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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A China, a estratégia soviética e a competição com os porta-aviões dos EUA.

À medida que a China vai desenvolvendo a sua competição militar com os EUA, um desenvolvimento em prazos relativamente curtos por parte de Pequim de meios para combater os grupos de ataque de porta-aviões começa a ter cada vez mais importância. Contudo, na maioria das áreas de desenvolvimento do seu potencial de combate contra porta-aviões, a China ainda está longe de alcançar a URSS.
A componente principal das forças soviéticas de combate contra porta-aviões eram as divisões de bombardeiros Tu-22M2 e Tu-22M3 com mísseis de cruzeiro X-22. Esses aviões representavam o pico do desenvolvimento da aviação naval soviética equipada com mísseis. Contudo, uma operação para destruir um grupo de ataque de porta-aviões exigia a aplicação simultânea de, pelo menos, uma divisão da aviação naval porta-mísseis.
Cada divisão era composta por cerca de 90 aviões. Isso é muito mais que o total de bombardeiros H-6 de que dispõe toda a aviação naval do Exército de Libertação Popular da China e é comparável ao seu número total nas Forças Armadas chinesas.
Mesmo em caso de sucesso no uso de uma divisão, as suas baixas seriam muito elevadas. As previsões apontavam para perdas na ordem de metade da sua força; alguns aparelhos que, por exemplo, realizassem o reconhecimento final do alvo e o apontamento de precisão para os mísseis, estariam condenados a perecer com as suas tripulações ainda na fase de planejamento do ataque.
O êxito do ataque dependeria de uma série de fatores, em primeiro lugar da obtenção de dados fiáveis sobre a localização do alvo. Essas tarefas seriam realizadas com recurso a aviões de reconhecimento Tu-95RTs e ao sistema de apontamento por satélite Legenda.
Contudo, os aviões de reconhecimento eram vulneráveis e o sistema de satélites não era muito fiável. Por isso, em tempos de paz, cada grupo de ataque de porta-aviões norte-americano era seguido por um navio de superfície que realizava a observação visual e transmitia em permanência as coordenadas do adversário. Em caso de abertura das hostilidades deveria provocar o máximo de danos ao porta-aviões até à sua própria eminente destruição.
As ações da aviação naval porta-mísseis deveriam ser coordenadas com ataques ao porta-aviões por parte de cruzadores porta-mísseis e de submarinos nucleares equipados com mísseis de cruzeiro pesados. No total, isso criava uma expectativa bastante elevada de superação do sistema de defesa do porta-aviões e da sua destruição.
Contudo, os cruzadores porta-mísseis e especialmente os submarinos nucleares também eram considerados como classes de armas de custo extremamente elevado. As forças chinesas destinadas a dissuadir uma potencial ingerência norte-americana nos possíveis conflitos que ocorram na Ásia, apesar de alguma semelhança de estratégias, são diferentes das soviéticas.
A China não possui nem cruzadores porta-mísseis, nem submarinos nucleares equipados com mísseis de cruzeiro supersônicos pesados. A quantidade de bombardeiros porta-mísseis de longo alcance existente à disposição da marinha chinesa é irrelevante.
A força de ataque da aviação naval chinesa é em grande parte composta por caças e bombardeiros táticos equipados com mísseis ar-superfície relativamente ligeiros. O objetivo dessas forças deve estar limitado à primeira cintura de ilhas e águas adjacentes junto a Taiwan, o que permite abdicar de construir uma enorme frota de bombardeiros pesados.
A China tem agora um novo tipo de arma – os mísseis balísticos anti-superfície, mas as suas reais capacidades ainda são um mistério. A marinha chinesa também está a ser ativamente reforçada com submarinos de propulsão convencional.
Os EUA estão enviando recursos consideráveis para fazer face à estratégia chinesa. Um dos resultados poderá ser o aumento das capacidades dos sistemas antiaéreos dos destacamentos navais norte-americanos. Como uma estratégia eficaz para contrapor à China também está a ser estudada a possibilidade de bloqueio das vias estratégicas de comunicação marítimas. Uma aposta nos mísseis balísticos anti-superfície como a solução para todos os males é demasiado perigosa.
Provavelmente a marinha chinesa terá, numa determinada altura, de fazer uma escolha estratégica do seu caminho de desenvolvimento.
Autor: Vassili Kashin

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tambores de Guerra - O dragão cospe fogo

A China se diz pronta para uma guerra contra o Japão e conclama a população “a se preparar para o pior”. Para especialistas, o cenário é alarmante

Um evento que tem baixíssimo risco de acontecer, pega a todos de surpresa, vira o mundo de cabeça para baixo e que, no fundo, no fundo (dirão alguns mais tarde), poderia ter sido previsto é um “cisne negro”. O termo, aplicado à economia, foi cunhado em 2007 pelo investidor americano Nassim Taleb para explicar o perigo de alguém se basear em cálculos e previsões e deixar de fora do radar a probabilidade de ocorrências que parecem improváveis.

A hipótese da eclosão de uma guerra entre a China e o Japão tem todas as características de um cisne negro – exceto uma. Ao levar em conta o que a China vem declarando, são altíssimas as possibilidades de seus tambores rufarem em breve. Nas últimas semanas, o Global Times, o jornal oficial do governo, publicou artigos conclamando a população “a se preparar para o pior”. Na segunda-feira, Liu Mingfu, um oficial do Exercito de alta patente, declarou considerar “justificável” o uso de armas nucleares contra o Japão em caso de ataque à China.

A fala de Liu tinha por objetivo alertar a Austrália para o fato de que ela não deveria se aliar aos Estados Unidos contra os interesses chineses. “Os Estados Unidos são o tigre do mundo, e o Japão é o lobo da Ásia. E os dois estão agredindo a China sem medir as consequências”. A declaração do oficial seguiu-se à da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton. Ela deixou claro que, caso a situação degringole de vez entre a China e o Japão, os americanos optarão pelo segundo. Para o cientista político americano Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia Group, o cenário é mais do que alarmante. “A crise China-Japão é a mais significativa tensão geopolítica no mapa hoje”, afirmou na quarta-feira, em Davos.

A razão oficial da contenda é a disputa pelo controle de oito ilhotas localizadas no Mar da China Oriental e que somam não mais do que 7 quilômetros quadrados. A briga em torno delas é antiga, mas os ânimos se acirraram no ano passado, quando o governo do Japão resolveu comprá-las de seu então proprietário, um cidadão japonês, com o argumento de que, se não o fizesse, elas cairiam nas imprevisíveis e ultranacionalistas mãos de Shintaro Ishihara – então governador de Tóquio e autodeclarado “um idoso fora de controle”.

Ishihara já havia organizado uma caixinha entre seus apoiadores com vistas a transformar as desabitadas Ilhas Senkaku, como os japoneses as chamam, em território administrado e povoado por Tóquio quando o governo federal arrematou o arquipélago. A iniciativa foi pessimamente recebida pela China, que acusou o Japão de roubo.

Numa segunda categoria de razões que justificam a crise, estão os mais de 100 anos de conflitos entre as duas nações e a atual situação política de cada uma. Do lado japonês, a volta de Shinzo Abe ao poder não ajudou a desanuviar o clima. Eleito primeiro-ministro pela segunda vez, Abe baseou sua campanha na defesa do endurecimento das relações do Japão com a China. Já o ainda inescrutável Xi Jinping assumirá em março a Presidência de uma China cada vez mais nacionalista, que busca consolidar sua hegemonia política e militar na Ásia e vê no Japão, além de um inimigo histórico, um entrave para as suas ambições.

O Brookings Institution, centro de estudos em Washington, envia aos presidentes americanos alertas periódicos sobre questões geopolíticas. Na semana passada, seu principal especialista em China, Cheng Li, endereçou ao recém-empossado Barack Obama um memorando em que dizia que ele “não deveria subavaliar a possibilidade de a China mergulhar numa revolução ou lançar-se numa guerra (contra o Japão)”.

Para a economia mundial e a estabilidade na Ásia, escreveu Cheng, a ocorrência de uma dessas hipóteses pode significar sérios apuros. E a combinação das duas, uma catástrofe. Contra os ventos da guerra estão os poderosos fatos de que o Japão é o segundo parceiro comercial da China e os Estados Unidos, o primeiro. São motivos suficientes para tornar essa guerra um evento improvável. Mas, diante da magnitude do que está em jogo, ninguém está disposto a desdenhar do risco.

sábado, 3 de novembro de 2012

Japão: o dragão adormecido



 
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      Crise finalmente começa a afetaras conquistas sociais do país, mas sociedade começa a se mobilizar e exigir mudanças
     Três dos símbolos nacionais mais famosos do país: o Monte Fuji, o trem-bala e as cerejeiras locais sakura
     Na década de 1980, o Japão era o dragão do mundo. Toda nova tecnologia – automóveis, aparelhos, câmeras, equipamento médico e novos sistemas de gestão – provinha de lá. Depois, o país começou a diminuir o ritmo, até adormecer.
     No entanto, seus níveis de produção e reservas financeiras eram suficientemente altos para que a queda não afetasse muito o cidadão médio.
     Apesar de a Sony ser substituída pela Apple e agora a China ter a imagem do dragão, após ultrapassá-lo como a segunda economia mundial, a qualidade de vida dos habitantes do Japão supera a de quase todos os demais países.
     Mas agora se começa a tomar consciência de que os êxitos sociais podem ser afetados se a economia não crescer. A taxa de desemprego é inferior a 5%, uma magnitude irrisória na Europa, mas sem precedentes neste país.
     No passado, as corporações empresariais asseguravam aos seus dependentes um emprego por toda a vida. Mas já não mais é assim. O trabalho não está mais garantido e tampouco os jovens conseguem um emprego imediatamente após se formarem na escola ou na universidade.
     O Japão continua sendo um modelo de ruas imaculadas, ordem, disciplina e de um forte senso cívico, onde a combinação de xintoísmo (baseado na natureza), budismo (baseado nos êxitos individuais) e confucionismo (baseado nos êxitos sociais) criou um raro equilíbrio entre natureza, ser humano e sociedade.
     A história milenar desta nação, ao longo de uma linha ininterrupta de imperadores, pode explicar as diferenças profundas com a China, que foi para o Japão o que a Grécia foi para Roma.
     Contudo, a modernização começa em 1853, como reação à intervenção da frota norte-americana sob o comando do almirante Matthew Perry.
     Depois da vitoriosa guerra contra a Rússia, em 1904, que colocou o Japão em pé de igualdade com as grandes potências, os círculos militares se impuseram e desencadearam uma série de conflitos regionais, que só terminaram com a derrota na II Guerra Mundial.
     Por pressão do general Douglas McArthur, que comandou por quase todo o período as forças aliadas que ocuparam o Japão entre 1945 e 1952, foi introduzido o sistema democrático. Porém, o PLD (Partido Liberal Democrático), que governou o país praticamente sem interrupção desde o pós-guerra, cada vez mais se converteu em uma máquina política autor referencial, enquanto os demais partidos não puderam apresentar alternativas dinâmicas.
      Hoje em dia, o que é novo e perturbador é uma onda nacionalista que criou um conflito com a China, absolutamente desnecessária, sobre as pequenas ilhas Senkaku (ou Diayu, para a China).
     Três cidades importantes – Tóquio, Nagoya e Osaka – são governadas por líderes nacionalistas. O prefeito de Osaka organiza um novo partido nacionalista e o líder do PLD, Shinzo Abe, é um nacionalista duro. Porém, há uma clara e crescente desconexão entre os políticos e os cidadãos. Embora esta seja uma tendência global, no Japão ela se destaca.
     Os japoneses estão habituados a conviver com terremotos e tsunamis. O extraordinário esforço de reconstrução da cidade de Kobe, demolida em 1995 por um grande terremoto que causou 5.100 mortes, foi aclamado pelo mundo como exemplo de resiliência e solidariedade social.
     Entretanto, o terremoto de março de 2011 e o consequente tsunami criaram um desafio sem precedentes. Mais de 650 quilômetros de costa no nordeste do país foram devastados e cerca de 20 mil pessoas morreram. O custo estimado dos danos chega a 200 bilhões de dólares, mas ainda não está claro quanto custará a reconstrução. Basta dizer que, somente a remoção e reciclagem de seis milhões de toneladas no distrito de Ishinomaki, um dos muitos da costa, é estimado em 244 bilhões de dólares.
      A decadência das instituições políticas é paralela a um acelerado envelhecimento da população e a certo desânimo do setor privado.
      Assim, pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, percorre a sociedade japonesa um sentido de insegurança sobre o presente e de incerteza quanto ao futuro.
      É particularmente grave que o número de beneficiários da assistência social governamental tenha chegado a 2,1 milhões em junho passado, um recorde para este país de 128 milhões de habitantes. Esta situação causa uma forte impressão, porque revela uma ameaçadora tendência.
      Por outro lado, a mobilização da sociedade civil e o voluntariado estão aumentando. No entanto, talvez, as reações mais notáveis sejam observadas nas mulheres, que se mostram cada vez mais independentes. Elas já não veem o casamento como necessário e não consideram o homem como seu destino primário. Uma reação extrema se nota em muitas jovens que se vestem e atuam de maneira extravagante e provocadora, em aberto desafio ao tradicionalismo japonês.
      É difícil discernir se estas novas forças poderão bastar para equilibrar a queda das instituições políticas e o envelhecimento do setor privado, mas esta é a esperança mais consistente à qual o Japão de hoje pode se aferrar.
 (*) Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e editor do Other News. Texto originalmente publicado pelaIPS e veiculado em português no Envolverde.

Coreias: do conflito para uma possível confederação



     Caso a centro-esquerda vença a próxima eleição no sul, condições para uma reunificação parcial ganhariam muita força
      A Coreia voltou ao palco mundial como um ponto central da cena geopolítica nessa década. Ela irá afetar de maneira importante o futuro da China, do Japão, dos Estados Unidos e talvez da Rússia também. Porém, paradoxalmente, seu futuro depende principalmente dela mesma.
     A Coreia é um caso raro – um país com uma história muito longa como entidade política e cultural, com vários graus de unidade como um reino único. Nos tempos modernos, era um estado independente até que o Japão transformou-a num protetorado em 1905, e depois anexou-a, em 1910. A derrota japonesa na II Guerra acabou com seu domínio sobre a Coreia. Nos últimos dias da guerra, tropas norte-americanas e russas entraram no país, encontrando-se no paralelo 38. Dois estados surgiram, a República Popular Democrática da Coreia (ou Coreia do Norte) e a República da Coreia (Coreia do Sul).
     Em 1950, as duas Coreias envolveram-se numa guerra. Como ela começou ainda é assunto de controvérsia. Os Estados Unidos, aproveitando a ausência da União Soviética no Conselho de Segurança, foram capazes de mobilizar a ONU em apoio militar da Coreia do Sul. Tropas de 16 nações foram enviadas ao país, sob o guarda-chuva das Nações Unidas, apesar de os soldados norte-americanos constituírem mais de 80% do total. Logo depois, as tropas chinesas entraram na Coreia do Norte para defendê-la contra os exércitos dos Estados Unidos/ONU. A Guerra da Coreia tornou-se então também (e principalmente), uma guerra entre China e Estados Unidos.
     Chamado de "fundador" e "líder eterno" da Coreia do Norte, Kim il Sung governou o país por 45 anos
     Em 1953, o conflito estava em um beco sem saída, e os dois lados assinaram uma trégua, em uma fronteira que quase coincidia com o paralelo 38. Em suma, a guerra terminou em empate. Tecnicamente, nunca terminou. Não há tratado de paz, mas também não há guerra, apesar de ainda existir uma grande hostilidade e escaramuças, de tempos em tempos. Em 1957, os Estados Unidos romperam uma cláusula do acordo de trégua e introduziram armas nucleares na Coreia do Sul, sob protestos dos norte-coreanos.
      Em 2003, depois do colapso da União Soviética, a Coreia do Norte retirou-se do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e buscou conversações bilaterais com os Estados Unidos, em um tratado de não-agressão. Os Estados Unidos recusaram as conversações bilaterais, mas propuseram conversações entre seis países, que incluiriam também Coreia do Sul, Japão, China e Rússia. Em 2006, a Coreia do Norte anunciou um teste nuclear e, em 2009, comunicou que havia produzido uma arma nuclear. Nos últimos dias, alguns intelectuais sul-coreanos designaram a situação com um neologismo. Eles dizem que a Península Coreana está em um estado de “impacificação” [peacelessness].
      O objetivos dos Estados Unidos em levar a Coreia do Norte a rechaçar armas nucleares não foi alcançado. Por outro lado, este país tem sofrido, há muito tempo, escassez aguda de alimentos, parcialmente explicada pela insistência do regime em priorizar os gastos militares.
      O nacionalismo coreano é extremamente forte, e tanto o sul quanto o norte afirmam buscar uma reunificação. Mas em que termos? O nível de suspeita mútua é alto. E a atitude da Coreia do Sul frente a essa perspectiva divide profundamente os sul-coreanos.
     Em 1961, o sul-coreano Park Chung-hee liderou um golpe de estado militar e governou como ditador até 1979, quando foi assassinado. Park acreditava que a reunificação era apenas possível e desejável se envolvesse a queda do regime norte-coreano. Em 1980, estudantes lideraram uma revolta criticando os Estados Unidos e pedindo a democratização do regime. O movimento foi brutalmente reprimido.
     Depois disso, forças conservadoras dominaram a política sul-coreana até que um partido de centro-esquerda, liderado pelo dissidente Kim Dae-jung, ganhou as eleições, em 1997. Ele inaugurou a chamada Sunshine Policy. O nome se refere a uma fábula de Esopo, segundo a qual é mais fácil fazer uma pessoa tirar seu casaco se o dia está ensolarado do que quando há ventania. A política teve como foco procurar formas concretas de cooperar com a Coreia do Norte e repudiar qualquer tentativa de absorver o país vizinho. Kim ganhou o Prêmio Nobel da paz em 2000 por sua política, continuada por seu sucessor, Roh Moo-hyun, que governou entre 2003 e 2008.
      Em 2008, os conservadores ganharam novamente a Presidência, em parte porque a abertura à Coreia do Norte não obteve sucesso e em parte por causa de escândalos que afetaram o governo de Roh. O novo presidente, Lee Myung-bak, repudia ferozmente a Sunshine Policy, e adotou uma política hostil, ainda mais que a dos Estados Unidos.
     Hoje parece claro que nem a China, nem os Estados Unidos, nem Japão ou até mesmo a Rússia atuam em favor da reunificação. Todos preferem as coisas como estão. Ainda assim, as forças favoráveis a reunificar as Coreias ao longo da próxima década parecem mais fortes.
     Há dois fatores nessa nova situação. Um é a aproximação da eleição na Coreia do Sul, marcadas para 19 de dezembro. Os conservadores promovem a filha de Park Chung-hee, Park Geun-hye, que tem insistido na defesa total da política de seu pai.
     As forças de centro-esquerda estão atualmente divididas entre dois candidatos. Moon Jae-in é o candidato do partido de centro-esquerda e defende a renovação da abertura à Coreia do Norte. Também concorre um candidato independente, Ahn Cheol-soo, que se apresenta como um candidato anti-político, apelando para aqueles que estão descontentes com os dois partidos. Porém, seu programa é virtualmente idêntico ao de Moon.
     O presidente sul-coreano Lee Myung-bak, de viés conservador, ao lado de George W. Bush
     As pesquisas mostram que, se os dois candidatos de centro-esquerda permanecerem na corrida, o conservador ganhará. Entretanto, as pesquisas também mostram que se um dos dois se retirar em favor do outro, as forças de centro-esquerda provavelmente vencerão. A probabilidade disso ocorrer é alta. A grande questão é quem fará isso.
     Se as forças de centro-esquerda ganharem, qual será a resposta da Coreia do Norte? Ninguém sabe. Mas todos perceberam que as movimentações iniciais do novo líder do país comunista, Kim Jong-un, parecem ser diferentes da política de seu pai, Kim, Jong-il. Ele parece estar mais preocupado em assegurar um aumento da renda real para o norte-coreano comum, e mais aberto a mudanças. Pode acolher um pouco de sol vindo do sul.
     Se as forças de centro-esquerda ganharem no sul e o novo líder no norte for de fato mais aberto, o mundo pode assistir, na próxima década, ao surgimento de algo como uma confederação suave entre norte e do sul – ignorando o medo real da China e dos Estados Unidos.
      Uma Coreia reunida terá um impacto enorme na geopolítica do nordeste asiático, e na própria geopolítica mundial. Possivelmente, servirá de moderadora entre a China e o Japão, e pode viabilizar o surgimento de uma estrutura comum entre os três estados. Pode resultar na transformação da Coreia do Sul, Japão e Taiwan em potências nucleares.
     Além disso, uma Coreia unificada irá se somar ao reposicionamento do Egito e à posição geopolítica cada vez mais forte do Brasil, para consolidar a redistribuição de poder geopolítico no mundo inteiro.
     E, permitam-me a repetição, isso está nas mãos dos próprios coreanos.
(*) Immanuel Wallerstein é um sociólogo norte-americano e professor na Universidade de Yale. Texto publicado originalmenteem português pelo blog Outras Palavras. Tradução: Daniela Frabasile.


http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/24706/coreias+do+conflito+para+uma+possivel+confederacao.shtml

domingo, 19 de agosto de 2012

Japoneses chegam a ilhas estratégicas disputadas com a China; entenda impasse

Uma flotilha japonesa com cerca de 20 barcos atracou neste domingo a um grupo de ilhas disputadas pela China, no mais recente episódio de um impasse crescente entre os dois países sobre o tema.
As ilhas, chamadas de Senkaku pelos japoneses e de Diaoyu pelos chineses, estão localizadas no Mar da China Oriental e não são habitadas. Elas são controladas pelo Japão, mas disputadas pela China e também por Taiwan.
A flotilha levou nacionalistas e legisladores japoneses, que pretendem realizar uma cerimônia em homenagem aos japoneses mortos no local durante a Segunda Guerra Mundial. A China, por sua vez, afirma que o episódio é um golpe contra sua soberania territorial.
Em resposta, mais de cem pessoas protestaram neste domingo diante de um consulado japonês no sul da China, pedindo que os japoneses deixem as ilhas. A Chancelaria chinesa, por sua vez, disse que "qualquer ação unilateral tomada pelo Japão nas ilhas é ilegal e inválida".
Entenda o que está por trás da disputa:

Por que elas são disputadas?

As oito ilhas ocupam um total de 7km² ao noroeste de Taiwan, a leste da China continental e ao sudoeste de Okinawa, no Japão. Sua importância é estratégica: elas ficam próximas a importantes rotas de navios, são abundantes em áreas pesqueiras e possivelmente contêm reservas de petróleo.
O Japão, que controla as ilhas, disse que, ao identificar que elas não eram habitadas, clamou soberania sobre elas em 1895.
Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão abdicou de seu pedido por diversos territórios e ilhas, inclusive Taiwan. Mas, de acordo com um tratado de 1951, as ilhas Senkaku ficaram sob o controle japonês. Tóquio alega que só nos anos 1970, quando começou-se a debater a existência de reservas de petróleo nas ilhas, as autoridades chinesas e japonesas começaram a reclamar soberania sobre o local.

O que diz a China?

Pequim alega que as ilhas Diaoyu são parte de seu território muito antes de pertencer ao Japão, servindo como um importante posto pesqueiro administrado pela província de Taiwan.
Taiwan foi cedida ao Japão pelo Tratado de Shimonoseki, em 1895, após a Guerra Sino-Japonesa. Quando Taiwan foi devolvida à China, no tratado de 1951, a China diz que as ilhas também deveriam ter sido devolvidas.
O impasse sobre as ilhas complica a disputa entre Japão e China sobre o compartilhamento dos recursos energéticos disponíveis no Mar da China Oriental. Também exemplifica a atitude mais proativa que vem sendo adotada pela China quanto à reivindicação de territórios ultramarinos.

Já houve incidentes prévios no local?

Em 1996, um grupo japonês construiu um farol em uma das ilhas. Depois disso, diversos ativistas chineses viajaram ao local em protesto. Em 2004, o Japão prendeu sete desses ativistas assim que eles atracaram.
Também já houve desavenças entre barcos pesqueiros e de patrulha envolvendo japoneses, chineses e taiwaneses. Em 2005, 50 barcos taiwaneses protestaram na região das ilhas, alegando receber tratamento injusto por parte de fiscais japoneses.
Em 2010, o Japão deteve um barco pesqueiro chinês que se chocou com dois barcos de patrulha japoneses nos arredores das ilhas, criando uma séria crise diplomática. Protestos anti-Japão foram realizados em diversas cidades chinesas. O Japão acabou libertando os tripulantes do barco pesqueiro.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/08/120819_ilhas_japao_china_pai.shtml

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Opinião estrangeira: O paradoxo da estratégia naval da China


Por Rodger Baker and Zhixing Zhang
     Ao longo da última década, o mar Meridional da China se tornou uma das regiões mais voláteis do leste da Ásia. China, Vietnã, as Filipinas, Malásia, Brunei e Taiwan reivindicam soberania sobre uma parte ou mesmo toda a região, e essas pretensões sobrepostas levaram a confrontos diplomáticos e até militares nos últimos anos.
     O valor estratégico do mar é óbvio, nele se localizam numerosos arquipélagos, riquezas minerais e energéticas, além de um terço da navegação mundial passar por lá. No entanto, para a China, o Mar Meridional representa mais do que questões práticas, e vai no centro do dilema da política externa de Pequim: como afirmar pretensões marítimas históricas e ao mesmo tempo manter a política externa avessa a confrontos conforme estabelecido pelo antigo líder chinês Deng Xiaping em 1980.
     Os chineses mostraram interesse no controle do mar nos momentos finais da guerra civil. Uma vez que a maioria das nações reivindicantes estavam ocupadas com seus próprios movimentos de independência, o país pouco precisou fazer para sustentar suas pretensões. Porém, esses mesmos países fortaleceram suas forças navais, buscaram novas relações e tomaram uma postura mais ativa de explorar e patrulhar as águas. Soma-se a isso a hostilidade dos chineses a qualquer concessão real ou imaginária de territórios. Nesse cenário a atitude comedida proposta por Deng não é mais uma opção.
A evolução da lógica marítima chinesa
     A China é um vasto poder continental, mas também controla uma longa faixa costeira, que se estende do Mar do Japão a nordeste até o Golfo de Tonkin ao sul. Apesar desse grande litoral, o foco do país quase sempre foi voltado para dentro, com esforços esporádicos de navegação, e mesmo assim apenas em tempos de relativa segurança em terra.
     Tradicionalmente, as maiores ameaças à China nunca foram marítimas, exceto pela pirataria ocasional. Os focos de tensão costumavam ser as competições internas e tribos nômades no norte e oeste do país. A geografia hostil do território levou à formação de uma economia agrícola insular baseada no trabalho familiar, com uma estrutura hierárquica rígida, criada em parte para mitigar os levantes frequentes de líderes militares regionais. Muito do comércio chinês com o resto do mundo ocorria por vias terrestres ou por intermédio dos árabes e outros mercadores estrangeiros em regiões específicas do litoral. No geral, os chineses escolheram concentrar esforços na estabilidade da população e das fronteiras, em vez das oportunidades potenciais do comércio e da exploração marítima, particularmente porque o contato com estrangeiros poderia trazer tantos problemas quanto benefícios.
     Dois fatores contribuíram para os experimentos da China no campo do desenvolvimento naval – um deslocamento dos focos de guerra do nordeste para o sul do território, e os períodos de relativa estabilidade nacional. Durante a dinastia Song (960-1279), ao passo que a nordeste havia os exércitos de cavaleiros, dispunha-se de uma grande força naval interna na região sul pantanosa e cortada por rios. A mudança para as marinhas fluviais também se espalhou para o litoral, e os governantes Song fomentaram a navegação de cabotagem e o comércio, substituindo os mercadores estrangeiros ao longo da costa. Ainda que predominasse o foco na estabilidade interna, durante a dinastia Yuan (1271-1368) sob domínio dos mongóis aconteceram ao menos duas grandes expedições navais na segunda metade do século XIII – contra o Japão e a ilha de Java – ambas malsucedidas. O fracasso contribuiu para a decisão chinesa de novamente se afastar das águas. A aventura marítima final ocorreu no início da dinastia Ming (1368-1664), quando o explorador chinês muçulmano Zheng He fez suas famosas sete viagens, chegando longe, até a África, mas falhando em estabelecer qualquer forma de poder chinês no exterior. A frota de Zheng He foi desmantelada quando os governantes Ming viram tensões surgindo em casa, incluindo pirataria em alto-mar, e novamente a China se voltou para dentro do território.
     Mais ou menos na época em que Fernão Magalhães começou suas expedições globais no início dos anos 1500, os chineses reataram sua política isolacionista, limitando o comércio e a comunicação com o exterior e encerrando quase todas as possibilidades de aventuras marítimas. O foco naval da China passou para a defesa do litoral em vez da projeção de poder. A chegada de navios armados da Europa no século XIX abalou profundamente a lógica marítima convencional das autoridades chinesas, e só com muito atraso deu-se início a um programa naval baseado em tecnologia ocidental.
     Mas mesmo essa mudança não foi completamente integrada ao pensamento estratégico chinês mais amplo. A falta de percepção marítima contribuiu para a decisão do governo Qing de conceder seus acessos cruciais na boca do rio Tumen para a  Rússia em 1858, fechando permanentemente o acesso ao Mar do Japão pelo nordeste. Menos de 40 anos depois, apesar de ter construído uma das maiores frotas regionais, a Marinha chinesa foi esmagada pela emergente Marinha japonesa. Durante quase todo o século seguinte, os chineses novamente se concentraram no território, e as forças navais ocuparam um papel puramente de defesa do litoral. Desde os anos 1990, essa política vem se modificando aos poucos à medida em que a interconexão econômica da China com o resto do mundo aumentou. Para que a China assegurasse sua força econômica e a transformasse em maior influência global, o desenvolvimento de uma estratégia naval mais pró-ativa se tornou urgente.
Interpretando a “Linha de Nove Traços”
     Para entender a lógica marítima chinesa nos dias de hoje, e suas disputas territoriais com os países vizinhos, primeiro é preciso entender a chamada “linha de nove traços”, que mais ou menos demarca as reivindicações chinesas no Mar Meridional da China.
     A linha de nove traços foi baseada em uma antiga reivindicação territorial conhecida como linha de onze traços, criada em 1947 pelo governo do Kuomintang, e sem grandes considerações estratégicas, uma vez que o regime estava ocupado lidando com os saldos da ocupação japonesa na China e a guerra civil em andamento com os comunistas. Após o fim da ocupação nipônica, o governo Kuomintang mandou oficiais da Marinha e equipes de reconhecimento ao longo do Mar Meridional para mapear várias ilhas e arquipélagos. O Ministério do Interior publicou um mapa com uma linha de onze traços que fechava quase todo o Mar Meridional da China para além da costa do país. Esse mapa, apesar da falta de coordenadas precisas, se tornou a base das reivindicações atuais dos chineses, e após a fundação, em 1949, da República Popular da China, o documento foi adotado pelo novo governo. Em 1953, talvez como forma de mitigar os conflitos com o vizinho Vietnã, a atual linha de nove traços foi criada quando o governo chinês eliminou dois dos pontos de restrição.

     O novo mapa chinês foi pouco contestado pelos países vizinhos, muitos dos quais estavam concentrados em seus próprios movimentos de independência. Pequim entendeu esse silêncio como aceitação por parte das nações próximas e da comunidade internacional, e então as autoridades chinesas permaneceram quietas para não atrair contestações. Pequim evitou reivindicar oficialmente a linha de nove traços como uma fronteira irrevogável, e ela não é reconhecida internacionalmente.
     Assim como outros países reivindicantes, como Vietnã e as Filipinas, o objetivo de longo prazo da China é utilizar seu poderio naval crescente para controlar as ilhas e arquipélagos dentro do Mar Meridional e, consequentemente, controlar as riquezas e as posições estratégicas que esses locais representam. Quando a China estava militarmente debilitada, sustentou-se a ideia de abrir mão dos interesses de soberania e conduzir projetos de desenvolvimento conjunto, a fim de evitar os conflitos causados pelas pretensões sobrepostas, e ao mesmo tempo ganhar tempo para seu próprio desenvolvimento naval. Enquanto isso, para evitar a resistência de um bloco de países reivindicantes, Pequim abordou cada país individualmente para negociar as pretensões territoriais, sem comprometer toda a sua própria reivindicação da linha de nove traços. Isso permitiu que o governo chinês permanecesse como o lado dominante em negociações bilaterais, algo que talvez não fosse possível no diálogo com um fórum multinacional.
     Apesar da falta de reconhecimento legal da linha de nove traços e dos atritos constantes que ela causa, Pequim agora tem poucas condições de se afastar dessa pretensão. Com o aumento da atenção internacional e da competição regional pelo Mar Meridional da China, o público chinês – que entende a região dentro da linha como águas territoriais – está pressionando as autoridades a serem mais assertivas. Isso deixou Pequim em uma posição impraticável: quando a China afirma os projetos de desenvolvimento conjunto como prova de que os países vizinhos aceitam suas reivindicações, esses mesmos países rejeitam o argumento. Quando o governo minimiza suas pretensões para tentar administrar as relações internacionais, a população protesta – e no caso dos pescadores chineses, muitas vezes agem por conta própria nas águas disputadas, levando o governo a apoiá-los na retórica e às vezes com ações.
Desenvolvendo uma política marítima
      As complicações geradas pela linha de nove traços, o estágio de desenvolvimento interno da China e os deslocamentos no sistema internacional são todos fatores que contribuíram para moldar a estratégia marítima chinesa, atualmente em evolução.
     Sob o governo de Mao Tsé-Tung, a China se voltava para si mesma e era limitada por uma Marinha fraca. As reivindicações marítimas do país eram vagas, Pequim não procurou afirmar seus direitos de forma mais agressiva, e os movimentos de independência nos países vizinhos muito pouparam o país de tomar uma postura mais ostensiva no mar. O desenvolvimento naval da China permaneceu defensivo, preocupado em proteger o litoral de invasões. Deng Xiaoping, seguindo com sua reforma econômica interna no final dos anos 1970 e início de 1980, procurou o desenvolvimento conjunto e mais pragmático dos mares leste e sul da China, deixando de lado as aspirações de soberania territorial. Os gastos militares continuaram a se direcionar para as forças terrestres e os mísseis, e a Marinha foi relegada a um papel defensivo, operando apenas nas águas costeiras.
     Em boa parte, as políticas de Deng continuaram ao longo das duas décadas seguintes. Houve rompantes esporádicos no Mar Meridional, mas no geral a estratégia de evitar confronto direto permaneceu um princípio central no mar. A Marinha chinesa não estava em posição de desafiar o domínio da Marinha americana ou tomar alguma atitude contra os vizinhos, especialmente porque Pequim procurava aumentar a influência regional por meios políticos e econômicos ao invés de força militar.
     Mas as propostas de desenvolvimento conjunto para o Mar Meridional falharam em grande parte. A expansão do poder econômico chinês, junto com o aumento nos gastos militares – e mais recentemente o foco no desenvolvimento naval – levantaram suspeitas e preocupações entre os países vizinhos, e muitos se manifestaram para que os Estados Unidos tomassem uma posição mais ativa na região para contrabalancear a ascensão chinesa. A questão da linha de nove traços também se tornou mais significativa porque as nações tiveram que submeter suas pretensões marítimas à Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos do Mar, trazendo essas disputas um passo mais perto do arbítrio internacional. A China, que assinou o tratado muito pelos possíveis benefícios no Mar Oriental, se viu forçada a submeter numerosas reivindicações para o Mar Meridional, o que alarmou os países próximos diante do que eles entenderam como uma imposição aberta de hegemonia regional.
     Não foram apenas as nações reivindicantes que acharam as movimentações chinesas perturbadoras – Japão e Coréia do Sul, seriamente dependentes do Mar Meridional como corredor energético, bem como os Estados Unidos, Austrália e Índia entre outros que dependem do mar para o trânsito comercial e militar – todas essas nações entenderam as ações da China como um prelúdio de ameaça ao acesso livre às águas. O governo chinês respondeu com uma retórica cada vez mais assertiva, e também um papel mais presente das Forças de Defesa do país nas decisões da política externa. A antiga postura de não-enfrentamento estava dando lugar a uma nova abordagem.
O debate da política externa
      Em 1980, Deng Xiaoping expressou os moldes da política externa chinesa – a China deveria observar o mundo, manter sua posição, lidar tranquilamente com assuntos internacionais, esconder sua capacidade e fazer tudo a seu tempo, mantendo a discrição e nunca tomando posturas de liderança. Esses princípios básicos permaneceram como cerne da política externa, fosse como diretrizes para a ação ou justificativas para a inatividade. Mas os ambientes regional e interno da China mudaram significativamente desde a época das reformas de Deng, e a expansão militar e econômica do país já superava os conselhos para esconder as capacidades e fazer as coisas a seu tempo.
      Pequim compreende que só por meio de uma política mais proativa a China poderá se expandir de um poderio baseado em terra para uma potência naval, e assim reformular a região para atender os interesses da segurança nacional. O fracasso nessa empreitada permitiria que outros países próximos e seus aliados, especificamente os Estados Unidos, limitassem ou mesmo ameaçassem a China.
     Ao menos quatro elementos da política de Deng estão atualmente em debate ou se transformando – a passagem da não-interferência para o envolvimento criativo, da diplomacia bilateral para a multilateral, da diplomacia reativa para a preventiva, e a troca do não-alinhamento pelas semi-alianças.

     O envolvimento criativo é a forma da China ser mais ativa em preservar seus interesses no exterior se engajando na política interna de outras nações. No passado, o país já empregou dinheiro e outras ferramentas para moldar o desenvolvimento doméstico de outras nações, mas uma mudança oficial nessa política precisa de um envolvimento mais profundo nos assuntos locais. No entanto, há o risco dessa postura corroer o argumento da China de que se trataria apenas de um país em desenvolvimento ajudando outros frente ao imperialismo e a hegemonia ocidentais. Essa mudança de atitude poderia enfraquecer algumas das vantagens que a China tem em lidar com nações em desenvolvimento, uma vez que o país costumava vender promessas de não-interferência como alternativa às ofertas ocidentais de tecnologias melhores ou recursos para o desenvolvimento, que vinham sempre atrelados à exigência de mudanças políticas.
     Durante muito tempo a China confiou em relações bilaterais como o modo preferido de gerenciar seus interesses no cenário internacional. Quando o país operou em fóruns multinacionais, participou dos desdobramentos como um “estorvo” e não um líder. Por exemplo, a China pode vetar sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU, mas raramente ofereceu alguma outra forma de ação para a comunidade internacional. Particularmente durante os anos 1990, Pequim temeu que sua posição relativamente fraca lhe angariaria poucos benefícios em fóruns multinacionais, em vez disso, a China ficaria à mercê de membros mais fortes, mas a ascensão econômica mudou essa equação.
     Atualmente, a busca chinesa por relações multilaterais é uma forma de assegurar seus interesses nos grupos maiores. As relações com a Associação das Nações do Sudeste Asiático e a participação na Organização de Cooperação de Xangai (OCX ou SCO) são exemplos de medidas para ajudar Pequim a moldar os direcionamentos políticos desses blocos. Ao se deslocar para a abordagem multilateral, a China pode fazer alguns países mais fracos se sentirem mais seguros e, assim, impedi-los de buscar apoio estadunidense.
      Tradicionalmente, a China teve uma política externa de reação, lidando com as crises quando elas surgiam, mas falhando em identificar ou agir para prevenir essas crises antes que elas se materializassem. Em lugares onde o governo chinês procurou acesso a recursos naturais, várias vezes foi pego de surpresa por mudanças na situação local, e não havia estratégia de resposta pronta – a divisão do Sudão e o Sudão do Sul foi um exemplo – Agora, a China está debatendo passar dessa política para outra, de procurar entender as forças e questões subjacentes que podem resultar em conflitos, e agir por conta própria ou com a comunidade internacional para amenizar situações voláteis. Na questão do Mar Meridional, isso significaria uma proposta mais clara que a linha de nove traços para demarcar suas reivindicações marítimas, e também mais empenho na ideia de um mecanismo de segurança asiático no qual a China ocuparia o papel de liderança ativa.
     A postura chinesa em alianças permanece a mesma que foi colocada por Deng Xiaoping nos anos 1980 – o país não participa de coalizões voltadas a atacar outras nações. Isso permitiu à China manter uma política externa independente, e evitar escaramuças internacionais por se envolver em alianças. O colapso do sistema da Guerra Fria e a ascensão da influência econômica e militar chinesa trouxeram a necessidade de rever essa postura. Pequim vem assistindo com cuidado enquanto a OTAN se expande para o Oriente e os Estados Unidos vêm fortalecendo alianças militares na região da Ásia e do Pacífico. A política de não-alinhamento deixa a China potencialmente sozinha para enfrentar esses grupos, e o país não está nem econômica nem militarmente preparado para isso.
     Para contrapor esse ponto fraco, foi concebida a estrutura de semi-alianças, que não deixaria a China refém de seus parceiros. O impulso em direção às parcerias estratégicas – mesmo com rivais abertos – e o aumento das atividades militares e humanitárias com outras nações são parte dessa política. Trata-se mais de desmantelar possíveis alianças contra a China do que formar alianças contra os Estados Unidos, através da aproximação com aliados estadunidenses tradicionais a fim de torná-los menos dispostos a tomar ações contra Pequim. Em termos de estratégia naval, os chineses estão cooperando com o Japão, a Índia e a Coréia do Sul em operações de combate à pirataria, e participando de mais exercícios e manobras em conjunto.
Olhando para frente
     O mundo e a China estão mudando. A ascensão do país como potência econômica forçou Pequim a repensar sua política externa. Perto de casa, a questão do Mar Meridional é um microcosmo do debate mais amplo da política externa chinesa. A ambiguidade das aspirações marítimas foi útil enquanto a região estava tranquila, mas não serve mais aos propósitos chineses. Pelo contrário, vem aumentando tensões junto com a expansão natural dos interesses e das atividades navais da China. A política de desenvolvimento conjunto herdada de Deng Xiaoping fracassou em fomentar qualquer cooperação significativa com os países vizinhos no mar, e a reivindicação da linha de nove traços perante a ONU ao mesmo tempo aumentou o nacionalismo chinês e fez surgir as contramedidas dos países próximos.
      Apesar da falta de clareza em sua política marítima, a China demonstrou sua intenção de consolidar suas reivindicações com base na linha de nove traços. Pequim reconhece que mudanças de postura são necessárias, mas qualquer mudança tem suas repercussões. O caminho para a transição é cheio de perigos – da decepção doméstica até as reações agressivas dos vizinhos, mas intencionalmente ou não, a mudança está acontecendo, e a condução dos debates da política externa terá consequências duradouras para a estratégia marítima da China e para suas posturas internacionais como um todo.

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*Os grifos são meus, assim como a inserção das siglas relativas a OCX.