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domingo, 6 de março de 2011

Uma releitura do choque de civilizações

    David Brooks - O Estado de S.Paulo
    Huntington erra ao atribuir a traços de comportamento qualidades que são determinadas pelo contexto
    06 de março de 2011 | 0h 00
    Technorati Marcas:
    Samuel Huntington foi um dos maiores cientistas políticos dos Estados Unidos. Em 1993, ele publicou um sensacional ensaio na revista Foreign Affairs intitulado O Choque de Civilizações?. O ensaio, depois transformado em livro, defendia que o período posterior à Guerra Fria seria marcado por conflitos civilizacionais.
    Os seres humanos, escreveu Huntington, são divididos de acordo com critérios culturais - ocidentais, islâmicos, hindus e assim por diante.
    Não existe civilização universal. Em vez disso, o que temos são blocos culturais, cada qual delimitado dentro do seu próprio conjunto de valores. De acordo com ele, a civilização islâmica seria a mais problemática.
    Os habitantes do mundo árabe não partilham dos mesmos pressupostos do mundo ocidental. Sua relação primária se dá com a religião e não com o Estado-nação. Sua cultura não se mostra receptiva a certos ideais liberais, como o pluralismo, o individualismo e a democracia.
    Huntington estava correto ao prever que os regimes presididos por líderes fortes no mundo árabe seriam frágeis e se veriam ameaçados por massas de jovens desempregados. Ele pensou que esses regimes poderiam cair, mas não acreditou que tais países fossem passar por uma modernização ao estilo ocidental. Em meio ao tumulto provocado pela mudança de regime, os rebeldes escolheriam quais ferramentas emprestar do Ocidente, mas esse empréstimo seria refratado por suas próprias crenças. Eles seguiriam sua própria trajetória, sem se tornar mais ocidentalizados.
    O mundo muçulmano tem fronteiras sangrentas, prosseguiu ele. Há guerras e tensões onde o mundo islâmico entra em contato com outras civilizações. Mesmo com a queda de regimes decrépitos, sugeriu ele, ainda haveria um choque de civilizações fundamental entre o Islã e o Ocidente.
    Os países ocidentais fariam bem ao manter distância das questões muçulmanas. Quanto maior for o grau de mistura entre as duas civilizações, piores serão as tensões entre elas.
    Discussão. A tese de Huntington deu início a um furioso debate. No entanto, com as mudanças históricas que agora tomam conta do mundo árabe, a releitura de seus argumentos se mostra esclarecedora.
    Retrospectivamente, eu diria que Huntington cometeu o Erro Fundamental da Atribuição. Em outras palavras, ele atribuiu a traços de comportamento qualidades que na verdade são determinadas pelo contexto.
    Ele defendeu que o povo dos países árabes é intrinsecamente avesso ao nacionalismo. Defendeu que os árabes não anseiam pelo pluralismo e pela democracia nos moldes em que tais conceitos são entendidos no Ocidente.
    Mas parece agora que os árabes simplesmente viviam em circunstâncias que não permitiam que o patriotismo e os anseios espirituais viessem à tona.
    Parece agora que os povos destes países, como os povos de todos os demais países, são dotados de identidades próprias e autênticas.
    Em certas circunstâncias, um conjunto dessas identidades se manifesta, mas, quando essas circunstâncias mudam, outros desejos e identidades de igual autenticidade são ativados.
    Durante a maior parte das últimas décadas, os habitantes dos países árabes viveram sob regimes que governam pelo medo. Em tais circunstâncias, a maioria das pessoas partilhava das teorias conspiratórias e da passividade política que esses regimes encorajavam.
    Mas, quando o medo recuou e a oportunidade de uma mudança se apresentou, diferentes aspirações foram energizadas. Ao longo das últimas semanas, vimos povos árabes fortemente ligados às suas identidades nacionais. Vimos como estavam dispostos a arriscar suas vidas pelo pluralismo, pela abertura e pela democracia.
    O poder da cultura. Eu diria que Huntington também se equivocou na sua definição de cultura. Sob certos aspectos, cada um de nós é como todos os outros habitantes do planeta; em certos aspectos, cada um de nós é como os demais membros de nossa cultura e nosso grupo; e, sob certos aspectos, cada um de nós é único.
    Huntington diminuiu a importância do poder dos valores políticos universais e superdimensionou a influência dos valores culturais distintos. É fácil perceber o motivo disso. Ele estava argumentando contra as elites globais que às vezes se recusam totalmente a reconhecer o poder da cultura.
    Mas parece claro que muitos habitantes dos países árabes de fato partilham de um anseio universal pela liberdade. Eles sentem a presença dos direitos humanos universais e se sentem insultados quando eles lhes são negados. A cultura é importante, mas, sob as diferenças culturais, há aspirações universais por dignidade, por sistemas políticos que ouçam, respondam e respeitem a vontade do povo.
    Por fim, eu diria que Huntington se equivocou quanto à natureza das mudanças históricas. Em seu livro, ele descreve transformações que acompanham trajetórias lineares e previsíveis. Mas não é assim que as coisas funcionam em tempos turbulentos. Em vez disso, uma pessoa dá um passo. Então, a pessoa ao seu lado dá um passo. Logo, milhões são tomados por um contágio, ativando paixões que semanas atrás eram quase imperceptíveis para eles mesmos. São arrebatados por um impulso que não tem autoridade central e, independentemente disso, exerce uma influência irresistível sobre aqueles que são apanhados pela maré.
    Escrevo tudo isso sem o objetivo de diminuir a importância de Huntington. Talvez suas ideias ainda se mostrem corretas. O mundo árabe pode se modernizar seguindo um rumo distinto. Mas os erros dele lançam luz sobre verdades úteis: todas as pessoas partilham de certas aspirações e o rumo da história é aberto. A turbulência dos acontecimentos pode transformar traços e qualidades que, até para os grandes especialistas, pareciam gravados na pedra. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
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