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sábado, 3 de novembro de 2012

Coreias: do conflito para uma possível confederação



     Caso a centro-esquerda vença a próxima eleição no sul, condições para uma reunificação parcial ganhariam muita força
      A Coreia voltou ao palco mundial como um ponto central da cena geopolítica nessa década. Ela irá afetar de maneira importante o futuro da China, do Japão, dos Estados Unidos e talvez da Rússia também. Porém, paradoxalmente, seu futuro depende principalmente dela mesma.
     A Coreia é um caso raro – um país com uma história muito longa como entidade política e cultural, com vários graus de unidade como um reino único. Nos tempos modernos, era um estado independente até que o Japão transformou-a num protetorado em 1905, e depois anexou-a, em 1910. A derrota japonesa na II Guerra acabou com seu domínio sobre a Coreia. Nos últimos dias da guerra, tropas norte-americanas e russas entraram no país, encontrando-se no paralelo 38. Dois estados surgiram, a República Popular Democrática da Coreia (ou Coreia do Norte) e a República da Coreia (Coreia do Sul).
     Em 1950, as duas Coreias envolveram-se numa guerra. Como ela começou ainda é assunto de controvérsia. Os Estados Unidos, aproveitando a ausência da União Soviética no Conselho de Segurança, foram capazes de mobilizar a ONU em apoio militar da Coreia do Sul. Tropas de 16 nações foram enviadas ao país, sob o guarda-chuva das Nações Unidas, apesar de os soldados norte-americanos constituírem mais de 80% do total. Logo depois, as tropas chinesas entraram na Coreia do Norte para defendê-la contra os exércitos dos Estados Unidos/ONU. A Guerra da Coreia tornou-se então também (e principalmente), uma guerra entre China e Estados Unidos.
     Chamado de "fundador" e "líder eterno" da Coreia do Norte, Kim il Sung governou o país por 45 anos
     Em 1953, o conflito estava em um beco sem saída, e os dois lados assinaram uma trégua, em uma fronteira que quase coincidia com o paralelo 38. Em suma, a guerra terminou em empate. Tecnicamente, nunca terminou. Não há tratado de paz, mas também não há guerra, apesar de ainda existir uma grande hostilidade e escaramuças, de tempos em tempos. Em 1957, os Estados Unidos romperam uma cláusula do acordo de trégua e introduziram armas nucleares na Coreia do Sul, sob protestos dos norte-coreanos.
      Em 2003, depois do colapso da União Soviética, a Coreia do Norte retirou-se do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e buscou conversações bilaterais com os Estados Unidos, em um tratado de não-agressão. Os Estados Unidos recusaram as conversações bilaterais, mas propuseram conversações entre seis países, que incluiriam também Coreia do Sul, Japão, China e Rússia. Em 2006, a Coreia do Norte anunciou um teste nuclear e, em 2009, comunicou que havia produzido uma arma nuclear. Nos últimos dias, alguns intelectuais sul-coreanos designaram a situação com um neologismo. Eles dizem que a Península Coreana está em um estado de “impacificação” [peacelessness].
      O objetivos dos Estados Unidos em levar a Coreia do Norte a rechaçar armas nucleares não foi alcançado. Por outro lado, este país tem sofrido, há muito tempo, escassez aguda de alimentos, parcialmente explicada pela insistência do regime em priorizar os gastos militares.
      O nacionalismo coreano é extremamente forte, e tanto o sul quanto o norte afirmam buscar uma reunificação. Mas em que termos? O nível de suspeita mútua é alto. E a atitude da Coreia do Sul frente a essa perspectiva divide profundamente os sul-coreanos.
     Em 1961, o sul-coreano Park Chung-hee liderou um golpe de estado militar e governou como ditador até 1979, quando foi assassinado. Park acreditava que a reunificação era apenas possível e desejável se envolvesse a queda do regime norte-coreano. Em 1980, estudantes lideraram uma revolta criticando os Estados Unidos e pedindo a democratização do regime. O movimento foi brutalmente reprimido.
     Depois disso, forças conservadoras dominaram a política sul-coreana até que um partido de centro-esquerda, liderado pelo dissidente Kim Dae-jung, ganhou as eleições, em 1997. Ele inaugurou a chamada Sunshine Policy. O nome se refere a uma fábula de Esopo, segundo a qual é mais fácil fazer uma pessoa tirar seu casaco se o dia está ensolarado do que quando há ventania. A política teve como foco procurar formas concretas de cooperar com a Coreia do Norte e repudiar qualquer tentativa de absorver o país vizinho. Kim ganhou o Prêmio Nobel da paz em 2000 por sua política, continuada por seu sucessor, Roh Moo-hyun, que governou entre 2003 e 2008.
      Em 2008, os conservadores ganharam novamente a Presidência, em parte porque a abertura à Coreia do Norte não obteve sucesso e em parte por causa de escândalos que afetaram o governo de Roh. O novo presidente, Lee Myung-bak, repudia ferozmente a Sunshine Policy, e adotou uma política hostil, ainda mais que a dos Estados Unidos.
     Hoje parece claro que nem a China, nem os Estados Unidos, nem Japão ou até mesmo a Rússia atuam em favor da reunificação. Todos preferem as coisas como estão. Ainda assim, as forças favoráveis a reunificar as Coreias ao longo da próxima década parecem mais fortes.
     Há dois fatores nessa nova situação. Um é a aproximação da eleição na Coreia do Sul, marcadas para 19 de dezembro. Os conservadores promovem a filha de Park Chung-hee, Park Geun-hye, que tem insistido na defesa total da política de seu pai.
     As forças de centro-esquerda estão atualmente divididas entre dois candidatos. Moon Jae-in é o candidato do partido de centro-esquerda e defende a renovação da abertura à Coreia do Norte. Também concorre um candidato independente, Ahn Cheol-soo, que se apresenta como um candidato anti-político, apelando para aqueles que estão descontentes com os dois partidos. Porém, seu programa é virtualmente idêntico ao de Moon.
     O presidente sul-coreano Lee Myung-bak, de viés conservador, ao lado de George W. Bush
     As pesquisas mostram que, se os dois candidatos de centro-esquerda permanecerem na corrida, o conservador ganhará. Entretanto, as pesquisas também mostram que se um dos dois se retirar em favor do outro, as forças de centro-esquerda provavelmente vencerão. A probabilidade disso ocorrer é alta. A grande questão é quem fará isso.
     Se as forças de centro-esquerda ganharem, qual será a resposta da Coreia do Norte? Ninguém sabe. Mas todos perceberam que as movimentações iniciais do novo líder do país comunista, Kim Jong-un, parecem ser diferentes da política de seu pai, Kim, Jong-il. Ele parece estar mais preocupado em assegurar um aumento da renda real para o norte-coreano comum, e mais aberto a mudanças. Pode acolher um pouco de sol vindo do sul.
     Se as forças de centro-esquerda ganharem no sul e o novo líder no norte for de fato mais aberto, o mundo pode assistir, na próxima década, ao surgimento de algo como uma confederação suave entre norte e do sul – ignorando o medo real da China e dos Estados Unidos.
      Uma Coreia reunida terá um impacto enorme na geopolítica do nordeste asiático, e na própria geopolítica mundial. Possivelmente, servirá de moderadora entre a China e o Japão, e pode viabilizar o surgimento de uma estrutura comum entre os três estados. Pode resultar na transformação da Coreia do Sul, Japão e Taiwan em potências nucleares.
     Além disso, uma Coreia unificada irá se somar ao reposicionamento do Egito e à posição geopolítica cada vez mais forte do Brasil, para consolidar a redistribuição de poder geopolítico no mundo inteiro.
     E, permitam-me a repetição, isso está nas mãos dos próprios coreanos.
(*) Immanuel Wallerstein é um sociólogo norte-americano e professor na Universidade de Yale. Texto publicado originalmenteem português pelo blog Outras Palavras. Tradução: Daniela Frabasile.


http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/24706/coreias+do+conflito+para+uma+possivel+confederacao.shtml
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