Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador França. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador França. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de janeiro de 2016

Na Síria, uma saída política bastante incerta - Le Monde Diplomatique Brasil


por Akram Belkaïd
No dia seguinte aos atentados de 13 de novembro em Paris, os Estados Unidos e seus aliados, incluindo a França, reafirmaram sua intenção de conduzir uma abordagem em duas frentes. De um lado, a continuação de uma ação militar de envergadura contra a Organização do Estado Islâmico (OEI) – muitas vezes designada pelo acrônimo pejorativo “Daesh”, que em árabe significa “Estado Islâmico no Iraque e no Levante” – e, de outro, a busca de uma solução política para a guerra civil na Síria. Pois bem, nos dois casos, os obstáculos persistem, e não são pequenos.
Quanto à ação militar, existem algumas nuanças na definição da “grande coalizão”, ou da “coalizão única”, como prefere o presidente François Hollande e como a concebem, cada um de seu lado, seus homólogos russo e norte-americano. Mas, oficialmente, o objetivo é “destruir” militarmente a OEI. Como? Prosseguindo com bombardeios aéreos, recorrendo de modo pontual a ações de forças especiais, secando os recursos financeiros da organização terrorista e, como repete o secretário de Relações Exteriores dos Estados Unidos, mediante um “envolvimento mais intenso das forças regionais”.
Os assassinatos de Paris no fundo não mudaram nada. A administração de Barack Obama continua firmemente contrária a uma intervenção terrestre, apesar da vontade manifestada dos representantes republicanos de acabar com a OEI. “Enviar tropas por solo levaria a repetir erros do passado, a menos que planejemos uma ocupação permanente [da Síria]”, declarou o presidente ao final da reunião do G20 na estação balneária turca de Antália, em 14 de novembro. Mensagem reiterada durante uma viagem à Ásia, com a seguinte explicação: o objetivo da coalizão continua sendo a redução do espaço geográfico controlado pela OEI, a fim de travar sua capacidade de atrair novos recrutas. “Obama vai fazer de tudo para manter o status quo até janeiro de 2017, deixando para seu sucessor a tarefa de tomar a eventual decisão de jogar o Exército em um novo atoleiro”, indica um diplomata norte-americano do alto escalão, que prefere permanecer no anonimato. 
Prova de realismo e prudência, essa preocupação em evitar um envolvimento militar terrestre alimenta um ceticismo geral quanto ao desmantelamento da OEI. “Quem vai libertar Raqqa e, sobretudo, Mossul? Não se retomam cidades com bombardeios aéreos. Enquanto o Daesh controlar esses dois pontos nevrálgicos, terá a capacidade de contra-atacar e retomar sua expansão geográfica”, decifra o cientista político iraquiano Omar Yasser. Em resposta, Benjamin J. Rhodes, conselheiro adjunto de segurança nacional norte-americano, insiste na “necessidade de apoiar as forças que já combatem a OEI em solo, a começar pelos destacamentos curdos”. 
Estes últimos aparecem como os únicos aliados eficazes da coalizão, pois nem a Turquia nem a Arábia Saudita parecem dispostas a enviar soldados. A primeira conduz “sua” guerra contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK),1 ao passo que a segunda dá prioridade à sua intervenção contra os rebeldes hutis no Iêmen (ler artigo na pág. 8). Mas o papel central dos curdos contra a OEI não gera unanimidade. A Turquia vê com maus olhos o apoio cada vez mais firme dos Estados Unidos aos peshmergas. Já o governo central de Bagdá os acusa de ter “anexado Sinjar” e exige a “restituição” da cidade retomada em meados de novembro pelas tropas curdas da Turquia e do Iraque, com apoio da aviação norte-americana.
Confrontados pela falta de possíveis aliados que possam interferir no campo de batalha, Washington e seus parceiros evocam então outra “união sagrada”. Esta última agruparia o Exército e as milícias do presidente sírio, Bashar al-Assad, bem como muitas outras facções rebeldes que combatem atualmente o regime de Damasco. Daí a importância de que se reveste o objetivo de uma paz negociada acompanhada de um processo de transição política. Em 14 de novembro, durante uma reunião em Viena, dezessete países participantes, entre os quais a Arábia Saudita, o Irã e a Turquia, bem como a União Europeia e as Nações Unidas, validaram seu apoio “a um cessar-fogo e a um processo conduzido pelos sírios a fim de estabelecer daqui a seis meses [...] um cronograma para redigir uma nova Constituição”.
A partir de 1º de janeiro, os diferentes partidos sírios e o governo de Al-Assad serão chamados a negociar as condições de um cessar-fogo que entraria em vigor em 14 de maio e seria seguido pela realização de “eleições” (sem mais detalhes) em 2017. Consideradas terroristas, a OEI e a Frente Al-Nusra, um braço da Al-Qaeda que constitui o segundo mais importante grupo armado depois da OEI, estão desde já excluídas desse diálogo, qualificado pelo secretário de Estado norte-americano, John Kerry, com um entusiasmo um pouco forçado, como a “única chance para a Síria”.
Como explica Hassan Hassan, especialista em Síria radicado nos Emirados Árabes Unidos, “as probabilidades de sucesso desse processo são muito fracas e correm o risco até de agravar a situação a longo prazo”. Primeira interrogação: a lista de participantes nas negociações, que deve incluir a Jordânia. Como Amã poderá resistir às pressões de Damasco, para quem o diálogo só pode acontecer com a oposição que tolera, como a Frente Popular para a Mudança e a Libertação? Ainda não sabemos, por exemplo, se o Exército Sírio Livre será aceito nos debates. Considerada “terrorista” por Al-Assad e por seu aliado russo, a facção agrupa ex-oficiais do Exército regular e foi por muito tempo a ponta de lança da rebelião, antes de ser suplantada pelas forças islamitas. Hoje, continua presente na província de Daraa e, como ela própria reconhece, já firmou alianças pontuais com grupos jihadistas.
 
Facção armada moderada?
Entretanto, a Jordânia deverá, principalmente, participar com Riad. A Arábia Saudita buscará impor grupos ditos “moderados”, mas que mantêm importantes laços militares com a Frente Al-Nusra e até já foram aliados da OEI. É o caso do Exército Ahrar al-Sham (“Homens Livres da Síria”), de inspiração ao mesmo tempo salafista e nacionalista (não recruta combatentes estrangeiros). Essa facção tenta há vários meses passar uma imagem moderada, embora esteja ativa no seio de uma aliança mais ampla, a Jaish al-Fatah (“Exército da Conquista”), na qual encontramos a Frente Al-Nusra e outras formações jihadistas.
Presente na província de Idlib e na periferia de Damasco, a Ahrar al-Sham, bem como seus parceiros e rivais no seio da Jaish al-Fatah, encontra financiamentos nos países do Golfo e na Turquia. Apresenta-se como uma alternativa – igualmente sunita – à OEI, que foi, no início, sua aliada, antes de tornar-se adversária em 2014. Há vários meses, participou de uma operação de sondagem para alistar aliados nas capitais ocidentais, principalmente em Washington. Resta saber se Damasco aceitará negociar com um grupo cujos membros originais foram libertados das prisões do regime em 2011 por radicalizar e, portanto, desacreditar uma contestação política até então essencialmente pacífica.2 “Se se busca um cessar-fogo, é preciso que a maioria das forças presentes esteja envolvida”, lembra um opositor sírio exilado na França. “O problema é que, com exceção do Exército Sírio Livre, nenhuma facção armada pode se dizer moderada. Na verdade, a diferença entre a Al-Nusra e a Ahrar al-Sham é tênue.”
Outro obstáculo no caminho da paz: o papel a curto prazo e o futuro de Al-Assad. Sobre esse assunto, diversos países ocidentais e seus aliados evoluíram pouco. Ninguém mais – nem França, Turquia e as monarquias do Golfo – considera a saída imediata do presidente sírio uma necessidade absoluta. Embora não deixem de lembrar sua responsabilidade no drama de seu país, a ideia de que possa participar da transição política é hoje aceita por todos. Nesse sentido, ele pode se gabar de ter obtido uma vitória diplomática, pois sua participação nas negociações é validada, bem como sua manutenção no poder durante o período que deverá conduzir às eleições, o que provoca a fúria e a irritação de muitos opositores. “O povo sírio não vai aceitar que Al-Assad tenha um papel na transição após todos os massacres que cometeu”, afirma Hisham Marwa, vice-presidente da Coalizão Nacional Síria (CNS), que reúne o essencial da oposição política não islamita do regime. Também lamenta a presença do Irã em um processo diplomático que ele acusa de ter apenas um objetivo: “Manter a todo custo Al-Assad no poder”. 
 
Um local de exílio para Al-Assad
Teerã continua sendo a apoiadora mais ativa e determinada do presidente sírio. Sobre o período de transição, o poder iraniano estima até que Al-Assad “não deva ser obrigado a deixar o poder” e que tenha “o direito de apresentar-se às eleições”. É uma hipótese com qual a Rússia, outra aliada de peso, não parece compactuar. Decidida a defender o regime, Moscou admite a partir de agora a ideia de que o presidente sírio deva entregar o poder ao final de um processo de transição negociado e de uma vitória militar em terra, ou, ao menos, de um importante reequilíbrio na relação de forças a favor de Damasco. Em junho passado, Vladimir Putin também sondou discretamente seus interlocutores argelinos e bielorrussos sobre a possibilidade de acolherem o clã de Al-Assad em exílio.
Segundo alguns diplomatas, apesar de a necessidade de renunciar, ou até de deixar o país, provavelmente ter sido sinalizada durante seu encontro em Moscou com o presidente russo em outubro, tal saída ainda não corresponde ao projeto do dirigente sírio. Mesmo sendo trabalhosa, a retomada por seu Exército de alguns territórios, principalmente no norte do país, convenceu-o de que uma derrota militar seria impossível a longo prazo, enquanto desfrutasse o apoio da Rússia e do Irã. Os atentados cometidos pela OEI em Paris apenas reforçaram sua determinação de permanecer no poder, custe o que custar. A instalação de um processo diplomático com perspectivas incertas lhe oferece um apoio suplementar para durar mais, enquanto aguarda o retorno hipotético de dias melhores. 
Akram Belkaïd
é jornalista.

1 Ler “L’emballement guerrier du président turc” [O cavalgar guerreiro do presidente turco], Le Monde diplomatique, set. 2015.
2 Cf. Hala Kodmani, “Syrie: qui se cache derrière l’Armée de la conquête?” [Síria: quem se esconde por trás do Exército da Conquista?], Libération, Paris, 30 jul. 2015

domingo, 15 de novembro de 2015

Polícia francesa diz que suspeito está foragido; o que se sabe sobre os autores dos ataques a Paris BBC Brasil

O belga Abdeslam Salah, de 26 anos, alugou um dos veículos usados no atentado mais mortal da noite, à casa de shows Bataclan. A polícia informou que ele é perigoso e pediu para que ninguém tente abordá-lo.
Uma ampla rede policial foi formada desde a Grécia até os populosos subúrbios parisienses para identificar os autores dos atentados. Na tarde deste domingo, as autoridades francesas chegaram a informar que o número de vítimas fatais teria aumentado, mas a informação foi posteriormente corrigida. O total de mortos após os ataques é de 129.
Segundo o Ministério Público francês, ao menos sete atiradores agiram em conjunto divididos em três grupos. A maioria deles morreu ao detonar explosivos que carregavam em coletes.
"Temos que descobrir de onde eles vieram e como foram financiados", disse o promotor François Molins.
O ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve afirmou que aparentemente os ataques foram planejados fora da França, "por um grupo de indivíduos estabelecidos na Bélgica".
Segundo Cazeneuve, o grupo "teria se beneficiado de cúmplices na França".

Explosão no estádio

Três deles se explodiram do lado de fora do estádio Stade de France. Ao menos um deles tinha ingresso para a partida que ocorria entre Alemanha e França, onde estavam 80 mil espectadores.
Segundo o jornal The Wall Street Journal, seguranças do estádio encontraram os explosivos ao revistá-lo na entrada 15 minutos antes do início do jogo. Seu objetivo era detoná-los dentro da arena, onde estava o presidente francês François Hollande.
A detonação acabou ocorrendo quando policiais o retiravam do estádio. Não se sabe ao certo quantas pessoas morreram com esta explosão.
Outro atirador também se explodiu no restaurante Le Comptoir Voltaire, no boulevard Voltaire. Dos três homens envolvidos nos ataques à Bataclan, dois morreram ao detonar os explosivos de coletes que usavam. O terceiro foi morto pela polícia.

Histórico de crimes

Um dos atiradores foi oficialmente identificado como francês de origem argelina. Ismael Omar Mostefai, de 29 anos, era da cidade de Courcouronnes, ao sul de Paris. Os investigadores teriam usado suas impressões digitais para chegar a seu nome.
Ele tinha histórico de envolvimento com uma ala radical do Islã e era conhecido pelas forças de segurança do país, já tendo sido condenado por diversos crimes leves, mas nunca havia sido preso. Sete parentes de Mostefai foram detidos e estão sendo interrogados pela polícia.
Outro era um belga de 18 anos que que lutou na Síria, segundo uma autoridade do país. Promotores belgas dizem que outros dois também eram cidadãos da França e viviam em Bruxelas. Segundo a mídia francesa três dos atiradores eram irmãos, mas a polícia não confirmou esta informação.
A descoberta de um carro preto que teria sido usado como um veículo de fuga pode indicar que um ou mais atiradores escaparam com vida. O carro foi encontrado abandonado no subúrbio de Montreuil com várias armas automáticas em seu interior, além de pentes de munição vazios e cheios.
Por sua vez, a Alemanha investiga o possível envolvimento de um homem preso na Baviera há dez dias após ser flagrado com armas e explosivos em seu carro.

'Capital da abominação'

O grupo extremista autodenominado "Estado Islâmico" (EI) assumiu a autoria dos ataques por meio de um comunicado escrito em francês e árabe e também divulgado em uma versão em áudio. O anúncio aponta que os ataques foram uma resposta ao envolvimento da França em ataques aéreos contra militantes do EI na Síria e no Iraque.
"Irmãos usando coletes com explosivos e fuzis tinham como alvo lugares da capital francesa escolhidos com cuidado." O texto prossegue afirmando que Paris é a "capital da abominação e da perversão".
"Em um ataque facilitado por Alá, um grupo de fiéis e soldados do califado - que Alá lhe dê poder e vitória - tinham como alvo a capital da abominação e perversão, aquela que carrega a bandeira da cruz na Europa, Paris."
Fontes do governo britânico disseram à BBC que os atiradores fariam parte de uma célula independente do EI e que teriam viajado para a Síria.
A mídia francesa também reportou que um passaporte sírio pertencente a uma pessoa nascida em 1990 foi encontrado junto com o corpo de um dos autores do ataque ao Stade de France.
O governo grego informou que o detentor do passaporte sírio entrou na União Europeia pela ilha de Leros em 3 de outubro. No entanto, é importante lembrar que existe um amplo comércio ilegal de passaportes sírios em curso, e ainda não se sabe se o documento pertenceria de fato ao extremista.
Um passaporte egípcio também foi encontrado próximo de outro atirador no estádio. Mas, segundo o embaixador do país na França, ele pertencia as uma das pessoas que ficou ferida gravemente nos ataques, Waleed Abdel-Razzak.
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/11/151114_ataque_paris_atiradores_rb

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Desculpe, França: Rússia vai construir poderoso navio de assalto ao estilo Mistral. - Dinâmica Global




Que será feito sob medida para as necessidades e circunstâncias russas. A Rússia vai construir seu próprio navio de assalto anfíbio tendo a França recusado-se a vender a Moscou dois porta- helicópteros da classe Mistral.
Em 2011, França e Rússia assinaram um acordo de US$ 1,5 bilhão em Paris para construir dois navios de assalto anfíbio da classe Mistral à Rússia. Os navios já foram construídos e o primeiro estava programado para ser entregue em novembro passado, mas a França se retirou do acordo no último minuto por causa do papel da Rússia na crise da Ucrânia.
Desde que Paris começou a reconsiderar o acordo, tem havido relatórios periódicos de que a Rússia poderia construir seus próprios transportadores de helicóptero para substituir os navios Mistral.
Na verdade, já em outubro 2014, o contra-almirante Victor Bursuk, o vice-comandante-em-chefe da Marinha da Rússia, declarou: “Nós não somos dependentes da França, de qualquer forma, é apenas um dos contratos técnico-militares de cooperação e nada mais. O [russo] programa de construção naval planeja a construção de navios de guerra desta classe, e ele certamente vai ser implementado “.
A discussão dos navios de assalto anfíbio produzidos internamente pegou na Rússia nas últimas semanas, conforme a França mudou a postura para encerrar formalmente o contrato.
Por exemplo, em maio, enquanto representantes franceses estavam chegando na Rússia para discutir os termos do cancelamento, Oleg Bochkaryov, o vice-presidente russo da Comissão Militar-Industrial, disse a jornalistas locais: “Nós temos esses tipos de navios previstos.”
Na mesma época, houve uma série de relatórios que sugeriram que a Rússia havia recebido alguns dos projetos de design de classe Mistral da França, e, possivelmente, produziriam uma réplica dos navios Franceses-construídos. Bochkaryov negou estes relatórios, no entanto, dizendo que os navios de assalto anfíbio russos “serão construídos de acordo com uma classe diferente, pois temos uma ideologia diferente da aterrissagem de pára-quedista. Não há tarefa combinada de copiar Mistrals. ”
Outras autoridades russas depois tem negado que Moscou tinha recebido qualquer uma das tecnologias Mistral de Paris. Por exemplo, no mês passado, Denis Manturov, Ministro da Indústria e Comércio da Rússia, disse aos repórteres: “Qual a tecnologia que temos recebido? -.. Nada a partir de hoje [sic] “Ele permitiu, no entanto, que a Rússia “já teve a tecnologia de projeto modular do casco, apenas não tivemos nenhuma ordem, e houve o fornecimento da seção da popa e da proa-dianteira”.
Vladimir Pepelyayev, o chefe da divisão de construção naval no Centro de Pesquisa do Estado de Krylov, numa exibição de armas em São Petersburgo, elaborou sobre a forma como os navios russos se diferenciariam dos franceses que Moscou tinha a intenção de comprar. De acordo com Pepelyayev, o projeto russo “se adapta à tática de usar nossas forças, à nossa mentalidade e às nossas abordagens para operações anfíbias.”
Ele acrescentou: “o Mistral e outros tais navios estrangeiros… são adaptadas para coincidir com a “mentalidade Atlântica”. A tarefa de nossos navios é prestar assistência às tropas da linha de frente na defesa de nossas fronteiras, em outras palavras, o desembarque de grupos de assalto na parte traseira do avanço das forças inimigas. Naturalmente, eles são projetados de forma diferente.”
Pepelyayev passou a dizer que a sua empresa tinha passado as informações de design para a Marinha russa e está atualmente a espera de sua aprovação. “O conceito foi proposto para a Marinha para análise minuciosa. Vamos agora esperar que a Marinha pronuncie sua mentalidade.”
Ele também estimou que os navios custariam 30 bilhões de rublos (cerca de 550 milhões de dólares) para construir, e possivelmente menos. Cerca de 80 por cento deste custo iria para o armamento, enquanto os outros 20 por cento iriam para o casco.
Em relação ao cronograma para a construção do navio, Pepelyayev explicou: “O projeto conceitual vai levar cerca de 12 meses, para realizar o projeto e design e a documentação técnica um ano ou dois. A construção navio vai exigir mais três anos. “Outros especialistas têm dado um cronograma semelhante, dizendo que o navio poderia ser construído em 2020.
Como The National Interest tem enfatizado repetidamente, a Rússia está realizando um programa maciço de modernização militar, que planeja continuar apesar dos seus crescentes problemas econômicos. Como muitos dos sistemas de armas que são contemplados, é pouco claro o nível de prioridade que será dado ao navio de assalto anfíbio, um fator que será especialmente crucial se fatores econômicos forçarem Moscou a reduzir o esforço de modernização.
Na verdade, há alguma razão para acreditar que o assalto anfíbio não será uma prioridade de alto nível. Ou seja, as autoridades de segurança russas disseram que o fracasso da França em entregar os navios da classe Mistral vai “não definitivamente” impactar a defesa nacional da Rússia, e que o cancelamento “pode não ser mesmo considerado uma perda.”
Estas observações, no entanto, podem ter mais a ver com uma crença de longa data em certos círculos de defesa russos que Moscou deveria ter construído os navios no mercado interno desde o primeiro dia.

Autor: Zachary Keck

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com
Fonte: National Interest
https://dinamicaglobal.wordpress.com/2015/07/26/desculpe-franca-russia-vai-construir-poderoso-navio-de-assalto-ao-estilo-mistral/ 

domingo, 10 de novembro de 2013

Impasse sobre acordo com Irã mostra influência da França - Reuters





Por John Irish
PARIS, 10 Nov (Reuters) - A linha dura da França em negociações de grande potência com o Irã pode frustrar aqueles que procuram um acordo inicial sobre o programa nuclear de Teerã, mas está ajudando Paris a selar novas ligações estratégicas com países do Golfo e Israel.
O ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, surgiu logo após a meia-noite depois das negociações de sábado, em Genebra, para insistir que era necessário mais trabalho para eliminar o risco de uma bomba nuclear iraniana, irritando os aliados ocidentais, que acreditavam que eles estavam à beira de um acordo que iludiu os negociadores por uma década.
Embora a decisão do presidente François Hollande para posar para uma oportunidade de foto com o presidente iraniano, Hassan Rouhani, na Assembleia Geral da ONU, em setembro, levantou preocupações em Israel, e as autoridades francesas foram rápidas em insistir que a sua posição de negociação ficaria difícil.
Fabius salientou então que o Irã deve suspender a construção de seu reator de água pesada de Arak e suspender o enriquecimento de urânio para uma concentração de 20 por cento para ganhar um abrandamento das sanções internacionais que estão estrangulando sua economia.
Essas foram as mesmas exigências que citou no início do último dia de negociações no sábado, quando ele insistiu que a França não poderia aceitar um "jogo de otários" e entregar ao Irã uma vitória barata.
"Nós não mudamos a nossa posição. Ela sempre foi clara e constante", disse uma fonte diplomática francesa. "Se a percepção da Arábia Saudita e Israel é de que os Estados Unidos estão mais inclinados para um acordo sem firmeza, esta é análise deles - mas a nossa posição tem sido sempre a mesma".

sábado, 19 de janeiro de 2013

No Mali, não há uma guerra do bem contra o mal

Sem qualquer controle, sem debate, sem votação parlamentar, sem nenhuma sutileza. A Grã-Bretanha está agora envolvida em mais um conflito militar em um país muçulmano, fiquem sabendo. Aeronaves britânicas estão voando rumo ao Mali, enquanto a França bombardeia o país, argumentando que a milícia islâmica malinesa poderia criar um “estado terrorista” que ameaçaria a Europa. A Anistia Internacional e especialistas da África Ocidental alertam para o potencial desastre da intervenção militar estrangeira, mas as bombas “chovendo” nas cidades malinesas de Konna, Léré e Douentza sugerem que eles foram definitivamente ignorados.

A agonia no Mali surgiu apenas atualmente em nossas manchetes, mas as raízes são antigas. Como as outras potências coloniais ocidentais que invadiram e conquistaram a África a partir do século 19, a França usou táticas de dividir para reinar no Mali, levando a amargura entrincheirada entre os povos nômades Tuaregues – a base da revolta atual – e outras comunidades do Mali.

Para alguns ocidentais, este é um passado distante que deve ser ignorado, não remexido, e certamente não será usado para impedir nobres intervenções, mas as consequências ainda são sentidas diariamente. Inicialmente, o ministro de Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, sugeriu que o legado colonial descartaria uma intervenção liderada pela França, mas pode se dizer que o envolvimento direto francês ocorreu de forma muito mais rápida do que o esperado.

É que esta intervenção é, na verdade, consequência de outra. A guerra da Líbia é frequentemente apontada como uma história de sucesso para o intervencionismo liberal. No entanto, a queda da ditadura de Muammar Kaddafi teve consequências que os serviços de inteligência ocidentais provavelmente nunca sequer se preocuparam em imaginar. Tuaregues – que tradicionalmente vieram do norte do Mali – compunham grande parte do exército de Kaddafi. Quando o ditador foi expulso do poder, eles voltaram para sua terra natal: às vezes à força. Do mesmo modo, negros africanos foram atacados no pós-Kaddafi na Líbia, um fato incômodo amplamente ignorado pela mídia ocidental.

Inundados com armas da Líbia em tumulto, tuaregues viram uma abertura para seu sonho de longa data rumo à autodeterminação nacional. Com a propagação de uma rebelião, o democraticamente eleito presidente malinês Amadou Toumani Touré foi deposto em um golpe militar e o exército manteve a sua dominação – apesar de permitir que um governo civil lidere a transição para tomar o poder.

Pode não haver certamente simpatia pela milícia agora em luta contra o governo do Mali. Originalmente, eram os nacionalistas seculares do Movimento Nacional para a Libertação de Azawad que lideravam a revolta, mas eles já foram deixados de lado por jihadistas islâmicos com uma velocidade que chocou os analistas estrangeiros. Em vez de alcançar a independência tuaregue, eles têm ambições muito mais amplas, ligando-se a grupos semelhantes do norte do Nigéria. A Anistia Internacional relata atrocidades horrendas: amputações, violência sexual, o uso de crianças-soldado, e desenfreadas execuções extrajudiciais.

Mas não caiam em uma narrativa tão frequentemente empurrada pela mídia ocidental, que estereotipa aquilo que se considera o mal, assim como temos visto a brutal guerra civil imposta na Síria. A Anistia relata brutalidades por parte das forças do governo de Mali, também. Quando o conflito originalmente explodiu, tuaregues foram presos, torturados, bombardeados e mortos pelas forças de segurança, “aparentemente, apenas por motivos étnicos", diz a Anistia. Em julho passado, 80 presos detidos pelo exército foram despojados de suas roupas íntimas, encarcerados em uma cela de 5m², cigarros foram queimados em seus corpos, e eles foram obrigados a sodomizar um ao outro. Já em setembro de 2012, 16 pregadores muçulmanos pertencentes ao grupo Dawa foram presos em um posto de controle e sumariamente executados pelo exército. Estes são atos cometidos por aqueles que agora são nossos aliados.

Quando o Conselho de Segurança da ONU, por unanimidade, abriu o caminho para a força militar ser usada, especialistas fizeram avisos claros e que ainda devem ser ouvidos. O International Crisis Group pediu foco em uma solução diplomática para restaurar a estabilidade, argumentando que a intervenção poderia exacerbar um conflito étnico crescente. A Anistia advertiu que "uma intervenção armada internacional pode aumentar a escala de violações dos direitos humanos que já estamos vendo neste conflito". Paul Rogers, professor de estudos de paz na Bradford University argumentou que as guerras passadas mostram que "uma vez iniciadas, elas podem tomar direções alarmantes, ter resultados muito destrutivos, e muitas vezes aumentar os próprios movimentos que se destinam a combater".

É concebível que esta intervenção pode – por um tempo – atingir seus objetivos de empurrar as milícias islâmicas e reforçar o governo do Mali. Mas a guerra da Líbia foi vista como um sucesso, também, e aqui estamos agora, envolvidos com a seu efeito bumerangue catastrófico. No Afeganistão, as forças ocidentais permanecem engajadas em uma guerra sem fim, que já ajudaram a desestabilizar o Paquistão, levando a ataques que mataram centenas de civis e desencadeando mais caos. O preço das intervenções ocidentais pode muitas vezes ser ignorado pelos nossos meios de comunicação, mas ainda é pago.

A intervenção ocidental liderada pela França, apoiada pela Grã-Bretanha e com possíveis ataques dos norte-americanos, sem dúvida, estimula a narrativa promovida pelos grupos radicais islâmicos. Como aponta o professor Rogers, a ação no Mali vai ser retratada como "mais um exemplo de um ataque contra o Islã". Com o alcance rápido e moderno da comunicação, grupos radicais na África Ocidental usarão esta escalada de guerra como prova de outra frente aberta contra os muçulmanos.

É preocupante – para dizer o mínimo – como o primeiro-ministro britânico, James Cameron, conduziu a Grã-Bretanha no conflito do Mali, sem sequer uma pretensão de consulta. As tropas não serão enviadas, nos é dito, mas o termo "planejamento deficiente" existe por uma razão: é uma escalada que certamente poderia provocar maior envolvimento britânico. O Ocidente tem um histórico terrível de alinhar-se com o mais duvidoso dos aliados: o lado que escolheram está longe dos direitos humanos que democratas os democratas amam.

Mas as consequências podem ser mais profundas. Além de espalhar caos pela região, a França já mapeou seus alvos que podem ser atingidos por terroristas, e o mesmo podem acontecer com seus aliados. É uma responsabilidade de todos nós questionar o que nossos governos estão fazendo em nossos nomes. Se não aprendermos com o que ocorreu no Iraque, Afeganistão e Líbia, então não haverá esperança.

* Owen Jones é colunista do jornal britânico The Independent. Siga-o em twitter.com/@owenjones84
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21514 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Dilma embarca para viagem à França e à Rússia





http://ri.simi.org.br/files/2011/04/brasil-franca-ao-vivo.png

     A presidenta Dilma Rousseff viaja daqui a pouco, às 10h, para Paris, capital francesa, onde ficará até quarta-feira, depois segue para Moscou, na Rússia. Em Paris, Dilma deverá concentrar sua atenção em três temas: medidas para conter os impactos da crise econômica internacional, que atinge principalmente os países da zona do euro (17 nações que adotam a moeda única), questões relacionadas à defesa, pois os franceses negociam a venda de aviões caças para o Brasil, e ciência, tecnologia e inovação.
     Dilma deve se reunir na segunda-feira com o presidente da França, François Hollande. Ambos conversaram há seis meses, na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, no Rio de Janeiro. Para negociadores franceses e brasileiros, um dos temas tratados será a venda de 36 caças franceses para o Brasil.  (Grifo meu)
     Em agosto, os ministros, Antonio Patriota, das Relações Exteriores, e Celso Amorim, da Defesa, se reuniram com autoridades francesas para conversar sobre o assunto. Os Rafale, da fabricante francesa Dassault, concorrem com os caças F/A-18E/F Super Hornet, da norte-americana Boeing, e com os Gripen NG, da sueca Saab. Mas o processo ainda está indefinido.
     Na terça-feira, Dilma e Hollande participam do seminário Fórum pelo Progresso Social - O Crescimento como Saída para a Crise, promovido pelo Instituto Lula e pela Fundação Jean-Jaurès. A proposta do seminário, segundo organizadores do evento, é promover uma reflexão e analisar os desafios impostos pela globalização.
     Participarão do seminário o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 12, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega. No total, foram convidados 25 pessoas consideradas de destaque internacional. Lula participará da mesa redonda intitulada Reflexões para o Futuro e Mantega dos debates sobre justiça social em uma economia globalizada.
     Durante a viagem à França, Dilma também quer conversar sobre a ampliação de parcerias com a França nas áreas de educação, ciência, tecnologia e inovação. Em discussão o programa Ciência sem Fronteiras. Depois, a presidenta segue para a Rússia onde deve permanecer até o final desta semana. A viagem à Rússia deve ser a última internacional de Dilma em 2012.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Carta Maior - A Batalha de Argel na América do Sul


         


Os choques elétricos, os métodos de interrogatórios, os sequestros em plena noite, a tortura sistemática, a guerra psicológica, os desaparecimentos e os voos da morte são técnicas que foram transmitidas pelos oficiais franceses aos militares sul-americanos. O cérebro destas doutrinas foi o coronel Roger Trinquier (foto). Professor na Escola das Américas dos EUA, Trinquier é o maior ideólogo francês da guerra suja cujo lema principal, a partir dos anos 50, foi que “a tortura é um elemento importante na guerra moderna contrarrevolucionária”. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.
     Paris - “Uma vez na habitação e com a ajuda dos oficiais, agarramos Bem M’Hidi e o penduramos de tal maneira que pudesse parecer um suicídio”. A prosa do veterano general Paul Aussaresses não brilha pela originalidade, mas sim por sua precisão quando descreve as múltiplas ações ilegais que ele e seus homens protagonizaram na Argélia. A cena exposta aqui detalha o assassinato de um dos responsáveis do FLN argelino e não é mais que uma gota d’água na extensa descrição dos assassinatos premeditados organizados por oficiais do exército francês: torturas, execuções sumárias, assassinatos disfarçados de suicídios, matança de civis e utilização de helicópteros para jugar pessoas detidas com vida na Baía de Argel são moeda corrente ao longo de seu livro “Serviços Especiais, Argélia 1955-1957”.
     O militar francês foi julgado por apologia da tortura. Sua história, sua passagem pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) de Manaus como instrutor se nutrem de um passado, de duas guerras, Indochina e Argélia, e de quatro personagens centrais que, a partir de meados dos anos 50, alimentaram com suas teorias contrarrevolucionárias os militares da América do Sul. O “ensino” começou na Argentina a partir dos anos 50. O primeiro contato entre os exércitos da França e da Argentina ocorreu no ano seguinte à queda do general Perón, em 1957. O coronel argentino Carlos Rosas, recém-egresso da Escola de Guerra de Paris, posteriormente subdiretor da Escola de Guerra de Buenos Aires, criou um ciclo de estudos sobre “a guerra revolucionário comunista”. Foi neste marco que chegaram a Argentina os tenentes coronéis François-Patrice Badie e Patrice de Naurois.
     Uma nota do futuro chefe da Polícia Federal argentina sob a ditadura de Videla, o general Ramón Camps, ilustra a importância dos dois visitantes: “seus cursos – escreve Camps – estavam diretamente inspirados na experiência francesa na Indochina e aplicada neste momento na Argélia”.
     Em setembro de 1958, o ministro francês da Defesa, Pierre Guillaumat, autorizou que 60 soldados argentinos que haviam seguido esses cursos especiais fossem a Argélia, em plena guerra, em “viagem de estudos”. Outros 60 soldados viajaram no mesmo ano com destino a Paris e, em 1960, a cooperação entre exércitos deu lugar à criação de uma missão militar francesa permanente na Argentina. Composta por três oficiais superiores, sua missão consistia em “aumentar a eficácia técnica e a preparação do exército argentino”.
     Nesse mesmo ano, Pierre Messmer, ministro da Defesa, enviou a Buenos Aires o chefe do Estado Maior do Exército, general André Demetz, e o coronel Henri Grand d’Esson. D’Esson é um personagem chave: foi que ele que realizou na Escola de Guerra de Buenos Aires a célebre conferência na qual descreve cada um dos aspectos da guerra subversiva e, sobretudo, o papel central do exército no controle “social da população e na destruição das forças revolucionárias”. Esse texto de 22 páginas foi publicado sob o título “Guerra Subversiva” na Revista da Escola Superior de Guerra, nº 338, Julho-Setembro de 1960. Todas essas ideias, viagens e experiências trocadas desembocarão numa espécie de cooperação continental baseada na dupla experiência dos franceses e dos argentinos.
     Assim, em julho de 1961, o general Spirito, chefe do Estado Maior argentino, propôs a seus colegas da Conferência dos Exércitos da América a criação de um Curso Interamericano de luta antimarxista que seria ministrado por um ex-aluno argentino da Escola de Guerra de Paris, o coronel López Aufranc. Um total de 39 oficiais, representando 13 países, incluindo os EUA, assistiram a esses cursos. Em uma mensagem enviada à chancelaria francesa, o embaixador francês na Argentina explica: “cabe assinalar a presença de militares norte-americanos em um curso onde se deu um espaço importante ao estudo da luta antimarxista em um espírito e segundo os métodos baseados na experiência do exército francês”.
     Daí ao Plano Condor há uma rota sem obstáculos na qual se mesclam Videla, presente às aulas onde estavam os instrutores franceses, e o plano Conintes (Comoção interna do Estado). Entre 1963 e 1973 houve uma interrupção na colaboração francesa mas esta foi retomada a pedido dos argentinos.
     Nos anos 70 abre-se um novo capítulo. A França mandou a Buenos Aires o coronel Pierre Servant, ex-comandante da Indochina e da Argélia, especializado em “interrogatórios”. Em abril de 1974, Servant se encontrou em Buenos Aires com um dos atores do golpe de 76, o tenente coronel Reynaldo Bignone. Servant, que negou quase todos os fatos quando a justiça francesa o interrogou há alguns anos, trabalhou no Escritório nº 3, situado no 12º andar do quartel general do Exército argentino e deu cursos nessa sede e nas províncias. Sem ligações com a embaixada francesa, Servant estava vinculado ao Secretariado Nacional da Defesa Nacional (SGDN), organismo controlado então pelo novo primeiro ministro e ex-presidente francês Jacques Chirac.
     Bussi, Videla, Bignone, Vilas, Harguindeguy, todos estiveram em contato com Servant, beberam a cultura da tortura francesa e absorveram os livros teóricos de Trinquier como se fossem água benta. Servant deixou a Argentina em outubro de 1976, Aussaresses foi para o Brasil em pleno golpe de Estado.
     O Plano Condor já estava em marcha. Uma nota de Henry Kissinger (ex-secretário de Estado dos EUA) distribuída nas embaixadas norte-americanas da Europa adverte que o grupo “murder” (assim era denominado o Plano Condor) operaria na velho continente, especialmente em Paris. A sede argentina do dito plano, o Centro Piloto, estava localizada no nº 83, da Avenida Henry Martin.
      O cérebro destas doutrinas é o coronel Roger Trinquier. Professor emérito na Escola das Américas dos EUA, Trinquier é o maior ideólogo francês da guerra suja cujo sermão principal foi assegurar a partir dos anos 50 que “a tortura é um elemento importante na guerra moderna contra revolucionária”. A maior parte da estrutura “antirrevolucionária” foi elaborada por Trinquier. Os historiadores da Guerra da Argélia e da Indochina, que estabeleceram os nexos entre as práticas aplicadas durante esses conflitos e as que se viram depois na Argentina, Uruguai, Chile e Brasil tiram uma clara conclusão: o aperfeiçoamento do choque elétrico, a radiografia das agendas dos detidos, os sequestros em plena noite, a tortura sistemática, a guerra psicológica, os desaparecimentos, o uso de arquivos e os voos da morte são técnicas transmitidas pelos oficiais franceses.
      Em um artigo de 4 de janeiro de 1981, publicado pelo diário argentino La Prensa, o general Ramón Camps assegurou que essas missões e cursos começaram “sob a direção dos tenentes coronéis Patrice de Naurois e François-Pierre Badie”. Aquelas sessões serviram para transmitir as experiências dos oficiais franceses nas guerras da Indochina e da Argélia. Os documentos existentes provam que esses ensinamentos se baseavam essencialmente nos trabalhos escritos por outro militar francês que confessou a prática da tortura na Argélia, o general Massu. O essencial, porém, foi “ensinado” pelo general Salan e, sobretudo, pelo tenente coronel Roger Trinquier.
      Uma nota do general Massu, com data de 19 de março de 1957, argumenta em defesa de um dos princípios aplicados depois pelas ditaduras militares da América do Sul: “não se pode lutar contra a guerra revolucionária e subversiva protagonizada pelo comunismo internacional e seus intermediários com os procedimentos clássicos de combate. É preciso utilizar métodos e ações clandestinas e contrarrevolucionárias. É preciso que esses métodos sejam admitidos com a alma e nossas consciências como necessários e moralmente válidos”. Essa é a parte mais “filosófica” do “combate” contrarrevolucionário. A definição da ação prática corresponde a Trinquier, redator de números manuais militares difundidos na Argentina.
      O tenente coronel Trinquier é o “organizador do conceito de guerra moderna”. Essa guerra se articula em torno de três eixos: a clandestinidade, a pressão psicológica e a moralidade estrita. Se se observam os dispositivos técnicos aplicados na Argélia, em seguida pode-se “ler sua tradução” na Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Brasil. Trinquier inventou um sistema de busca da informação conhecido na França como Destacamentos Operacionais de Proteção (DOP). Esse mesmo sistema foi adotado na Argentina mediante as forças tarefa. O leitor não pode senão assombrar-se com as semelhanças entre os DOP e as forças tarefa. Os DOP tinham a tarefa de interrogar os detidos argelinos e utilizavam a tortura. Eles arrancavam informação sobre a organização político-administrativa dos rebeldes e realizavam a prisão e a eliminação dos suspeitos em lugares ocultos. Essas mãos das sombras que foram as forças tarefa se inspiraram técnica e operacionalmente em todo o aparato repressivo dos DOP franceses.
     Na Argélia, Trinquier elaborou a “doutrina da clandestinidade” que mais tarde causaria estragos durante os golpes de Estado na América do Sul: repressão baseada no ocultamento dos centros de detenção, desaparecimento de pessoas e eliminação dos corpos. O recurso a pessoal militar trajado como civis em comandos que percorriam à noite os centros urbanos em busca de vítimas ou de suspeitos para torturar é uma técnica implementada em Argel pelo general Aussaresses e Massu que foi importada para a Argentina por meio das missões de Patrice de Naurois e François-Pierre Badie, Trinquier teorizou por escrito sobre as bases da guerra suja e seus “manuais” se tornaram palavra sagrada nas academias nacionais.
     O cronograma das missões francesas à Argentina permite situar com exatidão que foi a ditadura de Onganía a que começou a se alimentar com esses ensinamentos. Um testemunho direto do general Campos demonstra a “irmandade” técnica e moral que existia entre o corpo de oficiais argentinos e os “missionários” que vinham de Paris com a mala repleta de métodos para matar. No mesmo artigo citado anteriormente (4 de janeiro de 1981), Camps declarou, como uma forma de homenagem: “Na Argentina primeiro recebemos a influência francesa, depois a norte-americana. Aplicamos as duas respectivamente de maneira separada e depois conjunta tomando os conceitos de ambas até que a norte-americana predominou. Mas é preciso dizer que a concepção francesa era mais exata que a norte-americana. Esta última se limitava quase exclusivamente ao aspecto militar enquanto a francesa consistia em uma visão global”.
     As metodologias se alimentam umas das outras. O general francês Paul Aussaresses foi instrutor militar na base norte-americana de Fort Bragg, Carolina do Norte, a escola dos paraquedistas norte-americanos onde se treinavam as “forças especiais” antes de elas irem para o Vietnã. Um texto ilustrativo escrito pelo coronel francês Henri Grand D’Esnon e destinado exclusivamente às forças armadas argentinas permite compreender como se elaboraram as bases “práticas” para que os generais argentinos incluíssem na vida civil. Gran D’Eson afirma que “a destruição da organização político-administrativa revolucionária corresponde à polícia, mas o exército deve apoiar essa ação toda vez que os métodos da polícia resultarem insuficientes, situação que se produz frequentemente quando a subversão se generaliza” (trecho de “A Guerra Subversiva”, artigo publicado na Revista da Escola Superior de Guerra, nº 338, Julho-Setembro de 1960).
       O general Aussaresses reconheceu que ensinou “a tortura e as técnicas de interrogatório da Batalha de Argel” aos militares brasileiros e também norte-americanos. Isso ocorreu na época em que ele era professor em Fort Bragg. Nesse quartel geral dos Estados Unidos, Aussaresses conheceu o coronel Carl Bernard, a quem mostrou um rascunho do livro do coronel Trinquier, “A Guerra Moderna”. Bernard e Aussaresses resumiram o livro e o enviaram a Robert Komer, um agente da CIA que será nomeado conselheiro do presidente norte-americano Lyndon Johnson durante a Guerra do Vietnã. Segundo o coronel Bernard, Komer montou a operação Fênix a partir do resumo do Manuel de Trinquier. A Operação Fênix foi lançada no Vietnã no final dos anos 60: seus métodos são os mesmos que foram empregados depois na Argentina, Chile, Uruguai e Brasil.
 Tradução: Marco Aurélio Weissheimer