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sábado, 3 de novembro de 2012

Japão: o dragão adormecido



 
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      Crise finalmente começa a afetaras conquistas sociais do país, mas sociedade começa a se mobilizar e exigir mudanças
     Três dos símbolos nacionais mais famosos do país: o Monte Fuji, o trem-bala e as cerejeiras locais sakura
     Na década de 1980, o Japão era o dragão do mundo. Toda nova tecnologia – automóveis, aparelhos, câmeras, equipamento médico e novos sistemas de gestão – provinha de lá. Depois, o país começou a diminuir o ritmo, até adormecer.
     No entanto, seus níveis de produção e reservas financeiras eram suficientemente altos para que a queda não afetasse muito o cidadão médio.
     Apesar de a Sony ser substituída pela Apple e agora a China ter a imagem do dragão, após ultrapassá-lo como a segunda economia mundial, a qualidade de vida dos habitantes do Japão supera a de quase todos os demais países.
     Mas agora se começa a tomar consciência de que os êxitos sociais podem ser afetados se a economia não crescer. A taxa de desemprego é inferior a 5%, uma magnitude irrisória na Europa, mas sem precedentes neste país.
     No passado, as corporações empresariais asseguravam aos seus dependentes um emprego por toda a vida. Mas já não mais é assim. O trabalho não está mais garantido e tampouco os jovens conseguem um emprego imediatamente após se formarem na escola ou na universidade.
     O Japão continua sendo um modelo de ruas imaculadas, ordem, disciplina e de um forte senso cívico, onde a combinação de xintoísmo (baseado na natureza), budismo (baseado nos êxitos individuais) e confucionismo (baseado nos êxitos sociais) criou um raro equilíbrio entre natureza, ser humano e sociedade.
     A história milenar desta nação, ao longo de uma linha ininterrupta de imperadores, pode explicar as diferenças profundas com a China, que foi para o Japão o que a Grécia foi para Roma.
     Contudo, a modernização começa em 1853, como reação à intervenção da frota norte-americana sob o comando do almirante Matthew Perry.
     Depois da vitoriosa guerra contra a Rússia, em 1904, que colocou o Japão em pé de igualdade com as grandes potências, os círculos militares se impuseram e desencadearam uma série de conflitos regionais, que só terminaram com a derrota na II Guerra Mundial.
     Por pressão do general Douglas McArthur, que comandou por quase todo o período as forças aliadas que ocuparam o Japão entre 1945 e 1952, foi introduzido o sistema democrático. Porém, o PLD (Partido Liberal Democrático), que governou o país praticamente sem interrupção desde o pós-guerra, cada vez mais se converteu em uma máquina política autor referencial, enquanto os demais partidos não puderam apresentar alternativas dinâmicas.
      Hoje em dia, o que é novo e perturbador é uma onda nacionalista que criou um conflito com a China, absolutamente desnecessária, sobre as pequenas ilhas Senkaku (ou Diayu, para a China).
     Três cidades importantes – Tóquio, Nagoya e Osaka – são governadas por líderes nacionalistas. O prefeito de Osaka organiza um novo partido nacionalista e o líder do PLD, Shinzo Abe, é um nacionalista duro. Porém, há uma clara e crescente desconexão entre os políticos e os cidadãos. Embora esta seja uma tendência global, no Japão ela se destaca.
     Os japoneses estão habituados a conviver com terremotos e tsunamis. O extraordinário esforço de reconstrução da cidade de Kobe, demolida em 1995 por um grande terremoto que causou 5.100 mortes, foi aclamado pelo mundo como exemplo de resiliência e solidariedade social.
     Entretanto, o terremoto de março de 2011 e o consequente tsunami criaram um desafio sem precedentes. Mais de 650 quilômetros de costa no nordeste do país foram devastados e cerca de 20 mil pessoas morreram. O custo estimado dos danos chega a 200 bilhões de dólares, mas ainda não está claro quanto custará a reconstrução. Basta dizer que, somente a remoção e reciclagem de seis milhões de toneladas no distrito de Ishinomaki, um dos muitos da costa, é estimado em 244 bilhões de dólares.
      A decadência das instituições políticas é paralela a um acelerado envelhecimento da população e a certo desânimo do setor privado.
      Assim, pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, percorre a sociedade japonesa um sentido de insegurança sobre o presente e de incerteza quanto ao futuro.
      É particularmente grave que o número de beneficiários da assistência social governamental tenha chegado a 2,1 milhões em junho passado, um recorde para este país de 128 milhões de habitantes. Esta situação causa uma forte impressão, porque revela uma ameaçadora tendência.
      Por outro lado, a mobilização da sociedade civil e o voluntariado estão aumentando. No entanto, talvez, as reações mais notáveis sejam observadas nas mulheres, que se mostram cada vez mais independentes. Elas já não veem o casamento como necessário e não consideram o homem como seu destino primário. Uma reação extrema se nota em muitas jovens que se vestem e atuam de maneira extravagante e provocadora, em aberto desafio ao tradicionalismo japonês.
      É difícil discernir se estas novas forças poderão bastar para equilibrar a queda das instituições políticas e o envelhecimento do setor privado, mas esta é a esperança mais consistente à qual o Japão de hoje pode se aferrar.
 (*) Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e editor do Other News. Texto originalmente publicado pelaIPS e veiculado em português no Envolverde.
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