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sábado, 3 de março de 2012

O arabesco sírio - Francisco Carlos T. Silva

Na Síria a Primavera árabe encontrou uma situação diversa, complexa e com resistências sedimentadas. Para infelicidade do povo sírio e dos verdadeiros democratas que iniciaram, com o custo de suas vidas, a oposição ao regime Assad, o que se joga hoje na Síria é um brutal jogo de poder estratégico regional e global.
Francisco Carlos Teixeira

     Em meio à guerra civil que devasta a Síria, com mais de 7500 mortos contabilizados no momento (fevereiro de 2012), creio que podemos fazer um balanço precário da situação e das características dos atores em choque. 

A Primavera Árabe, ganhos e perdas.
     A Primavera Árabe deixa, um ano depois, um balanço mitigado, com certo sabor amargo. Na Tunísia, onde começou, formou-se um governo islâmico moderado, com forte marginalização da oposição laica. No Marrocos um plebiscito, muito criticado, legitimou um governo mais constitucional, participativo, mas ainda tensionado entre os poderes do rei e a oposição islâmica. No Egito a ditadura Mubarak foi substituída por uma Junta Militar tremendamente autoritária que busca um acordo com os conservadores da Irmandade Muçulmana para continuar no poder. Assim, militares e mullás buscam marginalizar a oposição laica e progressista que fez da Praça Tahrir um marco da resistência popular no mundo globalizado. Na Líbia, onde se travou uma guerra civil – não houve um verdadeiro levante popular vitorioso – a intervenção estrangeira da OTAN e de países árabes, como o Qatar e o Kuait derrubaram a longa e cruel ditadura de Muamar Al-Gadhafi, não sem cometer tremendas ofensas aos direitos humanos.
     As monarquias conservadores do Golfo Pérsico, entre elas o Bahrein e Arábia Saudita, sufocaram brutalmente seus levantes populares, tudo em face do silêncio do Ocidente – que depende do petróleo saudita (principalmente para bloquear o Irã) e, para o controle das rotas e pipelines, da base militar norte-americana no Bahrein.

O Arabesco 
     Na Síria a Primavera árabe encontrou uma situação diversa, complexa e com resistências sedimentadas. Com cerca de 23 milhões de habitantes e localizada como um estado-pivô – que acessa importantes estados da região, como Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Israel. Além disso, possui o controle de vários e raros rios perenes da região. E desempenha, assim, um papel central no arranjo estratégico do Oriente Médio.
     Sua própria composição étnica – com árabes, armênios, cristãos e judeus – e sua composição religiosa, são elementos valiosos no debate sobre a convivência futura na região. Cerca de 74% da população síria é nominalmente (explicamos em seguida) muçulmana, que convivem (ou conviveram até o momento) uma paz tolerante com cristãos – romanos, armênios, gregos – e drusos e judeus. Porém, a denominação muçulmana na Síria abarca cerca de 14% da população do país que é “alawita”. Os chamados “alawitas” são seguidores do iman Ali ibn Al-Talibi, o quarto “califa perfeito”, primo e genro do Profeta Mohamed, fundador do Islã.
     Ali ( que viveu entre 599-661) revoltou-se contra a tribo qoraichita – ricos comercinates de Meca -, e proclamou que o califado (o título de sucessor do Profeta) reside exclusivamente na família do próprio Profeta e, portanto, ele e seus filhos – Hassan e Hussein – com Fátima, filha do Profeta, eram os únicos sucessores legítimos no Islã. As lutas fratricidas seguiram a tais exigências dos “álidas” ou “fatímidas”, forma tremenda, e geraram o cisma xiíta – Shi´a, o cisma, os partidários de Ali. 
     Os alawitas da Síria são, assim, um minoria no interior do Islã e, mesmo, na Síria. Caracterizaram-se, desde a chegada ao poder em 1970, com Hafez al-Assad, pai do atual presidente Bachir al-Assad, por grande tolerância religiosa, pela tentativa de aproximação e uniformização com o Islã sunita nas suas formas mais exteriores de culto e por nenhuma tolerância com qualquer dissenso ou oposição política.

A tirania dos Assads
     A Síria viveu, assim, de 1970 sob um regime duro e capaz de realizar operações de repressão de amplitude únicas, mesmo para o Oriente Médio, como em Homs em 1982. Hafez Al-Assad procurou, desde 1970, expurgar os elementos originais do Partido Ba´ath, transformando as propostas socialistas originais em puro controle estatal. Tal controle servia de garantia da supremacia de alawitas e cristãos sobre o aparelho do Estado. Especialmente nas FFAA a ação da ditadura de Hafez foi muito ampla, dando poderes à minoria alawita como forma de garantia de lealdade ao regime.
     Neste momento de crise aguda do regime, os alawitas e cristãos formam largamente ao lado do regime, agora com o filho e sucessor de Hafez, Bachir AL-Assad, exatamente por isso. Uma mudança de regime, com o retorno da maioria sunita ao poder, representaria uma brutal repressão contra xiitas/alawítas e cristãos, que no mínimo seriam obrigados a abandonar cargos e funções e exilar-se do país.
     Para os sunitas, os alawitas não são nem mesmo xiitas, ou dissidentes. Trata-se, para eles, de uma heresia cristã, antiga e resistente, que ofende e nega o Islã. A principal diferença – para além de ritos secretos, adoração de imagens, comemoração do Natal, da Páscoa e do Domingo de Ramos, além de procissões – reside na negação da máxima básica do Islã, a unicidade de Deus (“Allah akbar”, ou “Deus é o maior”, ou “o único”). Os alawitas acreditam em Deus como uma “Trindade” (daí a aproximação e a declaração de apostasia cristã), formada pelo Profeta Mohammed, pelo Iman Ali e pelo companheiro e amigo do Profeta, o persa Salman Al-Farsi.
     Assim, a maioria sunita, em especial aqueles tocados pelo salafismo fundamentalista sunita, se sentiram, desde a chegada dos alawitas ao poder, altamente ofendidos pelo governo da minoria “apóstata”. 

Oposições 
     Na verdade, para os participantes originais da Primavera Árabe e para os primeiros resistentes sírios as questões religiosas não deveriam prevalecer no debate. A luta contra a ditadura seria uma luta ampla, aberta, de oposição a uma ditadura. Esta seria, ao menos, a posição do chamado “Coordenação de Comitês Locais de Oposição”, formado por jovens de classe média, próximos dos debates ocidentais e profundamente “plugados” nas novas mídias. Neste aspecto, a Primavera Síria seria parte das demais lutas iniciadas em Tunis ou na Praça Tahrir no Cairo desde 2010. No entanto, rapidamente – e em virtude da dura repressão do regime Assad – a luta atingiu as hierarquias das FFAA sírias, onde a liderança partidária e oligárquica dos alawitas e cristãos foram denunciados e recusados. A partir de meados de 2011 as ordens de repressão dadas ao Exército sírio deixaram de ser cumpridas e a deserção começou a crassar entre as fileiras de soldados e da média oficialidade, quase toda sunita.
     É então que toma forma o Exército de Libertação da Síria (Free Syrian Army/FSA), em especial ao norte do país, na fronteira com a Turquia. No início tratava-se de evitar a morte de civis, nas mãos das milícias para-militares de Assad, denominadas de “Shabeeha”, que já existiam desde a intervenção síria no Líbano. Agora estes “Fantasmas”, como se denominam, passaram a aterrorizar a oposição e as principais lutas se deram, em 2011, entre o FSA e a “Shabeeha”.
     O FSA possui um número indeterminado de membros – a Al-Jazira fala em 15 mil homens – e evoluiu, rapidamente, para uma tática de guerrilhas, o que já causou a morte de 1200 policiais e militares sírios (que estão na cifra apontada pela ONU de mais de 7500 mortos no conflito, entre opositores, policiais, militares e civis ). Cabe dizer, também, que o FSA usa ataques-bomba contra prédios públicos e manifestações de apoio ao regime Assad. A FSA utiliza-se ainda de morteiros e de armas RPGs e carros bomba, o que atinge a população civil e outros não envolvidos diretamente em combate. As respostas cruéis do regime – como o bombardeio indiscriminado do distrito urbano de Homs, nos últimos dias, decorre exatamente desta tática de “escudo humanos” usados pelo FSA.
     A emergência da outros partidos de oposição, como a “National Coordination Committee” e “Syrian National Council” complicou ainda mais o arabesco de oposições contra o regime. No seu conjunto, no entanto, todas as entidades de oposição pedem a intervenção do Ocidente, seguindo o modelo utilizado na Líbia – o RtoP, ou seja, a “Responsabilidade de Proteger”, um limite ao conceito de soberania do Estado. No entanto, as Inteligências americanas e francesas, muito ativas no país, sabem bem que Assad mantém o controle da maior parte das FFAA e que as minorias alawitas e cristã lutariam contra o Ocidente, transformando o arabesco em um puzzle militar incontornável.

A intervenção da Al Qaeda
     Como uma organização extremista sunita, de caráter fundamentalista (salafita/wahabita), a Al-Qaeda – ainda ativa e letal, malgrado a morte de Bin Laden – determinou a intervenção na guerra civil síria, colocando-se ao lado da oposição. Em dezembro de 2011, Ayaman Al-Zawhiri, o sucessor de Bin Laden na direção da Al-Qaeda, declarou, em entrevista à Al-Jazeera, uma “guerra santa” contra o regime herético de Damasco, chamado de “câncer do Islã”. Já em 23 de dezembro, logo após as declarações de Al-Zawahiri, explodiu um carro-bomba em Damasco, conduzido por um terrorista suicida, seguido por outro atentado “made in Al-Qaeda”, no dia 6 de janeiro de 2012. Na ocasião a CIA atestou a presença de um grande número de terroristas jihadistas que teriam abandonado o Iraque e penetrado na Síria para combater Assad.
     Por outro lado, a secretária de estado dos EUA, Hillary Clinton, confirmou informações que a CIA entregou seis milhões de dólares para a oposição síria, através de comitês existentes em Londres. A Turquia, membro da OTAN, dá abrigo e arma o FSA. Também são atestados um fluxo contínuo de dinheiro e armas do Qatar, Kuait e Arábia Saudita para a oposição síria, transformando o arabesco sírio numa encruzilhada estratégica. Aí reside o motivo central do veto sino-russo às démarches do Conselho de Segurança da ONU ( de condenação só a Assad ), já que Moscou e Beijing pedem o fim de “todas” as ações armadas, incluindo do FSA, e o fim da entrega de armas por parte de países árabes e de dinheiro do Ocidente à oposição.
     Assim, para infelicidade do povo sírio e dos verdadeiros democratas que iniciaram, com o custo de suas vidas, a oposição ao regime Assad, o que se joga hoje na Síria é um brutal jogo de poder estratégico regional e global. Num nível local alinham-se os poderes xiitas minoritários, com o Irã/a maioria xiíta iraquiana/ a Síria e a minoria xiita do Líbano, representada pelo Hizbollah, contra as “potências” sunitas, representadas pela Arábia Saudita/Qatar/Kuait, com apoio da Turquia e a intervenção brutal da Al-Qaeda. A este nível global do xadrez se juntam os EUA e a União Europeia e Israel, visando manter o controle da região e impedir a emergência de um Irã como potência regional e enfraquecer ao máximo a Síria como opositor de Israel. Do outro lado, alistam-se China e Rússia, dispostas a evitar a completa hegemonia americana e, tendo como corolário e justificativa, a limitação da soberania das nações em nome do princípio da intervenção humanitária (RtoP).

Eis uma parte do arabesco sírio.

(*) Professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
FONTE: Carta Maior http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5498
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