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sábado, 5 de maio de 2012

Tanques, caças ou estudo


É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES - O Estado de S.Paulo

Um ano depois do violento despertar árabe, os Estados Unidos assumiram dois compromissos financeiros com o mundo árabe, cada um dos quais começa com os números 1 e 3.
     Eles ofereceram às Forças Armadas do Egito tanques e caças no valor de US$ 1,3 bilhão, e aos estudantes das escolas públicas libanesas um programa de bolsas de estudo para a universidade, com base no mérito, no valor de US$ 13,5 milhões, que permite a 117 jovens libaneses estudar em escolas de estilo americano nas quais se promove a tolerância, o gênero, a igualdade social e o pensamento crítico. Visitei recentemente o Egito, estive há pouco no Líbano e posso relatar o seguinte: os US$ 13,5 milhões em bolsas integrais já mereceram para os Estados Unidos muito mais amizade e estabilidade do que o US$ 1,3 bilhão em tanques e caças jamais conseguirão.
     Então, que tal os EUA pararem de ser burros? Que tal pararem de mandar aviões e tanques para um país onde a metade das mulheres e um quarto dos homens nãos sabem ler e começar a mandar bolsas de estudo? Ultimamente andei visitando vários países árabes. Tenho passado todo o tempo disponível conversando com professores e estudantes da escola pública - e com jovens árabes que estão criando microempresas de tecnologia - e o menor tempo possível com representantes do governo.
     É uma conclusão à qual cheguei com base em minhas convicções sobre o que realmente impulsionou as revoluções em Túnis e na Praça Tahrir: os jovens árabes - 70% dos desta região têm menos de 30 anos -, que se sentiram humilhados e frustrados por terem sido menosprezados. O despertar árabe foi sua maneira de dizer: queremos a liberdade, a voz, as ferramentas da educação, os empregos e um governo não corrupto para realizarmos todo nosso potencial. Foi isso que provocou a revolução.
     Sim, as várias Irmandades Muçulmanas exploraram a abertura criada pelos levantes, pois eram os partidos mais organizados. Mas se os islâmicos não atenderem às verdadeiras motivações desta revolução - o anseio pela educação e por empregos e a dignidade que eles representam - também acabarão enfrentando uma rebelião.
     Se os EUA quiserem entrar em sintonia com as reais aspirações dessas revoluções, terão de estender a outros países do despertar árabe os US$ 13,5 milhões que o programa de bolsas de estudo da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional iniciou no Líbano. A propósito, tiramos o chapéu para o presidente Barack Obama, a secretária de Estado Hillary Clinton, o administrador da USAID, Rajiv Shah, e os membros do Congresso que deram sinal verde para esse programa.
     O Irã está construindo barragens e estradas por todo o Líbano, decorados com faixas com os dizeres "Obrigado, Irã". Mas ninguém faz fila aqui para ir à Universidade de Teerã. As pessoas continuam fazendo fila para conseguir bolsas de estudo dos EUA - aliás, uma das exigências é que os ganhadores prestem serviço comunitário, de modo que ao mesmo tempo se criem cidadãos mais conscientes.
     A Embaixada dos EUA em Beirute apresentou-se a quatro estudantes libaneses ganhadores de bolsas deste ano - que estudam agora ou na Universidade Libanesa-americana ou na Universidade Haigazian, que oferece moderna formação universitária no estilo americano.
     Israa Yassin, de 18 anos, da aldeia de Qab Elias, que estuda ciências da computação, me disse: "Todo o programa ajuda a tornar os jovens capazes de transformar esse país no que deveria e pode ser. Nós somos bons e temos capacidade e podemos fazer muitas coisas, mas ainda não tivemos a chance. Meu irmão acabou o ensino médio e não pôde estudar na universidade. Seu futuro realmente parou. Os EUA estão nos dando uma possibilidade de prestarmos nossa contribuição para um país melhor. Acredito que se nos derem a oportunidade poderemos mostrar que somos excelentes... Não seremos mais subestimados. É realmente triste ver toda uma geração nas aldeias libanesas - centenas de pessoas sem nada para fazer - sem trabalho, sem ir para a universidade".
     Mudança. Depois de obter uma bolsa de estudos americana, disse Yassin, "minha família e minha comunidade aprenderam a olhar para os EUA de modo diferente. Por que odiariam quem os está ajudando?" A notícia das bolsas distribuídas pelos EUA espalhou-se rapidamente. O programa agora recebe um enorme número de inscrições para o próximo ano, na maioria de mulheres. Wissal Chaaban, de 18 anos, da cidade de Trípoli, também frequenta a Universidade Libanesa-americana onde estuda marketing e me disse: "Temos muitos talentos no Oriente Médio e os jovens não se sentem valorizados. Eles acham que não têm voz ou não são ouvidos suficientemente". Esse programa interessa aos EUA, ela afirmou, pois envia jovens para as universidade que "encorajam a abertura, a aceitar o outro, por mais diferente que seja, mesmo que seja de outra religião".
     Gostaria que o governo americano concedesse mais bolsas de estudo a cidadãos americanos, mas como essas verbas se destinam especificamente à ajuda externa, é preciso usá-las de maneira inteligente. Os EUA podem fornecer ajuda militar - mas na proporção certa.
     Em Amã, entrevistei professores da rede pública na imponente Academia de Pedagogia para Professores Rainha Rania, que trabalha com uma equipe da Universidade Columbia buscando o aperfeiçoamento dos professores.
     Conversamos sobre o contraste entre as duas verbas de US$ 13,5 milhões das bolsas americanas e a de US$ 1,3 bilhão em ajuda militar. Jumana Jabr, professora de inglês de uma escola pública de Amã, resumiu a questão melhor do que eu: a primeira é para "formar pessoas", ela disse, "e a outra para matar pessoas". Se os EUA querem gastar dinheiro treinando soldados, acrescentou, muito bem, "os professores também são soldados, então por que não gastar o dinheiro nos treinando? Afinal somos nós que treinamos os soldados com os quais vocês estão gastando US$ 1,3 bilhão". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
Da imagem 
OBS: os grifos são meus.
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