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sábado, 3 de outubro de 2015

Jogos de influência em uma Ásia central desunida - Le Monde Diplomatique Brasil



Considerado estratégico, o controle das ex-repúblicas soviéticas da Ásia sustentou a rivalidade entre grandes potências. No entanto, o avanço norte-americano foi passageiro, ao passo que a expansão econômica chinesa não atrapalha mais os interesses russos
por Régis Genté
Ao percorrer a Ásia central, dos picos do Pamir às imensas estepes cazaques, podemos sentir as vibrações tectônicas sendo produzidas no coração da Eurásia. Em junho passado, os aviões de fuselagem larga da US Air Force abandonaram o campo de jogo, desaparecendo do aeroporto de Manas, situado próximo a Bichkek, a capital do Quirguistão. Os Estados Unidos se retiram do Afeganistão, parcialmente pelo menos, e fecham sua única base francamente adquirida em uma Ásia central que parece não ser mais tão importante para eles.
Na estrada que leva ao centro de Bichkek, o imenso bazar de Dordoi constitui há cerca de vinte anos o grande mercado para os produtos chineses em toda a ex-URSS. Uma rápida olhada no meio das pilhas de contêineres basta para constatar que existem muito menos bancas atualmente. A união alfandegária, criada em 2010 por iniciativa do presidente russo, Vladimir Putin, e à qual o Quirguistão deve se unir em breve, tem um grande peso para as mercadorias fabricadas na China, que se tornam de repente menos competitivas para os russos e cazaques que fornecem mercadorias para Dordoi.
No entanto, os vizinhos vindos da China continuam presentes, a julgar pelo número de lojas e restaurantes chineses que florescem em Bichkek. O rádio do táxi lembra, na hora dos flashes de informações, que Pequim vai começar em 2016 a construir um gasoduto no país. Esse bloco vai completar a rede instalada no Turcomenistão para explorar seus fabulosos recursos, que já fornecem 51% das importações chinesas de gás natural (ver mapa).
Uma nova era se abre para os 60 milhões de almas da Ásia central, palco do “grande jogo” no século XIX entre os impérios russo e britânico, depois de um “novo grande jogo”, quando os Estados Unidos se manifestaram após a independência em 1991 das cinco antigas repúblicas soviéticas (Tadjiquistão, Uzbequistão, Quirguistão, Cazaquistão e Turcomenistão). Essa nova era poderia se revelar incerta e perigosa: “Menos por causa da fronteira afegã, já que os talibãs devem ter coisas mais importantes para fazer do que conquistar a Ásia central, e mais pela instabilidade própria da região, com as difíceis sucessões que se anunciam nesses regimes ditatoriais”, explica Alexander Cooley, especialista em Ásia central no Barnard College da Universidade Columbia (Nova York). “As grandes potências correm o risco de já não estarem mais em posição de assumir ali responsabilidades em matéria de segurança.” De fato, diversos confrontos opuseram os guardas de fronteira do Tadjiquistão e do Quirguistão. Pretextos ínfimos, como o desvio de um curso de água para a irrigação, podem dar lugar a enfrentamentos assassinos em razão da ausência de demarcação da fronteira entre os dois países e de uma concentração de problemas de segurança no Vale de Ferghana. Região mais fértil da Ásia central e atravessada pelo lendário Rio Sir Dária, esse vale concentra mais de um quinto da população de toda a região e se situa no meio de três países separados por fronteiras extremamente complexas, que até pouco tempo atrás eram simples delimitações administrativas entre repúblicas de um único Estado, a URSS.

Washington se vira cada vez mais a leste
O “novo grande jogo” centro-asiático evoluiu ao longo dos enfrentamentos entre grandes potências. Depois de 2001 e da intervenção ocidental no Afeganistão, Washington tentou ter um papel de influência na Ásia central. Os Estados Unidos tinham no início o consentimento de Putin, o primeiro chefe de Estado a oferecer suas condolências ao povo norte-americano e a George W. Bush pelo 11 de Setembro. A relação foi se deteriorando progressivamente, sobretudo após 2003 e a invasão norte-americana no Iraque, depois com o retorno de uma Rússia determinada a preservar uma esfera de influência em seu “estrangeiro próximo”.1 “Moscou, com ou sem razão, pensou que os norte-americanos queriam tirar proveito de sua presença no Afeganistão para se tornarem verdadeiros agentes na Ásia central”, constata Cooley. Isso nunca se confirmou, já que o desejo norte-americano de se instalar no coração da Eurásia oscilou ao longo do tempo.

Depois da chegada dos primeiros aviões norte-americanos à base aérea de Manas, em 2001, Washington soube se adaptar ao contexto local, confiando contratos bem generosos para o abastecimento da base aos filhos dos presidentes sucessivos do Quirguistão, Askar Akayev (1990-2005) e Kurmanbek Bakiyev (2005-2010), até sua deposição.2 A partir de 2010, porém, Moscou aumentou a pressão sobre Bichkek para que mandasse os norte-americanos embora, conseguindo em um primeiro momento apenas que a base se tornasse um simples centro logístico, com contrato de locação renovável de ano em ano.
A Casa Branca não recuou numa boa, mas, no contexto do recomeço (reset) das relações com Moscou colocado em ação depois de sua eleição, o presidente Barack Obama se recusou a começar uma queda de braço. E, tendo tomado a decisão de deixar o Afeganistão, Washington parece já estar olhando para outro lado... em direção à extremidade oriental da Eurásia e à costa do Pacífico, onde se concentram seus interesses estratégicos e comerciais. É preciso ver nesse reequilíbrio estratégico norte-americano uma forma de continuidade na mudança:3 a persistência em querer ter um papel-chave no continente eurasiático, mas agora um pouco mais a leste.
A estratégia dos Estados Unidos na Ásia central nunca se mostrou muito imaginativa. Ela repousa em grande parte sobre sua visão de uma “nova rota da seda”, uma iniciativa que visa, desde 1999, “criar uma região economicamente viva e interconectada através do Afeganistão e dos países da Ásia central e do sul”4 a fim de garantir sua estabilidade. A ideia é encorajar as trocas comerciais auxiliando principalmente a construção de infraestruturas. O projeto, porém, carece tanto de coerência quanto de realismo. Assim, a linha elétrica Casa-1000, que liga o Quirguistão, o Tadjiquistão, o Afeganistão e o Paquistão, sofre com o estado da rede dos dois primeiros e com a ausência de “estratégia para garantir a segurança da infraestrutura”.5 Entre as cinco antigas repúblicas soviéticas, as relações políticas permanecem difíceis desde as independências e as trocas econômicas ainda são muito limitadas. Mais ao sul, o Paquistão se afasta dos Estados Unidos, que não mantêm relações econômicas com o Irã, sendo esses dois países indispensáveis para criar uma verdadeira parceria regional.
Ainda que Cabul e Washington tenham assinado em setembro, depois de um longo período de incertezas, um acordo a respeito da manutenção das tropas norte-americanas, o futuro do Afeganistão permanece um dos mais indecisos (ler o artigo da pág. 26). E outros fatores ainda devem ser levados em conta para avaliar a implicação futura dos Estados Unidos: o recomeço da “guerra contra o terrorismo”, a situação no Paquistão e a evolução da relação com Moscou, consideravelmente afetada pela crise ucraniana.
Três meses antes da cerimônia de partida das tropas norte-americanas do Quirguistão, em 9 de junho de 2014, o gigante petroleiro russo Rosneft assinou com Bichkek um protocolo de acordo para a aquisição de 51% das partes do aeroporto internacional de Manas. Emblemático! Por que uma empresa petroleira tomaria o controle do aeroporto de um país que não dispõe de nenhum poço de combustíveis? A Rosneft, dirigida por Igor Stechine, um dos mais próximos colaboradores de Putin, prometeu US$ 1 bilhão em investimentos a fim de fazer do Quirguistão uma plataforma logística...
O protocolo de acordo vem se juntar a contratos assinados por outros mastodontes públicos russos, como Gazprom, Inter RAO e RusHydro, nas áreas da hidreletricidade e da distribuição de gás. As motivações são mais geopolíticas que comerciais: “Quem poderia ter vontade de comprar a Kyrgygaz, mesmo que fosse por US$ 1 simbólico, como fez a Gazprom, quando sabemos quanto essa empresa é um poço sem fundo, já que nossos compatriotas não pagam sua conta de gás?”, pergunta-se um alto funcionário do Quirguistão, que prefere permanecer no anonimato.
A história recente do Quirguistão ensinou aos dirigentes que mais vale não se opor ao que Moscou considera como seus interesses fundamentais. A queda do presidente Bakiyev em abril de 2010 está amplamente relacionada ao fato de ele ter ignorado esse princípio. O imprudente chefe de Estado pagou caro pela proposta feita aos norte-americanos de abrir um centro de treinamento militar em Batken, no sul, enquanto permanecia surdo às demandas do Kremlin a respeito da permissão para uma segunda base russa.
A crise ucraniana também mudou as coisas na Ásia central.6 “Os poderes da região se lembraram de quanto Moscou podia ameaçá-los. Além disso, o Kremlin mudou seu alvo e de repente pediu, exigiu, mais ou menos oficialmente, que o Quirguistão e o Tadjiquistão se unissem à sua União Econômica Eurasiática,7 para não ser totalmente ridicularizado depois de ter perdido a Ucrânia”, explica o cientista político Parviz Mullodjanov, em Duchambe. Esse projeto de integração, econômica e eventualmente política, se realiza sem entusiasmo. “Não somos contra a ideia de integração, pelo contrário, mas esta se faz somente segundo os diktats dos russos”, lamenta o conselheiro de um alto responsável político do Cazaquistão. Depois da deserção da Ucrânia e do temor que a reação de Moscou inspirou na Ásia central, o futuro da União Eurasiática parece muito vago.
No entanto, o Cazaquistão se mostrava o maior entusiasta da ideia de uma integração regional, sob a direção de seu autoritário presidente, Nursultan Nazarbayev. Esse grande promotor da ideia eurasiática desde 1994 também teve de levar em conta a importância da minoria russa ou de língua russa em seu país (cerca de um quarto da população atual). Todavia, quatro anos depois da criação da união alfandegária, os cazaques reclamam de diversos obstáculos que os impedem de entrar no mercado russo, que, no entanto, deveria ter se unido ao seu. “É também porque as economias têm tamanhos muito diferentes: a russa pesa dez vezes mais que a do Cazaquistão, e suas empresas não são competitivas o bastante, pois elas prosperam há quase vinte anos como oligopólios”, explica o especialista financeiro Jean-Christophe Lermusiaux, que por muito tempo trabalhou na imensa república centro-asiática.

Ano a ano, Moscou perde terreno
A Rússia privilegia frequentemente a punição em vez do estímulo e tem dificuldades em esconder seu desprezo em relação a seus vizinhos. No fim de agosto, Putin brigou com seu principal aliado, considerando que seu presidente tinha “criado um Estado em um território onde nunca houve Estado”. Nazarbayev não gostou nada disso, vendo nesse discurso uma ameaça escondida e retorquindo que seu país não participaria “de organizações que constituem uma ameaça à nossa independência”. O Cazaquistão inclusive se absteve durante a votação da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre a validade do referendo organizado na Crimeia.
Moscou consegue ainda menos manter em sua esfera de influência o Uzbequistão e o Turcomenistão, que não têm fronteiras em comum com a Rússia e cujas riquezas, em combustíveis principalmente, os autorizam a se deixar cortejar por outros. Mesmo a experiência e o conhecimento do terreno não permitem à Rússia oferecer as garantias de segurança de que os regimes tanto precisam. Durante as violências entre o Uzbequistão e o Quirguistão de junho de 2010 no sul do Quirguistão, que tiveram quase quinhentos mortos em três dias, nem a Rússia nem a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC),8 que ela controla amplamente, intervieram para acalmar a febre assassina. No entanto, era toda a segurança do turbulento Vale de Ferghana que estava em jogo.9
Mesmo que a Rússia disponha de meios e contatos na região, de certo capital político e de confiança junto às populações e aos círculos de dirigentes, de uma proximidade cultural pela divisão da língua, ela perde terreno a cada ano. Ainda mais porque os cinco países da Ásia central são hábeis para contrabalancear a potência russa pela dos Estados Unidos, da Europa, da Coreia do Sul, do Japão... e principalmente da China.
Esta última só apareceu tardiamente nos radares centro-asiáticos. “No início dos anos 1990, pensávamos que o Irã ou a Turquia seriam os novos grandes agentes na região. Ambos fracassaram, e foi a China, totalmente ausente até os anos 1980, que neste início de século XXI se tornou a grande potência da Ásia central”, nota Thierry Kellner, autor de uma tese sobre a China e a Ásia central.10 Para três dos cinco países da zona, ela se tornou o principal parceiro comercial, na frente da Rússia, enquanto chega em segundo lugar no Uzbequistão e no Cazaquistão.

Um oleoduto desejado por Pequim
O engajamento da segunda maior potência econômica do mundo é impressionante. Em setembro de 2013, o presidente Xi Jinping fez uma viagem de dez dias na região, assinando durante sua passagem a bagatela de cerca de US$ 50 bilhões em contratos e empréstimos. Ele elevou para 65 bilhões de metros cúbicos por ano o nível de seus futuros abastecimentos de gás do Turcomenistão, que estaria em quarto lugar nas reservas de gás do planeta. Durante essa mesma viagem, ele adquiriu 8,33% das partes do campo de petróleo gigante de Kashagan, na parte cazaque do Mar Cáspio. Ele também anunciou a construção de uma refinaria e de novas ramificações do oleoduto passando pelos territórios do Quirguistão e do Tadjiquistão, oferecendo-lhes a chance de depender menos de gás uzbeque, do qual são regularmente privados por Tashkent. Xi testou durante essa viagem a ideia de um “cinturão econômico da rota da seda”, conceito ainda a definir, mas dispondo potencialmente de um grande futuro.
Nesse contexto, Pequim investiu também nas infraestruturas, principalmente nas de transporte. Sua estratégia visa criar um “terreno vizinho pacífico, condição necessária para a continuação da modernização da China e seu crescimento em poderio. Desde o início, a segurança foi então colocada no coração de sua política na Ásia central. Ainda mais porque Pequim teme o separatismo uigur, em sua província muçulmana e de língua turca do Xinjiang, que é vizinha dessa zona. Em seguida acrescentou-se a preocupação pela segurança energética”, explica Kellner.
Mantendo-se à distância das questões de política interna e preocupada em não mostrar nenhuma veleidade colonizadora e cheia de capacidades financeiras consideráveis, a China se tornou incontornável. “A Rússia já não está mais em posição de lhe dizer ‘não’ na região”, observa Konstantin Siroyejkine, do Instituto para os Estudos Estratégicos do Cazaquistão (Kisi, na sigla em inglês). “No entanto, os temas de desacordo na Ásia central são cada vez mais numerosos”, acrescenta o especialista em China. “As compras de gás centro-asiático de Pequim lhe deram, por exemplo, meios para negociar em posição de força com Moscou e de fazer abaixar bastante o valor dos contratos.”
Por enquanto, o Kremlin precisa demais da China, em sua queda de braço geopolítica com o Ocidente, para tratá-la mal na Ásia central. A assinatura, em 21 de maio de 2014, de um gigantesco contrato de US$ 400 bilhões, para a entrega durante trinta anos de 38 bilhões de metros cúbicos de gás por ano, tem importância capital para Moscou. Trata-se de mostrar para o Ocidente que a Rússia pode se virar sem ele, transferindo sua produção para a China e de maneira geral para a Ásia.
Desde 2013, o presidente chinês faz a promoção de sua própria “nova rota da seda”. Uma estrada de ferro regular já conecta em 22 dias Chongqing a Duisburgo, na Alemanha, via Cazaquistão e Rússia.11 Ainda que o volume transportado permaneça insignificante se comparado com o frete marítimo, essa via continental já é empregada por grandes empresas ocidentais, como a Hewlett-Packard e a BMW.
Ninguém se ilude em Moscou sobre o futuro de uma aliança sino-russa. A Rússia não representa mais do que 3,5% da produção mundial de riqueza e deve realizar tantas parcerias quantas forem possíveis com Pequim para dar continuidade a suas ambições estratégicas. Daí suas concessões e a boa vontade estampada na Ásia central para com os interesses chineses. Moscou dá também muita importância para a Organização para Cooperação de Xangai (OCS, na sigla em francês),12 que se apresenta como uma muralha potencialmente poderosa, com ares de clube antiocidental. Reunindo alguns dos maiores produtores de energia do mundo, ela forma a zona mais povoada do planeta.
Estados Unidos se desinteressando pela região, Rússia não tendo os meios de suas ambições, China parecendo triunfar, mas criando obstáculos para investir ali para além da área econômica: o ambiente geopolítico da Ásia central não está mais propício para estabilizar Estados onde se encontram apenas regimes autoritários, até ditatoriais, e fundados sobre frágeis equilíbrios de clãs. Diversos conflitos são latentes, e as próximas sucessões se anunciam difíceis, principalmente no Uzbequistão. A corrupção e a pobreza que perduram criam um terreno cada vez mais fértil para o desenvolvimento do islamismo radical.
Nenhuma grande potência parece dispor de autoridade suficiente, ou da vontade de exercê-la, para ser ouvida em caso de crise de segurança grave. Como encontrar um consenso na hipótese de crise importante iniciada por novos enfrentamentos étnicos ou por uma sucessão presidencial instável? “Cada um deve ser flexível com relação a seus parceiros regionais” e evitar se fechar em princípios que excluam a colaboração com esta ou aquela grande potência influente na região, estima Cooley.13 Evidentemente, a degradação das relações russo-norte-americanas não incita o otimismo. Quanto ao entendimento Pequim-Moscou, não há garantias de que ele permaneça eternamente bem.
Para diversos especialistas, a mudança geopolítica em curso se explica pelos enfrentamentos entre as grandes potências. “O jogo entre Washington e Moscou, do qual observamos um dos avatares hoje na Ucrânia, faz que a Rússia recue para as profundezas da Eurásia. Já no século XIX, a derrota da Crimeia levou a Rússia a conquistar a Ásia central. Hoje, quando parece perder a Ucrânia, a Rússia poderia novamente querer consolidar suas posições no mais profundo do continente eurasiático, na Ásia central. Não excluo que, no fundo, Washington seja a favor disso”, estima Chokan Laumulin, especialista cazaque do Cambrigde Central Asia Forum, em Londres.
Nesse contexto, o papel das repúblicas da Ásia central poderia se revelar decisivo para a estabilidade regional. Mais do que nunca, os tomadores de decisão políticos e seus conselheiros buscam contrabalançar as ambições de uma grande potência pelas de outra. Em Duchambe, Sayfullo Safarov, do Centro de Pesquisa Estratégica, explicava no início deste ano, enquanto o Tadjiquistão se preparava sem entusiasmo para entrar na União Econômica Eurasiática sonhada por Moscou, que o país, aconteça o que acontecer, “não deve abandonar sua política de equilíbrio do jogo das grandes potências em torno dele. Estudar o que significa para nós a integração à União Eurasiática é o mesmo que considerar a maneira como essa integração é compatível com nossos interesses estrategicamente fundamentais”. Desde sua independência, esses países aprenderam a administrar esse jogo de equilíbrios.

Uma região em via de desintegração

Os cinco países da Ásia central tiveram evoluções econômicas e políticas fortemente divergentes desde a independência em 1991. Esses povos de línguas turcas (com a exceção dos tadjiques persas) têm, contudo, um longo passado comum, particularmente após sua integração progressiva ao Império Russo, no século XIX.
País mais populoso da região, com 30 milhões de habitantes (de um total de 66 milhões), o Uzbequistão permanece agrícola, enquanto importantes rendas provenientes do gás e do petróleo favorecem o Turcomenistão e o Cazaquistão, sendo este último responsável por dois terços do PIB da região. As transferências remetidas por expatriados constituem o essencial da renda do Quirguistão (35% do PIB) e do Tadjiquistão (50%).
Herdeiros de fronteiras complexas traçadas arbitrariamente em 1936 pela URSS, esses países brigam frequentemente e comercializam muito pouco entre si. Do ponto de vista político, as rivalidades entre dirigentes acentuam a divisão entre o Turcomenistão, neutro desde 1995, o Uzbequistão, bastante independente, e os outros três países, próximos de Moscou.

1  Ler “Russie, le retour” [Rússia, o retorno], Manière de Voir, n.138, dez. 2014/jan. 2015.
2  Cf. “Mystery at Manas” [Mistério em Manas], relatório do Subcomitê para a Segurança Nacional e as Relações Exteriores do Congresso norte-americano, Washington, dez. 2010.
3  Cf. Yves Boyer, “La stratégie de rééquilibrage des États-Unis vers l’Asie-Pacifique et la Chine” [A estratégia de reequilíbrio dos Estados Unidos em relação à Ásia-Pacífico e à China], nota 13/13, jun. 2013, Fondation pour la Recherche Stratégique, Paris.
4  Stephen Kaufman, “‘New silk road’ vision offers Afghanistan a brighter future” [Visão de “nova rota da seda” oferece ao Afeganistão um futuro mais brilhante], IIP Digital, Departamento de Estado dos Estados Unidos, 28 out. 2013. Disponível em: http://iipdigital.usembassy.gov.
5  Eugene Imas, “The new silk road to nowhere” [A nova rota da seda para o nada], The Diplomat, 18 dez. 2013. Disponível em: http://thediplomat.com.
6  Cf. “Russia-Ukraine crisis alarms Central Asian strongmen” [Crise Rússia-Ucrânia alerta homem forte da Ásia central], Eurasianet, 4 mar. 2014. Disponível em: www.eurasianet.org.
7  Criada em 2010 por Rússia, Cazaquistão e Bielorrússia, a união alfandegária transformou-se em espaço econômico comum em 2012. Em 1o de janeiro de 2015, ela se tornará União Econômica Eurasiática, cujo tratado fundador foi assinado em Astana no dia 29 de maio de 2014.
8  Agrupando Rússia, Bielorrússia, Armênia, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão.
9  Cf. Alexei Malashenko, “Russia and the crisis in Osh” [Rússia e a crise em Osh], Carnegie Moscow Center, 15 jun. 2010.
10            Thierry Kellner, L’Occident de la Chine. Pékin et la nouvelle Asie centrale (1991-2001) [O Ocidente da China. Pequim e a nova Ásia central], Presses Universitaires de France, Paris, 2008.
11            Cf. Shawn Donnan, “Geopolitics cast shadow over new silk road” [Geopolítica lança sombra sobre a nova rota da seda], Financial Times, Londres, 17 out. 2014.
12            A OCS agrupa Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Afeganistão, Índia, Irã, Mongólia e Paquistão têm status de observadores. Bielorrússia, Turquia e Sri Lanka são parceiros de diálogo.
13       Cf. Alexander Cooley, Great games, local rules: the new great power contest in Central Asia [Grandes jogos, regras locais: a nova grande disputa de poder na Ásia central], Oxford University Press, 2012.

1 Ler “Russie, le retour” [Rússia, o retorno], Manière de Voir, n.138, dez. 2014/jan. 2015.
2  Cf. “Mystery at Manas” [Mistério em Manas], relatório do Subcomitê para a Segurança Nacional e as Relações Exteriores do Congresso norte-americano, Washington, dez. 2010.
3  Cf. Yves Boyer, “La stratégie de rééquilibrage des États-Unis vers l’Asie-Pacifique et la Chine” [A estratégia de reequilíbrio dos Estados Unidos em relação à Ásia-Pacífico e à China], nota 13/13, jun. 2013, Fondation pour la Recherche Stratégique, Paris.
4  Stephen Kaufman, “‘New silk road’ vision offers Afghanistan a brighter future” [Visão de “nova rota da seda” oferece ao Afeganistão um futuro mais brilhante], IIP Digital, Departamento de Estado dos Estados Unidos, 28 out. 2013. Disponível em: .
5  Eugene Imas, “The new silk road to nowhere” [A nova rota da seda para o nada], The Diplomat, 18 dez. 2013. Disponível em: .
6  Cf. “Russia-Ukraine crisis alarms Central Asian strongmen” [Crise Rússia-Ucrânia alerta homem forte da Ásia central], Eurasianet, 4 mar. 2014. Disponível em: .
7  Criada em 2010 por Rússia, Cazaquistão e Bielorrússia, a união alfandegária transformou-se em espaço econômico comum em 2012. Em 1o de janeiro de 2015, ela se tornará União Econômica Eurasiática, cujo tratado fundador foi assinado em Astana no dia 29 de maio de 2014.
8  Agrupando Rússia, Bielorrússia, Armênia, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão.
9  Cf. Alexei Malashenko, “Russia and the crisis in Osh” [Rússia e a crise em Osh], Carnegie Moscow Center, 15 jun. 2010.
10            Thierry Kellner, L’Occident de la Chine. Pékin et la nouvelle Asie centrale (1991-2001) [O Ocidente da China. Pequim e a nova Ásia central], Presses Universitaires de France, Paris, 2008.
11            Cf. Shawn Donnan, “Geopolitics cast shadow over new silk road” [Geopolítica lança sombra sobre a nova rota da seda], Financial Times, Londres, 17 out. 2014.
12            A OCS agrupa Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Afeganistão, Índia, Irã, Mongólia e Paquistão têm status de observadores. Bielorrússia, Turquia e Sri Lanka são parceiros de diálogo.
13    Cf. Alexander Cooley, Great games, local rules: the new great power contest in Central Asia [Grandes jogos, regras locais: a nova grande disputa de poder na Ásia central], Oxford University Press, 2012
http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1778 
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