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segunda-feira, 22 de março de 2010

O Tráfico Interno - parte 2



No post anterior fiz uma rápida introdução da conjuntura onde desenvolvi a pesquisa para o Profº Dr. João Luís Ribeiro Fragoso e que, agora, vou desdobrar para abordar a distribuição dos cativos.

A conjuntura que envolvia o tráfico e seus riscos era, em princípio, desfavorável aos traficantes. Se pelo lado do Brasil o tratado de 1826 estava para entrar efetivamente em vigor, e que até prova em contrário contava com o empenho das autoridades em seu cumprimento, pelo lado dos ingleses as condições tendiam apenas a piorar com sua repressão via tribunais e cruzeiros de guerra pelo patrulhamento da costa africana.

E se não bastassem tais problemas, a eles se acrescentavam os infortúnios decorrentes de naufrágios, epidemias, pirataria e arribadas.

Por tais características, este negócio requeria um grau de especialização muito maior, pois poucos tinham acesso aos recursos para comprar ou alugar embarcações, recrutar tripulação e comandantes, reunir as equipagens necessárias, adquirir os produtos destinados ao escambo africano, etc.

Conforme cita Florentino, “Daí que poucos empresários possuíssem capitais suficientes para alimentar em continuidade e de forma sistemática o fluxo de homens para o porto carioca”. E vai mais longe.

Segundo seus estudos, 42,5% das expedições foram efetuadas por apenas 4,6% das empresas traficantes nos anos de 1811-31.



Já o tráfico interno caracterizava-se pela pulverização do negócio, o que lhe dava uma feição diametralmente oposta àquele tráfico atlantizado.

Se neste entravam os custos de embarcações, produtos, alugueis, etc, como valores de alto investimento inicial e uma imobilização de capital relativamente longa – e consequentemente restrita ou monopolizada -, para o tráfico interno a norma era o de um outro negócio.

No comércio interno de escravos predominavam:

1.a movimentação de pequenos volumes de escravos;

2.daí que o mercado era mais flexível e aberto a ação de outsiders;

3.mais negócios de pequeno valor permitiam que o acesso ao negócio fosse mais pulverizado;

4.a participação nesta atividade caracterizava-se pela participação eventual.

Num ambiente em que os preços da escravaria estavam subindo diante da perspectiva de interrupção do tráfico externo, e os depósitos de escravos como do Valongo estavam abarrotados, a redistribuição desta mão-de-obra cada vez mais numerosa atraía especuladores para este negócio.

A partir dos códices 421 e 424, que nos forneceram o maior volume de anos continuados de informações, cobrindo 10 anos, pudemos fazer algumas constatações importantes. Separamos os traficantes identificados nas remessas em duas categorias: os regulares, ou aqueles que permaneceram fazendo remessas de qualquer volume ou destino entre 7 e 10 anos; e os não-regulares ou especuladores, que apareceram menos de 7 anos, com destaque para o fato de que a grande maioria só apareceu uma vez nos registros.

Em quase 6 mil remetentes de escravos identificados nestes dois códices, só 19 pessoas operaram de forma “regular”.

Os especuladores totalizaram impressionantes 5.759 indivíduos, dos quais 4.297 só apareceram uma única vez!

Quanto mais tempo passava, menor era a permanência de agentes fixos.

Dos 55.943 escravos remetidos entre os anos de 1822/31 (segundo estes dois códices), os que apareceram só uma vez transportaram mais de 20 mil escravos para fora do Rio de Janeiro. Na média, os regulares se responsabilizaram entre 3,9% a 8,2% dos negócios – sendo 1830 sua maior participação: 15% do total.

Dos 19 traficantes regulares, 14 operaram entre 7 e 8 anos, e só um, José Antonio Moreira, apareceu em todos os anos.

Sabemos pelo Almanaque Laemertz, que ele era um renomado comerciante, listado entre os mais ricos, e que possuía loja na Rua Direita – atual 1º de Março, no centro do Rio.

Partindo deste dado – a participação única no negócio – entendemos que saltava-nos à vista que estes especuladores evidentemente não viviam desse negócio, dada sua participação eventual e incidental. Imaginamos que entre outras coisas, tropeiros vindo à cidade para trazer gêneros ou fazer outros negócios, traficavam escravos na viagem de retorno.

Um tropeiro chamado João Gonçalves da Gama saiu da cidade com um grupo de cinco escravos rumo a Minas Gerais e declarou “que cada um foi adquirido de fornecedor diferente”.

Assim, pelos dados colhidos, recriamos um modo de operar onde a penetração circunstancial nessa atividade, parecia fincar raízes na oportunidade.
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