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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Dinâmica Global - Coréia do Norte: fogo, fúria e medo.

Os sinos de alarme tocam quando a especulação desenfreada faz explodir as “possíveis” ogivas nucleares miniaturizadas de Pyongyang.

Cuidado com os cães da guerra. As mesmas “pessoas” de inteligência que trouxeram “malvados” bebês iraquianos de incubadoras e as Armas de Destruição em Massa (WMDs) inexistentes, estão vendendo a noção de que a Coréia do Norte produziu uma ogiva nuclear miniaturizada capaz de se adequar ao ICBM recentemente testado.
Esse é o núcleo de uma análise concluída em julho pela Agência de Inteligência da Defesa (DIA). Além disso, a inteligência norte-americana acredita que Pyongyang agora tem acesso a até 60 armas nucleares. No terreno, os EUA na Coreia do Norte são virtualmente inexistentes – essas avaliações equivalem a adivinhação na melhor das hipóteses.
Mas quando comparamos as conjecturas com um documento anual de 500 páginas publicado no início desta semana pelo Ministério da Defesa do Japão, os sinos de alarme do início tocam.
O white paper enfatiza o “avanço significativo” de Pyongyang na corrida nuclear e sua habilidade “possível” para desenvolver ogivas nucleares miniaturizadas capazes de se ajustar às pontas de seus mísseis.
Essa habilidade “possível” é prejudicada em especulações definitivas. Como afirma o relatório,

    “É concebível que o programa de armas nucleares da Coréia do Norte já tenha avançado consideravelmente e é possível que a Coréia do Norte já tenha alcançado a miniaturização de bombas nucleares em ogivas e adquiriu ogivas nucleares”.
As mídias empresariais ocidentais dificilmente se absteriam de metastasiar a especulação pura em um frenesi “Coreia do Norte tem miniaturizado armas nucleares” consumindo o ciclo do noticiário principal / manchetes de jornal. Fale sobre corações e mentes confortavelmente entorpecidas pelo fator medo.
O livro branco japonês, convenientemente, também escalou a condenação da China sobre as ações de Pequim nos mares do Leste e do Sul da China.
Então, vejamos as agendas em jogo. O Partido da Guerra nos EUA, com suas inúmeras conexões no complexo industrial-militar-mídia, obviamente quer / precisa da guerra para manter a maquinaria oleada. Tóquio, por sua vez, apreciaria muito o ataque militar preventivo dos EUA – e malditas as inevitáveis e maciças baixas sul-coreanas que resultariam do contra-golpe de Pyongyang.
Ministro da Defesa do Japão, Itsunori Onodera (Fonte: Wikimedia Commons)
É bastante esclarecido que Tóquio, para todos os propósitos práticos, considera a China como uma “ameaça” tão séria quanto a Coréia do Norte; O ministro da Defesa, Itsunori Onodera, foi direto ao ponto, quando disse:
“Os mísseis da Coréia do Norte representam uma ameaça crescente. Isso, juntamente com o contínuo comportamento ameaçador da China no Mar da China Oriental e no Mar da China Meridional, é uma grande preocupação para o Japão. “A resposta de Pequim foi rápida.
Kim Jong-Un, demonizedo ad infinitum, não é um tolo, e não vai se entregar a um ritual seppuku atacando unilateralmente a Coréia do Sul, Japão ou território dos EUA. O arsenal nuclear de Pyongyang representa a dissuasão contra a mudança de regime que Saddam Hussein e Kaddafi não podiam contar. Só existe uma maneira de lidar com a Coréia do Norte, como já discuti antes; Diplomacia. Diga isso a Washington e Tóquio.
Enquanto isso, há a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas 2371. Destinada as principais exportações da Coréia do Norte – carvão, ferro e frutos do mar. O carvão representa 40% das exportações de Pyongyang e, sem dúvida, 10% do PIB.
No entanto, este novo pacote de sanções não toca as importações de petróleo e produtos refinados de petróleo da China. Essa é uma das razões pelas quais Pequim votou a favor.
A estratégia de Pequim é uma tentativa asiática de encontrar uma solução para salvar a carência – e isso leva tempo. A resolução 2371 do CSNU compra tempo – e pode dissuadir a administração do Trump, por enquanto, de metal pesado, com consequências horríveis.
O ministro chinês das Relações Exteriores, Wang Yi, declarou cautelosamente que as sanções são um sinal de oposição internacional aos programas de mísseis e armas nucleares da Coréia do Norte. O último que Pequim precisa é um direito nas suas fronteiras, também obrigado a interferir negativamente na expansão das Novas Estradas da Seda, a.k.a. Belt and Road Initiative (BRI).
Pequim sempre pode trabalhar para reconstruir a confiança entre Pyongyang e Washington. Esse é um pedido mais alto do que o Himalaia. Basta apenas olhar para o Quadro Acordado de 1994, assinado durante o primeiro mandato de Bill Clinton.
O quadro deveria congelar – e até mesmo desmantelar – o programa nuclear de Pyongyang e obrigado a normalizar as relações EUA-Coréia do Norte. O consórcio liderado pelos EUA construirá dois reatores nucleares de águas claras para compensar a perda de energia nuclear de Pyongyang; As sanções seriam levantadas; Ambas as partes emitiriam “garantias formais” contra o uso de armas nucleares.
Nada aconteceu. O quadro entrou em colapso em 2002 – quando a Coréia do Norte foi consagrada o “eixo do mal” pelo regime de Cheney. Para não mencionar que a Guerra da Coréia ainda está, tecnicamente, em alta; O armistício de 1953 nunca foi substituído por um verdadeiro tratado de paz.
Então, o que vem depois? Três lembretes.
     1) Cuidado com uma bandeira falsa desenhada a culpar Pyongyang; Esse seria o pretexto perfeito para a guerra.
     2) A narrativa atual é estranhamente semelhante às suspeitas habituais que provocam desde sempre que o Irã é um batimento cardíaco distante de “construir uma arma nuclear”.
     3) A Coreia do Norte detêm trilhões de dólares americanos em riqueza mineral inexplorada. Observe as sombras de candidatos que se destinam a lucrar com um saque tão suculento.

Autor: Pepe Escobar

sábado, 10 de outubro de 2015

Acordo Trans-Pacífico - via Gazeta do Povo (PR)



O acordo comercial entre 12 países (Acordo Transpacífico), entre eles Estados Unidos e Japão, é um dos mais importantes da História. O pacto eliminará milhares de tarifas e afetará trocas comerciais feitas por países que representam 40% da economia mundial.
Entenda os principais pontos do compromisso firmado nesta segunda-feira (5) em Atlanta. Parlamentares dos países pertencentes ainda têm que aprovar o acordo.

O que é o Acordo Transpacífico?

O Acordo de Parceria Transpacífico (TPP) é um novo pacto comercial entre 12 países do Pacífico, incluindo Estados Unidos e Japão, duas das três maiores economias mundiais. A parceria pode se converter no maior acordo regional da história, com a redução de barreiras tarifárias e estabelecimento de padrões comuns para os 12 países que o integram e representam 40% da economia mundial. No caso americano, o governo calcula que serão eliminadas 18 mil taxas que incidem sobre os produtos Made in USA. O acordo, no entanto, ainda precisa ser ratificado pelos legisladores dos 12 países integrantes.

Quais são os países participantes?

São 12: Estados Unidos, Japão, Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura e Vietnã.

Quem ficou de fora?

O componente geopolítico do acordo é muito forte. E o pacto foi uma das principais bandeiras econômicas do presidente americano, Barack Obama, em relação à Asia. No passado, o TPP era visto como um mecanismo para conter o avanço comercial chinês. Mas, nos últimos anos, a relação a americana com Pequim foi suavizada.
De acordo com o jornal britânico Financial Times, a China está observando o desenvolvimento do acordo com cautela e está comprometida com negociações comerciais próprios. Muitos na comunidade empresarial americana, segundo o “FT”, acreditam que a real promessa do acordo é uma possível abertura à participação de outros países, especialmente da China.
Ainda conforme o jornal britânico, Coreia do Sul, Taiwan e Filipinas são países asiáticos que poderiam aderir ao acordo.

As principais regras

Tarifas e cotas: Muito utilizadas para proteger as indústrias nacionais de bens importados mais baratos, as tarifas sobre importações já foram um padrão de política comercial, e geraram a maior parte da receita do Tesouro dos EUA no século XIX. Após a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, os EUA lideraram um movimento em direção a um comércio mais livre. Hoje, os EUA e os países mais desenvolvidos têm poucas tarifas, mas algumas permanecem. Os EUA, por exemplo, protegem o mercado interno de açúcar de fornecedores globais de menor preço e impõem tarifas sobre calçados importados, enquanto o Japão tem sobretaxas crescentes sobre produtos agrícolas, incluindo arroz, carne e produtos lácteos. O pacto é um esforço para criar uma zona de livre comércio no Pacífico.
Meio ambiente, trabalho e propriedade intelectual: Negociadores americanos destacam que o acordo do Pacífico busca nivelar as condições entre os países ao impor rigorosas normas de trabalho e ambientais aos parceiros comerciais, além da supervisão dos direitos de propriedade intelectual.
Fluxo de dados: O pacto comercial do Pacífico também tem o objetivo de resolver uma série de questões que surgiram desde que acordos anteriores foram negociados. Uma delas é que os países concordam em não bloquear as transferências de dados via internet, e não exigem que os servidores sejam localizados no país para fechar negócio. Esta proposta tem atraído a preocupação de alguns países, entre eles a Austrália, pois isso poderia entrar em conflito com as leis e regulamentos sobre privacidade e dados pessoais armazenados no exterior.
Serviços: Um grande objetivo do pacto do Pacífico é aumentar as oportunidades para indústria de serviços, que responde pela maioria dos empregos privados na economia americana. Os EUA têm uma vantagem competitiva em uma gama de serviços, incluindo finanças, engenharia, software, educação, direito e tecnologia da informação. Embora os serviços não estejam sujeitos a tarifas, condições de nacionalidade e restrições sobre o investimento são usadas por muitos países em desenvolvimento para proteger as empresas locais.
Negócios estatais: Os negociadores americanos têm discutido a necessidade de abordar o favoritismo frequentemente concedido a empresas estatais. Embora Vietnã e Malásia tenham muitas dessas empresas, os EUA também têm algumas (o serviço postal e Fannie Mae, por exemplo). O acordo final pode incluir termos que buscam garantir alguma neutralidade concorrencial, mantendo a porta aberta para a aceitação futura da China no pacto.

Qual é o tamanho das economias participantes?

EUA
Com um PIB de US$ 17,42 trilhões em 2014, os EUA se mantêm no posto de maior economia do mundo, à frente da China. Os americanos importaram US$ 2,33 trilhões e exportaram US$ 1,61 trilhão no ano passado. Seus principais destinos de exportação foram Canadá (19,2%), México (14,8%), China (7,6%) e Japão (4,1%). Já as importações feitas pelos americanos vieram majoritariamente de China (19,9%), Canadá (14,8%), México (12,5%), Japão (5,7%) e Alemanha (5,3%).
Japão
No ano passado, a terceira maior economia do mundo registrou um PIB de US$ 4,616 trilhão. As exportações totalizaram, US$ 710,5 bilhões e foram, principalmente, para EUA (18,9%), China (18,3%), Coreia do Sul (7,5%), Hong Kong (5,5%) e Tailândia (4,5%). As importações, num total de US$ 811,9 bilhões, vieram de China (22,3%), EUA (9%), Austrália (5,9%), Arábia Saudita (5,9%), Emirados Árabes Unidos (5,1%), Qatar (4,1%) e Coreia do Sul (4,1%).
Austrália
A economia australiana somou bens e serviços no valor de US$ 1,44 trilhão em 2014. Exportou US$ 250,8 bilhões. Entre as commodities que vendeu para o exterior estão carvão, minério de ferro, ouro e carne. Os principais compradores foram China (33,7%), Japão (18%), Coreia do Sul (7,4%) e EUA (4,2%). A origem dos US$ 245,9 bilhões em compras externas foram China (20,5%), EUA (10,6%), Japão (6,8%), Cingapura (5%), Alemanha (4,7%), Coreia do Sul (4,7%), Malásia (4,4%) e Tailândia (4,3%). Entre os itens estão máquinas e equipamentos de transporte, computadores, partes e equipamentos de telecomunicação, petróleo e derivados.
Brunei
Seu PIB foi de apenas US$ 15,1 bilhões no ano passado. As exportações, principalmente de petróleo e gás natural, para Japão (39%), Coreia do Sul (12,5%), Austrália (9,7%), Índia (9,2%), Tailândia (6,4%) e Indonésia (5,8%), totalizaram US$ 11,38 bilhões. As importações, que incluem bens e alimentos, vieram de Japão (39%), Coreia do Sul (12,5%), Austrália (9,7%), Índia (9,2%), Tailândia (6,4%) e Indonésia (5,8%), num total de US$ 4,3 bilhões.
Canadá
Com um PIB de US$ 1,789 trilhão em 2014, os EUA são o principal parceiro comercial dos canadenses. Mais de 76% das exportações do Canadá foram para o país vizinho. Entre os produtos vendidos aos exterior por um montante de US$ 465,1 bilhões no ano passado estão veículos, máquinas industriais, aeronaves, químicos, petróleo, gás, eletricidade e alumínio. As importações de máquinas e equipamentos, veículos e partes, petróleo, químicos, eletricidade e bens duráveis, que totalizaram US$ 482,1 bilhões, vieram de EUA (54,5%), China (11,5%) e México (5,6%).
Chile
O Chile registrou um PIB de US$ 258 bilhões no ano passado. O país exportou US$ 76,98 bilhões e importou US$ 70,67 bilhões. Entre os principais produtos vendidos para fora estão cobre, frutas, peixes e vinho. Os destinos foram China (24,4%), EUA (12,3%), Japão (10%), Coreia do Sul (6,2%) e Brasil (5,4%). O país comprou petróleo e derivados, químicos, equipamentos elétricos e de telecomunicações, veículos e gás natural de China (20,9%), EUA(19,8%), Brasil (7,9%) e Argentina (4%).
Malásia
No PIB de US$ 326,9 bilhões de 2014, o comércio exterior respondeu por US$ 231,3 bilhões em exportações e US$ 193,6 bilhões em importações. As exportações foram de semicondutores e equipamentos eletrônicos, petróleo, madeira, borracha, têxteis, químicos e painéis solares para Cingapura (14,2%), China (12%), Japão (10,8%), EUA (8,4%), Tailândia (5,3%), Hong Kong (4,8%), Austrália (4,3%), Índia (4,2%) e Indonésia (4,2%). Já as importações de eletrônicos, máquinas, derivados de petróleo, plásticos, veículos, ferro, alumínio e químicos vieram de China (16,9%), Cingapura (12,6%), Japão (8%), EUA (7,7%), Tailândia (5,8%), Coreia do Sul (4,6%) e Indonésia (4,1%).
México
Em 2014, o PIB mexicano foi de US$ 1,283 trilhão. As exportações totalizaram US$ 406,4 bilhões. Os principais produtos vendidos foram bens manufaturados, petróleo e derivados, prata, frutas, vegetais, café e algodão. Os EUA foram o principal destino, ficando com mais de 80%. As importações, de US$ 407,1 bilhões, incluíram máquinas, equipamentos elétricos, partes de automóveis para montagem e reparo e aeronaves. A origem principal origem também foram os EUA (48,8%), seguidos de China (16,6%) e Japão (4,4%).
Nova Zelândia
Os bens e serviços da neozelandeses geraram um PIB de US$ 198,1 bilhões no ano passado. As importações incluem frutas, carne, vinho e petróleo, num total de US$ 40,21 bilhões, para China (20%), Austrália (17,5%), EUA (9,3%) e Japão (5,9%). As importações, avaliadas em US$ 40,71 bilhões, vieram de China (17%), Austrália (12,3%), EUA (11,7%), Japão (6,7%), Alemanha (4,8%), Coeria do Sul (4,5%) e Malásia (4,3%) e incluem petróleo e derivados, veículos e têxteis.
Peru
O país sul-americano teve um PIB de US$ 202,9 bilhões em 2014. As exportações de US$ 36,43 bilhões foram para China (18,3%), EUA (16,1%), Suíça (6,9%), Canadá (6,6%), Brasil (4,2%) e Japão (4,1%). Entre os produtos estão cobre, ouro, zinco, aspargos, café, peixe, gás natural e petróleo. As importações de US$ 40,25 bilhões incluem petróleo e derivados, químicos, plásticos, veículos, TVs, equipamentos de telecomunicações, papel, algodão e medicamentos vindos de China (21%), EUA (21%), Brasil (4,7%), México (4,6%) e Equador (4,2%).
Cingapura
O PIB da ilha foi de US$ 308,1 bilhões no ano passado. As vendas ao exterior totalizaram US$ 409,5 bilhões em máquinas e equipamentos, farmacêuticos e químicos, produtos refinados de petróleo e bebidas a China (12,6%), Malásia (12%), Hong Kong (11%), Indonésia (9,4%), EUA (5,9%), Japão (4,1%) e Coreia do Sul (4,1%). Os US$ 366 bilhões em importações vieram de China (12,1%), Malásia (10,7%), EUA (10,3%), Coreia do Sul (5,9%), Japão (5,5%), Indonésia (5,1%), Emirados Árabes Unidos (4.2%) e Arábia Saudita (4%). Entre os principais produtos estão máquinas e equipamentos, e combustíveis minerais.
Vietnã
A economia vietnamita registrou um PIB de US$ 186 bilhões no ano passado. Suas exportações foram de US$ 147 bilhões, majoritariamente de roupas, sapatos, eletrônicos, frutos do mar e arroz. Os EUA foram o principal destino (20%), China (10,4%), Japão (10,3%) e Coreia do Sul (5%). As compras externas totalizaram U$ 138,6 bilhões e vieram de China (30,4%), Coreia do Sul (15%), Japão (8,9%), Tailândia (4,9%), Cingapura (4,7%) e EUA (4,4%). Os itens foram máquinas e equipamentos, derivados de petróleo, matéria-prima para indústria de vestuário e calçado, eletrônicos, plásticos e automóveis.

Ver também  http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/05/economia/1444048323_601347.html

sexta-feira, 11 de julho de 2014

As potências redesenham o mundo - Le Monde Diplomatique Brasil


Uma águia do livre-comércio norte-americana atravessa o Atlântico para destroçar uma tropa de cordeiros europeus mal protegidos. A imagem invadiu o debate público na aurora da campanha pelas eleições europeias. Chocante, ela é politicamente perigosa. Por um lado, não permite entender que também nos Estados Unidos coletividades locais correm o risco de serem vítimas, em breve, de novas normas liberais que proibiriam a proteção do emprego, do meio ambiente, da saúde. Por outro, ela desvia a atenção de empresas bem europeias – francesas como Veolia, alemãs como Siemens – e tão apressadas quanto as transnacionais norte-americanas em processar na justiça os Estados que ousarem ameaçar seus lucros (ler artigo na pág. 12). Por fim, ela negligencia o papel das instituições e dos governos do Velho Continente na formação de uma zona de livre-comércio em seu próprio território.
O engajamento contra o Grande Mercado Transatlântico (GMT) não deve, portanto, ter como alvo um Estado em particular, ou seja, os Estados Unidos. O objetivo da luta é ao mesmo tempo mais amplo e ambicioso: diz respeito aos novos privilégios que os investidores de todos os países reclamam, talvez para recompensá-los pela crise econômica que eles provocaram. Bem dirigida, uma batalha planetária desse tipo poderia consolidar solidariedades democráticas internacionais, hoje em atraso em relação às que existem entre as forças do capital.
Nesse caso, mais vale desconfiar das duplas que se pretendem ligadas pela eternidade. A regra se aplica ao protecionismo e ao progressismo tanto quanto à democracia e à abertura das fronteiras. A história já provou que as políticas comerciais não têm conteúdo político intrínseco.1 Napoleão III casou o Estado autoritário e o livre-comércio (ler artigo na pág. 16), quase no mesmo momento em que, nos Estados Unidos, o Partido Republicano pretendia se preocupar com os operários norte-americanos, a fim de melhor defender a causa dos trustes estrelados, dos “barões voadores” do aço, que mendigavam proteções alfandegárias.2 “O Partido Republicano, tendo nascido do ódio ao trabalho escravo e do desejo de que todos os homens fossem realmente livres e iguais”, como indica sua plataforma de 1884, “se opõe irrevogavelmente à ideia de colocar nossos trabalhadores em concorrência com qualquer forma de trabalho servil, quer seja na América ou no estrangeiro.”3 Na época, já se pensava nos chineses. Mas tratava-se de milhares de trabalhadores braçais vindos da Ásia que companhias californianas de ferrovias tinham recrutado para lhes confiar os trabalhos pesados em troca de salários de fome.
Um século depois, a posição internacional dos Estados Unidos se transformou, e democratas e republicanos brincam de quem vai cantar a serenata de livre-comércio mais melosa. No dia 26 de fevereiro de 1993, pouco mais de um mês depois de sua chegada à Casa Branca, o presidente Bill Clinton tomou a dianteira graças a um discurso-programa destinado a promover o Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta), que seria votado alguns meses mais tarde. Ele admitiu que a “cidade global” alimentou o desemprego e os baixos salários norte-americanos, mas se propôs a acelerar o passo no mesmo sentido: “A verdade de nossa época é e deve ser a seguinte: a abertura e o comércio nos enriquecerão enquanto nação. Isso nos incita a inovar. Isso nos obriga a enfrentar a concorrência. Isso nos garante novos clientes. Isso favorece o crescimento global. Isso garante a prosperidade de nossos produtores, que são, eles mesmos, consumidores de serviços e matérias-primas”.
Desde essa época, os diversos “rounds” de liberalização de trocas internacionais já fizeram cair a média dos direitos de alfândega de 45% em 1947 para 3,7% em 1993. Mas pouco importa: a paz, a prosperidade e a democracia exigem que se vá cada vez mais longe. “Assim como foi ressaltado pelos filósofos, de Tucídides a Adam Smith”, insiste Clinton, “os hábitos do comércio contradizem os da guerra. Assim como os vizinhos que se ajudaram para construir seus respectivos estábulos depois ficam menos tentados a colocar fogo neles, aqueles que aumentaram o nível de vida mútuo têm menos propensão para se enfrentarem. Se acreditamos na democracia devemos nos empregar em reforçar as ligações do comércio.” A regra não valia, no entanto, para todos os países, já que o presidente democrata assinou, em março de 1996, uma lei aumentando as sanções comerciais contra Cuba.
Dez anos depois de Clinton, o comissário europeu Pascal Lamy – um socialista francês que depois se tornou diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) – retomou sua análise: “Eu penso, por razões históricas, econômicas e políticas, que a abertura das trocas caminha na direção do progresso da humanidade; que provocamos menos infelicidades e conflitos quando abrimos o comércio do que quando o fechamos. Onde o comércio passa, as armas param. Montesquieu disse melhor do que eu”. No século XVIII, Montesquieu não podia, no entanto, saber que os mercados chineses se abririam um século depois, não graças à convicção dos enciclopedistas, mas na carona dos navios de guerra, das guerras do ópio e da pilhagem do Palácio de Verão. Lamy, por sua vez, não deve ignorar esses fatos.
Menos exuberante do que seu predecessor democrata (isso é uma questão de temperamento), o presidente Barack Obama dá continuidade por sua vez ao credo do livre-comércio das transnacionais norte-americanas – europeias também, e na verdade de todos os países – para defender o GMT: “Um acordo poderia aumentar nossas exportações em dezenas de bilhões de dólares, induzir a criação de centenas de milhares de empregos suplementares, nos Estados Unidos e na União Europeia, e estimular o crescimento nas duas margens do Atlântico”.4 Quase não evocada em seu discurso, a dimensão geopolítica do acordo importa, no entanto, mais do que seus hipotéticos benefícios em termos de crescimento, emprego e prosperidade. Washington, que vê longe, não conta se apoiar no GMT para conquistar o Velho Continente, mas para desviar qualquer perspectiva de reunificação com a Rússia. E principalmente para... conter a China.
Nesse ponto, a convergência também é total com os dirigentes europeus. “Vemos aumentar esses emergentes, que constituem um perigo para a civilização europeia”, estima, por exemplo, o ex-primeiro-ministro francês François Fillon. “E nós? Nossa única resposta seria nos separarmos? É uma loucura.”5 Justamente, continua o deputado europeu Alain Lamassoure, o GMT poderia permitir aos aliados atlânticos “entrar num acordo sobre normas comuns para impô-las em seguida aos chineses”.6 Arquitetada por Washington, uma parceria transpacífica para a qual Pequim não foi convidada visa exatamente ao mesmo objetivo.
Com certeza não é por acaso que o partidário intelectual mais entusiasmado do GMT, Richard Rosecrance, dirige em Harvard um centro de pesquisas sobre as relações entre os Estados Unidos e a China. Sua obra, publicada em 2013, desenvolve a ideia de que o enfraquecimento simultâneo de dois grandes conjuntos transatlânticos deve levá-los a intensificar as fileiras diante das potências emergentes da Ásia. “A menos”, escreve, “que essas duas metades do Ocidente se unam, formando um conjunto nas áreas de pesquisa, desenvolvimento, consumo e economia, ambas vão perder terreno. As nações do Oriente, dirigidas pela China e pela Índia, vão então ultrapassar o Ocidente em matéria de crescimento, inovação e renda – e, para concluir, em termos de capacidade de projetar uma potência militar.”7
O propósito geral de Rosecrance lembra a análise célebre do economista Walt Whitman Rostow sobre as etapas do crescimento: depois da decolagem de um país, seu ritmo de progressão desacelera, pois ele já realizou os ganhos de produtividade mais rápidos (nível de educação, urbanização etc.). No caso da moeda, as taxas de crescimento das economias ocidentais, que já chegaram à maturidade há diversas décadas, não vão alcançar as da China ou da Índia. A união forçada entre os Estados Unidos e a Europa constitui, então, a principal carta que lhes resta. Ela permitirá que eles continuem impondo seu jogo aos que acabam de chegar, impetuosos, é verdade, mas desunidos. Assim como nos dias que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, a invocação de uma ameaça externa – ontem aquela, política e ideológica, da União Soviética; hoje esta, econômica e comercial, da Ásia capitalista – permite unir sob o cajado do bom pastor (norte-americano) o rebanho que desconfia que em breve a pedra angular da nova ordem mundial não vai mais se situar em Washington, e sim em Pequim.
Um temor ainda mais legítimo, segundo Rosecrance, porque, “na história, as transições hegemônicas entre potências em geral coincidem com um conflito maior”. Mas um meio permitiria impedir que a “transferência de liderança dos Estados Unidos para uma nova potência hegemônica” não termine em uma “guerra entre a China e o Ocidente”. Em vez de esperar religar as duas principais nações asiáticas a parceiros atlânticos castigados por seu declínio, seria preciso tirar partido das rivalidades que existem entre elas e contê-las na sua região graças ao apoio do Japão, um país que, por temor à China, está colado ao campo ocidental a ponto de ser seu “terminal oriental”.
Mesmo que esse grande desenho geopolítico invoque a cultura, o progresso e a democracia, a escolha de certas metáforas trai no momento uma inspiração menos elevada: “O produtor que tem dificuldade em vender uma mercadoria”, insiste Rosecrance, “será frequentemente levado a se unir a uma empresa estrangeira para ampliar sua oferta e aumentar sua participação no mercado, como Procter & Gamble fez ao adquirir a Gillette. Os Estados estão diante de incitações da mesma ordem”.
É sem dúvida porque nenhum povo ainda considera sua nação e seu território como produtos de consumo corrente que o combate contra o GMT está apenas começando.
Serge Halimi
*Serge Halimié diretor do Le Monde Diplomatique.

1  Ler Le protectionnisme et ses ennemis[O protecionismo e seus inimigos], Le Monde Diplomatiquee Les Liens qui Libèrent, Paris, 2012.
2  Ler Howard Zinn, “Au temps des ‘barons voleurs’” [No tempo dos “barões voadores”], Le Monde Diplomatique, set. 2002.
3  Citado por John Gerring, Party ideologies in America, 1828-1996 [Ideologias partidárias nos Estados Unidos, 1826-1996], Cambridge University Press, 2001, p.59.
4  Coletiva de imprensa conjunta com François Hollande, Casa Branca, Washington, 12 fev. 2014.
5  RTL, 14 maio 2014.
6  France Inter, 15 maio 2014.
7  Richard Rosecrance, The resurgence of the West: how a transatlantic union can prevent war and restore the United States and Europe[O ressurgimento do Oriente: como uma união transatlântica pode prevenir guerras e restaurar os Estados Unidos e a Europa], Yale University Press, New Haven, 2013. Assim como todas as citações seguintes
http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1660 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Tóquio-Pequim: a luta por África

china, áfrica
Foto: Flickr.com/Fir Z/cc-by-nc-sa 3.0

A luta sino-japonesa está sendo transferida para uma nova arena. Tendo se cansado de estabelecer a soberania das ilhas disputadas no mar da China Meridional, Pequim e Tóquio decidiram medir forças no continente africano.

Nos primeiros dias do novo ano, vários países africanos receberam o ministro das Relações Exteriores chinês e o primeiro-ministro japonês. As promessas feitas foram generosas: Shinzo Abe propôs aos amigos africanos 14 bilhões de dólares em investimentos, Wang Yi aumentou a soma para 20 bilhões.
A visita do ministro chinês à África no início deste ano, segundo dizem no ministério, é uma tradição da diplomacia chinesa formada ao longo das últimas décadas. Pequim não a quebrou no novo ano de 2014. O ministro Wang Yi visitou a Etiópia, Djibuti, o Gana e Senegal, e também se encontrou com líderes das partes em conflito no Sudão do Sul. Resumindo, o ministério chinês observou: a primeira visita após a formação do novo governo da China ajudou a fortalecer a posição de Pequim nesses países.
A imprensa ocidental, obviamente, não deixou a tradição chinesa sem atenção. Antes da chegada de Wang Yi à Etiópia, o The Wall Street Journal lembrou o escândalo que continua desde o verão passado. Adis Abeba assinou um contrato com os fabricantes chineses de equipamentos de telecomunicações ZTE e Huawei para lançamento de redes 3G. O valor é de 1,6 bilhões de dólares, o contrato tem financiamento preferencial do Export-Import Bank of China, e os pagamentos combinados a prestações durante 13 anos. Mas, segundo dizem, houve suborno para determinar o vencedor do concurso internacional para o projeto.
Quanto aos métodos que Pequim usa para reforçar a sua posição em África, as opiniões de especialistas são muitas vezes diametralmente opostas. Assim, a perita do Instituto de África, Tatiana Deich, destaca que a China está hoje fazendo para África mais do que qualquer outro país:
“Naturalmente, a África valoriza isso. Em geral, é difícil competir com a China, mesmo para países ocidentais. Em muitos casos, reconhecem os próprios africanos, os países ocidentais fazem depender a sua ajuda de certas condições políticas. A China não o faz. Ela colabora com todos. O seu princípio fundamental: “Nós não interferimos nos assuntos internos dos países africanos, nós ajudamos.”
De verdade, durante os últimos sete anos, Pequim investiu na economia da África cerca de 50 bilhões de dólares. Como a China prioriza esta zona do mundo pode ser visto no exemplo de um país – o Senegal. 99% das exportações do Senegal para a China são peixe. Mas o interesse principal está dentro do país. Especialistas chineses estão modernizando as redes elétricas para a empresa estatal senegalesa de energia Senelec. Empresas da China se encarregaram da modernização do sistema de transportes públicos, dos portos de Kaolack e Fundiung. Desde 2007, a China Henan International (CHICO) está realizando uma completa modernização de estradas, canais, abastecimento de energia elétrica e de água na cidade de Tuba, um dos centros islâmicos mais influentes do Senegal. Aqui também, é claro, estão trabalhando especialistas em eletrônica das empresas Huawei e ZTE. Como observou recentemente a publicitária russa Yulia Latynina, os chineses estão de fato controlando toda a estrutura de energia, transporte e telecomunicações do país. E tudo isso é pago por empréstimos de bancos estatais chineses ao governo senegalês. Segundo o mesmo esquema – e já há muito tempo – os chineses operam em outros países africanos. Tal atitude “apolítica” e promiscuidade entre Governo e negócios permite à China aumentar rapidamente a sua vantagem, acredita o vice-diretor do Instituto de Análise Política e Militar, Alexander Khramchikhin:
“O fato de a China estar comprando tudo na África é, certamente, verdade. É essa a sua política – sem complexos. A China não se preocupa com que tipo de regime existe num país, ela só precisa de expansão econômica. E o essencial para a China não é o peixe, mas, obviamente, o petróleo. Em geral, ela está interessada em todos os tipos de recursos, e por eles serem mais baratos na África, para Pequim esta é uma boa direção de expansão. Especialmente porque Pequim usa com prazer esquemas de corrupção, ou seja, compra primeiro os dirigentes de um país e depois os seus recursos.”
Em comparação com as conquistas chinesas, a tentativa do Japão de se introduzir em assuntos africanos parece um empreendimento questionável. Especialmente tendo em vista que a viagem de Shinzo Abe foi a primeira visita de um primeiro-ministro japonês à África nos últimos 8 anos. No entanto, Tóquio se propõe objetivos ambiciosos: reforçar o seu estatuto de potência global, competir com a China e encontrar fornecedores de energia. Desta vez, os interesses econômicos, muito provavelmente, parece serem secundários, notou o orientalista russo e professor da Universidade de Moscou de Relações Estrangeiras Dmitri Streltsov:
“Na África, sem dúvida, há uma concorrência de modelos de desenvolvimento do chamado soft power. A China está se posicionando como um país em desenvolvimento, enquanto o Japão representa os países desenvolvidos, o Ocidente. Por isso, os países africanos enfrentam a escolha entre os dois modelos de desenvolvimento. E neste caso trata-se menos dos interesses pragmáticos do Japão, e muito mais de assuntos globais e do posicionamento do Japão como uma potência mundial responsável.”
Dada uma certa especificidade dos regimes no poder na maior parte dos países da África, podemos dizer que a escolha de um modelo político incomoda-os menos que tudo. Mas a economia é algo que está perto e é compreensível. Ora é provável que Tóquio tenha que repensar seus métodos de luta: a ideologia na África de hoje é um bem de pouca demanda.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Não, isto não é um porta-aviões

Pelo menos esta é a declaração oficial do governo do Japão sobre o ‘contratorpedeiro de convés corrido’ Izumo


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O mais novo navio da Força Marítima de Auto-Defesa do Japão (MSDF em inglês) tem um convés de voo em toda a sua extensão e é quase do tamanho de porta-aviões que participaram em 1941 do ataque a Pearl Harbor, como o Shokaku e o Zuikaku, mas o Japão insiste que ele não é um porta-aviões.
Com um comprimento de cerca de 250 metros e deslocamento padrão de 19.500 toneladas, o Izumo é o maior navio da frota. Até nove helicópteros podem pousar em seu convoo ao mesmo tempo .
Mesmo assim, o Ministério da Defesa e a MSDF insistem que o Izumo, que foi lançado no verão passado, é simplesmente um contratorpedeiro (destróier) capaz de transportar helicópteros.
A imprensa na China e na Coreia do Sul comentaram jocosamente  na época do lançamento , que o Izumo um “semi porta-aviões” e evidência de uma inclinação para a direita nas políticas japonesas.
O jornalista Militar Shinichi Kiyotani disse: ” Segundo as normas internacionais, trata-se de um porta-aviões. O governo está se expandindo gradualmente a sua interpretação, porque está com medo de que isso pode se tornar um problema político”.
Por sua parte , a mais recente versão do Jane’s Fighting Ship , um livro de referência sobre todos os navios de guerra do mundo divulgado anualmente na Grã-Bretanha , descreve o Izumo como um porta-helicópteros.
O Izumo está programado para substituir o contratorpedeiro Shirane, atualmente baseado na base naval da MSDF em Maizuru, região de Quioto, na primavera de 2015. O Shirane tem um deslocamento padrão de 5.200 toneladas.
A MSDF já tem outros dois contratorpedeiros de convés corrido com deslocamentos padrão acima de 10.000 toneladas: o Hyuga e o Ise. Outro navio do mesmo tamanho do Izumo também está em construção, ou seja, a MSDF acabará por manter quatro dos navios de grande porte.
O Programa de Defesa aprovado pelo Conselho de Ministros de Abe em dezembro passado colocou os quatro contratorpedeiros de convés corrido como nau capitânia.
Alguns navios são definidos por seu dever , como submarinos e navios de transporte. No entanto, todos os grandes navios de superfície , cuja principal missão é combater relacionada são definidos como contratorpedeiros.
Katsutoshi Kawano , o chefe de gabinete da MSDF , disse: “Nos termos da lei, não há outra maneira de se referir ao navio, mas como um contratorpedeiro”.
O governo emitiu uma declaração em 1988 que inclui porta-aviões. O documento afirma que as Forças de Auto-Defesa do Japão (SDF) não podem possuir mísseis balísticos intercontinentais , bombardeiros estratégicos ou porta-aviões de ataque.
Com a manutenção de uma postura exclusivamente defensiva, porta-aviões como os usados ​​pela Marinha os EUA, que são capazes de projetar poder a partir do mar contra alvos terrestres com seus jatos de combate, não foram considerados favoráveis ​​a essa política.
Funcionários do Ministério da Defesa disseram que não há planos para o Izumo operar caças. Ao contrário, eles insistiram que o Izumo é um navio de propósitos múltiplos que vai ser usado para lidar com catástrofes naturais ou de operações internacionais de resgate de emergência.
Para responder às preocupações de que o Izumo pode operar com caças que pousam verticalmente , como o F-35B , um alto funcionário do Ministério da Defesa disse: “A modificação é possível, mas realisticamente ela é difícil, pois  exigiria enormes quantidades de tempo e dinheiro, incluindo a compra dos jatos e o treinamento do pessoal necessário”.
Desde o fim da II Guerra Mundial , uma das principais missões do MSDF é trabalhar em conjunto com a Marinha os EUA para procurar e destruir submarinos inimigos.
Essa missão mantém-se inalterada , uma vez que a China e outras nações vizinhas têm expandido suas frotas de submarinos.
Contratorpedeiros da geração anterior desenvolvidos pela MSDF só podiam levar entre um e três helicópteros anti-submarinso com os sensores e torpedos necessários para detectar e destruir as forças potencialmente hostis.
No entanto, decidiu-se que o número de helicópteros por navio seria aumentado e reparos poderiam ser feitos a bordo, missões de busca e destruição seriam mais eficientes, ampliando seu escopo e sua duração.
Yoji Koda , que uma vez serviu como comandante da Frota de Auto-Defesa , disse que “o Izumo é um navio que é fundamentalmente diferente de um porta-aviões . Se a necessidade de um porta-aviões for considerada necessária no futuro, ele só deve ser construído após explicar ao público a sua razão de existir.”
Os fundos para o projeto e construção do Izumo foram originalmente definidos pelo Partido Liberal Democrático no ano fiscal de 2010. O lançamento veio depois de o primeiro-ministro Shinzo Abe voltar ao poder após o triunfo eleitoral do PLD sobre o Partido Democrático do Japão, em dezembro de 2012.
FONTE: Asahi Shimbun (tradução e adaptação do Poder Naval a partir do original em inglês)

sábado, 28 de dezembro de 2013

Contra China, Japão amplia gasto militar e flerta com nacionalismo

Militares se apresentam em parada no Japão (foto: Reuters)

O Japão anunciou nesta terça-feira um plano para aumentar seus gastos com defesa e criar uma nova força de ataque. As medidas são um movimento claro em resposta a ações desafiadoras da China.
Mas muitos membros da oposição dizem acreditar que o premiê Shinzo Abe está usando a ameaça chinesa para perseguir seu sonho nacionalista, segundo o correspondente da BBC em Tóquio, Rupert Wingfield-Hayes.
O plano japonês envolve a compra, ao longo dos próximos cinco anos, de equipamentos antimísseis, submarinos, 52 veículos anfíbios, aviões não tripulados de vigilância e aviões de combate. Abe também estabeleceu um Conselho Nacional de Segurança.
Apesar de sua Constituição (pós-Segunda Guerra Mundial) não prever Exército, Marinha ou Aeronáutica, o Japão tem realizado importantes investimentos em defesa: neste ano, os gastos nessa área chegaram perto de US$ 60 bilhões, quase equivalentes aos da Grã-Bretanha ou da França.
O avanço reflete a preocupação crescente quanto aos gastos chineses e quanto a crescente assertividade de Pequim em suas reivindicações territoriais, em áreas disputadas com o Japão.

Avanço chinês

Tóquio possui uma força militar própria – que, apesar de seu caráter puramente defensivo, é grande e moderna. Mas ela foi idealizada na época da Guerra Fria, para proteger o país de uma invasão da Rússia pelo norte.
Ao mesmo tempo, nos últimos 10 anos, a China tem transformado suas forças militares em um ritmo surpreendente. O orçamento militar de Pequim dobrou, atingindo a marca de US$ 150 bilhões por ano.
A China está construindo navios de guerra mais rapidamente do que qualquer outro país. Além disso, os chineses estão desenvolvendo aviões invisíveis ao radar, aeronaves não tripuladas e já possuem seu porta-aviões.

Os maiores gastos militares de 2012

Ranking Países Gastos em
bilhões de dólares
Variação %,
2003-2012
1 EUA 682 32
2 China 166* 175
3 Rússia 90,7* 113
4 Grã-Bretanha 60,8 4,9
5 Japão 59,3 -3,6
6 França 58,9 -3,3
7 Arábia Saudita 56,7 111
8 Índia 46,1 65
9 Alemanha 45,8* -1,5
10 Itália 34* -19
*Estimativas
Fonte: Sipri (Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo)
Desde o ano passado, uma arrastada disputa por um pequeno grupo de ilhas no Mar do Leste da China – Senkaku (ou Diaoyu, como são conhecidas na China), sobre as quais a maioria das pessoas nunca tinha ouvido falar – vem ganhando as manchetes no Japão e na China.
Governos japoneses já vinham há muito tempo expressando vontade de se opôr à China, mas pouco foi feito na prática. Até que, em dezembro do ano passado, o Japão elegeu como premiê o nacionalista Shinzo Abe, que prometeu que o país não seria mais "intimidado" pelo vizinho.
E as ilhas são o principal foco da disputa bilateral.

Lista de compras

O Japão criará uma nova força de ataque anfíbia – algo similar aos marines americanos.
Também há uma grande lista de compras: 28 caças F-35 (invisíveis a radares), 17 aviões de carga Osprey (capazes de decolar como helicópteros), 25 blindados de ataque anfíbio e 99 veículos leves de combate.
O Japão já está construindo dois grandes navios de transporte de helicópteros de assalto que, com os caças, os aviões e os veículos de combate, devem formar o núcleo na nova força anfíbia do país.

Suspeitas

Ao mesmo tempo, oposicionistas se dizem preocupados com as inclinações nacionalistas de direita de Shinzo Abe, que ao longo de sua carreira política chegou a sugerir a derrubada da Constituição pacifista do Japão pós-guerra.
Apesar de definir suas ações como "pacifismo proativo", ele também mostrou alguma ambivalência ao tratar de supostos crimes cometidos contra cidadãos da Coreia e da China durante a Segunda Guerra, questionou se o Japão deveria ser definido como "agressor" e fez campanha pela revisão de livros escolares para dar uma visão mais positiva à participação do país em combates.
Mas a barreira para mudar a Constituição é muito alta. Abe precisaria conseguir dois terços dos votos nas duas casas do Parlamento e ainda vencer um referendo.
Como ninguém acredita que ele conseguirá fazer isso, seus críticos dizem que ele tenta fazer mudanças sem mudar a Constituição.
Na semana passada, Abe centralizou o processo de tomada de decisões militares em um Conselho de Segurança Nacional, seguindo um modelo americano, que está diretamente subordinado ao gabinete do premiê.
Seu partido trabalha ainda por uma nova lei, que permitirá que uma série de assuntos de Estado passem a ser classificados como "secretos". As punições para vazamentos desses assuntos também se tornariam mais severas.
Grupos opositores passaram a semana em frente ao Parlamento para protestar contra a nova legislação. Questionados sobre a motivação das manifestações eles respondiam que "Abe quer nos levar para a guerra".
A lei japonesa pouco difere das que já são adotadas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, mas liberais japoneses estão extremamente desconfiados da velha direita do país.
Eles dizem acreditar que Abe quer levar o Japão de volta à era pré-guerra, quando a obediência ao imperador vinha acima de tudo.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/12/131208_japao_militar_lk.shtml

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A crise mundial e o papel do Brasil

http://eu-proprio-aqui.blogspot.com.br/2011/03/o-destino-e-incerteza-da-vida.

Em meio a uma ampla crise mundial, com os países buscando fechar seus mercados para garantir empregos, os organismos mundiais, em especial a OMC, falharam em democratizar as relações entre as nações, em especial com a falência da chamada Rodada de Doha. Da mesma forma, a busca de maior representatividade e maior participação das nações na ONU continua bloqueada pelo arcaico direito de veto de cinco países e pela recusa, explícita dos Estados Unidos, em aceitar uma reforma democratizante da instituição.

No entanto, no coração do Ocidente, emergiu uma entidade supranacional: a “Troika”. Capaz de gerar injustiça, perda e grande dano social para países inteiros, com receitas reconhecidamente incapazes de superar a crise, é o único organismo ativo da chamada “governança mundial”. No interior da “Troika”, o velho FMI se recusa a qualquer esforço de (auto)reforma, democratizando e tornando mais “social” a principal agência supranacional do planeta. Nesse cenário, mais do que nunca, o Brasil precisa de uma diplomacia ativa, sistemática e com objetivos claros.

2012: a crise da Europa
2012 foi um grave ano de crise mundial – econômica social e política. O desemprego e a regressão social foram brutais em países como Espanha, Grécia, Portugal ( onde até mesmo, de forma ridícula e contraproducente – em virtude do turismo – o Carnaval foi suprimido). O velho receituário do FMI – agora ampliado na entidade supranacional denominada “Troika”, com o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia – mostra-se, depois de quase três anos de “austeridade” (o que na prática se traduz por refinanciamento dos bancos e cortes sociais), um grande fiasco: desemprego massivo e inédito na história destes países; exportação de capitais via pagamento de juros e fuga de fortunas; crescimento negativo.

Este ciclo infernal resulta em desvalorização dos títulos dos governos e mais e mais controle e pagamentos para as entidades da “Troika”, exaurindo os investimentos produtivos. A Comissão Europeia – e os governos conservadores de Portugal e Espanha – declaram-se, entretanto, surpresos pela ausência de resultados. Na Espanha os procedimentos de regressão de direitos sociais combinam-se com denúncias de corrupção do governo conservador do Partido Popular. No entanto, bem ao contrário das notícias catastrofistas e oportunistas espalhadas pelas empresas de “rating” e “experts” econômicos, o euro não acabou. Seria um desastre para os grandes bancos europeus.

Nos Estados Unidos, após um bom susto, Barack Obama conseguiu sua reeleição, afastando parte da velha oligarquia do Partido Democrata, como clintonismo, e trazendo, pela primeira vez, um governo com sua própria cara – a qual, depois de quatro anos, ainda não vimos. A nomeação de novos secretários de Estado, Defesa e Tesouro podem – podem, mas não é seguro que assim o seja! – tirar os Estados Unidos de sua paralisia e de suas velhas fixações políticas e ideológicas, como uma prometida Guerra contra o Irã e o apoio à política de colonização da Palestina dos Partidos Likud-Beiteinu em Tel Aviv.

Obama: a virada que não aconteceu
A proposta original de Obama – voltar-se para a Ásia do Pacífico, organizar um modus vivendi com a China Popular, avançar na contenção da Coreia do Norte e liderar um bloco de prosperidade na Ásia – parece mais longe do que nunca. Na verdade, Hillary Clinton manteve e procurou aprofundar as políticas anteriores, mal escondendo o desejo de criar um “cinturão de segurança” em torno da China, repetindo políticas aplicadas contra a URSS desde a Guerra Fria (1945-1991) (Nota 1). Assim, aprofundou alianças com a Índia, Tailândia, Myanmar, Indonésia e Filipinas, além da manutenção de grande esquema militar na Coreia do Sul e Japão (incluindo Okinawa) num esforço mal dissimulado de “contenção” da China.

No entanto, o conflito emergente entre China Popular e Japão ( com a participação da Coreia do Sul) em torno das Ilhas Diayou/Senkaku surpreendeu Washington, que malgrado seus interesses na região, viu-se sem ferramentas e meios de ação num conflito que poderia mostrar aos países asiáticos que o “guarda-chuva” defensivo americano não mais funciona. Além disso, a Coreia do Norte, depois de sinais controversos, colocou um satélite em órbita em 12/12/12 – ou seja, comprovou capacidade balística de longa distância e anunciou – em janeiro de 2013 - um novo teste com armas nucleares. O agravamento da crise na área do Pacífico é um resultado, em larga medida, da paralisação das Conversações de Beijing, entre China, Rússia, Japão, EUA e as duas Coreias, decorrente da postura cada vez mais rígida do Japão.

É possível que a chegada de Chuck Hagel, na Defesa, e de John Kerry, na secretaria de Estado, desarmem a dependência estratégica entre Washington e Tel Aviv. A postura de Netanyahu - primeiro ministro israelense - contra a reeleição de Obama não será esquecida e os novos condutores da política externa americana sabem, claramente, que na visão do mundo – e não somente dos países árabes e muçulmanos – a insistência do Governo de Likud-Beiteinu em avançar na colonização do território da Palestina conta com a complacência de Washington.

A Questão Palestina
A admissão da Palestina na ONU em 2012, mesmo como “Estado observador”, foi uma vitória dos países emergentes na ONU – incluindo China, Índia e Brasil entre os 138 votos favoráveis, 41 abstenções e 9 votos contra (Nota 2) – e velhos aliados americanas. Tais países perceberam o beco sem saída da diplomacia de Washington. Ao mesmo tempo, a chamada “Guerra dos Oito Dias”, entre Israel e o Hamas, na Faixa de Gaza em 2012, mostrou que a pretensa segurança ou superioridade bélica de Israel – elemento fundamental na paralisia das negociações, incluindo aí o “Iron Dome” – não era uma realidade. Mesmo armas de baixa tecnologia, como foguetes Katiuscha e os Qassam (que a mídia insiste em chamar de “mísseis”, mesmo não tendo as necessárias tecnologias de orientação e de navegação) “tocaram” Tel Aviv e um assentamento israelense próximo a Jerusalém.

A insistência de Tel Aviv em não negociar – sob vários argumentos, desde não “haver com quem negociar” até exigir o fim do recurso à violência e o pleno reconhecimento de Israel previamente, o que, aliás, a OLP/Fatah já o fez sem resultados – não tem antecedentes nos anais da história das negociações. A paz é negociada entre inimigos, ou então não haveria a necessidade de negociações de... paz! Os Estados Unidos e a Coreia do Norte negociaram a paz durante dois anos, enquanto suas tropas se enfrentaram, até o Acordo de Pammumjon, 1953.

E ainda Washington negociou a paz, e obrigou o estado fantoche de Saigon a fazê-lo, nas Conversações de Paris, entre 1969 e 1973, em pleno auge da guerra do Vietnã. Negociação de paz não é uma rendição prévia. Contudo, tais exigências, facilitadas pelo apoio incondicional de Washington, ficaram, a partir 2012, mais difíceis. O Relatório da Comissão de Direitos Humanos da ONU, sob a coordenação da juíza francesa Christine Chanet e publicado em janeiro de 2013, poderá levar o governo do Likud-Beiteinu ao Tribunal Internacional de Haia por crimes de guerra. Sem negociações não haverá possibilidade de paz – não importa o poder dos arsenais acumulados - para nenhum dos povos da região. Ou conforme as palavras de um israelense: “...não se consegue fazer a paz por meios militares”, diria Avi Dichner (Nota 3).

Obama deverá, em 2013, decidir se continua enredado nos grupos de pressão pró-Israel e anti-Irã (com os fundamentalistas cristãos do “Tea Party”, o complexo industrial militar centrado no CentCom – o Comando Militar do Oriente Médio e Ásia Central - e as entidades de apoio a Israel) ou se buscará resolver tais conflitos e centrar sua atenção na região mais rica do mundo – a Ásia do Pacífico – de onde emerge o seu mais poderoso concorrente.

O Fator China
Desde antes da ascensão da nova liderança chinesa, no 18º. Congresso do Partido Comunista, em 2012, a posição tradicional da China no equilíbrio mundial mudou significativamente. Deng Xiaoping, desde sua ascensão em 1976, formulou uma doutrina de política externa expressa na expressão: “China, a ascensão pacífica de uma grande potência”. Isso significava que a China teria paciência e sua chegada ao clube das grandes potências não resultaria em grandes conflitos, como no caso da Alemanha e Japão em 1914 ou 1939.

Desde o governo de Hu Jintao, de inicio de forma velada, iniciou-se um forte debate na China – envolvendo historiadores, cientistas políticos e diplomatas – que concluiriam que os Estados Unidos estão determinados a deter a ascensão chinesa. Para isso estariam dispostos a se utilizar da oposição interna, dos separatismos, de Taiwan rearmada e, principalmente, na construção de um cinturão de nações aliadas no entorno chinês.

Assim, o novo governo chinês, iniciado no final de 2012, com Li Xinping e LI Keqiang, já não está mais convencidos de que a manutenção de um “perfil baixo” seja uma boa resposta a Washington. Por isso, o endurecimento com o Japão - maior aliado dos americanos na Ásia – e uma política econômica menos emparelhada com os interesses americanos serão a tônica da nova administração. A resposta chinesa deverá, neste campo, pautar-se pela exclusão, no limite do possível, dos americanos da Ásia do Pacífico, na contramão dos objetivos de Obama.

O Brasil no mundo
A política externa do Brasil manteve-se, nas suas grandes linhas, na direção traçada desde muito tempo: votou pela Palestina na ONU ( decisão tomada desde o discurso de FHC na ONU em 2001 ) e que Dilma Rousseff reafirmou, no seu discurso, em 2011. Da mesma forma, o Brasil recusou a intervenção estrangeira na guerra civil da Síria e assumiu uma postura mais critica e militante, contra a violação dos direitos humanos, nas reuniões multilaterais, em especial na Comissão de Direitos Humanos da ONU – onde votou pela condenação do Irã.

Tal posicionamento nos afastou – ao contrário dos dois Governos Lula da Silva – do Irã, chegando mesmo a discreta recusa de Dilma em receber o presidente iraniano em visita pela América do Sul, em junho de 2012. Podemos entender isso. Uma mulher que foi torturada não deve se sentir confortável ao lado do chefe de um regime que sentencia mulheres à lapidação em praça pública.

No entanto, perdemos também, neste período de dois anos de Governo Dilma e de gestão do embaixador Antonio Patriota, um importante relacionamento com a Turquia. Trata-se, neste caso, de um regime representativo e laico, país com 80 milhões de habitantes e mais de um trilhão de dólares de PIB. Com a crise contínua do novo governo egípcio, o afastamento do Irã, o natural seria uma maior atenção do Brasil ao mais estável, prospero e democrata país muçulmano do Oriente Médio. Mas, isto não foi feito, com perda do papel do país na região.

Uma presença antiga: desde a criação, pelo Congresso Nacional, do Batalhão de Suez, em 1956, com 20 contingentes do Exército Brasileiro temos uma presença moderadora na região. Logo, trata-se de uma política de Estado, de longa continuidade, marcada, hoje, pela presença da Fragata União, e depois a Fragata Liberal, no âmbito da “Maritme Task Force” da ON U nas águas do Mediterrâneo. A Turquia é, nesta missão, um parceiro fundamental para o Brasil e um ponto importante de projeção da presença brasileira na região.

A ‘diminuição’ do Brasil
No âmbito do nosso continente, a América do Sul, tivemos também um amplo retrocesso na projeção e papel do Brasil. O primeiro, e bastante grave, foi à exclusão do Brasil das negociações de Paz entre as Farc e o governo da Colômbia. Desde a assunção de Juan Manuel Santos como presidente em Bogotá, em 07/08/2010, estava claro que a política de força do seu antecessor, apoiada no chamado Plano Colômbia de inspiração e financiamento norte-americano, fracassara. As negociações eram, claramente, o caminho mais fácil e menos custoso em vidas e traumas, do que o uso maciço e indiscriminado da força militar (Nota 4).

Ora, decidida a via negociadora, oferecidos os bons ofícios do Brasil, Bogotá aceitou a intermediação inicial de Caracas – que sempre acusara de apoio direto e aberto às Farc – e a intermediação de Cuba (onde se realizam os trabalhos) e da Noruega. O Brasil, um país que enviou militares, aviões e helicópteros para resgate de vítimas de sequestro e usou as forças do 14º. Batalhão de Infantaria da Selva para impedir as Farc de constituírem santuário no território brasileiro, foi excluído da mais importante negociação de paz do continente.

O Mercosul e o Brasil
Caminhamos, entretanto, na direção dos interesses brasileiros ao ampliar o Mercosul e fortalecer a Unasul. Assim, na Cimeira de Brasília (em 07/12/2012) a Bolívia foi admitida, abrindo-se caminho para a adesão do Equador e da Guiana. Claro, o governo paraguaio protestou – ecoando profundamente nas argumentações daqueles que detestam a ideia de uma integração regional autônoma. Para os atuais governantes em Assunção a ampliação do Mercosul – que abala o poder de chantagem de Assunção – deveria se dar pelo voto de todos os membros e na ausência do Paraguai as adesões efetivadas – Venezuela, Bolívia, Guiana e possivelmente Equador – serão nulas. Evidentemente Assunção não concorda com seu afastamento temporário dos organismos de direção do Mercosul em virtude do golpe dissimulado contra o presidente Lugo em 2012.

Contudo, o próprio Mercosul caminha em meio a diversos problemas e crises. Particularmente a atuação da Argentina não é das mais construtivas. Em meio a uma grave crise econômica mundial – que, claro, atinge também argentinos e brasileiros – Buenos Aires assumiu atitudes protecionistas contra o livre fluxo do comércio intrabloco, com grave prejuízo dos interesses brasileiros, e, muitas vezes, por um pronunciado favorecimento do comércio da China (um grande comprador de commodities argentinas).

O núcleo do Mercosul são as boas relações Brasil-Argentina, daí a imensa relevância do equilíbrio e o risco de regressões. O comércio bilateral encolheu, em 2012, algo em torno de 15%, em detrimento do Brasil, embora tenhamos mantido uma alta taxa de investimentos no país – cerca de 20 bilhões de dólares e aberto linhas de crédito no valor 7,5 bilhões junto ao BNDES para o país vizinho.

Um entendimento direto entre Buenos Aires (que, apesar das restrições, amarga déficit na balança comercial com o Brasil) e Brasília é fundamental para a integração regional. Se ambas as presidentes entendem bem ou não, se são mutuamente simpáticas, isso não é, de forma alguma, uma razão de Estado para deixar a mais importante criação da diplomacia brasileira em ritmo meramente vegetativo.

A crise mundial, bem diagnosticada por Dilma Rousseff, em Los Cardinales, na Argentina, em fins de novembro de 2012, nos obrigada a fortalecer o Mercosul e buscar novas parcerias comerciais, intensificando viagens diplomáticas, envio de ministros e retomar a chamada “diplomacia presidencial” – o principal nível de negociação capaz de desbloquear gargalos e entraves.

Tanto na Cimeira do Mercosul de Brasília quanto na Cimeira dos Países Ibero-Americanos e a União Europeia em Santiago do Chile (agora em janeiro de 2013), vimos Christian Kirchner, com sua habitual desenvoltura, falar em nome do bloco sul-americano, inclusive recusando prazos e metas para um acordo bilateral Mercosul-União Europeia (Nota 5) – algo de grande importância para as exportações brasileiras.

Brasil e Estados Unidos
Não podemos ficar satisfeitos com o que temos: a perda de vitalidade do comércio com a União Europeia, em virtude da crise, déficit calamitoso com os Estados Unidos e protecionismo praticado por grandes economias como o Japão. Com os Estados Unidos o comércio bilateral cresceu acima de 2.5% em 2012 (malgrado a crise americana), mas com sinais negativos para o Brasil: em 2011 tivemos um déficit de 6.2 bilhões de dólares e deverá ficar, em 2012, acima de 3.5 bilhões. Comparamos 98% de manufaturados e vendemos apenas 4%, demonstrando assim o grau de desigualdade de valores nas relações bilaterais entre Washington e Brasília.

A qualidade das relações entre Washington e Brasília, malgrado o fato de sermos criadores líquidos de empregos nos Estados Unidos através de uma balança comercial e de pagamentos desequilibradas, não merecemos nenhuma atenção especial dos norte-americanos. Na ocasião da avaliação da cassação do presidente Lugo, os Estados Unidos (e o fiel escudeiro, o Canadá) desacreditaram a avaliação brasileira e influenciaram o embaixador José Miguel Insulza, presidente da OEA, a não acatar avaliação coletiva do MERCOSUL, repetindo – agora no cenário sul-americano – a atuação norte-americana no caso de Honduras.

Por isso mesmo, uma diplomacia ativa na África e na Ásia, com a ampliação e fortalecimento do MERCOSUL, é indispensável para a manutenção do crescimento no Brasil, excluir intervenções estrangeiras no continente e construir um continente socialmente mais justo. Da mesma forma, não se trata de “ideologia”, como querem os críticos obcecados pelas relações norte-atlânticas, mas da geração de emprego e renda no Brasil, no continente e para todos. Mas, para que isso ocorra é necessário uma diplomacia ativa e presente nos diversos fóruns internacionais.

Notas
1) Ao entregar o cargo, em janeiro de 2013, o balanço da gestão de Hillary Clinton é bastante pobre: nenhuma clareza sobre as chamads “Primavera Árabe”, uma virtual alinaça com a Al Qaeda na Síria, crise na Líbia e ausência de qualquer nova percepção do novo equilibrio mundial em ascensão.

2) A lista completa dos nove países que votaram contra a admissão da Palestina dá conta do isolamento da diplomacia americana no mundo: além de Israel, votaram contra: EUA, Nauru, Panamá, Republica Tcheca, Canadá, Palau, Micronésia e Ilhas Marshall.

3) Avi Dichner é um ex-comandantedo Shin Bet, o serviço secreto de Israel, e a declaração é feita no desconcertante filme de Dror Moreh, “The Gatekeepers”, 2012.

4) Ver sobre os chamados “falsos positivos” – a morte de civis pelas FFAA colombianas – o caso dos assassinatos, como foi admitido em 2011 pelo comandante da Força Tarefa Conjunta, de Sucre, visando obter benefícios e promoções: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-inocentes-assassinados-na-colombia

5) Cristina K. utilizou o argumento de “questões internas” – numa referência velada ao Paraguai – para adiar qualquer acordo com a U.E. No entanto, as razões verdadeiras residem no fato de Buenos Aires manter uma séria disputa com a Itália, Espanha e outros países da UE em virtude da conversão da dívida argentina e da nacionalização da empresa petrolífera espanhola.

(*) Professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tambores de Guerra - O dragão cospe fogo

A China se diz pronta para uma guerra contra o Japão e conclama a população “a se preparar para o pior”. Para especialistas, o cenário é alarmante

Um evento que tem baixíssimo risco de acontecer, pega a todos de surpresa, vira o mundo de cabeça para baixo e que, no fundo, no fundo (dirão alguns mais tarde), poderia ter sido previsto é um “cisne negro”. O termo, aplicado à economia, foi cunhado em 2007 pelo investidor americano Nassim Taleb para explicar o perigo de alguém se basear em cálculos e previsões e deixar de fora do radar a probabilidade de ocorrências que parecem improváveis.

A hipótese da eclosão de uma guerra entre a China e o Japão tem todas as características de um cisne negro – exceto uma. Ao levar em conta o que a China vem declarando, são altíssimas as possibilidades de seus tambores rufarem em breve. Nas últimas semanas, o Global Times, o jornal oficial do governo, publicou artigos conclamando a população “a se preparar para o pior”. Na segunda-feira, Liu Mingfu, um oficial do Exercito de alta patente, declarou considerar “justificável” o uso de armas nucleares contra o Japão em caso de ataque à China.

A fala de Liu tinha por objetivo alertar a Austrália para o fato de que ela não deveria se aliar aos Estados Unidos contra os interesses chineses. “Os Estados Unidos são o tigre do mundo, e o Japão é o lobo da Ásia. E os dois estão agredindo a China sem medir as consequências”. A declaração do oficial seguiu-se à da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton. Ela deixou claro que, caso a situação degringole de vez entre a China e o Japão, os americanos optarão pelo segundo. Para o cientista político americano Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia Group, o cenário é mais do que alarmante. “A crise China-Japão é a mais significativa tensão geopolítica no mapa hoje”, afirmou na quarta-feira, em Davos.

A razão oficial da contenda é a disputa pelo controle de oito ilhotas localizadas no Mar da China Oriental e que somam não mais do que 7 quilômetros quadrados. A briga em torno delas é antiga, mas os ânimos se acirraram no ano passado, quando o governo do Japão resolveu comprá-las de seu então proprietário, um cidadão japonês, com o argumento de que, se não o fizesse, elas cairiam nas imprevisíveis e ultranacionalistas mãos de Shintaro Ishihara – então governador de Tóquio e autodeclarado “um idoso fora de controle”.

Ishihara já havia organizado uma caixinha entre seus apoiadores com vistas a transformar as desabitadas Ilhas Senkaku, como os japoneses as chamam, em território administrado e povoado por Tóquio quando o governo federal arrematou o arquipélago. A iniciativa foi pessimamente recebida pela China, que acusou o Japão de roubo.

Numa segunda categoria de razões que justificam a crise, estão os mais de 100 anos de conflitos entre as duas nações e a atual situação política de cada uma. Do lado japonês, a volta de Shinzo Abe ao poder não ajudou a desanuviar o clima. Eleito primeiro-ministro pela segunda vez, Abe baseou sua campanha na defesa do endurecimento das relações do Japão com a China. Já o ainda inescrutável Xi Jinping assumirá em março a Presidência de uma China cada vez mais nacionalista, que busca consolidar sua hegemonia política e militar na Ásia e vê no Japão, além de um inimigo histórico, um entrave para as suas ambições.

O Brookings Institution, centro de estudos em Washington, envia aos presidentes americanos alertas periódicos sobre questões geopolíticas. Na semana passada, seu principal especialista em China, Cheng Li, endereçou ao recém-empossado Barack Obama um memorando em que dizia que ele “não deveria subavaliar a possibilidade de a China mergulhar numa revolução ou lançar-se numa guerra (contra o Japão)”.

Para a economia mundial e a estabilidade na Ásia, escreveu Cheng, a ocorrência de uma dessas hipóteses pode significar sérios apuros. E a combinação das duas, uma catástrofe. Contra os ventos da guerra estão os poderosos fatos de que o Japão é o segundo parceiro comercial da China e os Estados Unidos, o primeiro. São motivos suficientes para tornar essa guerra um evento improvável. Mas, diante da magnitude do que está em jogo, ninguém está disposto a desdenhar do risco.

sábado, 3 de novembro de 2012

Japão: o dragão adormecido



 
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      Crise finalmente começa a afetaras conquistas sociais do país, mas sociedade começa a se mobilizar e exigir mudanças
     Três dos símbolos nacionais mais famosos do país: o Monte Fuji, o trem-bala e as cerejeiras locais sakura
     Na década de 1980, o Japão era o dragão do mundo. Toda nova tecnologia – automóveis, aparelhos, câmeras, equipamento médico e novos sistemas de gestão – provinha de lá. Depois, o país começou a diminuir o ritmo, até adormecer.
     No entanto, seus níveis de produção e reservas financeiras eram suficientemente altos para que a queda não afetasse muito o cidadão médio.
     Apesar de a Sony ser substituída pela Apple e agora a China ter a imagem do dragão, após ultrapassá-lo como a segunda economia mundial, a qualidade de vida dos habitantes do Japão supera a de quase todos os demais países.
     Mas agora se começa a tomar consciência de que os êxitos sociais podem ser afetados se a economia não crescer. A taxa de desemprego é inferior a 5%, uma magnitude irrisória na Europa, mas sem precedentes neste país.
     No passado, as corporações empresariais asseguravam aos seus dependentes um emprego por toda a vida. Mas já não mais é assim. O trabalho não está mais garantido e tampouco os jovens conseguem um emprego imediatamente após se formarem na escola ou na universidade.
     O Japão continua sendo um modelo de ruas imaculadas, ordem, disciplina e de um forte senso cívico, onde a combinação de xintoísmo (baseado na natureza), budismo (baseado nos êxitos individuais) e confucionismo (baseado nos êxitos sociais) criou um raro equilíbrio entre natureza, ser humano e sociedade.
     A história milenar desta nação, ao longo de uma linha ininterrupta de imperadores, pode explicar as diferenças profundas com a China, que foi para o Japão o que a Grécia foi para Roma.
     Contudo, a modernização começa em 1853, como reação à intervenção da frota norte-americana sob o comando do almirante Matthew Perry.
     Depois da vitoriosa guerra contra a Rússia, em 1904, que colocou o Japão em pé de igualdade com as grandes potências, os círculos militares se impuseram e desencadearam uma série de conflitos regionais, que só terminaram com a derrota na II Guerra Mundial.
     Por pressão do general Douglas McArthur, que comandou por quase todo o período as forças aliadas que ocuparam o Japão entre 1945 e 1952, foi introduzido o sistema democrático. Porém, o PLD (Partido Liberal Democrático), que governou o país praticamente sem interrupção desde o pós-guerra, cada vez mais se converteu em uma máquina política autor referencial, enquanto os demais partidos não puderam apresentar alternativas dinâmicas.
      Hoje em dia, o que é novo e perturbador é uma onda nacionalista que criou um conflito com a China, absolutamente desnecessária, sobre as pequenas ilhas Senkaku (ou Diayu, para a China).
     Três cidades importantes – Tóquio, Nagoya e Osaka – são governadas por líderes nacionalistas. O prefeito de Osaka organiza um novo partido nacionalista e o líder do PLD, Shinzo Abe, é um nacionalista duro. Porém, há uma clara e crescente desconexão entre os políticos e os cidadãos. Embora esta seja uma tendência global, no Japão ela se destaca.
     Os japoneses estão habituados a conviver com terremotos e tsunamis. O extraordinário esforço de reconstrução da cidade de Kobe, demolida em 1995 por um grande terremoto que causou 5.100 mortes, foi aclamado pelo mundo como exemplo de resiliência e solidariedade social.
     Entretanto, o terremoto de março de 2011 e o consequente tsunami criaram um desafio sem precedentes. Mais de 650 quilômetros de costa no nordeste do país foram devastados e cerca de 20 mil pessoas morreram. O custo estimado dos danos chega a 200 bilhões de dólares, mas ainda não está claro quanto custará a reconstrução. Basta dizer que, somente a remoção e reciclagem de seis milhões de toneladas no distrito de Ishinomaki, um dos muitos da costa, é estimado em 244 bilhões de dólares.
      A decadência das instituições políticas é paralela a um acelerado envelhecimento da população e a certo desânimo do setor privado.
      Assim, pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, percorre a sociedade japonesa um sentido de insegurança sobre o presente e de incerteza quanto ao futuro.
      É particularmente grave que o número de beneficiários da assistência social governamental tenha chegado a 2,1 milhões em junho passado, um recorde para este país de 128 milhões de habitantes. Esta situação causa uma forte impressão, porque revela uma ameaçadora tendência.
      Por outro lado, a mobilização da sociedade civil e o voluntariado estão aumentando. No entanto, talvez, as reações mais notáveis sejam observadas nas mulheres, que se mostram cada vez mais independentes. Elas já não veem o casamento como necessário e não consideram o homem como seu destino primário. Uma reação extrema se nota em muitas jovens que se vestem e atuam de maneira extravagante e provocadora, em aberto desafio ao tradicionalismo japonês.
      É difícil discernir se estas novas forças poderão bastar para equilibrar a queda das instituições políticas e o envelhecimento do setor privado, mas esta é a esperança mais consistente à qual o Japão de hoje pode se aferrar.
 (*) Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e editor do Other News. Texto originalmente publicado pelaIPS e veiculado em português no Envolverde.