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domingo, 12 de agosto de 2012

EUA e Turquia temem um "santuário de terroristas" na Síria, diz Hillary

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, e seu colega turco Ahmet Davutoglu disseram temer que a Síria se torne um santuário para "terroristas do PKK ou da Al-Qaeda", com Hillary considerando que as "ligações entre o Hezbollah, o Irã e a Síria prolongam o regime de Damasco".

Após um encontro com o ministro das Relações Exteriores turco, Hillary também se comprometeu a "acelerar o fim do banho de sangue e do regime Assad" na Síria, durante uma entrevista coletiva à imprensa em Istambul. "A Síria não deve se tornar um santuário para os terroristas do PKK", disse ela, referindo-se ao movimento armado curdo que combate o governo da Turquia, aliado de Washington.

Ela disse também que "compartilha as preocupações" da Turquia em relação a este assunto, considerando que a Síria não pode se tornar um santuário para os rebeldes curdos, "seja agora ou após a queda do regime" do presidente Bashar al-Assad. Hillary acrescentou que os Estados Unidos temem que "terroristas do PKK, da Al-Qaeda ou de outros tirem proveito da luta legítima do povo sírio pela liberdade para promover suas próprias agendas".

A chefe da diplomacia norte-americana também justificou as sanções contra o grupo xiita libanês Hezbollah decididas na véspera por Washington. "Seguimos aumentando a pressão externa. Anunciamos ontem em Washington sanções destinadas a expor e a romper os vínculos entre Irã, Hezbollah e Síria, que prolongam a vida do regime de Assad", declarou Hillary.

Conflito

Por fim, a secretária de Estado afirmou ter abordado planos operacionais com a parte turca com o objetivo de "acelerar o fim do banho de sangue e do regime Assad."

"Este é o nosso objetivo estratégico", acrescentou.

O ministro Davutoglu, cujo país combate o PKK desde 1984, considerou que "não há lugar para um vazio de poder na Síria" que possa beneficiar os rebeldes do PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, e destacou que a transição na Síria deve se desenvolver no prazo mais breve possível.

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, acusou recentemente o regime de Damasco, com o qual Ancara rompeu, de ter deixado várias áreas do norte da Síria com o PKK e alertou que a Turquia poderá exercer o seu direito de perseguir os rebeldes além de suas fronteiras.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Turquia quer ser resposta para questões do Oriente Médio

Autoridades turcas buscam papel de liderança em nova ordem de estabilidade política e integração econômica no Oriente Médio.


The New York Times
30/09/2011

     Há pouco tempo a política externa da Turquia girava em torno de uma única questão: a dividida ilha de Chipre. Atualmente, seu primeiro-ministro pode ser a figura mais popular no Oriente Médio, seu ministro das Relações Exteriores vislumbra uma nova ordem e autoridades conseguiram fazer o que o governo Obama até agora não conseguiu: posicionar-se firmemente do lado da mudança nas revoltas e revoluções árabes.
     Ninguém está pronto para declarar uma Pax Turkana no Oriente Médio – de fato, sua política externa este ano está cheia de erros, crises e conquistas que parecem em grande parte retóricas, e o país ainda carece de diplomatas suficientes. Mas em um mundo árabe onde os Estados Unidos parecem estar em retirada, a Europa é ineficaz e poderes como Israel e Irã são instáveis e inseguros, autoridades de uma Turquia assertiva e ocasionalmente ousada têm oferecido uma visão do que pode emergir da turbulência que atingiu dois continentes e abalou décadas de suposições.
     Não inesperadamente, o eixo dessa nova visão é a Turquia.
     "A Turquia é o único país que tem um senso de para onde as coisas estão indo e tem vento impulsionando suas velas", disse Soli Ozel, professor de relações internacionais da Universidade Istambul Bilgi.
     A política externa do país tem atraído a atenção de muitos no Oriente Médio e outros lugares do mundo, principalmente depois que o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan visitou na semana passada três países árabes que testemunharam revoluções nos últimos meses: a Tunísia, o Egito e a Líbia. Mesmo os críticos de Erdogan ficaram impressionados com o simbolismo da viagem.
     Embora muitos critiquem o seu autoritarismo em casa, o público no exterior parecia diante de um homem que retrata a si mesmo como o líder orgulhosamente muçulmano de um país democrático e próspero que se posicionou do lado da revolução e em defesa dos direitos dos palestinos.
     Um jornal turco, que apoiou Erdogan, chamou as visitas de “início de uma nova era na nossa região". Um colunista egípcio elogiou o que chamou de "qualidades de liderança" de Erdogan. Dias depois, o ministro turco das Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu, falou abertamente de um eixo entre Egito e Turquia, dois dos países mais populosos e militarmente poderosos da região, que sustentaria uma nova ordem segundo a qual Israel ficaria à margem até que fizesse as pazes com seus vizinhos.
     "O que está acontecendo no Oriente Médio é uma grande oportunidade, uma oportunidade de ouro", afirmou um oficial turco de alto escalão em Ancara. Ele chamou a Turquia de "o novo garoto do quarteirão".
     A viagem marcou uma mudança depois do que muitos tinham visto como uma série de contratempos para um país que, como a maioria do mundo, fracassou totalmente em prever as revoltas na região.
     Após tratar o mundo árabe com certo desdém por muito tempo – Israel e Turquia foram aliados estratégicos na década de 1990 – a Turquia passou anos cultivando laços com Muamar Kadafi, na Líbia, e Bashar Al-Assad, na Síria. Mais de 25 mil turcos trabalham na Líbia e a Síria era vista como a porta de entrada para as ambições da Turquia de integrar economicamente o Oriente Médio.
     Mesmo após o início das revoltas, a Turquia se opôs à intervenção da Otan na Líbia. Até o mês passado, o país tinha esperança de que Assad poderia supervisionar uma transição na Síria, apesar das evidências em contrário.
     Embora Erdogan tenha logo no início exigido que o presidente Hosni Mubarak deixasse o cargo no Egito – enquanto autoridades americanas tentavam encontrar formas para que ele cumprisse seu mandato – , tal posição implicava poucos riscos. Mubarak e Erdogan não gostavam um do outro e as autoridades egípcias se ressentiam do crescimento cada vez maior da Turquia.
     "A velha política entrou em colapso e uma nova é necessária para o Oriente Médio", disse Ersin Kalaycioglu, professor de ciência política na Universidade Sabanci, em Istambul.
     Em entrevista, o ministro das Relações Exteriores, Davutoglu, visto por muitos como o arquiteto do engajamento da Turquia com a região, explicou a nova política. Além de uma proposta de aliança com o Egito, ele disse que a Turquia iria se posicionar do lado das revoltas, especialmente na vizinha Síria, que representa o maior desafio para o país. Ele insistiu que a Turquia poderia ajudar a integrar a região em virtude de sua economia, com suas exportações tendo quase triplicado desde que o Partido de Justiça e Desenvolvimento de Erdogan assumiu o poder em 2002.
     Davutoglu disse que tal arranjo exigiria, eventualmente, pelo menos um certo grau de cooperação militar. "Deve haver uma propriedade regional", disse ele. "Não turca, não árabe e não iraniana, mas uma apropriação regional. A participação regional é importante para nós”.
     Essa visão é reconhecidamente ambiciosa e a afirmação precoce de Davutoglu sobre "problemas zero" com os vizinhos tem se deparado com a dura realidade da região. A Turquia enfrenta uma crescente crise sobre os direitos da exploração de gás no mar ao largo de Chipre, ainda dividida entre as regiões grega e turca e responsável por uma bagunça na política externa para a Turquia.
     As relações com Israel entraram em colapso depois que as tropas israelenses mataram nove pessoas a bordo de uma frota turca que tentou romper o bloqueio de Gaza no ano passado.
     O Irã, vizinho da Turquia e seu concorrente na região, se ressente da decisão turca de aderir à pressão dos Estados Unidos e hospedar uma estação de radar como parte de um sistema de defesa antimísseis da Otan.
     Os líderes sírios e turcos já não falam uns com os outros.
     Mas a sensação de ascensão do poder e influência turcos é tão acentuada no país atualmente que às vezes beira o ufanismo. Ela tocou no profundo nacionalismo dos religiosos do país que, talvez com uma pitada de romantismo, acreditam no retorno da Turquia ao mundo árabe que governou por mais de quatro séculos.
     "Não estamos aqui para recriar o Império Otomano", disse Suat Kiniklioglu, o vice-presidente de assuntos externos para o partido de Erdogan. "Mas estamos aqui para aproveitar ao máximo a influência que temos em uma região que está abraçando a nossa liderança."
     Mesmo aqueles que se irritam com o que veem como arrogância de Erdogan reconhecem que ele representa um fenômeno, tanto em casa quanto no exterior. Ele trouxe seu populismo para o mundo árabe, onde mostrou uma percepção intuitiva da ressonância que a questão palestina ainda atrai, em contraste com autoridades dos Estados Unidos que aparentemente ainda não entenderam ou valorizaram isso.
     Para uma região há muito agitada pela raiva direcionada a líderes aparentemente impotentes, submissos a exigências dos Estados Unidos e de Israel, Erdogan parece independente e forte.
     Cengiz Çandar, um colunista turco famoso no mundo árabe desde o início dos anos 1970, chamou isso de “intuição política quase-animal” de Erdogan.
     “Essa instituição diz a ele se está no caminho certo. Assim, a Turquia está consolidando a sua estatura como uma potência regional cada vez maior enquanto ele se torna um ator cada vez maior no cenário internacional”, afirmou.
     Há um debate na Turquia sobre os objetivos a longo prazo dessas ações. Ninguém duvida que as autoridades de seu partido – profundamente religiosas e com raízes no Islã político – simpatizam com movimentos islâmicos que pretendem entrar na política tradicional, como a Irmandade Muçulmana, no Egito e principalmente o Partido Nahda na Tunísia.
     Mas suas relações continuam boas com os Estados Unidos, mesmo que as autoridades americanas acusem Erdogan de excesso de confiança. Alguns oficiais turcos temem que a crise com Israel acabe prejudicando o relacionamento com Washington, enquanto outros acreditam que a Turquia quer ser um sócio minoritário dos Estados Unidos no Oriente Médio.
     Os desafios maiores parecem estar na própria Turquia. Embora o país tenha aberto novas embaixadas na África e na América Latina, sua equipe diplomática permanece pequena e o Ministério dos Negócios Estrangeiros está tentando contratar 100 novos funcionários por ano. Kiniklioglu estima que menos de 20 pessoas elaborem a política externa do país.
     A exuberância das autoridades turcas também corre o risco de ser alvo de reações. A antiga suspeita do mundo árabe em relação à Turquia desvaneceu, ajudada pelo poder de populares séries de televisão turcas e pelo apelo de Erdogan. No entanto, oficiais de alto escalão reconhecem o potencial para uma reação árabe em uma região muito alérgica a qualquer indício de intervenção estrangeira. Geralmente reflexivos, os islâmicos do Egito despertaram na semana passada após comentários de Erdogan sobre um Estado secular e alertaram contra a interferência em seus assuntos.
     E em todo o espectro na Turquia, que ainda luta com sua própria insurgência curda no sudeste, críticos e admiradores reconhecem que a visão de uma região liderada pelo país, que seja próspera e estável, permanece sendo uma promessa fugaz em meio a todo o tumulto.
    "A imagem é boa", disse Kalaycioglu. "Agora, se terá frutos ainda é uma incógnita. Até agora nada parece estar acontecendo além da criação de uma imagem."

Por Anthony Shadid


http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/turquia-quer-ser-resposta-para-questoes-do-oriente-medio/n1597248781385.html
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Apesar de antigo, esta abordagem da política externa turca me pareceu interessante para divulgação.



terça-feira, 15 de novembro de 2011

Novo Papel da Turquia: do Kemalismo ao neo-otomanismo



Durante séculos a Sublime Porta espelhou poder e ameça sobre uma parte considerável do mundo eurasiano, até que um longo processo de decadência política, militar e territorial tornou o colosso otomano em objeto de rapina das grandes potências.
Estendendo-se desde a segunda metade do século XIX até as primeiras décadas do XX, o governo de Istambul assistiu não só a emancipação de várias partes do império – como o Egito de Mehmet Ali – até a luta feroz nos Bálcãs pelos despojos turcos que envolveu a Sérvia, a Grécia e a Bulgária, passando pelas ambições russas expressas na Guerra da Crimeia e política czarista que estendeu aos eslavos sob domínio turco a proteção do império dos Romanov.
Com a adesão da Turquia aos Impérios Centrais na 1ª Guerra Mundial e a subsequente derrota militar, destruiu os últimos pilares do Estado turco de então.
Mesmo vitoriosa na campanha de Gallipoli, quando as forças turcas detiveram os britânicos e franceses – o que fez do futuro Ataturk um herói nacional – a imposição dos Armísticio de Mudros que produziu a ocupação de Constantinopla pelos aliados e de Smirna pelos gregos; enquanto isso procedeu-se a partilha da Palestina, Arábia, Jordânia, Iraque, Líbano e Síria entre ingleses e franceses, pelo Tratado de Sévres.
Com o império destroçado e sob ocupação estrangeira, em 1919 formaram-se grupos nacionalistas para combater a ocupação estrangeira e resgatar a Turquia de sua situação. Sob a liderança de Mustafa Kemal, os turcos conduziram uma guerra contra os estrangeiros que se encerrou em 1922.
Neste mesmo ano a monarquia foi abolida e a Turquia, ex-otomana, converteu-se num Estado secular.
Sob a direção de Ataturk (o “pai dos turcos”) a república ocidentalizou-se.
Mas passados quase hum século desses eventos, discute-se hoje o novo papel que o país aspira desempenhar.

Kemalismo e neo-otomanismo
Estes termos são semelhantes mas guardam distinções relevantes.
Quando Mustafa Kemal secularizou o Estado turco pós-1ª Guerra Mundial, a Turquia deixara de fato a condição de centro religioso do mundo islãmico, pois o sultanato fora abolido e com ele a liderança religiosa dos governantes turcos (o Califado).
Portanto entende-se por kemalismo a aplicação de políticas e projetos assentados em bases seculares, racionais e republicanas. Neste ponto, a Turquia está muito distante de uma teocracia como o Irã, velho rival na liderança do mundo islãmico.
Quando em 1979 uma revolução de cunho religioso e político foi vitoriosa em depor o Xá Pahlevi e seu regime monárquico, o ayatoláh Khomeini e o clero xiita que o seguia na condição de líder religioso, terminaram por instituir um governo baseado na aplicação da Sharia e na restauração dos fundamentos do islamismo, purgando a sociedade iraniana dos excessos importados pela ocidentalização do período anterior.
Suprimidos os remanescentes do regime deposto, derrotados os concorrentes de matriz socialista, restou na sociedade iraniana o predomínio do islã político. Este, por sua vez, seria em breve testado e venceria a ameaça representada pelo Iraque de Saddam Hussein
Mas nos últimos anos a Turquia vêm consolidando uma nova condição de referência no mundo islâmico.
A Turquia faz ponte entre o ocidente e o oriente. Por seu território passam inúmeras e importantes vias de abastecimento de petróleo, gás, transporte, etc o que confere um grande destaque econômico ao governo de Ancara.
O crescimento econômico turco tem sido mantido a vários anos e o país apresenta um claro progresso que se reflete em suas ambições regionais e em sua condição de aliado do ocidente.
Primeiro por que é um grande, rico e importante parceiro comercial tanto dos EUA como da União Europeia. Em segundo que enquanto o Oriente Médio tem sido sacudido por agitações de caráter fundamentalista, o Estado turco permanece sendo laico. Em terceiro lugar deve-se considerar que os turcos estão a demonstrar uma envergadura que lhes permite uma certa autonomia diplomática, como se viu relativamente recente quando mediou, junto com o Brasil, uma proposta para contornar a crise nuclear com o Irã.
Em quarto, que era o maior parceiro comercial de Israel até que na esteira subsequente do fracasso diplomático com Teerã, a tentativa frustrada de uma flotilha humanitária em romper o bloqueio naval israelense a Gaza, terminou com a morte de vários ativistas turcos e o rompimento de relações, o que apenas reforçou o isolamento israelense. Em quinto, o papel militar desempenhado pela Turquia na arquitetura atual da OTAN expandida e no Projeto Anaconda, além de manter em seu território importantes instalações militares tanto com armas nucleares sob controle dos EUA via aliança ocidental, como sítios de vigilância eletrônica sobre a Rússia e o Irã, e que absorve hoje também recursos vinculados ao desenvolvimento do sistema antimísseis patrocinado pelos Estados Unidos mas que defenderá, também, a Europa ocidental.
Podemos então entender o conceito do neo-otomanismo, como a expressão desta liderança turca renovada e que coloca Ancara, numa condição privilegiada como interlocutor, parceiro econômico e aliado militar e diplomático do ocidente naquela região, o que não descarta uma mudança de status do país.
Em termos sociais, o crescimento econômico foi em grande parte associada - como protagonista ou beneficiária -a uma classe média menos afeita ao puro - se podemos chamar assim - laicismo estatal.  Um kemalismo menos incisivo parece estar relacionado com a eleição do premiê Erdogan, que em junho de 2011 conseguiu o terceiro mandato. Beneficiado por um crescimento econômico e a redução do desemprego, o AK (Partido da Justiça e desenvolvimento) sagrou-se mais uma vez vitorioso.
Mas a sociedade esquivou-se de passar um cheque-em-branco ao carismático premiê.  Mesmo ampliando a votação de seu partido, isso não lhe permitiu uma maioria para reformar a constituição de forma unilateral.  Os votos dados à oposição claramente secular do Partido Republicano do Povo parecem apontar para um cuidado em premiar uma boa administração econômica que soube distribuir renda e beneficíos sociais, mas sem avalizar uma hegemonia monopartidária.
Por sinal, veuio justamente do Exército a manifestação mais explícita de descontetamento sobre um revisionismo da secularização potencialmente embutido na vitória do AK; o que motivou uma profunda intervenção do governo destituindo e prendendo diversos chefes militares no que foi visto como uma tentativa de golpe de estado, ainda que em gestação.
Para lembrar que democracia se faz com freios e contra-pesos leia, em http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/dica-de-leitura/erdogan-triunfou-na-turquia-ufa-nao-foi-o-pior/ as observações de Ricardo Setti, em especial sobre as conclusões do historiador Soner Cagaptay.

Conclusão 
Assistimos uma reorientação estratégica da diplomacia turca no sentido de reafirmar sua preponderância em relação a Israel - já isolado do mundo árabe/arabizado -, uma crescente ingerência ainda que mediadora em relação a Síria e o Egito (sacudidos por manifestações da chamada Primavera Árabe), e que se extende aos Bálcãs por sua força econômica e crise nuclear que opõe Teerã e a comunidade internacional, em especial aos EUA.
Com os rivais gregos mergulhados em dificuldades econômicas e políticas quem poderia obstaculizar um "avanço" turco rumo à região balcânica?
Se o pêndulo em Ancara parece mover-se rumo a uma recuperação religiosa - que parece ser mais fruto de um medo secular do que algo de fato concreto - mesmo assim interessaria agora entrar na UE?  Afinal, todos os entraves foram postos no caminho dos turcos rumo a zona do euro.  Agora, quem está na melhor posição?
Não existe nem no discurso nem como personagem, uma clara adesão aos temas religiosos do governo turco. Ele encerra muito mais um viés autoritário que teocrático. E isso  provavelmente em virtude das décadas de laicização que não poderão ser varridas como se inexistentes.
 Em época de crise talvez; hoje, difícil.
Enquanto os governos autoritários do Magreb à Síria balançam, o primeiro ministro Recip Erdogan fez no Egito, duras afirmações contra Israel, em apoio à causa Palestina e em favor de reformas políticas e econômicas (revista Época em 13/09/2011) http://revistaepoca.globo.com/Mundo/noticia/2011/09/no-egito-premie-turco-apoia-causa-palestina-e-ataca-israel.html.

Projetar a "velha sombra de Deus sobre a Terra" [título ostentado pelos sultões] não parece crível nos dias atuais; mas recuperar um pouco do velho otomanismo pela recuperação da Turquia como potência não deixa de espalhar uma certa "sombra".  Sem isolacionismo e buscando "zero problemas" com os vizinhos, conforme afirmou o ministro Ahmet Davutoglu das Relações Exteriores.




De medo ou de proteção, ainda está por se saber.