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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Mahmoud Ahmadinejad contra os clérigos iranianos

FONTE: Le Monde Diplomatique Brasil
Os ataques contra Ahmadinejad e seus próximos têm sido brutais: Mashai foi acusado de feitiçaria e “espiritualismo”. Mais de vinte assistentes e conselheiros da Presidência foram presos sob a acusação de bruxaria. Porém o confronto não fica apenas no terreno religioso, o Parlamento solicitou a redução de ministérios
por Fahran Jahanpour
O início de abril, o presidente Mahmoud Ahmadinejad exonerou Heydar Mosleh, ministro da Inteligência. Alguns dias depois, foi forçado a reintegrá-lo, sob pressão do aiatolá Ali Khamenei, o Guia da Revolução. O que começou como um incidente acabou evoluindo para um confronto aberto entre os dirigentes da República islâmica.
É preciso saber que a Constituição do Irã funda-se em conceitos contraditórios. Por um lado, o sistema baseia-se na noção de velayat-e faqih: a tutela da mais alta autoridade religiosa, que governa em nome do Imame Oculto.1 A constituição dá ao Guia imensos poderes: como chefe religioso supremo, sua palavra é considerada de essência divina, e qualquer oposição é entendida como uma oposição ao próprio Deus, sendo passível da mais severa punição.
Por outro lado, o país é uma República baseada no sufrágio universal. A Constituição prevê eleições presidenciais e legislativas, mas o Conselho dos Guardiões tem de aprovar todos os candidatos. O Parlamento só pode legislar sobre a base da charia, e todas as suas decisões devem ser aceitas pelo Conselho dos Guardiões.
Mohammed Khatami, eleito em 1997, tentou reformar o sistema por dentro, introduzindo um pouco de democracia. O presidente defendeu a instauração de uma “sociedade civil” – em oposição a uma “sociedade religiosa” – e pleiteou em favor do Estado de direito, em vez da charia. Ele abriu a política externa, convidou para um “diálogo de civilizações” e deu alguns tímidos passos em direção ao Ocidente.
Ao fim de seus dois mandatos presidenciais, o aiatolá Khamenei estava determinado a não repetir o erro, evitando a formação de um novo governo reformista. Assim, em junho de 2005, com a aprovação dos “duros” do regime, dos Guardiões da Revolução e dos bassidji (jovens oriundos de meios desfavorecidos organizados em grupos paramilitares), o aiatolá apoiou um candidato pouco conhecido, especialmente no exterior: Mahmoud Ahmadinejad – então prefeito de Teerã e membro dos Guardiões da Revolução –, que foi eleito presidente.
O retorno à “pureza”
O novo presidente inaugurou um programa de redistribuição das receitas do petróleo em benefício dos mais pobres e prometeu um retorno à “pureza” dos primeiros dias da era Khomeini. Iniciou-se então uma campanha contra os reformistas: vários líderes e intelectuais foram presos, e o que restava das mídias reformistas foi proibido. Militantes, artistas, cineastas e defensores dos direitos humanos foram reprimidos, muitos deles presos, e suas atividades foram impedidas.
Os reformistas buscaram reorganizar-se para a eleição presidencial de junho de 2009. Eles pediram que Mir Hossein Mousavi, o popular primeiro-ministro em exercício durante a Guerra Irã-Iraque, os representasse. Mousavi ressuscitou vários slogans de Khatami, lançando um apelo às classes instruídas e reformistas. Segundo todas as opiniões independentes, ele teve uma retumbante vitória. Porém tudo mudou da noite para o dia, e o inacreditável se anunciou: Ahmadinejad ganhara por uma maioria esmagadora.2 Antes mesmo da confirmação dos resultados, o aiatolá Khamenei expressou publicamente seu apoio, qualificando as eleições de “bênção divina”.
Sentindo-se enganados, milhões de iranianos invadiram as ruas brandindo uma pergunta como palavra de ordem: “Onde está meu voto?”. Assim nasceu o Movimento Verde, e ganharam as ruas as maiores manifestações desde a revolução.3 Tentativas subsequentes não tiveram o mesmo sucesso, mas quando, na primavera de 2011, o regime afirmou que os levantes no mundo árabe inspiravam-se na Revolução Islâmica, Mousavi e seu aliado reformista Mehdi Karroubi chamaram o povo iraniano a se manifestar, no dia 12 de fevereiro de 2011, em honra às insurreições tunisiana e egípcia. Segundo algumas fontes, mais de 350 mil pessoas, desafiando a proibição das autoridades, foram às ruas em várias cidades, enfrentando balas e cassetetes. Houve dois mortos, muitos feridos e centenas de presos. No dia seguinte, o regime prendeu Mousavi, Karroubi e suas esposas.
O islã iraniano
Tudo parecia ir muito bem para Ahmadinejad, o qual pensou que poderia desfrutar de seu sucesso para conduzir uma política independente. Ele simplesmente esqueceu que governava pela graça de Khamenei e que “uma mão lava a outra”. E jogou um jogo perigoso.
Para reconquistar a confiança do povo perdida com as eleições, Ahmadinejad e seu amigo Esfandiar Rahim Mashai – nomeado vice-presidente em um primeiro momento e, depois, chefe do gabinete do presidente – começaram a invocar a história antiga do país e a falar em “islã iraniano”. Mashai desenvolveu a ideia de uma “escola islâmica iraniana”, afirmando que o xiismo é a mais perfeita interpretação do islã, pois se baseia na autoridade de guias espirituais, os imames. Além disso, os iranianos sempre foram monoteístas, e assim sua contribuição teria enriquecido consideravelmente o islã. Segundo ele, os iranianos têm uma “interpretação pura da verdade da fé e do monoteísmo islâmico”, e o Irã é “a própria encarnação da fé”.
Ahmadinejad apoiou as opiniões de seu colaborador. Quando o Museu Britânico emprestou ao país o cilindro de Ciro,4 ele discursou no Museu Arqueológico, elogiando Ciro, ao mesmo tempo fundador do Império Persa e um dos maiores guias morais da história da humanidade. Na entrevista de uma hora dedicada ao evento, pronunciou 45 vezes a palavra “Irã”.
Esses acentos nacionalistas suscitaram a cólera dos conservadores, que falaram em heresia. O aiatolá Mesbah Yazdi, ex-mentor e parceiro de Ahmadinejad, denunciou abertamente a ideia de um islã iraniano. Ele chegou a qualificar as ideias de Ahmadinejad de “escandalosas”, chamando o caso de “segunda sedição”, logo após a do movimento reformista.
Volta do Imane Oculto
As previsões de Mashai e Ahmadinejad sobre o iminente retorno do Imame Oculto constituem outro motivo de discórdia. No início deste ano, uma série de documentários, intitulada O reaparecimento é iminente, deu a entender que todos os acontecimentos mundiais – catástrofes naturais, guerras, levantes em países muçulmanos, recessão econômica etc. – eram sinais do retorno iminente do Imame Oculto. O conceito aproxima-se do milenarismo judaico e cristão, e os filmes, amplamente distribuídos, designam o presidente Ahmadinejad como a reencarnação de Shub’aib bin Salih, uma das figuras santas que acompanhariam o Imame Oculto.
O presidente e Mashai não poderiam competir com os títulos do aiatolá Khamenei e outros grandes clérigos, mas a vinda do Imame Oculto tornaria inútil todo o estabelecimento religioso, ao passo que o presidente estaria a seu lado para ajudar na fundação de uma nova era de paz e justiça em todo o mundo. Ahmadinejad sempre fez de sua devoção um grande espetáculo: ele começa todos os seus discursos com uma oração pelo retorno do Imame Oculto e teria até jogado uma lista dos membros de seu gabinete no poço da mesquita de Jamkaran, perto de Qom, onde se espera que o Imame Oculto apareça.
O aiatolá Mesbah Yazdi destacou que não cabia às pessoas comuns interpretar as tradições sobre o Imame Oculto ou prever o momento de sua reaparição. Outro alto religioso, Gholam Reza Mesbahi-Moghaddam, também expressou suas objeções: “Se, Deus nos proteja, Ahmadinejad quer dizer que imame Zaman [o Imame Oculto]apoia as ações do governo, ele está errado. O imame Zaman certamente não aceitaria a taxa de inflação de 20% nem outras disfunções hoje instaladas no país”.
Ahmadinejad e Mashai também lançaram uma campanha para minar a autoridade dos religiosos, retratando-os como homens separados do mundo moderno. Em 2008, Mashai organizou em Teerã uma cerimônia na qual mulheres tocavam tamborim, enquanto outras levavam o Alcorão a um pódio para recitar versículos do Livro. Os religiosos viram nesse espírito festivo, em particular na utilização da música, uma falta de respeito para com o Alcorão – para eles, isso estaria proibido pela charia. Mashai respondeu que eles são ignorantes e insensíveis. E afirmou que a música melhora as qualidades espirituais e purifica a alma, e que aqueles que não a sabem apreciar são piores que animais.
Conflito aberto
Assim, Ahmadinejad e Mashai deram a entender que o povo não precisa de religiosos para ensinar-lhes o islã. Enquanto seus antecessores mantinham estreitas relações com os grandes aiatolás de Qom, Ahmadinejad deliberadamente os manteve a distância. O presidente levou todo o seu gabinete em viagem para uma série de províncias, porém sua visita a Qom foi adiada várias vezes e, quando finalmente ocorreu, no dia 25 de maio de 2011, ele levou consigo apenas alguns ministros e não se encontrou com nenhum líder religioso.
Essas peripécias refletem uma luta entre, de um lado, Ahmadinejad e seu clã e, de outro, o aiatolá Khamenei e os altos clérigos – apoiados pelos principais líderes dos Guardiões da Revolução. Os ataques contra Ahmadinejad e seus próximos têm sido brutais: Mashai foi acusado de feitiçaria e “espiritualismo”. Mais de vinte assistentes e conselheiros da Presidência foram presos sob a acusação de bruxaria.
Porém o confronto não fica apenas no terreno religioso. Para diminuir a burocracia, o Parlamento solicitou a redução do número de ministérios. Ahmadinejad fundiu então o Ministério das Vias e Transportes com o da Habitação e Desenvolvimento Urbano; o da Energia com o do Petróleo; o da Indústria e Minas com o do Comércio; o da Proteção e Segurança Social com o do Trabalho. Mas o fez sem a prévia aprovação dos deputados sobre a escolha dos novos ministros. Além disso, nomeou-se ministro interino do Petróleo, num momento em que, pela primeira vez em 36 anos, o Irã obteve a presidência da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
O Conselho dos Guardiões declarou ilegal a ação de Ahmadinejad, mas este rejeitou a decisão. Realizou-se, assim, uma reunião entre os líderes dos três poderes, em presença do Guia Supremo, que endossou a decisão do Conselho e exortou o governo a submeter-se; mas o presidente insistiu. No começo de junho, o Parlamento decidiu então trazê-lo à justiça por violação da lei. No dia seguinte, Ahmadinejad foi obrigado a nomear um novo ministro do Petróleo.
A luta encarniçada entre Ahmadinejad e Khamenei continua, sem nenhuma resolução à vista. Todas as opções estão na mesa: Ahmadinejad poderia renunciar, ser indiciado ou, na melhor das hipóteses, ser autorizado a continuar seu mandato, porém com menos poder.
No dia 2 de junho de 2011, Mohammad Reza Bahonar, primeiro vice-presidente do Parlamento, declarou: “Chegamos à conclusão de que o Mestre [Khamenei] estava pronto a assumir o firme compromisso de pôr fim a este governo; mas ele aparentemente deseja deixar que seus trabalhos continuem calmamente até o fim do mandato, de modo que o décimo governo termine naturalmente”.Ele exortou, porém, o governo a distanciar-se dos “movimentos dissidentes”, os que iniciaram as manifestações de junho de 2009. Condicional para Ahmadinejad?
Fahran Jahanpour
Ex-reitor da Faculdade de Línguas de Isfahan, no Irã, e professor associado da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
Ilustração: Alves
1 Segundo a maioria dos xiitas, o 12º imame – da linhagem de Ali, o genro do Profeta, que morreu em 874 – não teria morrido, mas permanecido “oculto”. Para o aiatolá Khomeini, o Guia é seu representante na terra e dispõe de poder ilimitado. Essa teoria é contestada por outros aiatolás.
2 Ler “Iran’s stolen revolution” [Revolução iraniana roubada], Open Democracy, Londres, 18 de junho de 2009. Disponível em: http://www.opendemocracy.net/
3 Ler Ahmad Salamatian, “Dans le chaudron du pouvoir iranien” [No caldeirão do governo iraniano], Le Monde diplomatique, julho de 2009.
4 Cilindro de argila datado de 539 a.C., no qual se lê uma proclamação do rei Ciro II.
Technorati Marcas: ,,
http://diplomatique.uol.com.br/artigo.php?id=972
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