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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Israel e Irã: Novo round?

Segundo vários órgãos de imprensa internacionais, o premiê Nethanyahu estaria buscando juntamente com o ministro da defesa e ex-primeiro ministro, Ehud Barak, estabelecer uma maioria no gabinete que apoie a adoção de medidas diretas em relação ao Irã e seu programa nuclear. Neste caso, leia-se tal esforço por um consenso mais explícito, como uma operação militar contra instalações nucleares iranianas, com algum suporte logístico dos EUA ou não.
Neste ponto cabe perguntar não sobre a exequibilidade de tal operação, mas as suas possibilidades reais de desencadeamento e suas repercussões.

O ataque israelense

Sem dúvida que a FAI (Força Aérea Israelense) possui condições para planejar uma operação desta envergadura, apesar de suas dificuldades técnicas. Como levar uma força de ataque de F-16s até o território iraniano despercebida, é um entrave tão grande como conseguir reabastece-los (REVO) tanto para executar sua missão como para serem retirados.

Cruzar territórios alheios, evadir-se à cobertura de radares potencialmente hostis, ser capaz de escapar ao olhar vigilante dos satélites e isso sem que os EUA forneçam seu aval parece ser uma tarefa monumental. Não que seja irrealizável, porém, pouco provável já que as repercussões de uma tal ataque, levado a cabo com armas norte-americanas, exporia os interesses dos EUA à retaliações.

O Irã possui cerca de mais de 77 milhões de habitantes e um PIB US$ 818 bilhões de dólares. Já Israel tem pouco menos de 10% desta população e um PIB de US$ 219 bilhões de dólares – dados da Index Mundi referentes a 2010.

O Irã tem se esforçado para desenvolver capacidades militares próprias desde que em virtude da Revolução de 1979 o país passou a sofrer um embargo militar, o que aliado à longa guerra contra o Iraque, caducou grande parte dos recursos militares do país. Vários programas foram então desenvolvidos nos últimos anos, tais como o do Saeqeh onde por meio de uma engenharia reversa aplicada aos antiquados F-5 Tiger fornecidos pelos EUA para o Xá Pahlevi, tais caças foram atualizados, apresentando melhorias de desempenho. Neste, foram modificados – o que se constata visivelmente – a parte traseira, que hoje apresentam dois e não um estabilizadores verticais e as entradas de ar foram compatibilizadas com as dos F-18 norte-americanos.

Mas aparecem situações díspares. Recentemente foram apresentados submarinos nacionais inspirados na classe Sangh-o norte-coreanos mas que só tem uso regional por serem muito pequenos – o que não os tornam desprezíveis. Com 19 tripulantes, estes mini submarinos evidentemente não são páreos para um grupo tarefa dos Estados Unidos. Mas nas águas interioranas do golfo, a história é outra: com maior capacidade de ocultamento podem atacar alvos militares ou petroleiros em trânsito, fechando o Estreito de Ormuz. Sua frota oceânica é nucleada em seis fragatas e três submarinos da classe Kilo russos.

Por outro lado, o programa de mísseis parece bem mais vistoso e perigoso.

A distância entre a fronteira oeste iraniana e Tel Aviv é de uns 1000 km, e são cobertos com folga pelos foguetes Shahab-3, que são capazes de cobrir 2000 km. Isto expõe não só 100% do território israelense como também uma grande parte das instalações dos EUA na região do Oriente Médio e de seus aliados.

Levando isso em consideração Israel deslocou inicialmente seus submarinos para o Golfo Pérsico, em junho de 2010, e decidiu manter pelo menos um deles permanentemente naquela área. Além de seis tubos lançadores de torpedos, os submarinos classe Dolphin possuem dois tubos de 650 mm, se se crê sejam para lançamento de uma versão de lançamento submarino dos mísseis Popeye Turbo, que poderiam (grifo meu) levar cargas nucleares. Inclusive, ao passar pelo Canal de Suez, ficou claro na ocasião a parceria egípcio-israelense contra um Irã nuclear.

Ao mesmo tempo prosseguiram os esforços para implementar o programa Arrow que se destina a dotar Israel de um sistema antibalístico, justamente para cuidar da ameaça iraniana, porém não dela! E em contrapartida, os seus Jericho II/B, seriam capazes de transportar ogivas nucleares ou químicas até 2500 km, segundo a Agência de Informações de Defesa (DIA) dos EUA.

Estacionados em Sedof Mikha e Zacharia, os esquadrões 150 e 248 são os portadores destes balísticos, que segundo informações não confirmadas, foi o vetor testado ontem.

O equilíbrio geopolítico

Como um xadrez multidimensional, mover uma pedra neste tabuleiro implica analisar e considerar diferentes camadas, não raro eivadas de interesses contraditórios.

Até que ponto Israel de fato tem interesse em atacar o Irã?

A assimetria de recursos humanos e econômicos aponta para uma impossibilidade de Israel vencer de forma clara e definitiva um adversário do porte dos iranianos. Seus recursos só seriam de fato determinantemente ampliados se alguma potência “árabe” se unisse aos israelenses – o que é impensável. Por outro lado, sequer se poderia cogitar de um envolvimento dos Estados Unidos dando suporte aos israelenses e contrabalançando os recursos iranianos com seu próprio peso. O islamismo político se agudizaria e arrastaria populações hoje distantes do discurso fundamentalista para um engajamento mais efetivo.

Para Israel, iniciar ainda que preventivamente uma operação militar antinuclear sobre os iranianos seria expor-se à retaliações do Hamas e do Hezbollah em Gaza e no Líbano, o que fatalmente ampliara o perímetro das operações militares israelenses para uma guerra de atrito talvez numa escala inédita. Tanto o Hamas como o Hezbollah, patrocinados pelo Irã, não assistiriam de braços cruzados uma derrota vergonhosa de seu patrocinador.

Na Cisjordânia o governo Abbas ruiria, com a Autoridade Nacional Palestina ocupando o lugar do Fatah – exceto se o próprio Fatah não se unisse, ainda que a contragosto, com os seus rivais de Gaza no movimento palestino.

A recente iniciativa de Abbas de pleitear unilateralmente na ONU um assento para a ANP, levou ,a mais numa das reviravoltas aparentemente inexplicáveis do Oriente Médio.

Para esvaziar o “sucesso” da iniciativa da ANP, o Hamas e o governo israelense puseram fim a um impasse de 5 anos, pelo qual o soldado Shallit foi recambiado para Israel em troca de mais de 1000 prisioneiros palestinos. Israel negociou com os líderes de Gaza e procurou assim enfraquecer o Fatah, pois afinal foi o Hamas que conseguiu a libertação de seus correligionários.

Egito, Jordânia, Arábia saudita e as demais petro-monarquias do Golfo se beneficiariam de um enfraquecimento iraniano, embora o risco de uma radicalização geral em apoio aos aiatolás possa vir a ser ainda mais perigosa. A síria poderia aproveitar-se para restaurar a unidade interna ao mesmo tempo em que desvia o foco das atenções internacionais para alhures.

O Paquistão e o Afeganistão – aqui incluídos como um Oriente Médio estendido – não ficariam imunes, pois tanto um como o outro veriam certamente uma escalada das ações extremistas tanto do LeT (Lashkar-e-Taiba) ou do movimento Haqqani como do Talibã, respectivamente.

O Irã certamente retaliaria por intermédio de seus parceiros, mas certamente não se deve desconsiderar que ao possuírem vetores balísticos com alcance para cobrir Israel, eles podem ser usados para espalhar resíduos nucleares.

Devemos sempre lembrar que possuindo os meios, não se precisa necessariamente de uma bomba nuclear. Espalhar material radiativo pode ser menos espetacular; mas é igualmente eficiente!

Uma outra interpretação

No obscuro mundo dos aiatolás iranianos – obscuro para nós – as autoridades civis e religiosas afirmaram e reafirmaram em diferentes oportunidades sua negativa em termos de buscar um artefatos nucleares. Mas sempre disseram ser um direito legítimo desenvolver um programa nuclear pacífico.

Seguidas rodadas de sanções internacionais e uma fracassada tentativa de intermediação de um acordo, levado a cabo pelos governos turco e brasileiro, não parecem ser capazes de impor aos iranianos uma situação com a qual não concordam: a suspensão de seu programa nuclear.

Para a comunidade internacional, Teerã não é transparente na questão e portanto, suspeita. Para os iranianos, existe é muita intransigência e desejo de interferir na soberania do país. Por sinal, esta foi a posição brasileira: reconhecer o direito iraniano no campo nuclear, mas condicioná-lo a fiscalização internacional.

A ameaça israelense pode servir a esta altura como uma manobra destinada a forçar a ONU a impor novas sanções contra o governo iraniano – demarcando a força diplomática de Tel Aviv. Ou seja ,as ameaças israelenses forçariam a ONU a agir. De novo uma espécie de “cortina-de-fumaça” para desviar o foco.

Por outro lado haveria, talvez, interesses na política interna iraniana por trás da ameaça israelense?

O Líder Supremo Mohamed Kathami já declarou que possuir armas nucleares seria contrário ao islã. Então, por que os boatos sobre o programa nuclear são tão frequentes?

Pode ser que em virtude das reiteradas manifestações do presidente Ahmadinejad contra Israel, tenha levado o governo israelense a ameaçar os iranianos para forçar uma manifestação mais clara ou decisiva num eventual conflito entre as autoridades seculares e religiosas.

O Líder Supremo não possui apenas um título; ele detém o comando dos elementos chave do poder no país, a começar pelo Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica, ou como é mais conhecida, a Guarda Revolucionária ou pasdaran.

Está é uma força combinada e independente dos ramos tradicionais das forças militares iranianas. Foi criada em 1979 e possui suas próprias unidades aéreas, terrestres e navais, além do controle dos mísseis e controla variados e importante setores da economia, desde que vários dos bens e propriedades do deposto Xá foram colocados sob controle direto dos aiatolás.

E hoje, enquanto Israel executa treinamentos de ataques químicos com a população de algumas cidades, uma prévia do relatório da AIEA não afirma, mas indica ser possível que haja de fato um programa nuclear militar.

A ameaça israelense poderia fragilizar a situação do presidente Ahmadinejad a ponto de levar o aiatolá Kathami a removê-lo do poder. Mas pode, num efeito contrário, mantê-lo no posto se ficar parecendo que o regime iraniano estaria sendo forçado, pela comunidade internacional, a submeter-se a imposições estrangeiras.

Não existe um programa nuclear sem o aval ou contra a vontade dos líderes religiosos. Resta saber se de fato, os líderes se opõem a tal programa.



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