
Protesto no Iemen
Uma primavera tardia começou em Washington no fim de abril. Mas nem a
floração das cerejeiras nem a elevação das temperaturas são capazes de
atenuar a atmosfera de perplexidade e preocupação latente que paira
sobre a capital federal. Dos corredores do Congresso às salas de reunião
dos principais centros de pesquisa da Massachusetts Avenue ou da
Connecticut Avenue, as mesmas perguntas são lançadas: o que está
acontecendo no Oriente Médio e o que os Estados Unidos devem fazer para
não atolar ali de novo?
A guerra civil na Síria, as ações assassinas do Estado Islâmico, os
bombardeios do Iêmen por uma coalizão de nove países árabes, sem
esquecer a violência sectária entre sunitas e xiitas, tudo está
cotidianamente na primeira página. Mas a estratégia norte-americana para
enfrentar esses desafios não parece clara. Com o Maxerreque – a porção
oriental do mundo árabe – pegando fogo, os Estados Unidos também sofrem
para tranquilizar seus aliados, sejam eles a Arábia Saudita e demais
monarquias do petróleo, o Egito ou o Iraque.
A visita oficial do primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, a
primeira do gênero, colocou em evidência sua distância permanente em
relação a seus parceiros, à qual parece devotar-se a administração do
presidente Barack Obama. Os Estados Unidos prometeram ao Iraque US$ 200
milhões para ajudar as populações deslocadas em razão do combate ao
Estado Islâmico, além de apoio para a concessão de um empréstimo do FMI
de US$ 700 milhões. O dinheiro visa compensar o aumento do déficit
orçamentário iraquiano, que em 2015 deve atingir US$ 25 bilhões, o
equivalente a um terço das receitas do petróleo previstas para o ano.
As autoridades norte-americanas não cansam de exortar seu interlocutor a
manter distância dos dirigentes iranianos. “O Irã deve respeitar a
soberania do Iraque e parar de intervir unilateralmente em solo
iraquiano”, insistiu Obama, acusando o Irã de apoiar militarmente as
milícias xiitas que lutam contra o Estado Islâmico sem consultar o
governo do Iraque. Essas milícias são frequentemente acusadas de saques e
violência contra a população civil, como durante a retomada da cidade
de Tikrit, no final de março.
Primeiro, Al-Abadi minimizou o papel do Irã em seu país, dizendo que
apenas uma centena de conselheiros militares estava presente. Depois,
ele e seus companheiros não perderam a oportunidade de reconhecer tanto o
“progresso diplomático relativo à questão nuclear iraniana” quanto o
“compromisso” dos Estados Unidos de encontrar um acordo definitivo sobre
essa questão até o final de junho. “A mensagem de Al-Abadi foi clara.
Ele disse aos Estados Unidos que eles não podem, ao mesmo tempo,
aproximar-se do Irã, ainda que timidamente, e acusar o Iraque de ser seu
aliado”, comenta um diplomata norte-americano que prefere o anonimato.
Para esse profundo conhecedor do mundo árabe, os Estados Unidos
realmente não sabem mais que ritmo dançar no Oriente Médio: “Há poucos
anos, nossos aliados não questionavam nossa coerência dessa maneira.
Eles se conformavam a nossas grandes linhas de ação, e nós os deixávamos
suficientemente à vontade para não forçá-los a uma docilidade total.
Hoje, somos permanentemente obrigados a conciliar posições
contraditórias”. A opinião é partilhada por Ahmed Ali, cientista
político da Empowering Youth for Peace in Iraq – um think tank
com sede em Washington –, ele próprio de origem iraquiana: “A
administração Obama sabe muito bem que o regime iraquiano continuará
buscando um equilíbrio entre os Estados Unidos e o Irã, pois precisa
desses dois jogadores de peso para derrotar o Estado Islâmico”. Outros
especialistas, como Richard Nephew, da Brookings Institution – think tank
próximo do Partido Democrata –, questionam o aparente paradoxo que leva
o presidente norte-americano a frear qualquer tentativa do Congresso de
endurecer as sanções contra o Irã, enquanto adota um tom marcial em
relação a esse país, mesmo quando se trata de discutir a situação no
Iraque ou no Iêmen.
No entanto, a visita oficial de Al-Abadi revelou principalmente outra
disputa, muito mais importante, dentro da esfera de influência
norte-americana no Oriente Médio. Ao mencionar a intervenção aérea da
coalizão liderada pelos sauditas no Iêmen a fim de combater o avanço das
milícias houthis, o primeiro-ministro iraquiano questionou a
pertinência dessa ação, avaliando que “a solução para os problemas do
Iêmen está em primeiro lugar no Iêmen”. Claramente, o Iraque pede um
retorno ao diálogo nacional, com a participação dos houthis, que
voltaram a pegar em armas para protestar contra um projeto de Estado
federal desenhado pelo presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi.1
Mais importante ainda: diante de um pequeno grupo de jornalistas
recebidos na Blair House – residência das autoridades estrangeiras
convidadas à Casa Branca –, o líder iraquiano afirmou claramente que o
governo Obama partilhava de sua opinião. Assim como ele, Washington
consideraria que a Arábia Saudita “constitui o principal obstáculo a um
cessar-fogo” entre as facções iemenitas. A declaração provocou uma
negativa quase imediata de Alistair Baskey, porta-voz do Conselho de
Segurança Nacional dos Estados Unidos, bem como uma coletiva de imprensa
organizada às pressas pelo embaixador saudita Adel al-Jubeir, que
criticou a “falta de lógica” da declaração de Al-Abadi.
Na realidade, porém, as palavras deste último não provocaram nenhuma
surpresa ou choque em Washington. Na verdade, há bastante incerteza
sobre a capacidade de a Arábia Saudita conduzir uma operação militar a
bom termo. Os resultados continuam pífios, com um saldo que se aproxima
dos mil mortos – na maioria, civis – desde o início do bombardeio, em 26
de março, e o dia 20 de abril. Para um diplomata árabe lotado na
capital norte-americana, “a Arábia Saudita insiste em recolocar no poder
o presidente Hadi e derrotar os houthis. É uma maneira de dizer ao Irã
que sua influência será sistematicamente combatida na Península Arábica.
Mas os Estados Unidos sabem que a solução para a crise iemenita é
política e passará sobretudo pela escolha de um novo presidente que os
houthis aceitem, mesmo que seja sunita”.
ndo o Pentágono guiava a coalizão
No entanto, os Estados Unidos parecem incapazes de convencer a Arábia
Saudita a fazer concessões. Para limitar as baixas civis e as
consequências de uma intervenção que poderia engolir toda a região, o
Exército norte-americano adota agora um direito de observação dos alvos
escolhidos pela coalizão. Oficialmente, a Arábia Saudita e seus
parceiros definem os alvos, e o Pentágono fornece informações coletadas
por seus drones e processadas simultaneamente em centros operacionais na
Arábia Saudita, Catar e Bahrein. Mas, como observa o consultor de
defesa Richard Stark, fornecer ou não informação “corresponde, no final,
a exercer um direito de vetar alvos a serem bombardeados”.
Essa participação, mesmo indireta, nas operações militares sauditas –
somadas a ações no mar para impedir o fornecimento de armas às milícias
houthis – revela três objetivos dos Estados Unidos. O primeiro: retardar
o máximo possível, e até impedir, uma intervenção por terra dos cerca
de 150 mil soldados sauditas concentrados na fronteira com o Iêmen. Não
por convicção humanitária e pacifista, mas simplesmente porque os
Estados Unidos temem que o Exército saudita fracasse nessa ofensiva. Os
dirigentes norte-americanos aprenderam a lição da derrota de novembro de
2009 – quando o Exército saudita sofreu perdas significativas em um
ataque contra os rebeldes houthis – e não querem ver esse filme de novo,
o que poderia levar suas tropas a intervir em terra, no momento em que
se desenha a campanha para as primárias da eleição presidencial de 2016.
Os Estados Unidos mostram-se ainda mais circunspectos em relação a uma
ofensiva por terra pelo fato de que seus dois possíveis suplentes
relutam em participar. Nem o Egito – que participa das operações aéreas –
nem o Paquistão – que, para grande desgosto da Arábia Saudita e outras
monarquias do Golfo, decidiu ficar afastado da coalizão – consideram
essa possibilidade.2 Acionados pela Arábia Saudita para
pressionar sobretudo o Paquistão, os Estados Unidos, até agora, têm se
esquivado, para grande alívio do primeiro-ministro paquistanês, Nawaz
Sharif.
Muito criticado por seu aliado saudita e pelos Emirados Árabes Unidos,
este último prometeu intervir caso a integridade territorial da Arábia
Saudita seja ameaçada. “O Exército paquistanês é um reflexo do próprio
país. Ele também comporta xiitas e não vai implodir por causa da luta
entre Riad e Teerã”, afirma o cientista político e blogueiro paquistanês
Khalid Muhammad, cuja opinião é de que seu país não deve apoiar um
“empreendimento expansionista” saudita.
O segundo objetivo perseguido pelos Estados Unidos, ao tentar convencer
a Arábia Saudita a não lançar uma operação terrestre, relaciona-se à
situação no Iraque. Durante sua visita, Al-Abadi advertiu seus
interlocutores norte-americanos contra esse cenário, considerando que
desse modo o reino wahabita estaria assumindo, na região, “um papel
comparável ao de Saddam Hussein invadindo o Kuwait e ameaçando seus
outros vizinhos”. Em 2011, a intervenção saudita no Bahrein para
reprimir uma grande revolta popular majoritariamente xiita já havia
alarmado as autoridades iraquianas. Ela as convenceu de que seu país,
agora controlado por um poder central de obediência xiita, mais cedo ou
mais tarde também seria alvo de uma ação militar saudita. “A última
coisa que os Estados Unidos querem é agravar a tensão entre sauditas e
iraquianos, estes acusando aqueles de financiar secretamente o grupo
Estado Islâmico. A crise no Iêmen deixa pensar que a Arábia Saudita
decidiu tomar a iniciativa e mostrar a seus rivais que de agora em
diante será necessário contar com ela”, esclarece o diplomata árabe em
Washington.
Terceiro objetivo perseguido pelos Estados Unidos em sua tentativa de
limitar os danos relacionados à intervenção no Iêmen: evitar que a
região se torne um campo de batalha por procuração entre uma Arábia
Saudita autoproclamada líder do mundo sunita e o Irã xiita. Mais uma
vez, o pragmatismo comanda. Já envolvido no Iraque diante das tropas do
Estado Islâmico e mantendo a alternativa de uma ação militar na Síria, o
governo Obama sabe que a deterioração da situação levaria ao surgimento
de novos focos de violência sectária em todo o Oriente Médio, mas
também no Golfo, uma região estratégica para o abastecimento mundial de
hidrocarbonetos.
Risco de caos do Líbano até a Índia
“Uma ideia recorrente no mundo árabe é que os Estados Unidos tentam
provocar confrontos generalizados entre xiitas e sunitas a fim de melhor
acomodar seu poder no Golfo e Oriente Médio. Mas nada seria mais
aventureiro do que abrir essa caixa de Pandora. Isso poderia criar o
caos da costa do Líbano até a Índia”, avalia o cientista político Hasni
Abidi, do Centro de Estudos e Pesquisas sobre o Mundo Árabe e o
Mediterrâneo, em Genebra. No Líbano, Hassan Nasrallah, secretário-geral
do Hezbollah, já apelou diversas vezes para que o mundo muçulmano se
oponha “às manipulações e conflitos” criados pela Arábia Saudita. Esse
apelo ecoa os do presidente iraniano, Hassan Rohani, que durante o
desfile anual das Forças Armadas de seu país não hesitou em acusar os
sauditas de financiar o terrorismo na Síria, Líbano e Iraque.
A Arábia Saudita sabe muito bem que os Estados Unidos temem acirrar sua
queda de braço com o Irã. Enquanto as autoridades sunitas continuam a
despejar invectivas nas redes sociais contra os “xiitas heréticos”, o
príncipe Saud al-Faisal, ministro das Relações Exteriores, segue
repetindo que seu país não está envolvido “em uma guerra de influência
ou por procuração contra o Irã”. Mas exortou Teerã a parar de entregar
armas aos rebeldes houthis. No contexto regional atual, e dado o nível
de desconfiança entre Estados Unidos e Arábia Saudita – a qual não os
perdoa pela queda de Hosni Mubarak em fevereiro de 2011, no Egito –, não
se deve excluir que Riad vá contra a vontade do protetor
norte-americano e intervenha em solo no Iêmen. Incendiada por um
virulento discurso nacionalista e religioso, sua opiniãopública espera
uma demonstração de força para apagar a memória amarga de 2009, mesmo
correndo o risco de ali atolar: “É o que o Irã está esperando para
afirmar sua influência na região”, alarma-se um empresário saudita
instalado na Virgínia. “Isso vai fortalecer o país, que parece ser o
único a ter uma estratégia coerente. Não é por acaso que a administração
Obama tenta fechar um acordo com ele a qualquer preço.” (Ler artigo na próxima página.)
De fato, muitos especialistas acreditam que a república islâmica
conseguiu um resultado diplomático impecável, pelo menos até o momento.
Além de chegar a um acordo provisório sobre a questão nuclear, o Irã
convenceu a Turquia e o Paquistão a não participar da coalizão formada
pela Arábia Saudita para bombardear o Iêmen. Outra vitória importante: a
Rússia decidiu levantar o embargo contra o Irã, que ela própria
estabeleceu em 2010, sobre certas armas. A decisão relança a execução de
um contrato de US$ 800 milhões concluído em 2007 para o fornecimento de
baterias antiaéreas do tipo S-300.
Com uma relação mais ou menos reatada com os Estados Unidos e o
Ocidente, dançando sua própria música no Iraque e na Síria e
aproveitando divisões fundamentais no campo pró-norte-americano, o Irã
aparece, pelo menos a curto prazo, como o vencedor da região. O país não
cansa de lembrar, pela voz de Javad Zarif, seu ministro das Relações
Exteriores, que “não invadiu nenhum país nos últimos 250 anos”. E seu
apelo para a aplicação de um plano de paz permitiu-lhe marcar pontos em
um mundo árabe bastante hostil à intervenção da coalizão, inclusive
entre alguns dos próprios membros da coalizão.
Num contexto em que a turbulência nascida das revoltas de 2011 continua aumentando,3
o Irã, embora xiita, de repente se tornou referência em um mundo sunita
em plena desordem. Resta saber, no entanto, como o país reagiria a uma
nova escalada da tensão com seu grande rival saudita.
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