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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Novo Papel da Turquia: do Kemalismo ao neo-otomanismo



Durante séculos a Sublime Porta espelhou poder e ameça sobre uma parte considerável do mundo eurasiano, até que um longo processo de decadência política, militar e territorial tornou o colosso otomano em objeto de rapina das grandes potências.
Estendendo-se desde a segunda metade do século XIX até as primeiras décadas do XX, o governo de Istambul assistiu não só a emancipação de várias partes do império – como o Egito de Mehmet Ali – até a luta feroz nos Bálcãs pelos despojos turcos que envolveu a Sérvia, a Grécia e a Bulgária, passando pelas ambições russas expressas na Guerra da Crimeia e política czarista que estendeu aos eslavos sob domínio turco a proteção do império dos Romanov.
Com a adesão da Turquia aos Impérios Centrais na 1ª Guerra Mundial e a subsequente derrota militar, destruiu os últimos pilares do Estado turco de então.
Mesmo vitoriosa na campanha de Gallipoli, quando as forças turcas detiveram os britânicos e franceses – o que fez do futuro Ataturk um herói nacional – a imposição dos Armísticio de Mudros que produziu a ocupação de Constantinopla pelos aliados e de Smirna pelos gregos; enquanto isso procedeu-se a partilha da Palestina, Arábia, Jordânia, Iraque, Líbano e Síria entre ingleses e franceses, pelo Tratado de Sévres.
Com o império destroçado e sob ocupação estrangeira, em 1919 formaram-se grupos nacionalistas para combater a ocupação estrangeira e resgatar a Turquia de sua situação. Sob a liderança de Mustafa Kemal, os turcos conduziram uma guerra contra os estrangeiros que se encerrou em 1922.
Neste mesmo ano a monarquia foi abolida e a Turquia, ex-otomana, converteu-se num Estado secular.
Sob a direção de Ataturk (o “pai dos turcos”) a república ocidentalizou-se.
Mas passados quase hum século desses eventos, discute-se hoje o novo papel que o país aspira desempenhar.

Kemalismo e neo-otomanismo
Estes termos são semelhantes mas guardam distinções relevantes.
Quando Mustafa Kemal secularizou o Estado turco pós-1ª Guerra Mundial, a Turquia deixara de fato a condição de centro religioso do mundo islãmico, pois o sultanato fora abolido e com ele a liderança religiosa dos governantes turcos (o Califado).
Portanto entende-se por kemalismo a aplicação de políticas e projetos assentados em bases seculares, racionais e republicanas. Neste ponto, a Turquia está muito distante de uma teocracia como o Irã, velho rival na liderança do mundo islãmico.
Quando em 1979 uma revolução de cunho religioso e político foi vitoriosa em depor o Xá Pahlevi e seu regime monárquico, o ayatoláh Khomeini e o clero xiita que o seguia na condição de líder religioso, terminaram por instituir um governo baseado na aplicação da Sharia e na restauração dos fundamentos do islamismo, purgando a sociedade iraniana dos excessos importados pela ocidentalização do período anterior.
Suprimidos os remanescentes do regime deposto, derrotados os concorrentes de matriz socialista, restou na sociedade iraniana o predomínio do islã político. Este, por sua vez, seria em breve testado e venceria a ameaça representada pelo Iraque de Saddam Hussein
Mas nos últimos anos a Turquia vêm consolidando uma nova condição de referência no mundo islâmico.
A Turquia faz ponte entre o ocidente e o oriente. Por seu território passam inúmeras e importantes vias de abastecimento de petróleo, gás, transporte, etc o que confere um grande destaque econômico ao governo de Ancara.
O crescimento econômico turco tem sido mantido a vários anos e o país apresenta um claro progresso que se reflete em suas ambições regionais e em sua condição de aliado do ocidente.
Primeiro por que é um grande, rico e importante parceiro comercial tanto dos EUA como da União Europeia. Em segundo que enquanto o Oriente Médio tem sido sacudido por agitações de caráter fundamentalista, o Estado turco permanece sendo laico. Em terceiro lugar deve-se considerar que os turcos estão a demonstrar uma envergadura que lhes permite uma certa autonomia diplomática, como se viu relativamente recente quando mediou, junto com o Brasil, uma proposta para contornar a crise nuclear com o Irã.
Em quarto, que era o maior parceiro comercial de Israel até que na esteira subsequente do fracasso diplomático com Teerã, a tentativa frustrada de uma flotilha humanitária em romper o bloqueio naval israelense a Gaza, terminou com a morte de vários ativistas turcos e o rompimento de relações, o que apenas reforçou o isolamento israelense. Em quinto, o papel militar desempenhado pela Turquia na arquitetura atual da OTAN expandida e no Projeto Anaconda, além de manter em seu território importantes instalações militares tanto com armas nucleares sob controle dos EUA via aliança ocidental, como sítios de vigilância eletrônica sobre a Rússia e o Irã, e que absorve hoje também recursos vinculados ao desenvolvimento do sistema antimísseis patrocinado pelos Estados Unidos mas que defenderá, também, a Europa ocidental.
Podemos então entender o conceito do neo-otomanismo, como a expressão desta liderança turca renovada e que coloca Ancara, numa condição privilegiada como interlocutor, parceiro econômico e aliado militar e diplomático do ocidente naquela região, o que não descarta uma mudança de status do país.
Em termos sociais, o crescimento econômico foi em grande parte associada - como protagonista ou beneficiária -a uma classe média menos afeita ao puro - se podemos chamar assim - laicismo estatal.  Um kemalismo menos incisivo parece estar relacionado com a eleição do premiê Erdogan, que em junho de 2011 conseguiu o terceiro mandato. Beneficiado por um crescimento econômico e a redução do desemprego, o AK (Partido da Justiça e desenvolvimento) sagrou-se mais uma vez vitorioso.
Mas a sociedade esquivou-se de passar um cheque-em-branco ao carismático premiê.  Mesmo ampliando a votação de seu partido, isso não lhe permitiu uma maioria para reformar a constituição de forma unilateral.  Os votos dados à oposição claramente secular do Partido Republicano do Povo parecem apontar para um cuidado em premiar uma boa administração econômica que soube distribuir renda e beneficíos sociais, mas sem avalizar uma hegemonia monopartidária.
Por sinal, veuio justamente do Exército a manifestação mais explícita de descontetamento sobre um revisionismo da secularização potencialmente embutido na vitória do AK; o que motivou uma profunda intervenção do governo destituindo e prendendo diversos chefes militares no que foi visto como uma tentativa de golpe de estado, ainda que em gestação.
Para lembrar que democracia se faz com freios e contra-pesos leia, em http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/dica-de-leitura/erdogan-triunfou-na-turquia-ufa-nao-foi-o-pior/ as observações de Ricardo Setti, em especial sobre as conclusões do historiador Soner Cagaptay.

Conclusão 
Assistimos uma reorientação estratégica da diplomacia turca no sentido de reafirmar sua preponderância em relação a Israel - já isolado do mundo árabe/arabizado -, uma crescente ingerência ainda que mediadora em relação a Síria e o Egito (sacudidos por manifestações da chamada Primavera Árabe), e que se extende aos Bálcãs por sua força econômica e crise nuclear que opõe Teerã e a comunidade internacional, em especial aos EUA.
Com os rivais gregos mergulhados em dificuldades econômicas e políticas quem poderia obstaculizar um "avanço" turco rumo à região balcânica?
Se o pêndulo em Ancara parece mover-se rumo a uma recuperação religiosa - que parece ser mais fruto de um medo secular do que algo de fato concreto - mesmo assim interessaria agora entrar na UE?  Afinal, todos os entraves foram postos no caminho dos turcos rumo a zona do euro.  Agora, quem está na melhor posição?
Não existe nem no discurso nem como personagem, uma clara adesão aos temas religiosos do governo turco. Ele encerra muito mais um viés autoritário que teocrático. E isso  provavelmente em virtude das décadas de laicização que não poderão ser varridas como se inexistentes.
 Em época de crise talvez; hoje, difícil.
Enquanto os governos autoritários do Magreb à Síria balançam, o primeiro ministro Recip Erdogan fez no Egito, duras afirmações contra Israel, em apoio à causa Palestina e em favor de reformas políticas e econômicas (revista Época em 13/09/2011) http://revistaepoca.globo.com/Mundo/noticia/2011/09/no-egito-premie-turco-apoia-causa-palestina-e-ataca-israel.html.

Projetar a "velha sombra de Deus sobre a Terra" [título ostentado pelos sultões] não parece crível nos dias atuais; mas recuperar um pouco do velho otomanismo pela recuperação da Turquia como potência não deixa de espalhar uma certa "sombra".  Sem isolacionismo e buscando "zero problemas" com os vizinhos, conforme afirmou o ministro Ahmet Davutoglu das Relações Exteriores.




De medo ou de proteção, ainda está por se saber.

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