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domingo, 29 de abril de 2012

Afeganistão: Insurgência e negócios


The Economist Intelligence Unit
27.04.2012 19:13
A frágil estabilidade política no Afeganistão


VISÃO GERAL: A duradoura campanha de insurgência de vários grupos indica que a estabilidade política no Afeganistão continua fraca. Uma série de incidentes no primeiro trimestre de 2012 agravou consideravelmente as relações entre o Afeganistão e os países ocidentais. No início de 2012 os Estados Unidos começaram a pressionar por uma redução no financiamento necessário para apoiar a Força de Segurança Nacional Afegã (ANSF na sigla em inglês). Foram estabelecidos limites ao volume de dinheiro que pode ser tirado do país, na tentativa de conter a fuga de capital em grande escala. O governo começou a aceitar propostas para explorar a metade ocidental da bacia de petróleo Afegã-Tajique, no norte do Afeganistão, onde estimativas iniciais indicam depósitos de 600 milhões de barris de petróleo.

      POLÍTICA INTERNA: Tumultos mortíferos varreram o Afeganistão no final de fevereiro, depois de relatos de que exemplares do Corão foram queimados por soldados norte-americanos na base aérea de Bagram, perto da capital, Cabul. Oficiais da Otan disseram que os livros faziam parte de material religioso islâmico que foi apreendido em um centro de detenção local depois de relatos de que os detidos os estavam usando para trocar mensagens, e que a queima dos livros foi acidental. Um pedido de desculpas formal dos EUA mostrou-se insuficiente para conter a ira local, que irrompeu em demonstrações por todo o país na semana seguinte, resultando na morte de 30 afegãos e seis soldados norte-americanos.
     No rastro dos incidentes com o Corão, em 11 de março um sargento do exército norte-americano, Robert Bales, supostamente saiu em frenesi aos tiros pelo remoto distrito de Panjwai, na província de Kandahar, sudoeste do Afeganistão. Embora os relatos dos eventos variem muito na imprensa local e internacional, incluindo alegações de que um grupo de soldados pode ter participado, as autoridades norte-americanas disseram que o suspeito agiu sozinho e mais tarde se entregou.
     As tensões entre o Afeganistão e seus aliados internacionais também foram alimentadas por uma série de episódios em que soldados e policiais afegãos (assim como rebeldes disfarçados de autoridades) atacaram tropas da Otan. O aumento das tensões no terreno obscureceu as recentes notícias de progresso nas negociações sobre o Acordo de Parceria Estratégica (SPA na sigla em inglês), que definiria as condições da presença norte-americana no Afeganistão após a retirada das tropas de combate. O presidente afegão, Hamid Karzai, expressou otimismo de que o SPA seja assinado antes da cúpula da Otan sobre o Afeganistão que se realizará em Chicago em 20-21 de maio. O SPA está em negociação há mais de 18 meses. Além de dar impulso à assinatura do SPA, a conferência de Chicago também é considerada um passo vital para estabelecer os termos do apoio a ser dado ao setor de segurança afegão, especialmente depois da retirada das Forças Internacionais de Assistência à Segurança (ISAF, que consistem em tropas dos EUA e da Otan) em 2014. Os EUA pressionaram pela redução dos fundos necessários para sustentar a ANSF, embora o custo anual ainda deva ser acordado pela comunidade internacional, diante da difícil situação das finanças do Afeganistão.
     RELAÇÕES INTERNACIONAIS: A situação da segurança no Afeganistão continua sendo afetada negativamente pela dinâmica política regional. Em janeiro, a emissora pública britânica BBC relatou que teve acesso a um relatório secreto da Otan que documentava a assistência dada pelos serviços de segurança do Paquistão aos taleban. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores paquistanês chamou as acusações de “ridículas”, salientando o compromisso do Paquistão de não interferir no Afeganistão. A Missão de Assistência da ONU ao Afeganistão (Unama) confirmou em seu relatório anual divulgado em fevereiro que um número recorde de civis foi morto em 2011 como parte do conflito em curso. A vasta maioria das mortes foi causada por grupos insurgentes, incluindo os taleban. Entretanto, o Conselho de Segurança da ONU votou em 22 de março prorrogar o mandato da Unama por um ano. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou que seu país vai suspender suas operações de treinamento e apoio ao combate no Afeganistão pendentes de revisão. Sarkozy também disse que a França vai romper com seus aliados da Otan e retirar as tropas do Afeganistão no final de 2013, um ano antes do prazo em que todas as forças internacionais devem deixar o país. Em 1º de fevereiro, o secretário da Defesa dos EUA, Leon Panetta, anunciou que seu país encerraria sua ação de combate no Afeganistão em meados de 2013, mais de um ano antes da retirada programada das tropas norte-americanas, e assumiria um papel de “conselheiro e assessor”, fornecendo apoio às forças de segurança afegãs.
     TENDÊNCIAS POLÍTICAS: No início de 2012 os EUA começaram a pressionar por uma redução das verbas necessárias para sustentar a ANSF. Quando a ISAF terminar as operações de combate no Afeganistão (programado para 2013), a ANSF deverá assumir a liderança na manutenção da segurança do país, assim como lidar com os rebeldes. Com essa finalidade, a ISAF tem treinado forças locais, e a ANSF deverá crescer de seus atuais 305 mil membros para 352 mil até setembro deste ano. Os EUA estimam que treinar e equipar essas forças custará cerca de 6 bilhões de dólares por ano, mas vem pressionando para reduzir os custos para 4,1 bilhões de dólares ao ano. Também busca mais contribuições de aliados da coalizão, assim como do governo afegão, apesar de o estado precário das finanças públicas do país poderem impedir um aumento significativo nas contribuições locais. O ministro das Finanças afegão, Omar Zakhilwal, confirmou ao apresentar ao Parlamento o orçamento para o ano fiscal 2012/13 (21 de março a 20 de março) que o país não terá recursos suficientes para cobrir suas despesas depois da retirada das tropas da ISAF. Zakhilwal apresentou um orçamento que previa gastos em 2012/13 de 4,8 bilhões de dólares, dos quais apenas um terço seriam cobertos por receita interna; o restante deveria vir em forma de ajuda estrangeira. Há preocupações de que o Afeganistão não será capaz de fechar sua lacuna fiscal nos próximos anos, apesar de medidas como a adoção de um novo imposto de valor agregado, marcada para 2014. O orçamento foi rejeitado pelo Parlamento e está sendo renegociado.
     CRESCIMENTO ECONÔMICO: O governador do banco central, Nurollah Delawari, anunciou em meados de março que está impondo limites ao volume de dinheiro que pode ser retirado do país. Anteriormente, quantias ilimitadas podiam ser retiradas, desde que fossem declaradas. Isto resultou na saída do país de grande volume de capital em espécie: estima-se que a quantia de dólares americanos carregados por passageiros que saíram pelo Aeroporto Internacional de Cabul em 2011 duplicou, para 4,6 bilhões de dólares. Isso quase equivale aos gastos públicos anuais, estimados em 4,8 bilhões de dólares em 2011. Para conter a fuga de capital, Delawari anunciou que um limite de 20 mil dólares por passageiro será imposto; para quantias maiores, serão necessárias transferências eletrônicas. Os cambistas no Afeganistão protestaram contra a medida, afirmando que vão aumentar acentuadamente o custo das transações. Não está claro se o novo limite vai conter a fuga de capital, que as autoridades temem estar ligada à indústria de heroína do país.
     CONTAS EXTERNAS: Em 7 de março o governo começou a aceitar propostas para explorar a metade ocidental da bacia Afegã-Tajique, no norte do país, perto da cidade de Mazar-i-Sharif, onde estimativas iniciais indicam depósitos de cerca de 600 milhões de barris de petróleo. O ministro das Minas, Wahidullah Shahrani, indicou que a bacia também pode conter reservas de gás na mesma região. Toda a bacia é estimada pelo Serviço Geológico dos EUA em cerca de 946 milhões de barris de petróleo e 7 trilhões de pés cúbicos de gás. A empresa de petróleo norte-americana Chevron está entre vários investidores estrangeiros supostamente interessados nos direitos de exploração.
Fonte: Carta Capital       http://www.cartacapital.com.br/internacional/a-fragil-estabilidade-politica-no-afeganistao/
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