agora os acusa, e se os tráficos, o contrabando e a fuga de capitais se revelam mais lucrativos e mais cômodos do que os investimentos legais na produção e na distribuição, isso quer dizer que a política pública deve ter falhado em algum ponto.
O desafio de construir o socialismo em apenas um país, quando o capitalismo governa o resto do mundo, não favorece os projetos do regime bolivariano. O Chile do início dos anos 1970 e a Nicarágua dos anos 1980 se confrontaram com o mesmo obstáculo. Nesses dois países, como na Venezuela, a vontade política de se libertar das leis do capitalismo provocou uma fuga maciça de capitais, criando uma instabilidade diante da qual os governantes se encontraram desarmados. O controle dos preços e das taxas de câmbio permite, claro, em certo limite, remediar essa contraofensiva, mas cria outros grandes problemas, como a escassez de produtos.
Se a Venezuela conseguiu por muito tempo limitar esses desgastes, foi porque sua força petroleira lhe dá uma vantagem comercial e monetária importante. Mas isso não é suficiente para garantir a estabilidade da moeda, na medida em que o setor privado, que continua sendo muito influente na economia do país, concentra em suas mãos uma parte importante da exploração petroleira. Ele dispõe, por consequência, de enormes volumes de capitais que só desejam deixar o país, ainda mais se investimentos mais rentáveis esperam por eles lá fora.
Sob o governo de Maduro, como sob Chávez, o principal mecanismo de proteção da moeda nacional continua sendo a Comissão de Administração da Moeda (Cadivi), que fixa as condições nas quais os venezuelanos podem trocar, pelas taxas oficiais, seus bolívares por dólares. A operação só é autorizada em casos muito precisos, como a importação de produtos não fornecidos pelo mercado local, viagens, ajuda a parentes instalados no estrangeiro ou ainda algumas compras pela internet.
Enquanto o governo autoriza um acesso relativamente fluido às moedas estrangeiras, a taxa de câmbio no mercado negro e a inflação se mantêm num teto suportável. Mas a Venezuela importa 70% dos bens que consome. Ela procura, então, manter uma taxa de troca favorável à sua moeda, a fim de que os preços finais dos produtos de importação não sejam muito altos. No entanto, essa política é fonte de distorção: ao longo do tempo, a distância aumentou entre o valor real do bolívar, que uma inflação – mesmo que sob controle – deprecia mecanicamente no mercado interno, e seu valor nominal no mercado de moedas, que é mantido a um nível elevado. Isso tem por efeito prejudicar as indústrias venezuelanas, já que o custo de seus produtos aumenta mais rápido do que o dos bens de importação. A consequência é que os produtores locais são esmagados pela concorrência. Foi por isso que o governo decidiu limitar as importações apenas aos produtos fabricados no estrangeiro; mas essa condição se revela frequentemente insustentável. Os alimentos básicos, por exemplo, são na maior parte produzidos na Venezuela, mas em quantidade insuficiente para satisfazer a demanda.
A outra consequência infeliz do controle de câmbio se deve ao fato de que, com o bolívar se desvalorizando no mercado interno e ao mesmo tempo continuando forte no mercado de câmbio, o abismo entre a taxa de troca oficial e a taxa de troca praticada no mercado negro aumenta inexoravelmente. Isso significa que o acesso aos guichês de câmbio governamentais se tornou um privilégio cada vez mais cobiçado e disputado. Um ano de estudos em uma universidade privada venezuelana, por exemplo, custava 46 mil bolívares no início de 2010, ou seja, o equivalente a US$ 10 mil. Hoje, custa a mesma coisa, mesmo que, tecnicamente, o bolívar tenha perdido neste meio-tempo 50% de seu valor no solo venezuelano. Em três anos, o preço de um ano universitário então diminuiu pela metade.
Falta de jogo de cintura do regime
Em suma, o controle da taxa de câmbio se tornou um instrumento vantajoso principalmente para as camadas mais ricas da população, já que as compras de dólares são reservadas aos que têm meios para viajar, enviar dinheiro para parentes ou financiar estudos no estrangeiro. Essas três motivações cobrem quase 20% das compras de moeda efetuadas em 2012 dentro da Cadivi, ou seja, US$ 5,8 bilhões − o que significa que a Venezuela é o único país da América Latina onde os envios de dinheiro acontecem do sul para o norte, em vez de empregar o caminho contrário.
O governo tenta lutar contra o mercado negro, mas seus esforços se revelaram até agora malsucedidos. Em princípio, não é possível efetuar transferências bancárias para o exterior sem autorização. Mas desviar-se desse obstáculo é uma brincadeira de criança: basta entrar em contato com um intermediário que possui contas ao mesmo tempo aqui e lá. Uma vez que o dinheiro foi depositado em sua conta venezuelana, ele vai desbloquear o valor correspondente em sua conta nos Estados Unidos, fazendo a dedução de sua comissão e dos ganhos que tira das taxas de câmbio no mercado negro. É difícil para o Estado impedir um tráfico tão fluido.
Os efeitos perversos do controle de câmbio pioraram ainda mais desde o início de 2013. A primeira razão, obviamente, é a iniciativa conjunta dos empresários favoráveis à oposição para exacerbar as dificuldades econômicas do país, aproveitando as oportunidades abertas pela ausência de Chávez durante sua doença, e depois com sua morte. Diversas vezes ao longo deste ano as autoridades descobriram galpões lotados de óleo de cozinha e outros produtos alimentares básicos, claramente retirados do circuito de vendas para agravar a escassez.
Acrescenta-se a isso a falta de jogo de cintura do regime: no momento em que o Estado abaixou em 32% a taxa de câmbio oficial do bolívar, em fevereiro de 2013, ele também suprimiu seu sistema de troca secundário, chamado Sistema de Transações para os Fundos de Moedas Estrangeiras (Sitme). A concomitância dessas duas medidas, anunciadas um mês antes da morte de Chávez, teve um impacto destrutivo sobre a economia, estimulando a inflação, que aumentou em 2,8% a partir do mês seguinte.
Com o tempo, os venezuelanos aprenderam a viver bem ou mal nesse flagelo. Os poupadores, preocupados em proteger seu pé-de-meia contra a depreciação constante de sua moeda, se resguardam efetuando investimentos seguindo consultorias. Por ordem decrescente de fortuna, os mais afortunados investem no mercado imobiliário, nos automóveis e na Bolsa (a com melhor desempenho do mundo, com uma alta de 165% entre janeiro e outubro de 2013), razão pela qual esses três mercados, desde a instauração do controle de câmbio em 2003, explodiram a um ritmo bem superior que o da inflação.
Mas o dólar conserva seu papel de valor-refúgio. Quando a inflação disparou, no começo do ano, até atingir 6,1% em maio, muitos venezuelanos se encheram de notas verdes do mercado negro, provocando um novo aumento da taxa de câmbio clandestina. Como esta serve de base para o cálculo dos preços da maioria dos produtos disponíveis no comércio, esse acesso de febre teve por efeito estimular a inflação e, por consequência, provocar uma precipitação ainda maior sobre os dólares. Trata-se então de um círculo vicioso com uma potência devastadora rara no qual se encontra presa a economia venezuelana.
O abismo cada vez mais profundo entre a taxa de câmbio oficial e suas consequências na prática provoca pesados danos à sociedade. Não é raro que os produtos subvencionados pelo Estado – principalmente alimentos – aterrissem em contrabando nos países vizinhos. Os moradores das zonas fronteiriças veem regularmente desfilar caminhões carregados de leite, óleo e arroz, que vão descarregar sua carga na Colômbia, no Brasil ou na Guiana. As alfândegas fecham os olhos. Entre o preço desses produtos na Venezuela e as tarifas pelas quais são negociados do outro lado da fronteira, a margem é confortável e permite aos traficantes garantir a boa vontade dos funcionários públicos. E pouco importa se a escassez duplica no país.
No fim das contas, o sistema de controle de câmbio, instrumento de uma política soberana e anticapitalista, é usado em benefício dos venezuelanos mais ricos. Os privilegiados que têm acesso ao mercado de câmbio oficial embolsam lucros exorbitantes ao adquirir mercadorias pelas taxas legais para revendê-las a preços vertiginosos no mercado negro. Na República Bolivariana, taxas de lucro de 100% a 500% se tornaram moeda corrente.
O governo entendeu que não podia permanecer inativo. No dia 8 de outubro, Maduro pediu à Assembleia Nacional que autorizasse o governo por decretos, com o objetivo não somente de combater a corrupção, mas também de reerguer a economia. Pouco depois, Rafael Ramirez, presidente da Companhia Petroleira do Estado, Petroleos de Venezuela (PDVSA), e vice-presidente da República, encarregado das questões econômicas, anunciava o lançamento de um novo sistema de câmbio “a leilão”, abrindo acesso a US$ 100 milhões por semana. Destinado a substituir o antigo Sitme, esse regime já suscita, no entanto, as críticas de muitos economistas, que o julgam muito tímido para satisfazer a demanda e secar o mercado negro.
A única solução para impedir a evaporação dos capitais consistiria sem dúvida em reafirmar o controle do Estado sobre a economia, por exemplo, pela nacionalização total do setor bancário ou por um controle mais rigoroso das importações. Muitos dos antigos adeptos de Chávez pedem por essa reorientação, mas o governo Maduro parece ter se comprometido com um caminho mais tortuoso.
A situação excepcionalmente difícil da Venezuela se deve ao mesmo tempo ao seu statusde grande produtor de petróleo e ao seu comprometimento em construir um sistema não capitalista. Os lucros do petróleo não mudam em nada o fato de que a construção de uma ilha de socialismo num oceano liberal ocasiona mecanicamente uma epidemia de evasão de capitais. O maná petroleiro sai do país tão rápido quanto entrou, deixando atrás de si uma população desgastada pela inflação, pela escassez e pela instabilidade.
Gregory Wilpert é sociólogo, chefe de redação do site venezuelanalysis.com. Autor de Changing Venezuela by taking power: the policies of the Chávez government.

Ilustração: Lollo

1. El Universal, Caracas, 10 out. 2013
http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1523

domingo, 21 de abril de 2013

Rússia poderá armar não apenas a Venezuela

S-300V, mísseis, sistema de lançamento de mísseis


RIA Novosti
    O novo presidente da Venezuela visitará a Rússia no início de junho, o que por si é um pretexto para discussões entre céticos e otimistas acerca de perspetivas das exportações de armamentos russos para a América Latina.
     Quando em fevereiro mais um navio com armas e equipamentos militares russos chegou à cidade venezuelana de Puerto Cabello, o quinto desde o início do ano, os analistas começaram a falar sobre o próximo fim dos principais contratos militares entre Moscou e Caracas.
    A causa não foi apenas a piora brusca do estado de saúde do comandante Hugo Chávez, mas também o fato de a Venezuela ter praticamente esgotado as necessidades de rearmamento de suas Forças Armadas.
     Em sete anos de estreita cooperação técnico-militar, a Rússia forneceu à Venezuela enormes quantidades de diferentes armamentos, inclusive caças, helicópteros, sistemas de artilharia, instalações móveis de mísseis para a guarda costeira, sistemas de defesa antiaérea S-300V, tanques. Na opinião de peritos, atualmente, as Forças Armadas da Venezuela, pelo grau de equipamento, estão prontas a combater eficazmente contra um inimigo condicionalmente equiparado a qualquer de seus vizinhos.
     Assim, o dirigente da corporação estatal Tecnologias Russas, Serguei Chemezov, disse recentemente que hoje em dia a Venezuela está saturada de armamentos, não estando previstos novos fornecimentos nos próximos tempos. O mesmo faz lembrar Viktor Semenov, chefe de laboratório do Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia. Por outro lado, o orçamento da Venezuela está consideravelmente esgotado e não apenas por causa do rearmamento, disse Semenov à Voz da Rússia:
     “Os contratos militares concluídos atingem aproximadamente 11 milhões de dólares. Ao mesmo tempo, em 2012, os recursos financeiros da Venezuela foram canalizados para garantir a vitória de Hugo Chávez nas presidenciais em outubro e a de seus apoiantes nas eleições de governadores em dezembro. Foram utilizados não apenas os próprios recursos, mas também empréstimos. Nos últimos anos, por exemplo, a China emprestou à Venezuela 36 bilhões de dólares. Atualmente, o défice orçamental da Venezuela constitui aproximadamente 13%, a taxa inflacionária é alta e os ritmos de crescimento do PIB se aproximam do zero. Nestas condições, naturalmente, será difícil comprar alguns novos equipamentos.”
     A curto prazo, a cooperação técnico-militar entre a Rússia e Venezuela pode desenvolver-se principalmente na área da manutenção dos equipamentos militares já fornecidos, sustenta Semenov. Não se exclui que sejam ainda concluídos dois projetos técnico-militares conjuntos: a construção de uma empresa de produção de fuzis Kalashnikov e de um centro de manutenção de helicópteros russos adquiridos, inclusive, em outros países da América Latina.
      Ao mesmo tempo, na opinião de alguns analistas, as exportações militares russas ainda não abarcaram todas as necessidades defensivas da Venezuela. Há alguns anos, o então presidente russo Dmitri Medvedev disse aos jornalistas, após um encontro com Hugo Chávez, que a Venezuela pretende também comprar à Rússia armamentos navais.
      Naquela altura, em particular, foi discutida a possibilidade de adquirir submarinos diesel-elétricos da classe Varshavyanka, lanchas de patrulhamento do projeto 14310 Mirage e lanchas hovercraft de desembarque do projeto 12061 Murena.
     Mas aqui o problema consiste em que, na área das compras militares navais, a Venezuela por enquanto se orienta para a União Europeia e não para a Rússia, mantendo contatos bastante estreitos, por exemplo, com a Espanha, disse à Voz da Rússia o redator-chefe da revista Natsionalnaya Oborona (Defesa Nacional), Igor Korotchenko.
     Na opinião de alguns analistas, o desenvolvimento futuro da parceria técnico- militar entre Caracas e Moscou pode ser também impedido pela alteração da política externa da Venezuela pelo novo presidente Nicolás Maduro. A visita do líder venezuelano a Moscou, marcada para 01-02 de junho, pode esclarecer esta questão.
     Viktor Korotchenko apontou em entrevista à Voz da Rússia:
     “Evidentemente, podem surgir certas nuanças. Diria contudo que a venda de armamentos é uma questão muito específica, em que tudo depende das negociações bem-sucedidas e da compreensão das vantagens de parceria pelas partes. Por isso não gostaria de expressar avaliações pessimistas em relação à Venezuela – ainda há um campo para a cooperação. Neste caso, sou otimista e espero que sejam assinados novos contratos.”
     Em qualquer caso, considera Igor Korotchenko, é necessário dispensar atenção ao fato de termos perdido em poucos anos o mercado militar do Irã e da Líbia e de estarem congelados os fornecimentos de armas à Síria.
     No entanto, nos últimos anos a Rússia alcançou um volume recorde nas exportações militares, superior a 15 bilhões de dólares, graças a produtores russos de armamentos competitivos e a uma equipe eficaz na corporação estatal Rosoboronexport.
     Em breve, poderemos ouvir falar sobre novos contratos concluídos com países que nunca foram compradores tradicionais de armas russas. Se o cenário de desenvolvimento da cooperação técnico-militar com a Venezuela for desfavorável, a Rússia encontrará possibilidades de compensar essa perda em outros mercados.

Economista na UFF enumera mentiras de 'O Globo' sobre Venezuela - Carta Maior

O economista Victor Leonardo de Araújo, professor da Universidade Federal Fluminense, enviou carta ao jornal 'O Globo' enumerando os dados errados recorrentemente usados pelo jornal para criticar a economia da Venezuela. Entre eles, números sobre déficit público, inflação e produção industrial.

 

Já é sabido que o jornal O Globo não nutre qualquer simpatia pelo governo do presidente venezuelano Hugo Chávez, e tem se esforçado a formar entre os seus leitores opinião contrária ao chavismo – por exemplo, entrevistando o candidato Henrique Caprilles sem oferecer ao leitor entrevista com o candidato Nicolás Maduro em igual espaço. Isto por si já é algo temerário, mas como eu não tenho a capacidade de modificar a linha editorial do jornal, resigno-me.

O problema é que o jornal tem utilizado sistematicamente dados um tanto quanto estranhos na sua tarefa de formar a opinião do leitor. Sou professor de Economia da Universidade Federal Fluminense e, embora não seja “especialista” em América Latina, conheço alguns dados sobre a Venezuela e não poderia deixar de alertá-la quanto aos erros que têm sido sistematicamente cometidos.

Como parte do esforço de mostrar que o governo Chávez deixou a economia “em frangalhos”, o jornalista José Casado, em matéria publicada em 15/04/2013 (“Economia em frangalhos no caminho do vencedor”) informa que o déficit público em 2012 foi de 15% do PIB.

Infelizmente, as fontes desta informação não aparecem na reportagem (apenas uma genérica referência a “dados oficiais e entidades privadas”!!!), uma falha primária que nem meus alunos não cometem mais em seus trabalhos.

Segundo estimativas apresentadas para o ano de 2012 no “Balanço Preliminar das Economias da América Latina e Caribe”, da conceituada Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), o déficit foi de 3,8% do PIB, ligeiramente menor do que no ano anterior, mas muito inferior ao apresentado pelo jornal.

Caso o jornalista queira construir a série histórica para os resultados fiscais para a Venezuela (e qualquer outro país do continente), pode consultar também as várias edições do “Estudio Económico” também da Cepal.

Para poupar o seu trabalho: a Venezuela registrou superávit primário de 2002 a 2008: 2002: 1% do PIB; 2003: 0,3; 2004: 1,8; 2005: 4,6; 2006: 2,1; 2007: 4,5; 2008: 0,1; e déficit nos anos seguintes: 2009: -3,7% do PIB; 2010: -2,1; 2011: -1,8; 2012: -1,3.

O déficit é decrescente, mas bem distante dos 15% do PIB publicados na matéria.

Afirmar que o déficit público na Venezuela corresponde a 15% do PIB tem sido um erro recorrente, e também aparece na matéria intitulada “Onipresente Chávez”, publicada na véspera, também no caderno “Mundo” do jornal 'O Globo' em 13/04/2013.

A este propósito, tenho uma péssima informação a lhe dar: diante de um quadro fiscal tão saudével, o presidente Nicolás Maduro não precisará realizar ajuste fiscal recessivo, e terá condições de seguir com as políticas de seu antecessor.

A matéria do dia 15/04/2013 possui ainda outros erros graves. O primeiro é afirmar que existe hiperinflação na Venezuela, e crescente. Não há como negar que a inflação é um problema grave na Venezuela, mas 'O Globo' não tem dispensado o tratamento adequado para informar os seus leitores.

A inflação na Venezuela tem desacelerado: foi de 20% em 2012, contra 32% em 2008 (novamente utilizo os dados da Cepal). Tudo indica que o jornalista não possui conhecimento em Economia, pois a Venezuela não se enquadra em qualquer definição existente para hiperinflação – a mais comumente utilizada é de 50% ao mês; outras, mais qualitativas, definem hiperinflação a partir da perda da função de meio de troca da moeda doméstica, situações bem distantes do que ocorre na Venezuela.

Outro equívoco é afirmar que “não há divisas suficientes para pagar pelas importações”. A Venezuela acumula superávits comerciais e em transações correntes (recomendo que procure os dados – os encontrará facilmente na página da Cepal).

Esta condição é algo estrutural, e a Venezuela é a única economia latino-americana que pode dar-se ao luxo de não precisar atrair fluxos de capitais na conta financeira para financiar suas importações de bens e serviços. Isto decorre exatamente das exportações de petróleo.

O problema, Senhora Sandra Cohen, é que os erros cometidos ao expor a situação econômica venezuelana não se limitam à edição do dia 15/04, mas tem sido sistemáticos e corriqueiros.

Como parte do esforço de mostrar que o governo Chávez deixou uma “herança pesada”, a jornalista Janaína Figueiredo divulgou no dia 14/04 (“Chavismo joga seu futuro”) que em 1998 a indústria respondia por 63% da economia venezuelana, e caiu para 35% em 2012.

Infelizmente, a reportagem comete o erro primário que o seu colega José Casado cometeu: não cita suas fontes.

Em primeiro lugar, a informação dada pelo jornal é que a Venezuela era a economia mais industrializada do globo terrestre no ano de 1998. Veja bem: uma economia em que a indústria representa 63% do PIB é super-hiper-mega-industrializada, algo que sequer nos países desenvolvidos foi observado naquele ano, nem em qualquer outro. E a magnitude da queda seria digna de algo realmente patológico.

Como trata-se de um caso de desindustrialização bastante severo, procurei satisfazer a minha curiosidade, fazendo algo bastante corriqueiro e básico em minha profissão (e, ao que tudo indica, o jornalista não fez): consultei os dados.

Na página do Banco Central da Venezuela encontrei a desagregação do PIB por setor econômico e lá os dados eram diferentes: a indústria respondia por 17,3% do PIB em 1998, e passa a representar 14% em 2012. Uma queda importante, sem dúvida, mas algo muito distante da queda relatada por sua jornalista.

Caso a senhora, por qualquer juízo de valor que faça dos dados oficiais venezuelanos, quiser procurar em outras fontes, sugiro novamente a Cepal, (Comissão Econômica para América Latina e Caribe).

As proporções mudam um pouco (21% em 1998 contra 18% em 2007 – os dados por lá estão desatualizados), mas sem adquirir a mesma conotação trágica que a reportagem exibe. Em suma: os dados publicados na matéria estão totalmente errados.

O erro cometido é gravíssimo, mas não é o único.

A reportagem ainda sugere que a Venezuela é fortemente dependente do petróleo, respondendo por 45% do PIB. Novamente, a jornalista não cita suas fontes.

Na que eu consultei (o Banco Central da Venezuela), o setor petróleo respondia por 19% do PIB em 1998, contra pouco mais de 10% em 2012.

Como a Senhora pode perceber, a economia venezuelana se diversificou. Não foi rumo à indústria, pois, como eu mesmo lhe mostrei no parágrafo acima, a participação desta última no PIB caiu. Mas, insisto, a dependência do petróleo DIMINUIU, e não aumentou como o jornal tem sistematicamente afirmado.

A edição de 13/04/2012, traz outros erros graves. Eu já falei anteriormente sobre os dados sobre déficit público apresentados pela matéria assinada pelo jornalista José Casado (“Onipresente Chávez”).

A mesma matéria afirma que a participação do Estado venezuelano representa 44,3% do PIB.

O conceito de “participação do Estado na economia” é algo bastante vago, e por isso era importante o jornalista utilizar alguma definição e citar a fonte – mas isto é algo, ao que tudo indica, O Globo não faz.

Algumas aproximações para “participação do Estado na economia” podem ser utilizadas, e as mais usuais apresentam números distantes daqueles exibidos pelo jornalista: os gastos do governo equivaliam a 17,4% do PIB em 2010 (contra 13,5% em 1997) e a carga tributária em 2011 era de 23% (contra 21% em 2000), nada absurdamente fora dos padrões latino-americanos.

Enfim, no afã de mostrar uma economia em frangalhos, O Globo exibe números simplesmente não correspondem à realidade da economia venezuelana. Veja bem: eu nem estou falando de interpretação dos dados, mas sim de dados que equivocados!

Seria importante oferecer ao leitor de O Globo uma correção dessas informações – mas não na forma de errata ao pé de página, mas em uma reportagem que apresente ao leitor a economia venezuelana como ela é, e não o caos que O Globo gostaria que fosse.

E, por favor, nos próximos infográficos, exibam suas fontes.

Atenciosamente,

Victor Leonardo de Araújo
Professor de Economia da Universidade Federal Fluminense"

domingo, 23 de setembro de 2012

Receita do petróleo alimenta melhorias sociais de Chavez - O Globo


SÃO PAULO - Com propostas bem distintas sobre como deve ser o futuro da Venezuela, o presidente Hugo Chávez e seu adversário Henrique Capriles - que se enfrentam nas urnas daqui a duas semanas - compartilham uma certeza: a de que os programas assistencialistas, ou tutelares como preferem chamar, devem ser mantidos. Desde seu início, em 1999, até 2010, o chavismo contou com ao menos US$ 417 bilhões oriundos da venda do petróleo. O cálculo foi feito com base na quantidade exportada e no preço do barril, a pedido do GLOBO, pelo Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Os dados de 2011 e 2012 ainda não estão disponíveis, mas, com o preço do barril superando hoje os US$ 110, a conclusão não tarda: o Estado venezuelano, que controla 100% da produção e comercialização do óleo desde 2003, tem muito dinheiro para gastar.

Nos mais de 13 anos de chavismo,esses gastos realmente diminuíram a desigualdade e beneficiaram os menos favorecidos. Tanto Capriles quanto Chávez sabem que 70% dos votos em disputa no pleito de 7 de outubro estão nas classes D e E, que compõem a ampla base da pirâmide socioeconômica venezuelana. Mas a discussão se esse modelo rentista é sustentável ou não preocupa mais as classes alta (3%), a média (27%) e os analistas. De 2003 para cá - quando a PDVSA (petrolífera estatal) passou a financiar as chamadas missões bolivarianas -, Chávez diz ter gasto US$ 300 bilhões em políticas de saúde, educação e moradia que beneficiam 60% da população. Apesar de esse valor ser contestado pela oposição, não se pode desprezar dados como o fato de a ONU ter declarado, no mês passado, a Venezuela o país menos desigual da América Latina - embora a distribuição de renda ainda seja menos equânime do que nos EUA ou em Portugal, país de maior desequilíbrio social da zona do euro - ou a Unesco considerá-la livre do analfabetismo.

Capriles: Nenhuma gota de presente

A pobreza - com ênfase na extrema - foi reduzida em até 50% pelo chavismo. Nos arredores da Grande Caracas, vários conjuntos habitacionais estão sendo erguidos, numa cópia do Minha Casa Minha vida de Lula - apesar da persistência de bolsões de pobreza como a favela de Petare, a maior das Américas.

- O tema social é o único não polarizado na campanha. O grande desafio para Capriles está sendo mostrar que as benfeitorias não cessarão, reconhecer o que Chávez fez de bom, porém mostrar as falhas no mecanismo da distribuição dos recursos. Mostrar que pode fazer melhor — diz Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela.

Capriles, cuja campanha sofreu um duro revés há dez dias quando um de seus homens-fortes foi flagrado recebendo dinheiro de um megaempresário, disse na mesma semana que, “se eles (os chavistas) são socialistas, eu sou marxista-leninista”, enquanto explicitava seus projetos sociais. O opositor declarou que usará melhor os recursos petrolíferos, interrompendo, por exemplo, o fornecimento do óleo subsidiado a vizinhos simpatizantes da revolução bolivariana, principalmente Cuba. Segundo cálculos da oposição e de analistas do setor, cerca da metade dos lucros obtidos com a venda do petróleo ficam comprometidos por conta do que definem como “política ideológica expansionista de Chávez”.

Isso impediria, segundo Capriles, maiores investimentos em educação qualificada, na diversificação econômica, no estímulo à iniciativa privada, na melhoria dos serviços públicos e, especialmente, na contenção da violência que coloca a Venezuela entre os países com as maiores taxas de homicídio do mundo.

- Não vamos dar de presente nenhuma gota de petróleo a nenhum país - promete o candidato opositor.

A questão é que muita gente tem medo disso.

- Se a parceria com Cuba acabar, as missões serão prejudicadas, porque seus médicos vêm de Cuba. As conquistas sociais do chavismo se sobrepõem aos demais problemas enfrentados durante sua gestão - diz o cientista político Igor Fuser, da Cásper Líbero em São Paulo.

Os defensores do chavismo lembram constantemente da convulsão social vivida pela Venezuela nas décadas de 80 e 90, decorrentes do Caracaço de 1989 - grande revolta popular que teria deixado até 3 mil mortos. O tenente-coronel Chávez foi eleito com amplo apoio popular - inclusive da classe média e alta - em 1998, mesmo após ter tentado dar um golpe contra o governo de Carlos Andrés Pérez em 1992. Ao longo dos anos em que está no poder, foi perdendo apoio de setores importantes da sociedade venezuelana à medida em que reviu contratos petrolíferos, nacionalizou empresas, perseguiu mídia e oposição e cometeu o que diversas entidades classificam como abusos de direitos humanos.

- A Venezuela poderia entrar numa instabilidade enorme, todos os avanços estariam comprometidos. Esta oposição que estava no poder antes dele, e cometeu atos pouquíssimos louváveis, diga-se de passagem, voltaria com sangue nos olhos. A transição do líder tem que vir aos poucos porque o chavismo não acaba com Chávez - diz Fuser, para quem a atual participação política em comunidades (conselhos comunais), outra criação do atual governante, é "tão importante quanto os demais avanços sociais".

“Dinheiro de cassino”

Diretor do CBIE, Adriano Pires vê a Venezuela como um expoente da “maldição do petróleo” que acometeu, ao longo da História, vários países ricos no combustível - à exceção de Noruega, Estados Unidos e Canadá. Esses países, acredita Pires, aproveitaram a abundância de petróleo para criar economias diversificadas, sociedades plurais e democráticas.

- Geralmente povo e governantes de países com recurso natural tão poderoso tratam o dinheiro vindo dele como dinheiro ganho em cassino, aquele que veio fácil, sem o esforço do trabalho. O que Chávez fez com a PDVSA, que está sucateada e atualmente serve para financiar políticas populistas que não se sustentam a longo prazo foi, na verdade, roubar dinheiro do povo - diz Pires.

Para Fuser, Chávez está tomando consciência de que necessita ajustar sua revolução para não perder simpatizantes - a eleição contra Capriles, com risco real de derrota, deve ser a mais acirrada das quatro que ele já enfrentou.

- Em julho, quando a Venezuela foi admitida no Mercosul, o presidente falou em adaptações. Ele sabe que não pode depender do petróleo para sempre, e que é preciso melhorar a eficiência do modelo de distribuição de renda, investindo, por exemplo, em infraestrutura - acha Fuser.

“Diversificar ”é possível”

Neste último setor, a parceria com o Brasil é estratégica. Segundo Pedro Silva Barros, titular da missão brasileira do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em Caracas, os totais dos investimentos do Brasil na Venezuela já somam US$ 20 bilhões. Empresas brasileiras, com destaque para a Odebrecht, constroem pontes, uma siderúrgica, um estaleiro e expandem o metrô de Caracas, entre outros projetos.

Importando 70% dos produtos que consome, a Venezuela chavista se transformou no terceiro maior superávit na balança comercial brasileira. A expectativa é que as exportações brasileiras (hoje em US$ 5 bilhões por ano, cinco vezes maior do que antes de Chávez) dobrem até 2015, com o ingresso da Venezuela no bloco econômico regional.

- Apesar de optar por uma política de cooperação heterodoxa e de a PDVSA não ser estritamente uma empresa petroleira, o país tem um enorme potencial naval, agrícola e mineral. Ou seja, diversificar é possível - diz Silva Barros.

domingo, 9 de setembro de 2012

Integração sofre com brigas entre vizinhos na América do Sul


Lisandra Paraguassu, de Brasília
BRASÍLIA - Em maio, as relações diplomáticas entre Argentina e Uruguai entraram em crise novamente. A disputa, desta vez em razão da dragagem do Canal García Martín, no Rio da Prata, atingiu seu ápice há três semanas, quando o governo argentino, responsável pela obra, suspendeu definitivamente a licitação para escolha de uma nova empreiteira.
O problema azedou até mesmo o relacionamento entre a presidente argentina, Cristina Kirchner, e o uruguaio, José Mujica, tradicionalmente amistoso. O episódio é apenas mais um que mostra a complicada relação entre os "irmãos" sul-americanos - a qual o número cada vez maior de fóruns regionais, encontros presidenciais e fotos de mandatários sorridentes não consegue disfarçar.
Vizinhos e parceiros no Mercosul, Argentina e Uruguai vivem às turras. Se agora o problema é a dragagem do canal, durante quatro anos os dois países quase foram à agressão armada em razão da instalação de uma fábrica de celulose no Rio Uruguai. O governo argentino alegava que a fábrica poluiria o rio. O caso terminou na Corte de Haia, que deu razão aos uruguaios.
Essa semana, mais um problema: Mujica foi ao rádio em Montevidéu reclamar do imposto de 15% nas operações de cartão de crédito no exterior determinado por Cristina Kirchner - o Uruguai é destino de férias de boa parte dos argentinos e será diretamente prejudicado. Com um temperamento naturalmente "passional", segundo seus vizinhos, a Argentina está constantemente envolvida em rusgas regionais, especialmente na área econômica.
Durante a maior parte deste ano, decisões unilaterais de impor barreiras comerciais a produtos brasileiros levou os dois governos a "negociações" que quase desandavam em bate-bocas. Nesse momento apaziguadas, as crises econômicas são cíclicas, principalmente quando o déficit comercial está do lado argentino.
Apesar de mirar especialmente o Brasil com as tentativas de retaliação pela sua suspensão do Mercosul, o Paraguai foi atacado mais fortemente por Cristina Kirchner depois do impeachment do ex-presidente Fernando Lugo - que os vizinhos consideraram um golpe de Estado.
Mediação
A presidente argentina queria impor sanções econômicas ao país, além da suspensão política, mas foi contida pela presidente brasileira, Dilma Rousseff, e por José Mujica. O isolamento do Paraguai depois da saída de Lugo levou a mais uma rodada de pequenos conflitos, bate-bocas e ameaças na região, especialmente entre Paraguai e Venezuela, o mais novo membro do Mercosul.
Depois de acusar os venezuelanos de tentarem arregimentar os militares paraguaios para impedir a deposição, parlamentares do país ainda afirmaram terem recebido proposta de suborno para aprovarem a entrada da Venezuela no bloco.Já os venezuelanos garantem que foram os paraguaios que pediram dinheiro. Com a volta do Paraguai ao Mercosul, possivelmente em julho do ano que vem, novas crises devem vir por aí.
Algumas disputas sul-americanas são quase centenárias: Bolívia e Chile brigam desde 1904, quando os bolivianos perderam a Guerra do Pacífico e, com ela, sua saída para o mar. Os dois países não tem relações diplomáticas desde os anos 70, quando uma tentativa de acordo deu em nada. Este ano, mais uma vez, o presidente Evo Morales levou a reclamação à Organização dos Estados Americanos (OEA) e promete ir à Corte Internacional de Haia. O Chile se recusa até mesmo a debater o assunto. O país já enfrenta em Haia outra reclamação, do Peru, sobre os limites marítimos entre os dois países, que pode ser solucionada este ano.
Já a Venezuela descobriu, na década de 60, que o acordo de limites com o território da Guiana - então pertencente à Grã-Bretanha - feito em 1899 a tinha prejudicado. E quer a área de Essequibo de volta. O território, com diversos garimpos de ouro, representa praticamente metade da Guiana. Em mapas usados pelos militares venezuelanos a área já é do país, mas dificilmente essa disputa terá uma solução que agrade aos dois lados.
Apesar dos constantes conflitos, diplomatas sul-americanos lembram que a região não é das piores. Em um século, poucas disputas regionais acabaram descambando para a guerra aberta entre os países - algo comum em outros continentes. A dificuldade de relacionamento, no entanto, é típica de países que têm muita dificuldade com o conceito de integração e ainda pensam mais como unidade do que em grupo. O Mercosul, por exemplo, com seus 20 anos, ainda não conseguiu resolver nem mesmo as relações comerciais, seu foco principal.
Ainda assim, os fóruns regionais são considerados um bom caminho para tentar resolver as crises locais, mesmo que ainda em fase de testes. A intermediação da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), em 2008, evitou o agravamento da crise entre Equador e Colômbia depois que o então presidente colombiano, Álvaro Uribe, ordenou que forças colombianas invadissem território equatoriano para bombardear o acampamento e matar o líder político da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Raúl Reyes. Os dois países chegaram a romper relações diplomáticas, mas pelo menos não foram além nas ameaças de um conflito armado.