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domingo, 4 de dezembro de 2016

Carta Capital - As lições não aprendidas da Guerra ao Terror

por Antonio Luiz M. C. Costa — publicado 23/09/2016 09h24, última modificação 24/09/2016 09h02
Quinze anos depois, o combate ao terrorismo continua a ser um cão em busca do próprio rabo

Líbia
http://www.cartacapital.com.br/revista/919/guerra-ao-terror-licoes-nao-aprendidas/libia/@@images/1dd7c887-fc26-463e-aad0-d6b7a15a7af1.jpeg

Passaram-se 15 anos do ataque às desaparecidas torres gêmeas e ao Pentágono. Encerrou-se no Ocidente o ciclo de otimismo aberto pelo fim da Guerra Fria e pela falta de resistência eficaz e de alternativas aparentes à globalização neoliberal imposta pelo consenso e hegemonia de Washington.
Os Estados Unidos e o mundo capitalista foram bruscamente despertados dos devaneios hoje quase esquecidos do “fim da história” de Francis Fukuyama, do “mundo plano” de Thomas Friedman e da “nova economia” dos analistas de Wall Street.
O poder e a mídia desistiram de ninar o público com o conto de fadas no qual a humanidade se casa com o livre-comércio e vive feliz para sempre. Em seu lugar, passaram a contar uma interminável história de terror na qual bichos-papões de burca e turbante se escondem atrás de cada árvore e cada esquina para devorar crianças malcriadas que desobedecem aos superiores e falam com estranhos. Uma estética mais sombria, mas nem por isso mais real ou madura.
A nova narrativa é uma teia igualmente inconsistente de crenças e diretrizes construídas sobre suposições e fatos escolhidos a dedo e apresentados sem contexto e proporção. E sua função é igualmente controlar as massas e desviar sua atenção.
Que os fundamentalistas existem e seus atentados causaram sofrimento a muitos é um fato, mas sua proporção tem sido sistematicamente exagerada. Principalmente nos EUA, onde essa vaga ameaça serve de espantalho contra a imigração e de pretexto à construção de um aparato de espionagem, intimidação e controle, mas na realidade é muito pequena.
Nos últimos dez anos, morreram em média nove pessoas por ano por atentados jihadistas, sete das quais em ataques perpetrados por cidadãos dos próprios EUA. Um número muito menor do que o das mortes causadas anualmente por crianças de até 3 anos que pegam armas deixadas ao seu alcance (21), relâmpagos (31), cortadores de grama (69) ou quedas da cama (737), para não falar de crimes comuns cometidos por estadunidenses (11.737).
9/11
O ciclo do 11 de setembro continua a ser alimentado (Foto: Patrick Sison/AP)
Enquanto restringem liberdades, impõem Estados de exceção e revisam suas constituições em nome dessa ameaça superdimensionada, Washington e outras capitais ocidentais mantêm ótimas relações com Estados e famílias sabidamente patrocinadoras de organizações jihadistas e insistem em tentar manipulá-las quando lhes parece conveniente a seus fins, para depois culpar Maomé e o Alcorão pelas consequências. Os sequestradores dos aviões fizeram contato e receberam assistência de agentes sauditas nos Estados Unidos. Membros da Casa de Saud transferiram recursos públicos a Osama bin Laden e aos financiadores dos atentados.
Não está provada a participação institucional e direta da monarquia saudita, mas o envolvimento de setores do governo e da família real é evidente. Na sexta-feira 9, a Câmara dos EUA aprovou  por rara unanimidade uma lei para permitir às vítimas do 11 de Setembro processarem a Arábia Saudita por seus vínculos com o terrorismo.
O presidente Barack Obama pretende vetar a lei, mesmo que o veto possa ser derrubado por dois terços do Congresso. Os sauditas ameaçam com a liquidação em massa de títulos dos EUA e com “caos e instabilidade nas relações internacionais”.
Tanto quanto perder a amizade dos sauditas, a Casa Branca receia que a lei abra um precedente para que outros países, por sua vez, abram processos contra os Estados Unidos por sua participação em intervenções duvidosas pelo mundo. Pois a “Guerra ao Terror” é cada vez mais um cão que corre atrás do próprio rabo.
Sequer a lição mais óbvia do 11 de Setembro foi aprendida. Os líderes do mundo continuam a cometer os mesmos erros de Ronald Reagan e Bush pai ao apoiar os mujaheddin do Afeganistão contra seu governo socialista dos anos 1980.
Ainda menos serviram de aprendizado os erros cometidos por Bush filho ao usar o ataque da Al-Qaeda e imaginárias armas químicas e projetos nucleares como pretexto para invadir o Iraque. Mesmo sem desafiar os aliados europeus e comprometer tropas e recursos dos EUA na mesma escala, o governo de Obama os repetiu na essência e contribuiu para espalhar ainda mais o caos no Oriente Médio.
Hillary
Hillary, como Obama, quer boas relações com cúmplices do jihadismo (Foto: Saul Loeb/AFP)


Apesar da propaganda de Donald Trump, o Estado Islâmico não foi criado por Barack Obama, mas de fato ele e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton quiseram manejá-lo como instrumento do jogo geopolítico contra o ex-premier iraquiano Nouri al-Maliki, o regime de Bashar al-Assad, o Irã e a Rússia. Assim como tentaram usar fundamentalistas da Síria, Iêmen e Líbia. Sempre estiveram conscientes de que derrubar Muammar Kaddafi proporcionaria poder e armas aos jihadistas da África. Tanto quanto George W. Bush e Tony Blair exageraram a suposta ameaça representada por Saddam Hussein, eles e David Cameron foram cúmplices em mentiras sobre o ditador líbio. No Reino Unido, o Comitê de Relações Exteriores do Parlamento publicou na quarta-feira 14 um relatório devastador.
O governo de Cameron “não demonstrou que o regime de Kaddafi representasse uma ameaça real aos civis, fez uma leitura literal e seletiva dos seus elementos retóricos e fracassou na identificação das facções islâmicas radicais dentro da rebelião”, concluíram os legisladores.
Com um cálculo tão frio quanto o dos neoconservadores de Bush, os democratas avaliaram que os fundamentalistas poderiam ser neutralizados ou cooptados no momento conveniente e julgaram que a recompensa valia os riscos. Há pouco tempo, Donald Trump foi com razão vituperado por dizer em campanha que o “erro” dos EUA no Iraque foi não ter se apossado do petróleo para pagar os custos da invasão e por suas declarações em 2011, quando se discutia a ação na Líbia: “A menos que tomemos o petróleo, a Líbia não me interessa”.
Entretanto, um dos  e-mails do instituto democrata Center for American Progress vazados ao site The Intercept é da presidenta Neera Tanden, cotada para chefe de gabinete de Hillary. “A Líbia deveria nos compensar? Temos um déficit gigante. Eles têm um monte de petróleo. A maioria dos estadunidenses prefere não se envolver com o mundo por causa desse déficit. Se quisermos continuar a intervir no mundo, gestos como fazer países ricos em petróleo nos reembolsarem parcialmente não me parece loucura. Preferimos cortar o Head Start (educação), WIC (assistência social) ou Medicaid (saúde)? Pois vivemos a política do déficit, isso acontece e vai acontecer cada vez mais.”
Tanden
A assessora de Hillary, Tanden, sugere que países como a Líbia paguem pelo privilégio de ser bombardeados (Foto: Neilson Barnard/AFP)
Aqui, a diferença entre republicanos e democratas se reduz àquela que existe entre o cinismo e a hipocrisia: os primeiros sentem menos necessidade de disfarçar a ganância com pretextos humanitários e programas sociais.
O mesmo modus operandi se tentou aplicar à Síria, neste caso com menos sucesso por causa da oposição do Irã, do Hezbollah e da Rússia. A Casa Branca e seus aliados também sabiam que a maior parte do apoio militar e financeiro aos rebeldes sírios – talvez a metade do oferecido pelas potências ocidentais e praticamente todo o proveniente das monarquias árabes e da Turquia – acabaria nas mãos dos extremistas.

Isso inclui notoriamente a Al-Nusra, ramo sírio da Al-Qaeda de Osama bin Laden, cuja execução foi tão festejada por Obama e sua então secretária de Estado em 2011. Recentemente, adotou o novo nome de Jabhat Fatah Al-Sham e alegou ter-se separado da matriz.
Não mudou de métodos ou de ideologia. A expectativa é parecer mais palatável e facilitar o trabalho de assessores, consultores e colunistas prontos a defender o apoio a quaisquer grupos dispostos a criar problemas para os rivais estratégicos do momento.
Isso inclui o Estado Islâmico. Efraim Inbar, assessor do governo de Benjamin Netanyahu, conselheiro da Otan e diretor do centro Begin-Sadat de Estudos Estratégicos (Besa) da Universidade Bar-Ilan de Tel-Aviv, um artigo intitulado “A Destruição do Estado Islâmico É um Erro Estratégico”.
O argumento é que o “califado” atrai terroristas em potencial e os mantém ocupados na Síria, além de consumir tropas e recursos do Hezbollah, do Irã e da Rússia. Seu colapso aumentaria a influência e o prestígio desses inimigos e liberaria suas forças, assim como a dos jihadistas sobreviventes, para atacar Israel e o Ocidente. “A estabilidade só é desejável quando serve a nossos interesses”, admitiu o estrategista.

Petróleo
Trumpo proclama aos brados que os EUA deveriam saquear o petróleo da Líbia e do Iraque (Foto: Haidar Mohammed Ali/AFP)
Por essa miopia, pagam são só os civis sírios assediados na própria terra ou em fuga para a Europa, mas o mundo inteiro. O governo turco julgou poder tirar proveito da crise na Síria e aumentar sua influência com o apoio aos fundamentalistas e acabou por trazer a guerra para dentro de suas fronteiras.
Os governos britânico e francês, ao tentar aumentar sua popularidade e sua fatia no mercado bélico e petrolífero, criaram a onda de refugiados que gerou o Brexit e ameaça desintegrar a União Europeia e a cooperação internacional.
Os Estados Unidos estão distantes demais para receber mais do que respingos ocasionais dessa violência e podem dar-se ao luxo de mais apostas irresponsáveis para satisfazer lobbies e iludir eleitores.
Mas pagam um preço visível em termos de gastos militares e dívidas que restringem suas opções de política econômica e outro invisível na forma de crescentes ressentimentos contra suas ações, apoio popular e prestígio para quaisquer forças dispostas a enfrentá-los, de potências como a China e a Rússia a fanáticos como Al-Baghdadi e Ayman al-Zawahiri.
http://www.cartacapital.com.br/revista/919/guerra-ao-terror-licoes-nao-aprendidas


domingo, 27 de março de 2016

Exército sírio retoma controle de Palmira e expulsa EI - VEJA

Retomada da cidade com o auxílio de ataques aéreos russos marca uma das maiores derrotas do grupo jihadista no conflito

- Atualizado em
Explosão do Templo de Baal, em Palmira, na Síria
Explosão do Templo de Baal, em Palmira, na Síria(Reprodução/Twitter/VEJA.com)
Forças do governo sírio retomaram o controle da cidade de Palmira neste domingo e expulsaram o grupo terrorista Estado Islâmico do local, após semanas de combate. A vitória do Exército da Síria foi confirmada pela imprensa estatal e pelo principal grupo que monitora o conflito na Síria, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).
A retomada de Palmira marca o maior revés para o Estado Islâmico na Síria desde que a intervenção russa mudou a maré do conflito de cinco anos em favor do presidente Bashar Assad.
Patrimônio da Humanidade pela Unesco por suas ruínas datadas da época do Império Romano, a cidade de Palmira estava sob controle do Estado Islâmico desde maio do ano passado. Durante a ocupação, os jihadistas destruíram diversos monumentos milenares e executaram o arqueólogo responsável pelo sítio arqueológico. Além de sua importância histórica, Palmira também é estratégica no conflito por ligar a capital síria Damasco ao território iraquiano. A cidade também está na rota para Raqqa, um dos principais redutos do Estado Islâmico.
O comando do Exército da Síria afirmou que as forças do regime de Bashar Assad conquistaram Palmira com o apoio de ataques aéreos russos. O governo sírio pretendo agora usar a cidade como base para operações militares contra outras regiões dominadas pelo Estado Islâmico no leste do país, como Raqqa e Deir al-Zor.
(Com agência Reuters)
http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/exercito-sirio-retoma-controle-de-palmira-e-expulsa-ei 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Irã vai enviar soldados e atiradores especiais para a Síria.

O vice-chefe das Forças Terrestres do Exército iraniano, general Ali Arasteh disse na quarta-feira, citado pelo jornal Al Akhbar, que o Irã planeja enviar tropas e franco-atiradores de operações especiais para o Iraque e a Síria para ajudar as forças armadas de ambos os países a lutar contra os terroristas.
iranian forces
Arasteh, durante um discurso por ocasião da formatura dos membros das forças e franco-atiradores pertencentes à Brigada de Reação Rápida de operações especiais, disse que o Irã enviou mais conselheiros para aconselhar o Exército sírio e iraquiano na luta contra a terrorismo.
No mês passado, o vice-chefe do Estado Maior das Forças Armadas do Irã, general Massoud Alyazeri, disse que “nunca deixar as coisas na Síria ir na direção que querem os “estados párias”. Vamos tomar as medidas necessárias em tempo útil”.
Ele disse que a Arábia Saudita tinha esgotado toda a sua força na Síria e agora tem enfrentado um grande fracasso, não só naquele país, mas também no Iêmen, e acrescentou que se intervir na Síria a Arábia Saudita sofreria uma derrota ainda maior. Ele também acusou a Turquia de ser um corredor para que os terroristas e materiais destinados a eles cheguem a Síria.
Ele também observou que há uma coordenação total de posições entre Teerã e Moscow em um nível político e militar em relação à Síria e o Irã apoia a estratégia da Rússia, que é uma grande força que tem favorecido as vitórias do governo e do povo da Síria.
Geral Alyazeri disse que o Irã está totalmente pronto e disposto a se envolver militarmente na Síria se a situação exigir e que nem o governo sírio nem os seus aliados vão tolerar a soberania da Síria a ser violada.
O general também disse que o Irã busca uma solução política para a crise síria e não está interessado em uma escalada da guerra, mas “infelizmente, nos últimos dias tenho ouvido do governo saudita, que está disposto a realizar uma escalada e enviar tropas para a Síria. Eles enviaram aviões para a Turquia.”
Assim, se uma solução política não pode ser alcançada, então o Irã não vai permitir que o governo sírio caia porque se isso acontecer, então haveria um governo em Damasco aliado com o Estado Islâmico ou com países que promovem o extremismo e o terrorismo, o que é totalmente inaceitável para Teerã.
Se por algum motivo o regime saudita ou turco decidir tomar uma escalada da situação e usar a força e invadir o território da Síria, países que estão alinhados com o governo sírio vão reagir. Eles não vão se sentar e assistir o abate de milhares de pessoas, disse o general.
Transporte aéreo.
De acordo com várias fontes, uma ponte aérea entre a Síria e o Irã já começou a mover tropas e sistemas de mísseis sofisticados iranianos na frente de Aleppo, na Síria.
O Irã também enviou aviões para a Síria lutando ali contra os grupos terroristas.


Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com
Fonte: Almanar
https://dinamicaglobal.wordpress.com/2016/03/22/ira-vai-enviar-soldados-e-atiradores-especiais-para-a-siria/

As armas e habilidades que a Rússia mostra ao mundo na Síria.




Vitrine na Síria: armas, habilidades e outras mensagens que a Rússia envia para o mundo desde o Oriente Médio.
A Rússia organizou na Síria uma verdadeira exposição real das suas novas armas, e não apenas as armas, mas as habilidades de seu exército modernizado. E os sistemas antiaéreos S-400 que protegem o céu sobre a base aérea Jmeimim não são o único impedimento.
A guerra na Síria tornou-se uma vitrine para a estréia de diversas armas avançadas russas: mísseis de cruzeiro, navios de guerra, submarinos furtivos silenciosos, caças e bombardeiros. Mas não é apenas sobre armas.
RT tem conduzido a sua própria “classificação” dos fatores de sucesso do exército russo na Síria que levou a um cessar-fogo entre as partes em conflito no massacre sírio.
Em primeiro lugar, os dramáticos acontecimentos na Síria mostraram ao mundo o novo Exército russo. Portanto, vamos começar pela organização.
A organização

Organizar uma operação com suficiente rapidez em um teatro de guera tão remoto, uma logística tão complicada e um ambiente tão pouco “agradável”, exceto Irã e Iraque, requer habilidades, experiência, conhecimentos e procedimentos muito praticados.
O fato de que um grupo tão forte foi implantado em Latakia, quase ‘relâmpago’ e sem problemas, destaca o alto nível organizacional atingido pelo exército russo nos últimos anos.
gestão de inteligência
Cinquenta aviões de ataque e bombardeiros de épocas e tipos muito diferentes: cada um deles encontra o seu alvo. Umas 100 missões de combate diárias e quase cada missão é cumprida sem ter que procurar alvos e perder tempo no ar.
Trata-se de um mais do que evidente nível de coordenação com as tropas terrestres e obtenção ininterrupta de coleta de dados de inteligência, tanto aéreos e como terrestres.
Armas
Navios equipados com mísseis de cruzeiro Kalibr-NK
Em outubro de 2015, quatro relativamente pequenas corvetas da Frotilha russa do Cáspio, com uma precisão implacável, lançaram 26 mísseis contra 11 alvos do Estado Islâmico de uma distância de cerca de 1.500 quilômetros.
Apesar do seu pequeno deslocamento, cerca de 1.000 toneladas, navios do Projeto 21631 Buyan-M tem um enorme potencial de ataque, levando oito lançadores de mísseis de cruzeiro, além de artilharia e mísseis de classe terra-ar.
Anteriores, analistas militares dos EUA indicaram que os 3M-14T- os mísseis de cruzeiro que dispara o sistema Kalibr, com um alcance de cerca de 2.600 km e capacidade de transportar ogivas nucleares – colocam estes navios no mesmo nível que as grandes fragatas quanto ao potencial ataque.
Os analistas de todo o mundo concordam que um tal ataque foi uma demonstração para a OTAN de que a Rússia tem “mãos muito longas”, e apenas secundariamente foi realizado para fins táticos.
Conclusão: os Kalibr-NK são um bom elemento dissuasor.
O efeito da sua utilização tem sido tão notável que num curto espaço de tempo, esta classe de barcos se juntou ao grupo da Marinha russa a operar perto da costa síria.
O Tu-160 ‘Cisne Branco’ e os X-101
Os mais recentes ataques dos bombardeiros estratégicos russos Tu-160 se tornaram uma demonstração da capacidade da aviação de longo alcance russa. Em 18 de novembro de 2015 a Rússia pela primeira vez em sua história colocou em ação seus mísseis de cruzeiro ar-terra mais avançados, o X-101, adotados pela Força Aérea do país em 2013.
O míssil subsônico X-101 tem uma fantástico alcance de 5.500 quilômetros, o que excede em muito a capacidade dos seus rivais europeus e americanos.
O X-101 voa a uma altura de 30 metros a 10 km; é invisível ao radar e muito preciso com um desvio máximo da meta de não mais de 5 metros (contra um alvo fixo) e 10 metros contra um alvo em movimento em uma variedade de lançamento de 5.500 quilômetros [o antecessor do X-101, o míssil X-555 projetado para transportar carga nuclear, tinha uma margem de erro de cerca de 25-30 metros]. Este foguete combina um sistema de orientação com base inercial e via satélite baseado no sistema de navegação russo Glonass.
Há também relatos de que o X-101 tem orientação infravermelha que é ativada no fim do trajeto. A ogiva convencional desse míssil é de cerca de 400 kg de TNT. O equivalente americano desta arma russa é o míssil de cruzeiro estratégico AGM-129, que foi detectável por radares e tinha um alcance de até 3.700 km.
Mas a Rússia também tem uma versão do X-101 com ogiva nuclear, do qual há pouca informação. Trata-se do X-102, que tem um alcance de 5.000 km e também seria invisível para radares. Como o X-101, a versão nuclear voaria a baixa altitude e a uma velocidade de Mach 0,77, enquanto que a ogiva nuclear teria uma potência de 250 quilotons.
Ao contrário do X-555, o novo míssil foi projetado para ataques de precisão a longa distância, fora do alcance dos inimigos antiaéreos.

Submarinos diesel-elétricos de ataque do projeto 636,3 com mísseis Kalibr-NK
Em 17 de novembro, o submarino diesel-elétrico russo Rostov-on-Don, do projeto 636,3, atribuído à Frota do Mar Negro, lançou um ataque com mísseis de cruzeiro contra posições dos terroristas perto da cidade síria de Raqa, a “capital” do Estado islâmico no país na Síria.
Foi o primeiro caso do lançamento de um míssil de cruzeiro a partir de um submarino contra um objetivo real na história das Forças Armadas da Rússia, mas ainda não foi confirmado ou negado pelo comando naval russo.
A agencia Reuters, referindo-se a informação de funcionários dos EUA disseram que a Rússia tinha avisado os EUA sobre o lançamento simultâneo de mísseis desde o mar e de desde os bombardeiros estratégicos. De acordo com vários especialistas militares, informações sobre este lançamento de um submarino não foram reveladas pela Rússia devido a preocupações de sigilo que sempre envolve os movimentos de submarinos.
Os submarinos do projeto 636,3 pertencem à terceira geração de submarinos e são considerados um dos mais silenciosos do mundo. Eles são projetados para transportar como principal arma os mísseis do sistema Kalibr.
O Sukhoi Su-35 e Su-34
Su-34
A maioria das modernas aeronaves russas envolvidas na operação nos céus da Síria são os caça-bombardeiros Su-34 e os caças de superioridade aérea Su-35 .
O Su-34 pertencem à quarta geração de caças capazes de lidar com alvos aéreos e terrestres. Também é classificado como um bombardeiro tático capaz de lançar ataques não na linha de frente, mas também na profundidade operacional do território inimigo.
Entre as vantagens deste avião incluem a sua alta manobrabilidade e a capacidade de agir em uma altitude muito baixa. A cabine de titânio protege ambos os membros da tripulação. Também tem um equipamento avançado de navegação, mísseis de longo alcance ar-ar e radar AESA que fornece a capacidade para lutar no ar contra caças de quarta geração.
O Su-34 tem uma velocidade máxima de 1.900 km/h e um alcance máximo de ações de 4.500 quilômetros sem reabastecimento em vôo. O teto operacional atinge mais de 14.000 metros acima do nível do mar. Seus 12 pontos de ancoragem permitem ao Su-34 transportar até 8 toneladas de munição. De acordo com relatórios oficiais do Ministério da Defesa, os Su-34 usam na Síria bombas guiadas KAB-500 e mísseis X-29L guiados por laser.
Su-35
Ao contrário do Su-34, este novo jogador não ataca alvos terrestres, mas isso não diminui a importância da sua presença em um possível teatro de operações, onde apareceu apenas no momento em que o perigo de agressão militar turca surgiu.
Não carece detalhar todas as características desta aeronave impressionante, estrela indiscutível dos últimos salões aeroespaciais pertencente à geração 4 ++. Só resta mencionar que os Su-35 estão na Síria também como um elemento de dissuasão por sua evidente superioridade contra os combatentes de outros países envolvidos no conflito sírio.

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com
Fonte: RT.com
 https://dinamicaglobal.wordpress.com/2016/03/12/as-armas-e-habilidades-que-a-russia-mostra-ao-mundo-na-siria/

sábado, 9 de janeiro de 2016

Na Síria, uma saída política bastante incerta - Le Monde Diplomatique Brasil


por Akram Belkaïd
No dia seguinte aos atentados de 13 de novembro em Paris, os Estados Unidos e seus aliados, incluindo a França, reafirmaram sua intenção de conduzir uma abordagem em duas frentes. De um lado, a continuação de uma ação militar de envergadura contra a Organização do Estado Islâmico (OEI) – muitas vezes designada pelo acrônimo pejorativo “Daesh”, que em árabe significa “Estado Islâmico no Iraque e no Levante” – e, de outro, a busca de uma solução política para a guerra civil na Síria. Pois bem, nos dois casos, os obstáculos persistem, e não são pequenos.
Quanto à ação militar, existem algumas nuanças na definição da “grande coalizão”, ou da “coalizão única”, como prefere o presidente François Hollande e como a concebem, cada um de seu lado, seus homólogos russo e norte-americano. Mas, oficialmente, o objetivo é “destruir” militarmente a OEI. Como? Prosseguindo com bombardeios aéreos, recorrendo de modo pontual a ações de forças especiais, secando os recursos financeiros da organização terrorista e, como repete o secretário de Relações Exteriores dos Estados Unidos, mediante um “envolvimento mais intenso das forças regionais”.
Os assassinatos de Paris no fundo não mudaram nada. A administração de Barack Obama continua firmemente contrária a uma intervenção terrestre, apesar da vontade manifestada dos representantes republicanos de acabar com a OEI. “Enviar tropas por solo levaria a repetir erros do passado, a menos que planejemos uma ocupação permanente [da Síria]”, declarou o presidente ao final da reunião do G20 na estação balneária turca de Antália, em 14 de novembro. Mensagem reiterada durante uma viagem à Ásia, com a seguinte explicação: o objetivo da coalizão continua sendo a redução do espaço geográfico controlado pela OEI, a fim de travar sua capacidade de atrair novos recrutas. “Obama vai fazer de tudo para manter o status quo até janeiro de 2017, deixando para seu sucessor a tarefa de tomar a eventual decisão de jogar o Exército em um novo atoleiro”, indica um diplomata norte-americano do alto escalão, que prefere permanecer no anonimato. 
Prova de realismo e prudência, essa preocupação em evitar um envolvimento militar terrestre alimenta um ceticismo geral quanto ao desmantelamento da OEI. “Quem vai libertar Raqqa e, sobretudo, Mossul? Não se retomam cidades com bombardeios aéreos. Enquanto o Daesh controlar esses dois pontos nevrálgicos, terá a capacidade de contra-atacar e retomar sua expansão geográfica”, decifra o cientista político iraquiano Omar Yasser. Em resposta, Benjamin J. Rhodes, conselheiro adjunto de segurança nacional norte-americano, insiste na “necessidade de apoiar as forças que já combatem a OEI em solo, a começar pelos destacamentos curdos”. 
Estes últimos aparecem como os únicos aliados eficazes da coalizão, pois nem a Turquia nem a Arábia Saudita parecem dispostas a enviar soldados. A primeira conduz “sua” guerra contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK),1 ao passo que a segunda dá prioridade à sua intervenção contra os rebeldes hutis no Iêmen (ler artigo na pág. 8). Mas o papel central dos curdos contra a OEI não gera unanimidade. A Turquia vê com maus olhos o apoio cada vez mais firme dos Estados Unidos aos peshmergas. Já o governo central de Bagdá os acusa de ter “anexado Sinjar” e exige a “restituição” da cidade retomada em meados de novembro pelas tropas curdas da Turquia e do Iraque, com apoio da aviação norte-americana.
Confrontados pela falta de possíveis aliados que possam interferir no campo de batalha, Washington e seus parceiros evocam então outra “união sagrada”. Esta última agruparia o Exército e as milícias do presidente sírio, Bashar al-Assad, bem como muitas outras facções rebeldes que combatem atualmente o regime de Damasco. Daí a importância de que se reveste o objetivo de uma paz negociada acompanhada de um processo de transição política. Em 14 de novembro, durante uma reunião em Viena, dezessete países participantes, entre os quais a Arábia Saudita, o Irã e a Turquia, bem como a União Europeia e as Nações Unidas, validaram seu apoio “a um cessar-fogo e a um processo conduzido pelos sírios a fim de estabelecer daqui a seis meses [...] um cronograma para redigir uma nova Constituição”.
A partir de 1º de janeiro, os diferentes partidos sírios e o governo de Al-Assad serão chamados a negociar as condições de um cessar-fogo que entraria em vigor em 14 de maio e seria seguido pela realização de “eleições” (sem mais detalhes) em 2017. Consideradas terroristas, a OEI e a Frente Al-Nusra, um braço da Al-Qaeda que constitui o segundo mais importante grupo armado depois da OEI, estão desde já excluídas desse diálogo, qualificado pelo secretário de Estado norte-americano, John Kerry, com um entusiasmo um pouco forçado, como a “única chance para a Síria”.
Como explica Hassan Hassan, especialista em Síria radicado nos Emirados Árabes Unidos, “as probabilidades de sucesso desse processo são muito fracas e correm o risco até de agravar a situação a longo prazo”. Primeira interrogação: a lista de participantes nas negociações, que deve incluir a Jordânia. Como Amã poderá resistir às pressões de Damasco, para quem o diálogo só pode acontecer com a oposição que tolera, como a Frente Popular para a Mudança e a Libertação? Ainda não sabemos, por exemplo, se o Exército Sírio Livre será aceito nos debates. Considerada “terrorista” por Al-Assad e por seu aliado russo, a facção agrupa ex-oficiais do Exército regular e foi por muito tempo a ponta de lança da rebelião, antes de ser suplantada pelas forças islamitas. Hoje, continua presente na província de Daraa e, como ela própria reconhece, já firmou alianças pontuais com grupos jihadistas.
 
Facção armada moderada?
Entretanto, a Jordânia deverá, principalmente, participar com Riad. A Arábia Saudita buscará impor grupos ditos “moderados”, mas que mantêm importantes laços militares com a Frente Al-Nusra e até já foram aliados da OEI. É o caso do Exército Ahrar al-Sham (“Homens Livres da Síria”), de inspiração ao mesmo tempo salafista e nacionalista (não recruta combatentes estrangeiros). Essa facção tenta há vários meses passar uma imagem moderada, embora esteja ativa no seio de uma aliança mais ampla, a Jaish al-Fatah (“Exército da Conquista”), na qual encontramos a Frente Al-Nusra e outras formações jihadistas.
Presente na província de Idlib e na periferia de Damasco, a Ahrar al-Sham, bem como seus parceiros e rivais no seio da Jaish al-Fatah, encontra financiamentos nos países do Golfo e na Turquia. Apresenta-se como uma alternativa – igualmente sunita – à OEI, que foi, no início, sua aliada, antes de tornar-se adversária em 2014. Há vários meses, participou de uma operação de sondagem para alistar aliados nas capitais ocidentais, principalmente em Washington. Resta saber se Damasco aceitará negociar com um grupo cujos membros originais foram libertados das prisões do regime em 2011 por radicalizar e, portanto, desacreditar uma contestação política até então essencialmente pacífica.2 “Se se busca um cessar-fogo, é preciso que a maioria das forças presentes esteja envolvida”, lembra um opositor sírio exilado na França. “O problema é que, com exceção do Exército Sírio Livre, nenhuma facção armada pode se dizer moderada. Na verdade, a diferença entre a Al-Nusra e a Ahrar al-Sham é tênue.”
Outro obstáculo no caminho da paz: o papel a curto prazo e o futuro de Al-Assad. Sobre esse assunto, diversos países ocidentais e seus aliados evoluíram pouco. Ninguém mais – nem França, Turquia e as monarquias do Golfo – considera a saída imediata do presidente sírio uma necessidade absoluta. Embora não deixem de lembrar sua responsabilidade no drama de seu país, a ideia de que possa participar da transição política é hoje aceita por todos. Nesse sentido, ele pode se gabar de ter obtido uma vitória diplomática, pois sua participação nas negociações é validada, bem como sua manutenção no poder durante o período que deverá conduzir às eleições, o que provoca a fúria e a irritação de muitos opositores. “O povo sírio não vai aceitar que Al-Assad tenha um papel na transição após todos os massacres que cometeu”, afirma Hisham Marwa, vice-presidente da Coalizão Nacional Síria (CNS), que reúne o essencial da oposição política não islamita do regime. Também lamenta a presença do Irã em um processo diplomático que ele acusa de ter apenas um objetivo: “Manter a todo custo Al-Assad no poder”. 
 
Um local de exílio para Al-Assad
Teerã continua sendo a apoiadora mais ativa e determinada do presidente sírio. Sobre o período de transição, o poder iraniano estima até que Al-Assad “não deva ser obrigado a deixar o poder” e que tenha “o direito de apresentar-se às eleições”. É uma hipótese com qual a Rússia, outra aliada de peso, não parece compactuar. Decidida a defender o regime, Moscou admite a partir de agora a ideia de que o presidente sírio deva entregar o poder ao final de um processo de transição negociado e de uma vitória militar em terra, ou, ao menos, de um importante reequilíbrio na relação de forças a favor de Damasco. Em junho passado, Vladimir Putin também sondou discretamente seus interlocutores argelinos e bielorrussos sobre a possibilidade de acolherem o clã de Al-Assad em exílio.
Segundo alguns diplomatas, apesar de a necessidade de renunciar, ou até de deixar o país, provavelmente ter sido sinalizada durante seu encontro em Moscou com o presidente russo em outubro, tal saída ainda não corresponde ao projeto do dirigente sírio. Mesmo sendo trabalhosa, a retomada por seu Exército de alguns territórios, principalmente no norte do país, convenceu-o de que uma derrota militar seria impossível a longo prazo, enquanto desfrutasse o apoio da Rússia e do Irã. Os atentados cometidos pela OEI em Paris apenas reforçaram sua determinação de permanecer no poder, custe o que custar. A instalação de um processo diplomático com perspectivas incertas lhe oferece um apoio suplementar para durar mais, enquanto aguarda o retorno hipotético de dias melhores. 
Akram Belkaïd
é jornalista.

1 Ler “L’emballement guerrier du président turc” [O cavalgar guerreiro do presidente turco], Le Monde diplomatique, set. 2015.
2 Cf. Hala Kodmani, “Syrie: qui se cache derrière l’Armée de la conquête?” [Síria: quem se esconde por trás do Exército da Conquista?], Libération, Paris, 30 jul. 2015

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Rússia cria na Síria uma zona impenetrável para a OTAN


Segundo Washington Post, o comandante militar da OTAN, general Philip Breedlove, reconheceu publicamente, durante uma conferência na Fundação Marshall, que a Síria e a Rússia criaram uma zona de exclusão que resulta impenetrável para todos os meios da OTAN. Zona de exclusão aérea russa na Síria. Autonomia e alcance dos ataques (em amarelo) dos helicópteros Mi-24 ‘Hind’, 240Km, (em vermelho) dos aviões de ataque ao solo Su-25 ‘Frogfoot’, 400km, (em azul) dos lançadores de mísseis S-300 a partir do cruzador Moskva no Mediterrâneo, 150km e (em cinza) dos caças Su-30s ‘Flanker’ 3000km.
Esta zona de exclusão dispõe de armas de última geração, inclusive mísseis antiaéreos S-300 PM2, instalados em barcos no Mediterrâneo, e outras terrestres como os Pantsir-S1. A zona comprende 30% da Síria e está situada ao redor da província de Latakia, onde se encontra a base aérea russa de Hamaimim e o porto naval de Tartus, utilizado por barcos de guerra russos.
Moskva, cruzador de mísseis da Rússia, apelidado de “portador-assassino” pela OTAN, passou pelo Estreito de Gibraltar e está no Mediterrâneo Oriental à disposição do comando da força naval russa na Síria.
Armamento do cruzador ‘Moskva’
-16x SS-N-12 mísseis Sandbox anti-navio
-8×8 (64) S-300PMU Favorit (SA-N-6 Grumble) mísseis de longo alcance surpefície-ar
-2×20 (40) OSA-MA (SA-N-4 Gecko) SR SAM
-1x twin AK-130 130mm/L70 armas de duplo-propósito
-6xAK-630 sistemas de armas de proximidade
-2x RBU-6000 morteiros anti-submarino
-10x (2 quin) 533mm tubos de torpedo
Couraça: blindagem Splinter
Transporta 1 helicóptero Ka-25 ou Ka-27 [fonte: RT]

Tendo pleno conhecimento de que os EUA se opunha com todas suas forças à implantação de uma presença militar russa na Síria, o Estado Maior do Exército russo decidiou instalar na Síria aviões militares russos Sukhoi em secretamente e instalar o potente sistema automatizado C-41 (comando, controle, comunicações, informática, informação e interoperabilidade), que tem permitido impor sua supremacia na guerra radio-eletrônica (Electronic Warfare – EW) contra os sistemas de reconhecimento terrestres, aéreos e por satélite dos EUA, impondo assim uma zona de exclusão para a OTAN na Síria (A2/AD Bubble).
O elemento chave no dispositivo posto em prática pelos russos está constituído pelos sistemas Krasukha-4, que realizam uma continua interferência nos radares de vigilância, nos satélites militares norteamericanos da familia de Lacrosse/Onyx, que estão baseados nos países vizinhos da Síria, nos aviões AWACS e E-8C e nos drones RQ-4 Global Hawk, MQ-1 Predator e MQ-9 Reaper.
Rússia levou para a Síria ainda outros tipos de materiais modernos que criam contramedidas, inclusive no espaço visível, infravermelho ou laser, contra os meios opto-eletrônicos de vigilância aérea e por satélite (IMINT) dos norte-americanos.

C4ISRLeia também: Revelado: Como a China e a Rússia podem destruir o F-35 dos Estados Unidos em combate.
Esta zona é obscura a todos os meios de observação terrestres, navais, aéreos e espaciais da OTAN. Não estando em condições de determinar as caraterísticas dos novos sistemas eletrônicos e de controle de fogo instalados pelos russos, a OTAN não pode neutralizá-los por meio das interferências.
Em consequência, todo trânsito ou transporte que utilize este espaço de exclusão aérea deverá contar com o acordo da Rússia. Dados os inegáveis progressos realizados pela Rússia nesses anos no domínio dos radares, os planificadores norte-americanos suspeitam que seus aviões F-22 de 5ª generação já não são “invisíveis” para os russos.
Segundo o general Breedlove, não é somente na Síria onde os russos criaram zonas de exclusão para a OTAN. Estas zonas já existem no enclave russo de Kaliningrado, no Mar Báltico, e na costa russa do Mar Negro, que inclui a Criméia.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A superioridade militar russa se confirma na Síria - Dinâmica Global



A intervenção militar de Moscow na Síria não revirou simplesmente a sorte das armas e semeou o pânico entre os jiadistas. Ela tem mostrado ao resto do mundo, em situação de guerra real, as atuais capacidades do exército russo. Para surpresa geral, este dispõe de um sistema de empastelamento capaz de tornar a Aliança Atlântica surda e cega. Apesar de um orçamento muito maior, os Estados Unidos acabam de perder a sua preponderância militar. A intervenção militar russa na Síria, que devia ser uma aposta arriscada para Moscou contra os jihadistas, transformou-se numa manifestação de poderio que altera o equilíbrio estratégico mundial. Concebida inicialmente para isolar os grupos armados dos Estados que os apoiam, em violação das resoluções decisivas do Conselho de Segurança, depois destruí-los, a operação é conduzida para cegar o conjunto dos atores ocidentais e seus aliados. Estupefato, o Pentágono está dividido entre os que tentam minimizar os fatos, e encontrar uma falha no dispositivo russo, e aqueles que, pelo contrário, consideram que os Estados Unidos perderam a sua superioridade em matéria de guerra convencional e que lhes será necessário longos anos para a recuperar
Lembre-se que em 2008, quando da guerra da Ossétia do Sul, as Forças russas foram capazes de repelir o ataque georgiano, é certo, mas haviam mostrado ao mundo, sobretudo, o estado deplorável do seu equipamento. Ainda há dez dias atrás, o antigo secretário da Defesa, Robert Gates, e a antiga conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, falavam do exército russo como uma força de “segundo nível”. Desde o início da colocação militar (na Síria- ndT), a Rússia instalou um centro de empastelamento em Hmeymim, a norte de Lataquia. De repente,o incidente do USS Donald Cook repetiu-se , mas, desta vez, num perímetro de 300 km; incluindo a base da Otan em Incirlik (Turquia). E, ainda persiste. Tendo o evento ocorrido durante uma tempestade de areia de densidade histórica, o Pentágono acreditou, inicialmente, que os seus instrumentos de medição estavam desregulados, antes de constatar que eles estavam “embaralhados”. Todos alvo de empastelamento eletrônico.
Ora, a moderna guerra convencional repousa no “C4i”; uma sigla correspondendo aos termos em Inglês de “command” (comando), “control” (controle), “communications” (comunicações), “computers” (computadores) e “intelligence” (inteligência). Os satélites, os aviões e os drones (aviões teleguiados), os navios e submarinos, os blindados, e agora até mesmo os combatentes, estão ligados uns aos outros por comunicações permanentes, que permitem aos estados-maiores comandar as batalhas. É todo este conjunto, o sistema nervoso da Otan, que está atualmente empastelado na Síria e numa parte da Turquia.
Segundo o perito romeno Valentin Vasilescu a Rússia teria instalado vários Krasukha-4, teria equipado os seus aviões de aparelhos de guerra eletrônica SAP / SPS-171 (como o avião que sobrevoou o USS Donald Cook), e os seus helicópteros Richag -AV. Além disso, usaria o navio-espião Priazovye (da classe Projeto 864, Vishnya na nomenclatura da Otan), no Mediterrâneo.
Parece que a Rússia assumiu o compromisso de não perturbar as comunicações de Israel -local protegido pelos EUA-, de modo a deixar de implantar o seu sistema de bloqueio no Sul da Síria.
As aeronaves russas deram-se ao luxo de violar um monte de vezes o espaço aéreo turco. Não para medir o tempo de reação da sua Força Aérea, mas para verificar a eficácia do bloqueio eletrônico na zona requerida, e para vigiar as instalações colocadas à disposição dos jihadistas na Turquia.
Mísseis de cruzeiro de alto desempenho.
Finalmente, a Rússia utilizou várias novas armas, como os 26 mísseis de cruzeiro furtivos 3M-14T Kaliber-NK, equivalentes aos RGM/UGM-109E Tomahawk. Disparados a partir da Frota do Mar Cáspio – sem qualquer fundamento militar -, eles atingiram e destruíram 11 alvos situados a 1.500 km de distância, na zona não-interditada – afim de que a Otan pudesse apreciar o desempenho. Estes mísseis sobrevoaram o Irã e o Iraque, a uma altitude variável de 50 a 100 metros, segundo o terreno, passando a quatro quilômetros de um drone norte-americano. Nenhum se perdeu, ao contrário dos americanos cujos erros se situam entre os 5 e os 10%, segundo os modelos. De passagem, estes disparos mostram a inutilidade das despesas faraônicas do “escudo” antimísseis construido pelo Pentágono em volta da Rússia -mesmo se era oficialmente justificado como estando dirigido “contra os lançadores iranianos”.
Sabendo que estes mísseis podem ser disparados a partir de submarinos, localizados em qualquer ponto dos oceanos, e que eles podem transportar ogivas nucleares, os Russos recuperaram o seu atraso em termos de lançadores.
Em última análise, a Federação da Rússia seria destruída pelos Estados Unidos- e vice-versa- -em caso de confrontação nuclear, mas sairia vencedora em caso de guerra convencional.
Apenas os Russos e os Sírios estão à altura de avaliar a situação no terreno. Todos os comentários militares vindos de outras fontes, aqui incluídos os jihadistas, são infundados, porque só a Rússia e a Síria tem uma visão do terreno. Ora, Moscou e Damasco entendem tirar o máximo partido da sua vantagem e, mantêm pois, o sigilo sobre as suas operações.
Dos poucos comunicados públicos, e confidências de oficiais, pode concluir-se que pelo menos 5.000 jihadistas foram mortos, entre os quais numerosos chefes da Ahrar al-Sham, da Al-Qaeda e do Emirado Islâmico. Pelo menos 10.000 mercenários fugiram para a Turquia, Iraque e Jordânia. O Exército Árabe Sírio e o Hezbollah reconquistaram o terreno sem esperar pelos anunciados reforços iranianos.
A campanha de bombardeamentos deverá terminar no Natal ortodoxo. A questão que se colocará então será saber se a Rússia está autorizada, ou não, a terminar o seu trabalho, perseguindo para tal os jihadistas que se refugiam na Turquia, no Iraque e na Jordânia. Caso contrário, a Síria seria salva, mas, o problema também não seria resolvido por completo. Os Irmãos Muçulmanos não deixariam de procurar uma revanche e os Estados Unidos de os utilizar, de novo, contra outros alvos.
Conclusão:
A operação russa na Síria foi concebida para privar os grupos jihadistas do apoio estatal de que dispõem, sob a cobertura de ajuda aos “opositores democráticos”.
Ela exigiu a utilização de armas novas e transformou-se numa demonstração de força russa.
Rússia dispõe agora de uma capacidade de interdição-eletrônica de todas as comunicações da Otan. Ela tornou-se a primeira potência em matéria de guerra convencional.
Este desempenho ateou a discórdia em Washington. É muito cedo para dizer se ela será favorável ao presidente Obama ou se isto será utilizado pelos “falcões liberais” para justificar um crescimento do orçamento militar.

sábado, 18 de outubro de 2014

Le Monde Diplomatique br - Estado Islâmico, um monstro providencial


Rápidas e extensas, as conquistas militares do Estado Islâmico no Iraque e na Síria surpreenderam o mundo. Fruto da decomposição dos Estados da região, elas contrariam a estratégia dos Estados Unidos. Para “extirpar o câncer” jihadista, Obama espera contar com os atores regionais.
por Peter Harling


O Estado Islâmico, movimento jihadista que controla grande parte do nordeste da Síria e noroeste do Iraque, parece tão determinado e confiante quanto a região que o circunda é confusa. Ele não constitui em nada um novo Estado, uma vez que rejeita a noção de fronteira e prescinde largamente de instituições. Em compensação, nos diz muito sobre a situação no Oriente Médio, sobretudo a dos Estados da região, sem falar das políticas externas ocidentais.

Esse movimento expansionista tem uma identidade espantosamente clara, considerando sua composição – voluntários vindos de toda parte – e suas origens. A história começa no Iraque, quando, após a invasão norte-americana de 2003, um punhado de ex-mujahedins da guerra do Afeganistão cria uma célula local da Al-Qaeda. Muito rapidamente, sua doutrina dissocia-se daquela da organização que lhe deu origem: ele prioriza o inimigo próximo, em vez do adversário distante representado por Estados Unidos e Israel. Ignorando cada vez mais o ocupante norte-americano, inicia uma guerra religiosa entre sunitas e xiitas, depois entra numa lógica fratricida. Sua ultraviolência volta-se contra os supostos traidores e apóstatas sunitas, ou seja, contra seu próprio lado. A destruição que se seguiu, entre 2007 e 2008, reduziu o movimento a alguns radicais entrincheirados nos confins do deserto iraquiano.
Se o Estado Islâmico faz um retorno espetacular à cena, apenas uma pequena parte do mérito é sua. Seus inimigos declarados – cuja lista, impressionante, compõe uma espécie de “quem é quem” no cenário estratégico regional – abriram-lhe um largo caminho. Em primeiro lugar, os regimes do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, e do presidente sírio, Bashar al-Assad, que usaram todos os meios possíveis e imagináveis – e mesmo inimagináveis, no caso das armas químicas na Síria – para combater, em nome de uma pretensa “guerra contra o terrorismo”, a oposição sunita que eles próprios se esforçaram para radicalizar. Depois, os parceiros de ocasião desses regimes – Washington em um caso e Moscou no outro – incentivaram-nos. O Irã foi além da oferta de apoio incondicional: no mundo árabe, Teerã segue uma política externa que se resume cada vez mais à manutenção de bolsões de milícias xiitas, o que contribui para a polarização religiosa.
Não esqueçamos as monarquias do Golfo, cujos petrodólares, lançados aos quatro ventos, financiam uma economia islamita parcialmente oculta. A Turquia abriu por muito tempo sua fronteira com a Síria para os jihadistas vindos da França, de Navarra e até da Austrália. Os Estados Unidos, por fim, devem ser julgados à revelia: depois de uma década de agitação sem sentido sob a liderança do presidente George W. Bush, Barack Obama optou pela postura inversa, ou seja, um laissez-faire fleumático e altivo, quando regimes em decadência, na Síria e no Iraque, são claramente um viveiro de jihadistas. Em dois anos, não apenas o Estado Islâmico floresceu, mas foi sendo pouco a pouco transplantado, até invadir grandes cidades como Raqqa, Fallujah e Mossul. Fato importante: é o primeiro movimento, no mundo árabe, a tirar o jihadismo das margens.
Parte do sucesso reside na estratégia do movimento, que pode ser resumida pelo conceito de consolidação. Ela ambiciona menos “conquistar o mundo”, como sugerem tanto propagandistas quanto detratores, do que ancorar-se firmemente nos espaços ocupados – o que conduz a mais pragmatismo do que podemos imaginar. Seus combatentes capturam e negociam prisioneiros ocidentais, quando outras gerações de jihadistas os teriam degolado para chamar atenção. Dedicam-se com especial energia a conquistar poços de petróleo que lhes garantam uma boa autonomia financeira. Atacam prontamente os frágeis rivais sunitas, em suas zonas de conforto, mas o entusiasmo diminui em confrontos muito difíceis com adversários mais sérios: participam pouco da luta contra o regime sírio, evitam enfrentar as milícias xiitas iraquianas e moderam seu antagonismo para com as facções curdas.
No entanto, o Estado Islâmico tem pouco a oferecer, o que é amplamente ilustrado pela situação desastrosa em Mossul. Seus recursos, consideráveis, não bastam para alguma forma de redistribuição. Seus princípios de governo são anacrônicos: uma ressurreição das práticas do profeta do islã, o que seria desconfortável mesmo que elas fossem bem compreendidas. Para além dessa utopia mal acabada, o governo paradoxalmente não se assenta em nenhuma teoria do Estado Islâmico – uma lacuna no mundo sunita em geral, em contraste com o xiismo da Revolução Iraniana. Na melhor das hipóteses, põe em prática uma visão mais codificada da guerra, o que lhe confere uma vantagem em relação aos grupos armados que se entregam à criminalidade pura e simples. Essa codificação reforça sua coesão de conjunto, por meio de práticas e de um discurso que, embora violentos, são relativamente elaborados.

Entre os sunitas, um sentimento de injustiça
No fundo, o Estado Islâmico contenta-se sobretudo em preencher um vazio. Ele ocupa o nordeste da Síria porque o regime oficial praticamente abandonou a região, enquanto a oposição que poderia vir a preencher seu lugar foi abandonada à própria sorte por seus supostos padrinhos, especialmente os Estados Unidos. Além disso, penetrou cidades como Fallujah e Mossul porque o governo central, em Bagdá, não se importava com elas: sua presença ali era corrupta, repressiva e precária. A rápida expansão nas áreas controladas por forças curdas, porém habitadas por minorias cristãs e iazidis, no norte do Iraque, explica-se pela falta de interesse para com as vítimas por parte de seus supostos defensores, os curdos, que preferiram voltar-se para seu território natural.
Também conhecido como “Daesh”, seu acrônimo árabe de conotação pejorativa, o Estado Islâmico preenche ainda um vazio em um nível mais abstrato. Simplificando, o mundo sunita tem dificuldade tanto em explicar seu passado como em imaginar seu futuro. Um século XX fragmentário, que se seguiu a uma longa ocupação otomana vista por muito tempo como um período de declínio, teve como saldo uma série de fracassos: anti-imperialismo, pan-arabismo, nacionalismos, socialismo, várias formas de islamismo, capitalismo – todos levaram a experiências ambíguas e amargas. Com exceção da Tunísia, as esperanças nascidas com os levantes de 2011 transformaram-se, pelo menos até agora, em desastre. Para onde olhar em busca de uma fonte de inspiração, autoconfiança e orgulho? Para os reacionários do Golfo e do Egito? Para a Irmandade Muçulmana, hoje arrasada? Para o Hamas palestino, preso na armadilha do eterno impasse de sua resistência a Israel?
Enquanto isso, o mundo xiita obtém êxitos, ainda que parciais: o Irã tornou-se um interlocutor incontornável para o Ocidente e pretende ter um papel cada vez maior no mundo árabe; o Hezbollah dita sua lei no Líbano, e um eixo religioso ligando Beirute, Damasco, Bagdá e Teerã consolida-se. O resultado é um fenômeno novo e alarmante: a maioria sunita na região desenvolve um complexo de minoria – um sentimento vago, mas poderoso, de marginalização, expropriação, humilhação. Os sunitas que se creem e se dizem perseguidos e privados de seus direitos elementares são cada vez mais numerosos e estão em cada vez mais lugares.
Salvo algumas louváveis expressões, as minorias (xiita, cristã, alauita, curda etc.), que cultivam todas sua identidade de vítima, mostram-se na melhor das hipóteses indiferentes ao destino da maioria, quando não cúmplices. O Ocidente não é exceção. Se o destino dos iazidis, que morreram de fome após uma fuga frenética pelas montanhas de Sinjar, preocupa no mais alto grau as chancelarias do Ocidente, o dos habitantes dos bairros sitiados de Damasco, onde um número maior de sunitas morre de fome por causa do regime oficial, não causa nenhuma reação.
Talvez o mais preocupante seja o fato de o Estado Islâmico ter se tornado o tapa-sexo de um vazio político generalizado. Todos aqueles que abominavam a “guerra contra o terrorismo” de Bush, vendo nela uma ideia ingênua de bombeiro pirômano ou a persistência aberrante de uma lógica imperial, agora entoam esse cântico, porque ele evita refletir sobre os reais dilemas da região. O Daesh serve de justificativa para tudo: os excessos do avanço iraniano em direção a um sectarismo xiita cada vez maior, como resposta a seu equivalente sunita; as ambivalências de um Ocidente que não sabe mais nem por onde começar; as concessões de grande parte das elites do mundo árabe em uma orgia de violência contrarrevolucionária; e, ainda, a alienação crescente das minorias em relação ao seu entorno – uma dinâmica da qual são vítimas, mas também atores, pois se apegam a formas de repressão que agravam o problema.
Segue-se uma série de aforismos, uns mais absurdos que os outros. O Irã para o Ocidente: amem-nos, pois o Daesh nos ameaça. Os regimes árabes paraseus povos: não cederemos em nada, pois o Daesh nos ameaça. A oposição síria: salvem-nos de nós mesmos, pois o Daesh nos ameaça. O Hezbollah para os libaneses: vale tudo, pois o Daesh nos ameaça. Os Estados Unidos: não interviremos na Síria, pois o Daesh nos ameaça, mas batemos no Iraque, pois... o Daesh nos ameaça.
O retrocesso dá-se em todas as direções. Tira-se a “guerra contra o terrorismo” da lata de lixo da história das relações internacionais; desencava-se a “proteção das minorias”, no modo colonial de um bombardeio da maioria agitada. Os poucos alvos atingidos no Iraque por aviões e drones norte-americanos são um ato de libertação não para os iazidis, cujo futuro depende de muitos outros fatores, mas para a consciência de uma administração Obama que, nos últimos três anos, diante de todos os tipos de violência, deu de ombros e olhou para o lado.
Os Estados Unidos acabaram reagindo no Iraque, pois podiam fazê-lo sem problemas: não há risco de escalada com o Estado Islâmico, que não tem condições imediatas de retaliação. Não há clamores da opinião pública norte-americana e mundial, que apoia largamente a causa. Também não há complicações diplomáticas, já que existe consenso quanto ao Daesh dentro do governo iraquiano e da liderança curda, bem como entre os vizinhos Irã, Turquia e Arábia Saudita.
Esses ataques não são neutros. Ao contrário, vistos da região, eles fazem muito sentido. Por um acaso do calendário macabro das matanças no Oriente Médio, eles ocorrem após um mês de desinteresse furioso de Washington para com a sorte dos civis bombardeados em Gaza. Eles também enviam uma mensagem muito clara aos atores da região: a dose certa de “guerra contra o terrorismo” e “proteção das minorias” pode servir para captar e mobilizar o poder norte-americano. Massoud Barzani, presidente do governo regional do Curdistão, entendeu isso muito bem, lançando um pedido de socorro mobilizador no The Washington Post.1 Os outros políticos ao redor também entenderam; no final das contas, eles só ficam surdos aos apelos para uma mudança positiva.

Despertar libanês
Foi necessário que o Estado Islâmico aparecesse no Líbano para sacudir a paralisia que assola esse país tão frágil. Mas o avanço é também um passo atrás: a classe política e seus patrocinadores estrangeiros exageram no apoio ao Exército, que se alinha amplamente na caça aos islamitas sunitas, ignorando cuidadosamente a delicada questão do Hezbollah, o qual fica livre para lutar ao lado dos regimes odiados na Síria e no Iraque. Na verdade, todos os fatores estruturais de instabilidade são, como aliás no resto da região, considerados secundários em relação à urgência de enfrentar o Daesh. No meio sunita, o sentimento de ser posto à parte, evidentemente, só faz crescer.
O Estado Islâmico tem, portanto, um futuro brilhante pela frente se os jogadores principais continuarem explorando sua presença para esquivar-se de seus erros. Os islamitas xiitas, os meios seculares e os governos ocidentais redefinem parcialmente suas relações com base em uma espécie de guerra santa que se torna um fim em si mesma. Gaza, Iêmen, Sinai, Líbia e Tunísia, todos são terrenos férteis para sua expansão, em uma parte do mundo que conhece uma forte integração regional, ao mesmo tempo para além das fronteiras e para dentro de cada país: por força do êxodo rural, as franjas territoriais estão bem conectadas aos bairros informais das grandes cidades.
Também existem fortes ligações com as sociedades ocidentais remodeladas pelos fluxos migratórios e as novas tecnologias de informação, que produzem uma nova geração de candidatos à jihad. Eles facilmente vão para a Síria ou o Iraque, de onde se comunicam e valorizam sua experiência, disparando rajadas tanto de tweets como de balas.
Pouco representativo em si mesmo, o Estado Islâmico é alimentado por um efeito sistêmico. Ele pode ao mesmo tempo ser uma forma de redenção padrão, um aliado de circunstância, um trampolim social ou uma identidade pronta para usar em meios sunitas que passam por uma crise profunda. Ele serve de elemento de contraste ou como uma distração útil para seus detratores mais cínicos e de espantalho que concentra os temores mais ou menos racionais de atores confrontados com seus próprios fracassos. Essa polissemia, na confusão que caracteriza esta era de mudanças caóticas, é o que faz seu sucesso.
Peter Harling
Pesquisador, viveu em Bagdá de 1998 a 2004.


Ilustração: Reuters/ Alaa Al-Marjani
1  Massoud Barzani, “Kurds need more US to defeat Islamic State” [Curdos precisam de mais EUA para derrotar o Estado Islâmico], The Washington Post, 10 ago. 2014.

Gazeta Russa - O perigo que o Estado Islâmico representa para a Rússia

O perigo que o Estado Islâmico representa para a Rússia

Moscou se opõe às atuais opções do envio de tropas estrangeiras para a Síria para combater os terroristas do EI (Estado Islâmico). Mas isso não significa que a Rússia não se sinta ameaçada por esse grupo.
A organização terrorista continua ocupando não apenas partes da Síria e do Iraque, mas também as manchetes da mídia mundial. A destruição de cidades, a aniquilação física de cristãos e curdos, a imposição de leis medievais bárbaras nos territórios ocupados –o grupo levou todos estes problemas para o Oriente Médio. Vendo tudo isso na televisão e nas páginas dos jornais, os cidadãos do Ocidente exigem que seus próprios governos destruam o EI e levem, pelo menos, um pouco de paz para a região.
Os líderes dos Estados Unidos e da Europa escutam essas vozes e desenvolvem os planos necessários da operação terrestre para a derrota final do EI, porque entendem que se os terroristas não forem travados no Oriente Médio, eles criarão no futuro sérios problemas em seus próprios países. No entanto, a voz da Rússia soa isolada –Moscou exige que essa operação seja ratificada pelo Conselho de Segurança da ONU ou feita com o expresso consentimento do governo sírio.

Iraque receberá ajuda militar contra o Estado Islâmico
Tal posição tem atraído críticas da comunidade ocidental, algumas dizendo que a Rússia subestima a ameaça representada pelo EI. A realidade é bem diferente –os desafios que o EI cria à segurança da Rússia não são menores. Pelo contrário, talvez sejam mais perigosos do que aqueles que resultam para os países da Europa Ocidental.
Na Rússia vivem cerca de 10 milhões de muçulmanos. De acordo com diferentes fontes e estimativas, teremos de centenas a vários milhares de muçulmanos russos "estagiando" nas fileiras do EI que, no final da guerra, podem regressar para casa e tentar organizar a jihad em sua própria terra. Alguns representantes do EI já disseram publicamente que depois da Síria irão "libertar" a república tchetchena das autoridades russas.
Diferenças
No entanto, em primeiro lugar, esse caldeirão cultural de algum modo funciona na Rússia. Ao contrário da Europa, nas principais cidades da região central do país não existem guetos culturais e étnicos e, portanto, elas não se tornam terreno fértil para a propagação de ideias radicais islâmicas. Em segundo lugar, na Rússia não existe aquela absoluta tolerância excessiva que prevalece no Ocidente em relação às manifestações da "cultura de diferentes povos".
Finalmente, em terceiro lugar, durante as operações de intervenção no Cáucaso, os serviços especiais russos adquiriram valiosa experiência na luta contra o radicalismo islâmico. Assim, ao contrário da Europa, onde, no futuro, o retorno dos "estagiários jihadistas" da Síria e do Iraque poderá levar a tumultos em grande escala entre a comunidade imigrante, na Rússia eles podem ameaçar apenas com atos isolados de terrorismo.
No entanto, muito mais grave em Moscou acreditam ser a ameaça indireta. Ao sul da Rússia existem cinco grandes Estados islâmicos da Ásia Central –o Tadjiquistão, o Uzbequistão, o Cazaquistão, o Quirguistão e o Turquemenistão– e mais um outro no Sul do Cáucaso (o Azerbaijão). No total, são cerca de 65 milhões de muçulmanos que estão longe de viverem em condições de democracia e respeito pelas liberdades civis. E se em alguns desses países (Turquemenistão, Azerbaijão, Cazaquistão) as autoridades conseguem atenuar o descontentamento popular pelo seu autoritarismo através do crescimento do bem-estar dos seuscidadãos, a situação econômica dos outros três países está longe de ser ideal.
A população anseia por justiça social e, uma vez que os líderes desses países eliminam do campo político os concorrentes seculares, as pessoas se voltam para a sua única alternativa –o Islã político. No Uzbequistão, no Tadjiquistão e no Quirguistão existe um movimento terrorista clandestino bastante forte que tem centenas de seus membros lutando agora nas fileiras do EI. Depois de receberem experiência prática consistente e voltarem para casa, eles vão radicalizar os ânimos sociais em seus próprios países e, em caso de qualquer choque grave, conseguiriam desestabilizar seriamente a situação em vários países.
Para a Rússia, essa é uma ameaça muito séria, já que ela tem fronteira aberta com esses países e acolhe centenas de milhares de imigrantes do Uzbequistão, do Quirguistão e do Tadjiquistão, que trabalham em cidades russas e circulam livremente no seu território.
Motivos
A recusa do governo russo em apoiar a ideia de uma operação terrestre ilegítima na Síria se deve, principalmente, ao fato de Moscou não querer resolver  problemas por via do agravamento de outros. O Kremlin entende que a invasão terrestre da Síria por parte da Turquia ou dos Estados Unidos poderia muito provavelmente levar a uma tentativa de, ao mesmo tempo em que se elimina o EI, aproveitar para derrubar o regime de Bashar al-Assad.
Oriente Médio
Oriente Médio
Um golpe em Damasco não só privaria Moscou de seu aliado e transformaria a Síria em um viveiro do islamismo no Oriente Médio, como poderia, por sua vez, causar uma verdadeira guerra global na região, envolvendo o Irã, os Estados Unidos, Israel, Turquia e Arábia Saudita.
Contrariamente à crença popular de que essa guerra seria rentável para a Rússia (já que supostamente aumentaria o preço do petróleo), é óbvio que a sua consequência seria uma crise econômica global bem mais grave, assim como a desestabilização da situação no Cáucaso do Sul e na Ásia Central. E para a resolução imediata dessa desestabilização, a Rússia, que está agora ocupada com os assuntos da Ucrânia, pode simplesmente não ter recursos suficientes.

Guevorg Mirzaian é pesquisador do Instituto dos EUA e Canadá da Academia Russa de Ciências
http://br.rbth.com/opiniao/2014/10/16/o_perigo_que_o_estado_islamico_representa_para_a_russia_27855.html 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Por que a Síria pode incendiar o Oriente Médio? - Opera Mundi


Opositores desafiam governo do presidente Bashar Al Assad
Houve um tempo em que todos, ou quase todos os atores no Oriente Médio, tinham posições claras. Era possível antecipar, com alto grau de êxito, como este ou aquele ator reagiria a qualquer fato novo. Este tempo passou. Se examinarmos a guerra civil na Síria, perceberemos rapidamente não apenas que cada ator estabelece para si mesmo um largo leque de objetivos, mas também que cada um está envolvido em debates internos ferozes, sobre que posição deveria adotar.

No próprio interior da Síria, a situação oferece três opções básicas. Há quem apoie, por diversas razões, a manutenção do regime hoje no poder. Há os que desejem a chamada “solução salafista, na qual alguma forma de regime da sharia islâmica se estabelece. E existem os que não querem nenhum destes desfechos, preferindo uma solução em que o regime de Assad é derrubado mas não se instala, em seu lugar, um regime salafista.

Esta é, claro, uma imagem muito simples, mesmo como descrição das posições dos atores internos. Cada uma desta três posições básicas é apoiada por diferentes atores (poderíamos chamá-los de sub-atores?), que debatem consigo mesmos sobre as táticas que seus partidários deveriam adotar. Claro, o o debate sobre táticas na luta é também um debate sobre o desfecho preciso desejado por cada sub-ator. No entanto, este triângulo de atores, cada um com múltiplos sub-atores, cria uma situação em que há uma constante revisão de alianças locais, que é difícil de explicar e cujas resultantes são difíceis de prever.

  Os dilemas não são menores entre os atores não-sírios. Vejamos os Estados Unidos, que já foram o gigante da arena, e hoje são vistos amplamente como um país em grave declínio e, portanto, sem muitas opções positivas. Até o fato de admitir isso é polêmico, nos Estados Unidos. O presidente Obama é severamente pressionado por alguns sub-atores, para fazer “mais”; e, por outros, para fazer “menos”. Este debate está presente até mesmo em seu círculo de assessores mais íntimos, para não falar do Congresso e da mídia.

O Irã enfrenta o dilema de como melhorar suas relações com os Estados Unidos (e também com a Turquia e mesmo a Arábia Saudita) sem reduzir seu apoio ao regime sírio e o Hezbollah. O debate interno sobre as táticas a adotar parece tão intenso e em tom elevado quanto nos Estados Unidos.

A Arábia Saudita deseja apoiar os grupos muçulmanos amigos, na Síria, sem fortalecer os que são ligados à Al Qaeda, e querem a queda do regime saudita. O governo de Riad teme cometer um erro capaz de fortalecer a causa dos que desejam que o impasse se espalhe em suas fronteiras. Por isso, procura pressionar o governo dos EUA para que execute seus objetivos. Ao mesmo tempo (e tão secretamente quanto possível) conversa com os iranianos. Não é uma jogada muito fácil…

O regime turco, que agora tem seus próprios problemas internos, foi primeiro um apoiador do regime sírio; mais tarde, um opositor feroz; e hoje parece não ser nem uma coisa, nem outra. Procura retornar à antiga posição de uma Turquia pós-otomana que era um amigo poderoso de todo mundo.

Os curdos, ao buscarem a máxima autonomia (se possível, Estado independente de fato) travam negociações difíceis com todos os quatro Estados em que há populações curdas expressivas – Turquia, Síria, Iraque e Irã.
Israel não pode decidir de que lado realmente está. É contra o Irã e o Hezbollah, mas até há dois anos tinha relações muito estáveis com o regime do partido Baath, na Síria. Se apoiar os oponentes do regime sírio, arrisca-se a construir um regime pior, de seu ponto de vista. Mas para enfraquecer o Irã e o Hezbollah, não pode ser indiferente ao papel que o regime de Damasco joga, ao facilitar relações de proximidade entre o Irã e o Hezbollah. Por isso, Israel ora é verborrágico, sem consistência real, ora mantém-se calado.

Debates internos perturbam todos os Estados não-árabes que têm algum interesse na região: Rússia, China, Paquistão, Afganistão, França, Grã-Bretanha, Alemanha e Itália, para começar.

É um caos geopolítico, algo que exige, de cada um dos atores, manobras muito astutas, para não cometer erros desastrosos para seus próprios interesses. Nesse turbilhão de alianças – das globais às muito locais – em constante movimento, muitos grupos e sub-grupos consideram útil, taticamente, ampliar a escalada da violência.

A guerra civil síria é, no momento, o locus, do maior volume de violência no Oriente Médio e há poucas razões para esperar que ela cesse. Começou, ao contrário, a se espalhar pelo Líbano e Iraque, em particular. A maior parte dos atores teme que a difusão da violência, além de chocante, possa ao final ferir seus interesses, ao invés de promovê-los. Por isso, muitos atores procuram, de diversas maneiras, restringi-la. Mas poderão fazê-lo?

Quando o Exército de Libertação Popular marchou sobre Xangai em 1949 e estabeleceu um governo comunista, teve início nos Estados Unidos um debate enorme – e fútil. Foi focado no tema “Quem perdeu a China?”. Era como se a China fosse algo que outros pudessem perder. É provável que, muito em breve, haja debates em muitos países, sobre “Quem perdeu a Síria”. Na verdade, todos estes atores têm capacidade muito limitada de influir sobre os desfechos. O Oriente Médio está ficando fora de controle e precisaremos de sorte para evitar uma explosão.

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(*) Artigo publicado originalmente no site Outras Palavras
Tradução: Antonio Martins
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/33634/por+que+a+siria+pode+incendiar+o+oriente+medio.shtml

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Marinhas da Rússia e da China cumprem primeira missão conjunta

Marinhas da Rússia e da China cumprem primeira missão conjunta
Foto: RIA Novosti

Moscou e Pequim foram unânimes em qualificar como um sucesso a cooperação, pela primeira vez na história, entre navios de guerra de ambos os países no cumprimento de uma missão militar.

A operação visou garantir a segurança da operação de carga das armas químicas da Síria e a sua escolta do porto de Latakia até à costa da Itália.
O primeiro carregamento de substâncias tóxicas militares foi retirado da Síria a 7 de janeiro. O Ministério da Defesa da Rússia e o MRE chinês expressam a mesma opinião: a interação do cruzador porta-mísseis russo Petr Velikiy e da fragata Yancheng durante a missão decorreu com sucesso. Ambos os navios realizaram a escolta e acompanhamento da viagem do navio Ro-Ro dinamarquês Ark Futura com as armas químicas sírias a bordo.
Moscou e Pequim insistiram a nível diplomático que a eliminação das armas químicas sírias era parte da solução do problema sírio, referiu a esse respeito o perito em assuntos navais Prokhor Tebin. Foram também a Rússia e a China a usar o seu potencial militar para a sua resolução pacífica:
“Esta operação é importante para a China e para a Rússia. Especialmente para a China, porque esta é na prática a primeira vez que a China se vê envolvida numa missão militar naval importante longe do seu próprio território. A China participou em missões de combate à pirataria internacional, mas o seu papel foi bastante limitado. A Rússia e a China são parceiros estratégicos. Os dois países tendem a tomar posições semelhantes e frequentemente comuns relativamente a diversas questões de segurança internacional. Este tipo de interação entre os seus navios de guerra é necessário e útil.”
Durante a operação no Mediterrâneo, os navios russo e chinês mantiveram entre si uma distância rigorosamente definida pelos regulamentos navais e pelas ordens da missão. Durante toda a viagem de carregamento e transporte da carga, eles estiveram em comunicação permanente via rádio. Todos os movimentos eram rigorosamente coordenados. Para isso, segundo afirmou o comandante da força-tarefa da Marinha de Guerra da Rússia no Mediterrâneo capitão-de-mar-e-guerra Oleg Peshkurov, a bordo do Petr Velikiy foi criado um centro de comando coordenado. Durante a missão nesse centro se encontravam oficiais de ligação das marinhas da China, da Dinamarca e da Noruega.
A manutenção da segurança das operações de carregamento e transporte das armas químicas sírias não se limitou a evitar que as substâncias tóxicas pudessem contaminar o mar ou o pessoal que as manipulava. Durante uma missão militar nunca é de excluir a possibilidade de ocorrer alguma provocação, inclusivamente com recurso às armas. Os objetivos podem ser vários: impedir a operação, minar o prestígio da comunidade internacional e dos países encarregados da missão para retirar da Síria as armas químicas e destruí-las.
Também é elevada a probabilidade de existirem tentativas dos terroristas radicais islâmicos para capturarem pelo menos parte da carga transportada para futura chantagem ou uso dessas armas. Por isso o Petr Velikiye a Yancheng deviam não apenas seguir de ambos os lados, ou à vante e à ré, do navio dinamarquês que transportava a carga mortífera. A escolta pressupunha um controle conjunto da situação operacional tanto na superfície do mar, como no ar, como debaixo de água.
O sucesso nessa interação não foi alcançado apenas pela elevada prontidão dos marinheiros russos e chineses. Eles também tinham adquirido experiência ao longo das manobras conjuntas Interação Naval. As primeiras manobras de navios de guerra da história dos dois países decorreram no mar Amarelo em 2012. Um ano depois, as manobras foram repetidas no mar do Japão, no Golfo de Pedro o Grande, perto de Vladivostok. Em ambos os casos estiveram envolvidos até 25 navios de diferentes classes para treinar a interação na escolta de navios e no reabastecimento em alto mar. Os marinheiros russos e chineses também treinaram em conjunto manobras de defesa antissubmarino, antiaérea e anti-navio com o apoio de caças e helicópteros embarcados.
Para este ano estão previstas novas grandes manobras militares navais conjuntas da Rússia e da China. O cenário é o mesmo: o combate ao terrorismo no mar. Mas por enquanto o cruzador Petr Velikiy e a fragata Yancheng se encontram nas zonas que lhes foram destinadas no Mediterrâneo. Os navios estão prontos a continuar um trabalho coordenado para garantir a segurança da retirada de mais um carregamento de armas químicas sírias.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Os 4 passos para desmantelar o arsenal químico da Síria


O primeiro carregamento de armas químicas partiu nesta terça-feira do porto de Latakia, na Síria, a bordo de um navio dinamarquês, confirmou a ONU.

A remoção dos componentes químicos mais perigosos é o primeiro passo do acordo, respaldado pelas Nações Unidas, para eliminar o arsenal de armas químicas da Síria (que inclui gás sarin e mostarda) até junho.
O navio carregado de agentes químicos - que é escoltado por embarcações chinesas, dinamarquesas, norueguesas e russas - permanecerá próximo à costa até a chegada de mais um carregamento, que também será coletado.
A desativação das armas químicas do regime de Bashar al-Assad está programada para ter quatro passos, de acordo com a Missão Conjunta da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW, na sigla em inglês) e a ONU.
Entenda cada um deles:

1) Transporte

As autoridades sírias são responsáveis pelo armazenamento e transporte seguros das armas químicas provenientes de diversos galpões, identificados pelos inspetores internacionais em todo o país árabe. Elas devem ser levadas até Latakia.
A Rússia cedeu contêineres blindados de grande capacidade; os EUA, por sua vez, disponibilizaram barris de armazenamento e localizadores GPS para que a carga seja rastreada.

2) Embarque

Embarcação com primeiro carregammento de armas químicas (AP)
Remoção de componentes químicos mais perigosos é primeiro passo de acordo
A Rússia ficou encarregada da segurança das operações, e os EUA, do transporte e a descontaminação dos equipamentos. A China enviou dez ambulâncias e equipes de vigilância, enquanto a Finlândia cedeu uma equipe de emergência para o caso de acidentes.

3) Escolta naval

Dinamarca e Noruega enviaram navios de escolta militar, encarregados de transportar os agentes químicos a um porto italiano que não foi identificado. Os cargueiros também estarão acompanhados por embarcações militares da Rússia e da China.

4) Destruição

Ao chegar à Itália, os agentes químicos mais "críticos" serão transferidos a uma embarcação da Marinha americana, o MV Cape Ray, responsável por levá-los a águas internacionais - onde deverão ser destruídos em um tanque de titânio, num processo chamado de hidrólise.
Os materiais menos tóxicos serão levados a navios noruegueses e dinamarqueses, que por sua vez os transportarão a instalações comerciais onde serão neutralizados.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/01/140107_siria_armasquimicas_pai.shtml

domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre a intervenção na Síria - Tariq Ali (via Carta Maior)



     O objetivo da "guerra limitada", conforme foi colocado pelos Estados Unidos e seus vassalos europeus, é simples. O regime sírio estava restabelecendo lentamente seu controle sobre o país, contra a oposição armada pelo ocidente e seus Estados subordinados na região (Arábia Saudita e Qatar). Essa situação exigia um corretivo. A oposição, nessa deprimente guerra civil, precisava ser fortalecida militar e psicologicamente.
     Visto que Obama disse serem as armas químicas a "linha vermelha", elas foram obrigadas a entrar em jogo. ‘Cui prodest?’, como os romanos costumavam perguntar. Quem lucra? Certamente, não o regime sírio.
     Algumas semanas atrás, dois jornalistas do ‘Le Monde’ já haviam descoberto as armas químicas. A questão é a seguinte: se elas foram usadas, quem as utilizou? O governo Obama e seus simpatizantes gostariam que acreditássemos que Assad permitiu a entrada dos inspetores de armas químicas da ONU na Síria, e, em seguida, marcou sua chegada com um ataque químico contra mulheres e crianças, a cerca de 15 km de distância do hotel onde os inspetores estavam hospedados. Isso simplesmente não faz sentido. Quem realizou essa atrocidade?
     No Iraque, sabemos que os EUA utilizaram fósforo branco em Fallujah, em 2004 (lá não havia linhas vermelhas, exceto aquelas feitas com o sangue iraquiano); portanto, a justificativa permanece tão obscura como nas guerras anteriores.
     Desde a guerra e a ocupação do Iraque, o mundo árabe está dividido entre sunitas e xiitas. Apoiando as ameaças à Síria estão dois velhos amigos: Arábia Saudita e Israel. Ambos querem que o regime iraniano seja destruído. Os sauditas, por razões de facção, e os israelenses, porque estão desesperados para exterminar o Hezbollah. Esse é o fim de jogo que eles têm em vista e que Washington, depois de resistir um pouco, voltou a jogar. Bombardear a Síria é o primeiro passo.
     É tolice se preocupar muito com a Grã-Bretanha. Trata-se de um Estado vassalo, governado de fato por um governo nacional que inclui o trabalhismo parlamentar. Seus partidos políticos vêm aceitando situar-se permanentemente no "quintal da Casa Branca". Cameron empolgou-se com a guerra há alguns meses. Quando os EUA aderiram friamente à ideia, a Downing Street calou-se. Agora, está de volta à ação, com o pequeno Ed dizendo que apóia a guerra "relutantemente", a mais patética das posições. Parlamentares conservadores estão articulando uma resistência mais dura. Será que mais conservadores do que trabalhistas se posicionarão contrariamente? Veremos.
     Os iranianos reagiram com força e ameaçaram levar a cabo uma retaliação apropriada. Isso pode até ser um blefe, mas revela que, mesmo com um novo e "moderado" líder, elogiado pelos meios de comunicação ocidentais, essa postura não difere da de Ahmadinejad. O Teerã entende bem o que está em jogo e por quê. Cada intervenção ocidental no mundo árabe e em seus arredores piorou as condições. Os ataques planejados pelo Pentágono e seus parceiros da OTAN parecem propensos a seguir o mesmo caminho.
     Enquanto isso, no Egito, um Pinochet árabe está restaurando a "ordem" tradicionalmente, com o apoio um tanto envergonhado dos líderes do conglomerado EUA/UE.
Fonte: ZNet (http://www.zcommunications.org/znet)

Tradução: Felipe Corrêa