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segunda-feira, 2 de março de 2020

No Iraque, a dança do sabre entre Estados Unidos e Irã - Le Monde Diplomatique Brasil


A febre baixou entre Washington e Teerã, mas os enfrentamentos podem reacender a qualquer momento por causa das manifestações no Irã, do calendário eleitoral norte-americano, do estado de desenvolvimento do programa nuclear da República Islâmica… ou simplesmente porque a rivalidade oferece fundamentos que organizam os dois países

Seja em sua versão moderna, com sabres de luz, seja em sua versão arcaica, com cimitarras nos países árabes do Golfo, o combate coreografado tem este paradoxo: trata-se de um desafio entre supostos inimigos que requer um bom entendimento entre os protagonistas. Uma fração significativa da opinião pública árabe acredita que as relações conflituosas entre os Estados Unidos e o Irã no Iraque inscrevem-se nesse paradoxo. Para aqueles que sofrem de “conspiracionite”, tudo não passa de um acordo secreto entre as duas partes; para os mais realistas, trata-se de um confronto do qual ambos se beneficiam e que, portanto, têm interesse em perpetuar.

Mantendo a tensão, os Estados Unidos garantem a lealdade de seus protetorados regionais e continuam a lhes vender seus bilhões de dólares em armas. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos foram respectivamente o segundo e o quarto maior importadores de armas entre 2013 e 2017, e o primeiro e o terceiro maiores importadores de armas dos Estados Unidos em 2018; no mesmo ano, a Arábia Saudita se manteve como o terceiro país do mundo em gastos militares, logo após os Estados Unidos e a China, de acordo com o Stockholm International Peace Research Institute (Sipri). Para o Irã, a continuidade das tensões permite consolidar o domínio da ala ideológica mais rígida do regime, cuja espinha dorsal é composta pelo complexo econômico-militar do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica, os pasdaran (“guardiões”).

É preciso reconhecer que as suspeitas árabes não são infundadas. A história das relações entre os Estados Unidos – especialmente sob as administrações republicanas – e a República Islâmica do Irã, desde seu nascimento, há quarenta anos, dá motivos para preocupações. A posse de Ronald Reagan, em 20 de janeiro de 1981, foi saudada em Teerã pelo fim da tomada de reféns na embaixada dos Estados Unidos. O jornalista Seymour Hersh revelou, dez anos depois, que a equipe de Reagan negociava desde 1980 o fornecimento de armas ao poder iraniano, efetivado logo após a posse do novo presidente, com a cumplicidade de Israel.1 Isso foi apenas um aperitivo do fornecimento de armas que seria realizado entre 1985 e 1986, um escândalo que viria a público com o caso que ficou conhecido como Irãgate: o governo Reagan vendeu armas ao Irã, por intermédio de Israel, e entregou ilegalmente os recursos provenientes da venda à guerrilha contrarrevolucionária da Nicarágua.

Para os Estados Unidos e para Israel, a lógica óbvia era prolongar a guerra entre o Irã e o Iraque, iniciada por este último em 1980. Até ser esmagado pelos Estados Unidos, em 1991, o Iraque seguiu sendo o principal inimigo do Irã. Em 1981, a Força Aérea israelense, aproveitando a entrada do Iraque na guerra, destruiu o reator nuclear que a França estava construindo para Saddam Hussein. Quando a maré mudou, em 1982, e o Iraque se viu em dificuldades, os Estados Unidos ficaram contentes com o apoio da França ao regime de Saddam Hussein, a qual emprestou combatentes retirados da frota aérea da Marinha francesa. Com o Irã em desvantagem, as vendas de armas em 1985-1986 ajudaram a restaurar o equilíbrio de um conflito que terminaria em 1988 com um empate entre dois países extenuados.

O governo de George H. W. Bush teve, é verdade, o cuidado de não derrubar o regime de Saddam Hussein em 1991, temendo que o Irã preenchesse o vácuo político assim criado. A estratégia de estrangulamento dos dois países continuaria na forma da “dupla contenção” dos anos 1990, por meio de embargos e sanções. Esse equilibrismo teria fim, no entanto, sob a presidência de George W. Bush. Ao invadir o Iraque em 2003, o governo Bush II colocou o lobo entre as ovelhas da forma mais direta possível: permitiu que voltassem ao país os membros exilados dos dois principais partidos confessionais xiitas iraquianos ligados ao Irã, o partido islâmico Dawa (“Propagação da religião”) e a Assembleia Islâmica Suprema do Iraque (Isci).

Esse foi o início de uma longa colaboração semidireta entre os Estados Unidos e o Irã em solo iraquiano. Os dois partidos xiitas pró-iranianos foram instalados no comando do Iraque pela ocupação norte-americana. Ambos estavam representados no conselho de governo criado em 2003 e fariam parte, depois de todos os governos provisórios, até do governo “permanente” criado em 2006. Desde 2005, todos os governos iraquianos foram presididos por um membro de uma das duas formações: Ibrahim al-Jaafari (2005-2006), Nouri al-Maliki (2006-2014) e Haidar al-Abadi (2014-2018), todos membros do partido Dawa, seguidos em outubro de 2018 por Adel Abdel-Mahdi, ex-membro da Isci, que participou de todas as instâncias governamentais criadas pela ocupação desde 2003.

A mudança de estratégia das autoridades de ocupação após 2006, que consistiu em contar com o apoio das tribos árabes sunitas na luta contra o Estado Islâmico do Iraque, precursor direto do Estado Islâmico, não permitiu contrabalançar a dominação dos partidos ligados ao poder iraniano, ainda mais quando essa dominação foi legitimada pelo sistema político e eleitoral confessional que as mesmas autoridades de ocupação implantaram, inspirando-se no modelo libanês. Os árabes sunitas iraquianos constituíram, junto com ex-membros do Partido Baath e das forças especiais de Saddam Hussein, um terreno fértil para que grupos que lutavam contra a ocupação norte-americana fizessem seu recrutamento; mas eles começaram a temer a partida das tropas dos Estados Unidos, vistas como um contrapeso insubstituível à dominação dos partidos xiitas do Irã.

Washington pediu resgate
O principal arquiteto dessa forte influência dos auxiliares do poder iraniano sobre o Iraque foi o general Qassim Suleimani, chefe do corpo de intervenção externa dos pasdaran, a força Al-Quds (“Jerusalém”, em árabe e farsi), assassinado pelos Estados Unidos no dia 3 de janeiro, em Bagdá. Ele era normalmente descrito como o procônsul do Irã nas províncias árabes de seu império regional. Depois de um longo tempo limitadas ao Hezbollah libanês (oficialmente fundado em 1985), as tropas auxiliares do Irã tiveram um desenvolvimento considerável no Oriente Médio árabe graças, primeiro, à invasão do Iraque e, em seguida, ao atolamento da Síria e do Iêmen na guerra civil, a partir de 2012 e de 2014, respectivamente. O Irã chegou a controlar, por meio de auxiliares locais, um eixo geopolítico que vai da fronteira ocidental ao Mediterrâneo, incluindo os três países dessa área: Iraque, Síria e Líbano.

A reputação de grande estrategista que cercava Suleimani é, porém, um tanto exagerada. Ele não obteve a vitória em nenhuma das guerras que supervisionou. O domínio iraniano no Iraque foi garantido pela gentil colaboração dos Estados Unidos. A intervenção na Síria, a partir de 2013, sob o comando de Suleimani, das forças confessionais xiitas provenientes do Líbano e do Iraque, bem como de outros elementos recrutados entre os refugiados afegãos xiitas no Irã só conseguiu garantir temporariamente o poder de Bashar al-Assad. Dois anos depois, o regime estava novamente em apuros, e o próprio Suleimani precisou pedir ajuda à Rússia.2

Quando o Estado Islâmico cruzou a fronteira entre a Síria e o Iraque, no verão de 2014, conseguindo tomar uma parte considerável do território iraquiano, a debandada das tropas do governo de Bagdá dominado pelo Irã quase pôs tudo a perder. Temendo que os jihadistas chegassem à capital, o Iraque pediu, com o apoio do Irã, o retorno das tropas norte-americanas. Estas combateram o Estado Islâmico em solo iraquiano, colaborando com as Unidades de Mobilização Popular – conjunto de forças paramilitares dos partidos árabes xiitas concebido como o equivalente iraquiano dos pasdaran – e com as forças do Curdistão iraquiano, paralelamente à colaboração com as forças árabe-curdas também contra o Estado Islâmico na Síria.

Foi por meio do braço direito iraquiano de Suleimani, conhecido pelo pseudônimo de Abu Mehdi al-Muhandis, oficialmente o número dois das Unidades de Mobilização Popular – porém mais prestigiado que o número um oficial –, que o Irã liderou essas milícias. Al-Muhandis foi assassinado junto com Suleimani no dia 3 de janeiro. Seu itinerário é revelador. Membro do partido Dawa, ele se refugiou no Irã logo após a vitória da Revolução Islâmica, lutando nas fileiras iranianas contra seu próprio país durante a guerra iniciada pelo Iraque em 1980. Engajado nas operações estrangeiras dos pasdaran, organizou os atentados às embaixadas da França e dos Estados Unidos no Kuwait em 1983, quando esses países apoiavam o Iraque.3

De volta ao Iraque em 2003, ele foi nomeado conselheiro de segurança do primeiro-ministro Al-Jaafari e, em seguida, eleito para o Parlamento, em 2005, enquanto criava e dirigia o Kataeb Hezbollah (“Brigadas do partido de Deus”), com o apoio iraniano. Quando seus reveses se tornaram evidentes, em 2006, as autoridades da ocupação descobriram (ou se lembraram oportunamente) que Al-Muhandis havia organizado os ataques no Kuwait. Ele precisou mais uma vez fugir para o Irã, de onde só retornou oficialmente após a retirada das tropas norte-americanas em 2011.

A colaboração entre norte-americanos e iranianos no Iraque, com a ajuda dos iraquianos fiéis ao Irã, continuou sem maiores incidentes sob a presidência de Trump. Este nunca expressou o desejo de acabar com a presença de tropas norte-americanas no Iraque – e por boas razões. Na verdade, Trump adere de forma muito mais franca do que seus antecessores ao princípio que consiste em envolver as forças dos Estados Unidos apenas onde há um interesse evidente: não na Síria, ao lado das forças curdas, nem no Afeganistão, mas certamente junto às monarquias petrolíferas do Golfo, que cobrem (muito amplamente) o custo da presença dos Estados Unidos em seu território, e certamente no Iraque.

O choque do levante iraquiano
Como afirmou muitas vezes durante sua campanha presidencial de 2016, Trump acredita que os Estados Unidos devem assumir o controle dos recursos petrolíferos do Iraque para compensar o esforço de guerra que ali fizeram durante anos. É essa mesma lógica que o faz responder agora ao governo iraquiano que suas tropas não deixarão o país a menos que isso seja bem pago. No entanto, é o Iraque que teria o direito de exigir uma indenização por perdas e danos diante da devastação causada pelo poder norte-americano, isso sem falar dos bilhões de dólares que evaporaram sob a ocupação.4

Dois elementos explicam a deterioração, nos últimos meses, das relações entre os Estados Unidos e o Irã no Iraque. O primeiro deles é o aumento considerável da pressão econômica exercida sobre o Irã pelo governo Trump desde a rejeição, em maio de 2018, do acordo de 2015 sobre a questão nuclear iraniana. O governo iraniano respondeu atacando os aliados sauditas dos Estados Unidos por intermédio dos hutis iemenitas – uma intermediação real ou suposta, como no bombardeio de instalações de petróleo sauditas em 14 de setembro de 2019, por drones e mísseis de cruzeiro.5 A fraca reação de Trump alarmou a Arábia Saudita.

O segundo elemento é uma ameaça mais direta. De acordo com uma pesquisa da agência Reuters junto a comandantes das Unidades de Mobilização Popular e a autoridades de segurança iraquianas, Suleimani se reuniu em Bagdá, em meados de outubro, com os líderes das milícias aliadas ao Irã na presença de seu braço direito iraquiano, Al-Muhandis.6 Isso se deu no contexto da revolta iniciada em 1º de outubro pelos xiitas iraquianos contra o domínio iraniano e seus aliados corruptos do Parlamento e do governo.7 A revolta certamente foi um grande choque para o Irã e particularmente para Suleimani, colocando em questão o domínio iraniano sobre o Iraque por meio de alianças confessionais.

O objetivo da reunião de outubro teria sido chegar a um acordo sobre uma série de operações não reivindicadas contra a presença dos Estados Unidos no Iraque, para as quais o Irã já havia entregado recursos militares adequados. “O plano de Suleimani […] pretendia provocar uma resposta militar, para desviar contra os Estados Unidos a cólera popular crescente.”8 A explosão de protestos populares contra o regime teocrático no próprio Irã, em meados de novembro, só poderia aprofundar a necessidade, por parte deste, de uma manobra diversionista.

O recrudescimento dos ataques realizados em dezembro pelas forças pró-iranianas no Iraque contra a presença norte-americana atingiu um pico no dia 27, quando cerca de trinta mísseis caíram em uma base iraquiana próximo a Kirkuk, matando dois contratados norte-americanos e ferindo outros três, além de dois iraquianos. Dois dias depois, os Estados Unidos responderam pesado, bombardeando uma base do Kataeb Hezbollah, o que matou mais de 25 milicianos e feriu outras dezenas. A marcha estava bem engatada. O ataque de 31 de dezembro realizado pelo Kataeb Hezbollah contra a embaixada dos Estados Unidos no chamado perímetro da “zona verde” em Bagdá, porém protegido pelas tropas oficiais iraquianas, levou a irritação de Trump ao máximo.

A perturbadora lembrança do cerco à embaixada em Teerã em 1979-1981 e, ainda mais, do ataque aos prédios diplomáticos dos Estados Unidos em Benghazi, na Líbia, em setembro de 2012, que resultou na morte do embaixador e de outras autoridades norte-americanas e cuja responsabilidade foi atribuída – sobretudo pelo próprio Trump – ao presidente Barack Obama e à sua secretária de Estado, Hillary Clinton, certamente levaram o presidente dos Estados Unidos a reagir com força. Ele decidiu atacar diretamente no topo, ordenando a liquidação de Suleimani e Al-Muhandis.

O regime iraniano respondeu a esse assassinato de uma maneira muito moderada, com o lançamento de mísseis balísticos contra a base de Al-Assad e outras instalações, sem fazer vítimas. Logo se soube que as tropas norte-americanas haviam sido avisadas da iminência do ataque.9 O que não se sabe ao certo é a fonte do aviso. Seja como for, o Irã não podia ignorar o fato de que o uso de mísseis balísticos, em vez de mísseis de cruzeiro ou drones, provavelmente facilitaria a preparação das tropas norte-americanas. Assim, a operação apareceu como uma maneira de ambos os lados manterem as aparências, evitando o prosseguimento de uma escalada de guerra, pelo menos até segunda ordem.

É verdade que o Irã perdeu, na pessoa de Suleimani, um chefe militar de grande prestígio e valiosa experiência. Mas seu funeral, organizado em uma escala maior que o do aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1989, foi a oportunidade para uma enorme campanha de exaltação do nacionalismo iraniano. Os líderes da oposição interna e até partidários da monarquia derrubada em 1979 aderiram a essa união sagrada.10 Mas a confusão do Irã com o avião civil ucraniano abatido por engano pelos pasdaran (176 mortos) reacendeu um protesto antirregime que, embora esteja longe de se equiparar à mobilização em torno do funeral do chefe das forças Al-Quds, tem o mérito de enfrentar a repressão.

O que a mobilização anti-Estados Unidos não conseguiu sufocar, porém, foi a revolta, que coloca Irã e Estados Unidos lado a lado. A maioria da população iraquiana está chocada com o modo como a soberania do país é constantemente desrespeitada por dois Estados que pretendem, tanto um como outro, dominá-lo, transformando-o em campo de batalha. Para o futuro do Iraque, o surgimento do protesto popular que ignora a clivagem confessional entre xiitas e sunitas provavelmente continuará sendo o evento mais decisivo até agora.


*Gilbert Achcar é professor da École des Études Orientales et Africaines [Escola de Estudos Orientais e Africanos], da Universidade de Londres. Autor, entre outras obras, de Symptômes morbides. La rechute du soulèvement arabe [Sintomas mórbidos. A recaída da rebelião árabe], Actes Sud, Paris, 2017.



1 Seymour Hersh, “US said to have allowed Israel to sell arms to Iran” [Estados Unidos afirmam ter permitido que Israel vendesse armas ao Irã], The New York Times, 8 dez. 1991.

2 Laila Bassam e Tom Perry, “How Iranian general plotted out Syrian assault in Moscow” [Como general iraniano planejou, em Moscou, o ataque na Síria], Reuters, 6 out. 2015.

3 No mesmo ano, ocorreram no Líbano ataques atribuídos ao Irã contra as tropas francesas e norte-americanas e contra a embaixada dos Estados Unidos.

4 James Risen, “Investigation into missing Iraqi cash ended in Lebanon bunker” [Investigação sobre dinheiro iraquiano desaparecido termina em bunker no Líbano], The New York Times, 12 out. 2014.

5 Michelle Nichols, “UN investigators find Yemen’s Houthis did not carry out Saudi oil attack” [Investigadores da ONU descobrem que hutis do Iêmen não realizaram ataques às instalações sauditas], Reuters, 8 jan. 2020.

6 “Inside the plot by Iran’s Suleimani to attack US forces in Iraq” [Por dentro da trama do iraniano Suleimani para atacar as forças norte-americanas no Iraque], Reuters, 4 jan. 2020.

7 Ler Feurat Alani, “Les Irakiens contre la mainmise de l’Iran” [Iraquianos contra o domínio do Irã], Le Monde Diplomatique, jan. 2020.

8 “Inside the plot by Iran’s Suleimani to attack US forces in Iraq”, op. cit.

9 Qassim Abdul-Zahra e Ali Abdul-Hassan, “US troops in Iraq got warning hours before Iranian attack” [Tropas dos Estados Unidos no Iraque receberam aviso horas antes do ataque iraniano], Associated Press, 13 jan. 2020.

10 Rohollah Faghihi, “Killing Suleimani has united Iranians like never before” [Assassinato de Suleimani uniu os iranianos como nunca], Foreign Policy, Washington, 6 jan. 2020; Luis Lema, “Ardeshir Zahedi, ancien conseiller du chah: ‘Ghassem Suleimani était le sang de l’Iran’” [Ardeshir Zahedi, ex-conselheiro do xá: “Ghassem Suleimani era o sangue do Irã], Le Temps, Lausanne, 6 jan. 2020.

https://diplomatique.org.br/no-iraque-a-danca-do-sabre-entre-estados-unidos-e-ira/




















domingo, 30 de julho de 2017

Dinâmica Global - Império da Destruição. Guerra de precisão? Não me faça rir.

Você lembra. Se supunha seria uma guerra do século 21, de estilo americano: mais além da imaginação; Bombas inteligentes; Drones capazes de acertar um ser humano cuidadosamente identificado e rastreado em qualquer lugar da Terra; Ataques de operações especiais tão precisas que representariam um triunfo da ciência militar moderna. Tudo “conectado em rede”. Seria um sonho glorioso de destruição limitada combinado com poder e êxito ilimitados. Na realidade, seria um pesadelo de primeira ordem.
Se você quiser uma única palavra para resumir a guerra americana na última década e meia, eu sugiro escombros. Tem sido um termo doloroso desde 11 de setembro de 2001. Além disso, para atrair a essência dessa guerra neste século, duas novas palavras podem ser úteis: rubblize* e rubblization**. Deixe-me explicar o que quero dizer.
Nas últimas semanas, outra grande cidade do Iraque foi oficialmente “libertada” (quase) dos militantes do Estado islâmico. No entanto, os resultados da campanha militar iraquiana apoiada pelos EUA para retomar Mosul, a segunda maior cidade do país, não se encaixam em nenhuma definição comum de triunfo ou vitória. Começou em outubro de 2016 e, aos nove meses e contando, foi mais longa do que a batalha da Segunda Guerra Mundial de Stalingrado. Semana após semana, a luta de rua a rua, com ataques aéreos dos EUA repetidamente chamados em bairros ainda cheios de mosulitas aterrorizados, morreu um número de civis desconhecido mas potencialmente surpreendente. Mais de um milhão de pessoas – sim, você leu esse número corretamente – foram desarraigados de suas casas e grande parte da metade ocidental da cidade que fugiram, incluindo suas antigas seções históricas, foram transformados em escombros.
Esta deve ser a definição de vitória como derrota, sucesso como desastre. É também um padrão. Tem sido a história essencial da guerra americana contra o terrorismo, já que, no mês seguinte aos ataques do 11 de setembro, o presidente George W. Bush soltou o poder aéreo americano no Afeganistão. Essa primeira campanha aérea iniciou o que tem vindo a parecer a escala global de uma rubblization (tornar em escombros, arruinar) de partes significativas do Grande Oriente Médio.
Por não simplesmente seguir atrás da tripulação que cometeu esses ataques, mas decidindo derrubar os talibãs, ocupar o Afeganistão e, em 2003, invadir o Iraque, a administração de Bush abriu a possibilidade de vermes proverbiais naquela vasta região. Um desejo imperial de derrubar o governante iraquiano Saddam Hussein, que antes era o cara de Washington no Oriente Médio, apenas para se tornar seu inimigo mortal (e que não tinha nada a ver com o 11 de setembro), provou ser um dos erros fatais da era imperial.
Então, também, a fantasia profundamente enraizada dos funcionários da administração Bush que controlavam uma força militar de alta tecnologia e de precisão que poderia projetar o poder de maneiras que nenhuma outra nação do planeta ou da história já teve; Um exército que seria, segundo as palavras do presidente, “a maior força para a libertação humana que o mundo já conheceu”. Com o Iraque ocupado e guarnecido (estilo da Coréia) para as gerações vindouras, seus altos funcionários assumiram que derrubariam os fundamentalistas, Irã (parece familiar?) e outros regimes hostis na região, criando uma Pax Americana lá. (Daí, a ironia particular da atual ascensão iraniana no Iraque.) Na busca de tais fantasias de poder global, a administração Bush, de fato, perfurou um buraco devastador nas terras do petróleo do Oriente Médio. Na imagem pungente de Abu Mussa, chefe da Liga Árabe na época, os Estados Unidos escolheram dirigir diretamente “os portões do inferno”.
Arruinando o Grande Oriente Médio.
Nos mais de 15 anos desde o 11 de setembro, partes de uma extensão do planeta – das fronteiras do Paquistão, no Sul da Ásia à Líbia, no norte da África – foram catastróficamente instáveis. Pequenos grupos de terroristas islâmicos se multiplicaram exponencialmente em organizações locais e transnacionais, espalhando-se por toda a região com a ajuda da guerra de “precisão” americana e a ira que provocou entre as populações civis indefesas. Os estados começaram a cambalear ou a falhar. Os países essencialmente entraram em colapso, perdendo uma maré de refugiados no mundo, conforme ano após ano, os militares dos EUA, suas forças de operações especiais e a CIA foram cada vez mais implantados de uma forma ou de outra em um país após o outro.
Embora, no caso posterior, os resultados fossem visivelmente desastrosos, como muitos viciados, as três administrações pós-11 de setembro em Washington pareciam incapazes de tirar conclusões óbvias e, em vez disso, continuavam a fazer mais do mesmo (com modestos ajustes de um tipo de outro). Os resultados, sem surpresa, também foram decepcionantes ou desastrosos.
Apesar das dúvidas sobre tal forma de guerra global que o candidato Trump levantou durante a campanha eleitoral de 2016, o processo só aumentou nos primeiros meses de sua presidência. Washington, ao que parece, simplesmente não pode ajudar a si mesmo em seu esforço para perseguir esta versão da guerra em toda sua imprecisão sombria às suas conclusões cada vez mais imprecisas, mas previsivelmente destrutivas. Pior ainda, se as principais figuras militares e políticas em Washington estiverem a caminho, nada disso pode acabar em nossa vida. (Nos últimos anos, por exemplo, o Pentágono e aqueles que canalizam seus pensamentos começaram a falar de uma “abordagem geracional” ou uma “luta geracional” no Afeganistão.)
Em qualquer caso, tantos anos depois de terem sido lançados, a guerra contra o terror mostra todos os sinais de continuar a expandir e os escombros são cada vez mais o nome do jogo. Aqui está uma folha de registro muito parcial sobre o assunto:
Além de Mosul, várias outras grandes cidades e cidades do Iraque – incluindo Ramadi e Fallujah – também foram reduzidas a escombros. Através da fronteira na Síria, onde uma brutal guerra civil tem estado a crescer por seis anos, inúmeras cidades e cidades de Homs para partes de Aleppo foram essencialmente destruídas. Raqqa, a “capital” do autoproclamado Estado Islâmico, está agora sob cerco. (As forças das Operações Especiais americanas já estão ativamente ativas dentro de seus muros violados, trabalhando com as forças rebeldes sírias aliadas e curdas). Essa cidade também será “libertada” mais cedo ou mais tarde – isto é, destruída.
Como em Mosul, Fallujah e Ramadi, aviões americanos têm atingido as posições do ISIS no coração urbano de Raqqa e matado civis, evidentemente em números consideráveis, ao mesmo tempo em que separam partes da cidade. E essas atividades nos últimos anos apenas se espalharam. Na Líbia distante, por exemplo, a cidade de Sirte está em ruínas após uma luta semelhante envolvendo forças locais, poder aéreo americano e militantes do ISIS. No Iêmen, nos últimos dois anos, os sauditas têm conduzido uma campanha aérea sem fim (com apoio americano), dirigida de forma significativa para a população civil; Eles, com isso, estão arruinando esse país, ao preparar o caminho para uma fome devastadora e uma horrível epidemia de cólera que não pode ser verificada, dada a condição dessa terra empobrecida e preparada para a guerra.



Somente recentemente, esse tipo de destruição se espalhou pela primeira vez além do Grande Oriente Médio e partes da África. No final de maio, na ilha de Mindanao, no sul das Filipinas, os rebeldes muçulmanos locais identificados com o ISIS levaram a cidade de Marawi. Desde que se mudaram, grande parte de sua população de 200 mil foi deslocada e quase dois meses depois, eles ainda ocupam partes da cidade, enquanto se envolvem em guerras urbanas de estilo Mosul com os militares filipinos (apoiados por assessores de operações especiais dos EUA). No processo, a área supostamente sofreu a rubblization ao estilo de Mosul.
Na maioria dessas cidades escavadas e as regiões ao seu redor, mesmo quando a “vitória” é declarada, pior ainda está à vista. No Iraque, por exemplo, com o “califado” de Abu Bakr al-Baghdadi agora desmantelado, o ISIS continua a ser uma força de guerrilha genuinamente ameaçadora, as comunidades sunitas e xiitas (incluindo milícias armadas xiitas) mostram pouco sinal de se unir e ao norte do país, os curdos estão ameaçando declarar um estado independente. Assim, a luta de vários tipos é essencialmente garantida e a possibilidade de o Iraque se transformar em um estado falido em grande escala ou em vários mini-estados devastados continua a ser muito real, mesmo que o governo Trump esteja empurrando o Congresso para obter permissão para construir e ocupar novas “temporárias” bases militares e outras instalações no país (e na Síria vizinha).
Pior ainda, em todo o Grande Oriente Médio, a “reconstrução” não é basicamente um conceito. Simplesmente não há dinheiro para isso. Os preços do petróleo permanecem profundamente deprimidos e, da Líbia e do Iêmen ao Iraque e à Síria, os países são muito pobres ou muito divididos para começar a reconstrução de tudo. Nem – e isso é um dado – a América de Donald Trump estará lançando o equivalente de guerra ao terror de um Plano Marshall para a região. E mesmo que isso aconteça, o registro dos anos pós-11/Setembro já mostra que a versão norte-americana altamente militarizada de “reconstrução” ou “construção de uma nação” através de corporações de guerreiros antigos no Iraque e no Afeganistão foi um dos grandes golpes de nosso tempo. (Mais dólares dos contribuintes americanos foram investidos em esforços de reconstrução apenas no Afeganistão do que entraram em todo o Plano Marshall e é dolorosamente óbvio o quão eficaz isso provou ser.)
É claro que, como na guerra civil da Síria, Washington dificilmente é responsável por toda a destruição na região. O próprio ISIS tem sido uma máquina de matar extraordinariamente destrutiva e brutal com seu próprio recorde impressionante de rubblization urbana. E, no entanto, a maioria da destruição na região foi desencadeada, pelo menos, pelos sonhos e planos militarizados da administração Bush, por sua resposta ao 11 de setembro (que acabou por ser algo parecido com o cenário dos sonhos de Osama bin Laden). Não se esqueça de que o predecessor da ISIS, a Al-Qaeda no Iraque, era uma criatura da invasão e ocupação americana desse país e que o próprio ISIS estava essencialmente formado em um campo de prisão militar americano naquele país onde o seu futuro califa estava confinado.
E no caso de você pensar que todas as lições foram aprendidas de tudo isso, pense novamente. Nos primeiros meses da administração Trump, os Estados Unidos decidiram essencialmente um novo mini-aumento de tropas e poder aéreo no Afeganistão; Desdobrou pela primeira vez a maior arma não nuclear em seu arsenal; Prometeu aos sauditas mais apoio em sua guerra no Iêmen; Aumentou seus ataques aéreos e atividades de operações especiais na Somália; Está se preparando para uma nova presença militar dos EUA na Líbia; Aumentou as forças dos EUA e facilitou as regras para ataques aéreos em áreas civis do Iraque e em outros lugares; E enviou operadores especiais dos EUA e outros funcionários em números crescentes no Iraque e na Síria.
Não importa o presidente, a aposta inicial só parece aumentar quando se trata da “guerra contra o terror”, uma guerra de imprecisão que ajudou a arrancar números recordes de pessoas neste planeta, com os resultados previsíveis habituais: a propagação dos grupos terroristas, a desestabilização adicional das estruturas estatais, o aumento do número de civis deslocados e mortos e a rubblization de partes expandidas do planeta.
Enquanto ninguém negaria historicamente o potencial destrutivo dos grandes poderes imperiais, o império americano da destruição pode ser único. No auge de sua força militar nestes anos, foi totalmente incapaz de traduzir essa vantagem de poder em qualquer coisa, exceto a rubblization.
Vivendo nos escombros, uma breve história do século 21.
Deixe-me falar pessoalmente aqui, desde que vivo no coração excepcionalmente protegido e pacífico desse império de destruição e na própria cidade onde tudo começou. O que eternamente me engana é a incapacidade daqueles que correm essa maquinaria imperial absorver o que realmente aconteceu desde o 11 de setembro e tirar conclusões razoáveis ​​disso. Afinal, muito do que descrevi parece, neste ponto, desesperadamente previsível.


Seja como for, a natureza “geracional” da guerra contra o terror e a forma como ela se tornou uma guerra de terror permanente já parecem óbvias demais para discussão. E, no entanto, o que quer que ele tenha dito na campanha, o presidente Trump prontamente nomeou para cargos-chave os próprios generais que há muito tempo foram imersos em lutar as guerras dos Estados Unidos no Grande Oriente Médio e estão claramente prontos para fazer mais do mesmo. Por que, no mundo, qualquer um, mesmo esses generais, deve imaginar que tal abordagem possa resultar em algo mais “bem sucedido” está além de mim.
De muitas maneiras, a rubblization foi o coração de todo este processo, começando com o momento do 11 de setembro. Afinal, o próprio objetivo desses ataques era transformar os símbolos do poder americano – o Pentágono (poder militar); O World Trade Center (poder financeiro); E o Capitólio ou algum outro edifício de Washington (o poder político, como o avião seqüestrado que caiu em um campo na Pensilvânia, indubitavelmente se dirigia para lá) – em tumulto. No processo, milhares de civis inocentes foram abatidos.
De certa forma, grande parte da rubblization do Grande Oriente Médio nos últimos anos poderia ser pensada como, no entanto, inconscientemente, uma campanha de vingança pelo horror e insulto dos assaltos aéreos na manhã de setembro de 2001, que pulverizava as torres mais altas da minha cidade natal. Desde então, a guerra americana, em certo sentido, envolveu o pagamento de Osama bin Laden em espécie, mas em uma escala surpreendente. No Afeganistão, no Iraque e em outros lugares, um momento chocante e passageiro para os americanos se há convertido na vida cotidiana de populações inteiras e os inocentes mortos em números que se somariam a tantos Centros de Comércio Mundial empilhados uns nos outros.
As fontes do TomDispatch, o site que corro, também estão nos escombros. Eu estava na cidade de Nova York naquele dia. Experimentei o choque dos ataques e o cheiro desses edifícios em chamas. Um amigo meu viu um avião sequestrado atingindo uma das torres e outro entrou na área cheia de fumaça procurando por sua filha. Eu desci no local dos ataques com minha própria filha dentro de alguns dias e passeei pelas ruas próximas, vislumbrando esses fragmentos gigantes de edifícios destruídos.
Na frase desse momento, na sequência do 11 de setembro, tudo “mudou” e, de certo modo, sim. Eu senti. Quem não? Eu notei a sensação de medo aumentando a nível nacional e as cerimônias repetitivas em todo o país em que os americanos se saudaram como vítimas, sobreviventes e vencedores (no futuro) mais excepcionais do planeta. Nas semanas pós-11/Setembro, fiquei cada vez mais consciente de como uma crescente sensação de choque e um desejo de vingança entre a população estava liberando funcionários do governo de Bush (que há anos sonhava em fazer a “superpotência solitária” onipotente em uma maneira historicamente sem precedentes) para agir mais ou menos como desejassem.
Quanto a mim, fui dominado pela sensação de que o período a seguir seria o pior da minha vida, muito pior do que a era do Vietnã (a última vez que eu realmente havia sido mobilizado politicamente). E de uma coisa estava certo: as coisas não iriam bem. Eu tive vontade de fazer alguma coisa, embora não tivesse idéia do quê.
No início de outubro de 2001, a administração Bush desencadeou seu poder aéreo no Afeganistão, uma campanha que, em certo sentido, nunca terminaria, mas simplesmente se espalharia pelo Grande Oriente Médio. (Até agora, os EUA lançaram ataques aéreos repetidos em pelo menos sete países da região.) Naquele momento, alguém me enviou um artigo de Tamim Ansary, um afegão que havia estado nos EUA há anos, mas continuou a acompanhar os eventos no seu país de nascimento.


Sua peça, que apareceu no site Counterpunch, resultaria realmente presciente, especialmente porque havia sido escrita em meados de setembro, poucos dias depois do 11 de setembro. Naquele momento, como observou Ansary, os americanos já estavam ameaçando – em uma frase adotada na era da Guerra do Vietnã – para bombardear o Afeganistão “de volta à Idade da Pedra”. Que propósito, ele se perguntou, poderia ser atendido por tal campanha de bombardeio desde, conforme ele disse, “as novas bombas só agitariam os escombros de bombas anteriores”? Como ele ressaltou, o Afeganistão, em grande parte governado pelos terríveis talibãs, foi essencialmente transformado em escombros anos antes, na guerra de procuração, os soviéticos e os americanos lutaram lá até que o Exército Vermelho abotoasse sua derrota em 1989. Os escombros que já eram Afeganistão só aumentaria na brutal guerra civil que se seguiu. E nos anos anteriores a 2001, pouco havia sido reconstruído. Assim, como Ansary deixou claro, os EUA estavam prestes a lançar o seu poder aéreo pela primeira vez no século XXI contra um país com nada, um país de ruínas e em ruínas.
De tal ato, ele previu o desastre. E assim seria. Na época, algo sobre aquela imagem de ataques aéreos sobre escombros me atordoou, em parte porque fazia sentir tão horrível quanto verdade, em parte porque parecia um sinal tão ameaçador do que poderia estar no nosso futuro e, em parte, porque nada disso poderia então ser encontrado na notícia da grande mídia mainstream ou em qualquer tipo de debate sobre como responder ao 11 de setembro (de que não havia essencialmente nenhum). Impulsivamente, eu enviei seu documento com uma nota minha para amigos e parentes, algo que eu nunca tinha feito antes. Isso, como se verificou, seria o começo do que se tornou uma lista de nomes sem nome em constante expansão e, um pouco mais de um ano depois, TomDispatch.
Uma plutocracia dos escombros?
Então, a primeira palavra para chamar minha atenção e colocar-me em movimento na era pós-11/Setembro foi “escombros”. É triste que, quase 16 anos depois, os americanos ainda tenham medo obsessivo de si mesmos, um medo que ajudou a financiar e construir um estado de segurança nacional de dimensões surpreendentes. Por outro lado, notavelmente poucos de nós têm algum sentido das intermináveis ​​experiências de estilo 11/Setembro que nossos militares enviaram tão imprecisamente ao mundo. As bombas podem ser inteligentes, mas os atos não podem ser mais fofos.
Neste país, não existe essencialmente o senso de responsabilidade pela propagação do terrorismo, o desmoronamento dos estados, a destruição das vidas e meios de subsistência, o fluxo de maré dos refugiados e a rubblization de algumas das grandes cidades do planeta. Não há uma avaliação razoável da verdadeira natureza e dos efeitos da guerra americana no exterior: sua imprecisão, sua idiotice e sua destruição. Nesta terra pacífica, é difícil imaginar o verdadeiro impacto da imprecisão da guerra, de estilo americano. Dado o modo como as coisas estão indo, é fácil, no entanto, imaginar o cenário de Tamim Ansari escrever grande nos anos Trump e naqueles a seguir: os americanos continuam a bombardear os escombros que eles tiveram como uma mão na criação em todo o Grande Oriente Médio.






E, no entanto, as guerras imperiais distantes têm uma maneira de voltar para casa, e não apenas sob a forma de novas técnicas de vigilância, ou drones que voam sobre “a pátria”, ou a militarização em grande escala das forças policiais. Sem essas guerras desastrosas e intermináveis, suspeito que a eleição de Donald Trump teria sido improvável. E enquanto ele não perder essa guerra de “precisão” na própria pátria, seu projeto (e o dos republicanos do Congresso) – da assistência à saúde para o meio ambiente – está visivelmente destinado a esfregar a sociedade americana. Se ele fosse capaz, certamente criaria uma plutocracia dos entulhos em um mundo onde as ruínas são cada vez mais a norma.

Notas:
* Rubblize, trabalho que envolve quebrar o antigo pavimento de concreto para criar uma nova base rodoviária, um processo chamado “rubblizing” e pavimentar a rua com novo asfalto. – Double-Tongued Dictionary.
** Rubblization é uma técnica de construção e engenharia que envolve economizar tempo e custos de transporte, reduzindo o concreto existente em escombros em sua localização atual, em vez de transportá-lo para outro local. – Wikipedia. Autor: Tom Engelhardt
Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com
Fonte: Global Research.ca
https://dinamicaglobal.wordpress.com/2017/07/29/imperio-da-destruicao-guerra-de-precisao-nao-me-faca-rir/

sexta-feira, 25 de março de 2016

Irã vai enviar soldados e atiradores especiais para a Síria.

O vice-chefe das Forças Terrestres do Exército iraniano, general Ali Arasteh disse na quarta-feira, citado pelo jornal Al Akhbar, que o Irã planeja enviar tropas e franco-atiradores de operações especiais para o Iraque e a Síria para ajudar as forças armadas de ambos os países a lutar contra os terroristas.
iranian forces
Arasteh, durante um discurso por ocasião da formatura dos membros das forças e franco-atiradores pertencentes à Brigada de Reação Rápida de operações especiais, disse que o Irã enviou mais conselheiros para aconselhar o Exército sírio e iraquiano na luta contra a terrorismo.
No mês passado, o vice-chefe do Estado Maior das Forças Armadas do Irã, general Massoud Alyazeri, disse que “nunca deixar as coisas na Síria ir na direção que querem os “estados párias”. Vamos tomar as medidas necessárias em tempo útil”.
Ele disse que a Arábia Saudita tinha esgotado toda a sua força na Síria e agora tem enfrentado um grande fracasso, não só naquele país, mas também no Iêmen, e acrescentou que se intervir na Síria a Arábia Saudita sofreria uma derrota ainda maior. Ele também acusou a Turquia de ser um corredor para que os terroristas e materiais destinados a eles cheguem a Síria.
Ele também observou que há uma coordenação total de posições entre Teerã e Moscow em um nível político e militar em relação à Síria e o Irã apoia a estratégia da Rússia, que é uma grande força que tem favorecido as vitórias do governo e do povo da Síria.
Geral Alyazeri disse que o Irã está totalmente pronto e disposto a se envolver militarmente na Síria se a situação exigir e que nem o governo sírio nem os seus aliados vão tolerar a soberania da Síria a ser violada.
O general também disse que o Irã busca uma solução política para a crise síria e não está interessado em uma escalada da guerra, mas “infelizmente, nos últimos dias tenho ouvido do governo saudita, que está disposto a realizar uma escalada e enviar tropas para a Síria. Eles enviaram aviões para a Turquia.”
Assim, se uma solução política não pode ser alcançada, então o Irã não vai permitir que o governo sírio caia porque se isso acontecer, então haveria um governo em Damasco aliado com o Estado Islâmico ou com países que promovem o extremismo e o terrorismo, o que é totalmente inaceitável para Teerã.
Se por algum motivo o regime saudita ou turco decidir tomar uma escalada da situação e usar a força e invadir o território da Síria, países que estão alinhados com o governo sírio vão reagir. Eles não vão se sentar e assistir o abate de milhares de pessoas, disse o general.
Transporte aéreo.
De acordo com várias fontes, uma ponte aérea entre a Síria e o Irã já começou a mover tropas e sistemas de mísseis sofisticados iranianos na frente de Aleppo, na Síria.
O Irã também enviou aviões para a Síria lutando ali contra os grupos terroristas.


Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com
Fonte: Almanar
https://dinamicaglobal.wordpress.com/2016/03/22/ira-vai-enviar-soldados-e-atiradores-especiais-para-a-siria/

sábado, 18 de outubro de 2014

Le Monde Diplomatique br - Estado Islâmico, um monstro providencial


Rápidas e extensas, as conquistas militares do Estado Islâmico no Iraque e na Síria surpreenderam o mundo. Fruto da decomposição dos Estados da região, elas contrariam a estratégia dos Estados Unidos. Para “extirpar o câncer” jihadista, Obama espera contar com os atores regionais.
por Peter Harling


O Estado Islâmico, movimento jihadista que controla grande parte do nordeste da Síria e noroeste do Iraque, parece tão determinado e confiante quanto a região que o circunda é confusa. Ele não constitui em nada um novo Estado, uma vez que rejeita a noção de fronteira e prescinde largamente de instituições. Em compensação, nos diz muito sobre a situação no Oriente Médio, sobretudo a dos Estados da região, sem falar das políticas externas ocidentais.

Esse movimento expansionista tem uma identidade espantosamente clara, considerando sua composição – voluntários vindos de toda parte – e suas origens. A história começa no Iraque, quando, após a invasão norte-americana de 2003, um punhado de ex-mujahedins da guerra do Afeganistão cria uma célula local da Al-Qaeda. Muito rapidamente, sua doutrina dissocia-se daquela da organização que lhe deu origem: ele prioriza o inimigo próximo, em vez do adversário distante representado por Estados Unidos e Israel. Ignorando cada vez mais o ocupante norte-americano, inicia uma guerra religiosa entre sunitas e xiitas, depois entra numa lógica fratricida. Sua ultraviolência volta-se contra os supostos traidores e apóstatas sunitas, ou seja, contra seu próprio lado. A destruição que se seguiu, entre 2007 e 2008, reduziu o movimento a alguns radicais entrincheirados nos confins do deserto iraquiano.
Se o Estado Islâmico faz um retorno espetacular à cena, apenas uma pequena parte do mérito é sua. Seus inimigos declarados – cuja lista, impressionante, compõe uma espécie de “quem é quem” no cenário estratégico regional – abriram-lhe um largo caminho. Em primeiro lugar, os regimes do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, e do presidente sírio, Bashar al-Assad, que usaram todos os meios possíveis e imagináveis – e mesmo inimagináveis, no caso das armas químicas na Síria – para combater, em nome de uma pretensa “guerra contra o terrorismo”, a oposição sunita que eles próprios se esforçaram para radicalizar. Depois, os parceiros de ocasião desses regimes – Washington em um caso e Moscou no outro – incentivaram-nos. O Irã foi além da oferta de apoio incondicional: no mundo árabe, Teerã segue uma política externa que se resume cada vez mais à manutenção de bolsões de milícias xiitas, o que contribui para a polarização religiosa.
Não esqueçamos as monarquias do Golfo, cujos petrodólares, lançados aos quatro ventos, financiam uma economia islamita parcialmente oculta. A Turquia abriu por muito tempo sua fronteira com a Síria para os jihadistas vindos da França, de Navarra e até da Austrália. Os Estados Unidos, por fim, devem ser julgados à revelia: depois de uma década de agitação sem sentido sob a liderança do presidente George W. Bush, Barack Obama optou pela postura inversa, ou seja, um laissez-faire fleumático e altivo, quando regimes em decadência, na Síria e no Iraque, são claramente um viveiro de jihadistas. Em dois anos, não apenas o Estado Islâmico floresceu, mas foi sendo pouco a pouco transplantado, até invadir grandes cidades como Raqqa, Fallujah e Mossul. Fato importante: é o primeiro movimento, no mundo árabe, a tirar o jihadismo das margens.
Parte do sucesso reside na estratégia do movimento, que pode ser resumida pelo conceito de consolidação. Ela ambiciona menos “conquistar o mundo”, como sugerem tanto propagandistas quanto detratores, do que ancorar-se firmemente nos espaços ocupados – o que conduz a mais pragmatismo do que podemos imaginar. Seus combatentes capturam e negociam prisioneiros ocidentais, quando outras gerações de jihadistas os teriam degolado para chamar atenção. Dedicam-se com especial energia a conquistar poços de petróleo que lhes garantam uma boa autonomia financeira. Atacam prontamente os frágeis rivais sunitas, em suas zonas de conforto, mas o entusiasmo diminui em confrontos muito difíceis com adversários mais sérios: participam pouco da luta contra o regime sírio, evitam enfrentar as milícias xiitas iraquianas e moderam seu antagonismo para com as facções curdas.
No entanto, o Estado Islâmico tem pouco a oferecer, o que é amplamente ilustrado pela situação desastrosa em Mossul. Seus recursos, consideráveis, não bastam para alguma forma de redistribuição. Seus princípios de governo são anacrônicos: uma ressurreição das práticas do profeta do islã, o que seria desconfortável mesmo que elas fossem bem compreendidas. Para além dessa utopia mal acabada, o governo paradoxalmente não se assenta em nenhuma teoria do Estado Islâmico – uma lacuna no mundo sunita em geral, em contraste com o xiismo da Revolução Iraniana. Na melhor das hipóteses, põe em prática uma visão mais codificada da guerra, o que lhe confere uma vantagem em relação aos grupos armados que se entregam à criminalidade pura e simples. Essa codificação reforça sua coesão de conjunto, por meio de práticas e de um discurso que, embora violentos, são relativamente elaborados.

Entre os sunitas, um sentimento de injustiça
No fundo, o Estado Islâmico contenta-se sobretudo em preencher um vazio. Ele ocupa o nordeste da Síria porque o regime oficial praticamente abandonou a região, enquanto a oposição que poderia vir a preencher seu lugar foi abandonada à própria sorte por seus supostos padrinhos, especialmente os Estados Unidos. Além disso, penetrou cidades como Fallujah e Mossul porque o governo central, em Bagdá, não se importava com elas: sua presença ali era corrupta, repressiva e precária. A rápida expansão nas áreas controladas por forças curdas, porém habitadas por minorias cristãs e iazidis, no norte do Iraque, explica-se pela falta de interesse para com as vítimas por parte de seus supostos defensores, os curdos, que preferiram voltar-se para seu território natural.
Também conhecido como “Daesh”, seu acrônimo árabe de conotação pejorativa, o Estado Islâmico preenche ainda um vazio em um nível mais abstrato. Simplificando, o mundo sunita tem dificuldade tanto em explicar seu passado como em imaginar seu futuro. Um século XX fragmentário, que se seguiu a uma longa ocupação otomana vista por muito tempo como um período de declínio, teve como saldo uma série de fracassos: anti-imperialismo, pan-arabismo, nacionalismos, socialismo, várias formas de islamismo, capitalismo – todos levaram a experiências ambíguas e amargas. Com exceção da Tunísia, as esperanças nascidas com os levantes de 2011 transformaram-se, pelo menos até agora, em desastre. Para onde olhar em busca de uma fonte de inspiração, autoconfiança e orgulho? Para os reacionários do Golfo e do Egito? Para a Irmandade Muçulmana, hoje arrasada? Para o Hamas palestino, preso na armadilha do eterno impasse de sua resistência a Israel?
Enquanto isso, o mundo xiita obtém êxitos, ainda que parciais: o Irã tornou-se um interlocutor incontornável para o Ocidente e pretende ter um papel cada vez maior no mundo árabe; o Hezbollah dita sua lei no Líbano, e um eixo religioso ligando Beirute, Damasco, Bagdá e Teerã consolida-se. O resultado é um fenômeno novo e alarmante: a maioria sunita na região desenvolve um complexo de minoria – um sentimento vago, mas poderoso, de marginalização, expropriação, humilhação. Os sunitas que se creem e se dizem perseguidos e privados de seus direitos elementares são cada vez mais numerosos e estão em cada vez mais lugares.
Salvo algumas louváveis expressões, as minorias (xiita, cristã, alauita, curda etc.), que cultivam todas sua identidade de vítima, mostram-se na melhor das hipóteses indiferentes ao destino da maioria, quando não cúmplices. O Ocidente não é exceção. Se o destino dos iazidis, que morreram de fome após uma fuga frenética pelas montanhas de Sinjar, preocupa no mais alto grau as chancelarias do Ocidente, o dos habitantes dos bairros sitiados de Damasco, onde um número maior de sunitas morre de fome por causa do regime oficial, não causa nenhuma reação.
Talvez o mais preocupante seja o fato de o Estado Islâmico ter se tornado o tapa-sexo de um vazio político generalizado. Todos aqueles que abominavam a “guerra contra o terrorismo” de Bush, vendo nela uma ideia ingênua de bombeiro pirômano ou a persistência aberrante de uma lógica imperial, agora entoam esse cântico, porque ele evita refletir sobre os reais dilemas da região. O Daesh serve de justificativa para tudo: os excessos do avanço iraniano em direção a um sectarismo xiita cada vez maior, como resposta a seu equivalente sunita; as ambivalências de um Ocidente que não sabe mais nem por onde começar; as concessões de grande parte das elites do mundo árabe em uma orgia de violência contrarrevolucionária; e, ainda, a alienação crescente das minorias em relação ao seu entorno – uma dinâmica da qual são vítimas, mas também atores, pois se apegam a formas de repressão que agravam o problema.
Segue-se uma série de aforismos, uns mais absurdos que os outros. O Irã para o Ocidente: amem-nos, pois o Daesh nos ameaça. Os regimes árabes paraseus povos: não cederemos em nada, pois o Daesh nos ameaça. A oposição síria: salvem-nos de nós mesmos, pois o Daesh nos ameaça. O Hezbollah para os libaneses: vale tudo, pois o Daesh nos ameaça. Os Estados Unidos: não interviremos na Síria, pois o Daesh nos ameaça, mas batemos no Iraque, pois... o Daesh nos ameaça.
O retrocesso dá-se em todas as direções. Tira-se a “guerra contra o terrorismo” da lata de lixo da história das relações internacionais; desencava-se a “proteção das minorias”, no modo colonial de um bombardeio da maioria agitada. Os poucos alvos atingidos no Iraque por aviões e drones norte-americanos são um ato de libertação não para os iazidis, cujo futuro depende de muitos outros fatores, mas para a consciência de uma administração Obama que, nos últimos três anos, diante de todos os tipos de violência, deu de ombros e olhou para o lado.
Os Estados Unidos acabaram reagindo no Iraque, pois podiam fazê-lo sem problemas: não há risco de escalada com o Estado Islâmico, que não tem condições imediatas de retaliação. Não há clamores da opinião pública norte-americana e mundial, que apoia largamente a causa. Também não há complicações diplomáticas, já que existe consenso quanto ao Daesh dentro do governo iraquiano e da liderança curda, bem como entre os vizinhos Irã, Turquia e Arábia Saudita.
Esses ataques não são neutros. Ao contrário, vistos da região, eles fazem muito sentido. Por um acaso do calendário macabro das matanças no Oriente Médio, eles ocorrem após um mês de desinteresse furioso de Washington para com a sorte dos civis bombardeados em Gaza. Eles também enviam uma mensagem muito clara aos atores da região: a dose certa de “guerra contra o terrorismo” e “proteção das minorias” pode servir para captar e mobilizar o poder norte-americano. Massoud Barzani, presidente do governo regional do Curdistão, entendeu isso muito bem, lançando um pedido de socorro mobilizador no The Washington Post.1 Os outros políticos ao redor também entenderam; no final das contas, eles só ficam surdos aos apelos para uma mudança positiva.

Despertar libanês
Foi necessário que o Estado Islâmico aparecesse no Líbano para sacudir a paralisia que assola esse país tão frágil. Mas o avanço é também um passo atrás: a classe política e seus patrocinadores estrangeiros exageram no apoio ao Exército, que se alinha amplamente na caça aos islamitas sunitas, ignorando cuidadosamente a delicada questão do Hezbollah, o qual fica livre para lutar ao lado dos regimes odiados na Síria e no Iraque. Na verdade, todos os fatores estruturais de instabilidade são, como aliás no resto da região, considerados secundários em relação à urgência de enfrentar o Daesh. No meio sunita, o sentimento de ser posto à parte, evidentemente, só faz crescer.
O Estado Islâmico tem, portanto, um futuro brilhante pela frente se os jogadores principais continuarem explorando sua presença para esquivar-se de seus erros. Os islamitas xiitas, os meios seculares e os governos ocidentais redefinem parcialmente suas relações com base em uma espécie de guerra santa que se torna um fim em si mesma. Gaza, Iêmen, Sinai, Líbia e Tunísia, todos são terrenos férteis para sua expansão, em uma parte do mundo que conhece uma forte integração regional, ao mesmo tempo para além das fronteiras e para dentro de cada país: por força do êxodo rural, as franjas territoriais estão bem conectadas aos bairros informais das grandes cidades.
Também existem fortes ligações com as sociedades ocidentais remodeladas pelos fluxos migratórios e as novas tecnologias de informação, que produzem uma nova geração de candidatos à jihad. Eles facilmente vão para a Síria ou o Iraque, de onde se comunicam e valorizam sua experiência, disparando rajadas tanto de tweets como de balas.
Pouco representativo em si mesmo, o Estado Islâmico é alimentado por um efeito sistêmico. Ele pode ao mesmo tempo ser uma forma de redenção padrão, um aliado de circunstância, um trampolim social ou uma identidade pronta para usar em meios sunitas que passam por uma crise profunda. Ele serve de elemento de contraste ou como uma distração útil para seus detratores mais cínicos e de espantalho que concentra os temores mais ou menos racionais de atores confrontados com seus próprios fracassos. Essa polissemia, na confusão que caracteriza esta era de mudanças caóticas, é o que faz seu sucesso.
Peter Harling
Pesquisador, viveu em Bagdá de 1998 a 2004.


Ilustração: Reuters/ Alaa Al-Marjani
1  Massoud Barzani, “Kurds need more US to defeat Islamic State” [Curdos precisam de mais EUA para derrotar o Estado Islâmico], The Washington Post, 10 ago. 2014.

sábado, 30 de março de 2013

Por que a invasão do Iraque foi o maior erro da história da política externa americana

Eu estava lá. E esse lugar era onde se deve estar se você quiser ver os sinais do fim dos tempos para o império americano. Era o lugar para se estar se você quiser ver a loucura e, oh, sim, foi uma loucura, não filtrada através de uma mídia complacente e sonolenta que fez a política de guerra de Washington parecer, se não sensível, pelo menos sensata e séria o suficiente. Eu estava no Ground Zero, que era para ser a peça central de uma nova Pax Americana no Grande Oriente Médio.

Não querendo estigmatizar, mas a invasão do Iraque acabou por ser uma piada. Não para os iraquianos, claro, e nem para os soldados americanos. E aqui a mais triste verdade de tudo: no dia 20 de março, que marca o décimo aniversário da invasão infernal, nós ainda não entendemos seu propósito. No caso de você querer ir para o cerne da questão, ao invadir o Iraque os Estados Unidos fizeram mais para desestabilizar o Oriente Médio do que nós poderiamos ter imaginado àquela altura. E nós - e muitos outros - iremos pagar o preço por isso por muito, muito tempo.

A loucura do Rei George
É fácil esquecer quão normal a loucura pareceu naquela época. Em 2009, quando eu cheguei no Iraque, já estávamos no momento do último suspiro da possibilidade de salvar algo que já podia ser entendido como o maior erro da história da politíca externa americana. Foi então que, como um oficial do Departamento de Estado designado para liderar duas equipes de reconstrução provincial no leste do Iraque, eu entrei pela primeira vez naquela fábrica de processamento de frango que ficava no meio do nada.

Até então, o plano de resconstrução americano estava afundando em rios de dinheiro mal gasto. No centro dos esforços americanos - pelo menos depois de os Estados Unidos abandonarem a ideia de um governo interino para o Iraque, e de que nossas tropas invasoras seriam recibidas com doces e flores como libertadores - nós não tinhamos conseguido reconstruir nada de significante. Primeiramente concebido como um Plano Marshall para o novo século americano, seis longos anos depois tudo tinha se desenvolvido em uma farça.

Na meu período de atuação, os Estados Unidos gastaram algo entorno de 2,2 milhões de doláres para construir uma enorme instalação no meio de nada. Ignorando a dura realidade dos iraquianos que nasceram e vendiam frangos ali há cerca de 2000 anos, os Estados Unidos decidiram financiar a construção de uma unidade central de processamento (tendo os iraquianos como gerentes de compras locais) que cortará os frangos com máquinas complexas trazidas de Chicago, empacotaria os peitos e asas em filme plástico e, em seguida, transportaria tudo para supermercados locais. Talvez tenha sido o calor do deserto, mas isso fazia sentido na época, e o plano foi apoiado pelo Exército, o Departamento de Estado e a Casa Branca.

Elegante na concepção, pelo menos para nós, mas não se conseguiu lidar com algumas deficiências simples, como a falta de energia elétrica regularmente, um sistema logístico para levar as frangos para a fábrica, capital de giro, e... mercearias. Como resultado disso, os reluzentes 2,2 milhões investidos na fábrica não processaram nenhum frango. Para usar algumas das palavras de ordem do momento, nada foi transformado, não qualificou ninguém, não estabilizou nem promoveu economicamente nenhum iraquiano. Ele apenas ficou lá vazio, escuro e não utilizado no meio do deserto. Como os frangos nós fomos depenados.

De acordo com a loucura da época, no entanto, o simples fato que a fábrica não ter cumprido nenhum de seus reais objetivos não significa que o projeto não foi um sucesso. Na verdade, a fábrica foi um sucesso na mídia dos EUA. Afinal, para cada visita monitorada, com fins de propaganda, à fábrica, meu grupo abastecia o local às pressas com frangos comprados, preparávamos as máquinas e faziamos uma apresentação fantasiosa.

No humor negro daquele momento, nós batizamos o lugar de Fábrica de Frango Potemkin. Entre visitas públicas e privadas, tudo ficava às escuras, apenas ressurgindo com o cantar do galo a cada manhã que alguma equipe de filmagem vinha para uma visita. Nossa fábrica foi, portanto, considerada um grande sucesso. Robert Ford, então na embaixada de Bagdá e agora embaixador dos EUA para a Síria, disse que sua visita foi o melhor dia que ele esteve no Iraque. O general Ray Odierno, então comandannte de todas as forças dos EUA no Iraque, enviou blogueiros e civis, que acompanhavam os militares, para ver o projeto da vitória. Algumas das propagandas proclamavam que "ensinando os iraquianos a florescer sozinhos dá a eles a capacidade de fornecer a sua própria estabilidade, sem necessidade de contar com os americanos".

A fábrica de frangos era uma história engraçada no começo, o tipo da piada interna que você precisa saber o que realmente ocorre pra entender. É, nós desperdiçamos algum dinheiro, mas 2,2 milhões de dólares é uma quantia pequena numa guerra que um dia irá custar trilhões. Realmente, ao final das contas, qual foi o prejuízo?

O dano foi este: nós queríamos deixar o Iraque (e o Afeganistão) estáveis para avançar nos objetivos americanos. Fizemos isso gastando nosso tempo e dinheiro em coisas obviamente inúteis, enquanto a maioria dos iraquianos não têm acesso a electricidade, água limpa, regular e assistência médica ou hospitalar. Como poderíamos ajudar a estabilizar o Iraque se nós agíamos como palhaços? Como um iraquiano me disse, "é como se eu estivesse pelado em uma sala com um grande chapéu na minha cabeça. Todo mundo entra e ajuda a botar flores e fitas no meu chapéu, mas ningúem parece reparar que eu estou pelado".

Por volta de 2009, é claro, tudo isso deveria estar muito óbvio. Nós não estavamos mais dentro do sonho neoconservador de uma superpotência mundial incomparável, estávamos apenas atolados no que aconteceu neste sonho. Nós eramos uma fábrica de galinhas no deserto que ninguém queria.

Viagem no tempo para 2003
Aniversários são tempos de reflexão, em parte, porque é muitas vezes só retrospectivamente que reconhecemos os momentos mais significativos em nossas vidas. Por outro lado, em aniversários muitas vezes é difícil lembrar o que era tudo, realmente, quando tudo começou. Em meio ao caos do Oriente Médio hoje, é fácil, por exemplo, esquecer como as coisas pareciam no começo de 2003. O Afeganistão pareceu ter sido invadido e ocupado de forma rápida e limpa, de forma que os soviéticos (os britânicos, os gregos antigos...) jamais poderiam ter sonhado. O Irã estava assustado, vendo o poderoso exército americano na sua fronteira oriental e em breve na ocidental também, e estava pronto para negociar.

A maioria do resto do Oriente Médio foi enfiado em um longo sono com ditadores confiáveis o suficiente para manter a estabilidade. A Líbia era uma exceção, embora as previsões eram de que em pouco tempo Muammar Kadafi iria fazer algum tipo de acordo. E ele fez. Tudo o que era necessário era um golpe rápido no Iraque para estabelecer uma presença militar americana permanente no coração da Mesopotâmia. Nossas futuras guarnições militares lá, obviamente, supervisionariam as coisas, fornecendo os músculos necessários para derrubar todos os futuros elementos desestabilizadores. Isso fazia tanto sentido para a visão neoconservadora do começo da era Bush. A única coisa com a qual Washington não contava era que nós fossemos o primeiro elemento desestabilizante.

De fato, o grande plano estava se desintegrando até durante o período em que ele estava sendo sonhado. Com vontade de ter tudo em seus termos, a equipe de Bush perdeu uma oportunidade diplomática com o Irã que poderia ter feito o barulho de hoje desnecessário. Como parte do desastre, homens desesperados, blindados pela história, aumentaram o volume de medidas desesperadas: tortura, gulags secretos, dissimulações, uso de drones para assassinatos, e ações extraconstitucionais em casa. O mais frágil do acordos foi aparado para tentar salvar alguma coisa, incluindo ignorar a rede de proliferação nuclear paquistanesa A.Q Khan em troca de uma aproximação com Líbia, e uma foto brega da Condoleezza Rice com o Kadafi.

Dentro do Iraque, as forças do conflito sectário entre sunitas e xiitas foram desencadeadas pela invasão dos EUA. Isso, por sua vez, criou as condições para um confronto entre os Estados Unidos e o Irã dentro da política interna iraquiana, similar à crescente guerra na política interna do Líbano entre Israel e Irã.

Nada disso terminou. Hoje, de fato, a guerra na política interna desses países simplesmente achou um novo palco, a Síria, com várias forças usando "ajuda humanitária" para empurrar e impulsionar os seus alidados sunitas e xiitas.

Descontentando as expectativas neoconservadoras, o Irã emerge da década americana no Iraque economicamente mais poderoso, com o comércio não oficial entre os dois vizinhos sendo avaliado agora em cinco bilhões de dólares por ano, valor que continua crescendo. Nessa década, os Estados Unidos também conseguiram remover um dos contrapesos estratégicos do Irã, Saddam Hussein, substituindo-o por um governo dirigido por Nouri al-Malaki, que já encontraram apoio em Teerã.

Enquanto isso, a Turquia está agora envolvida em uma guerra aberta com os curdos do norte do Iraque. A Turquia é, naturalmente, parte da Otan, então imagine o governo dos EUA sentado em silêncio enquanto a Alemanha bombardeava a Polônia. Para completar o círculo, o primeiro-ministro do Iraque advertiu recentemente que uma vitória dos rebeldes da Síria vai desencadear guerras sectárias em seu próprio país e vai criar um novo refúgio para a Al Qaeda, que iria desestabilizar ainda mais a região.

Enquanto isso, militarmente queimado, economicamente sofrendo com as guerras no Iraque e no Afeganistão e sem qualquer moral no Oriente Médio pós-Guantánamo e Abu Ghraib, os Estados Unidos sentam sobre suas próprias mãos, com a faísca regional do que veio a ser chamada de Primavera Árabe se apagando, para ser substituída por desestabilização ainda maior dentro da região. E mesmo assim Washington não parou de procurar a versão mais recente da (agora sem nome) guerra global contra o terror em regiões cada vez mais novas que precisam de desestabilização.

Tendo notado a facilidade com que o entorpecido público americano patrioticamente olhou para o outro lado, enquanto nossas guerras seguiram seus caminhos específicos para o desastre, nossos líderes nem sequer piscam mais ante a possibilidade de mandar caças americanos não tripulados e forças de operaçoes especiais para lugares cada vez mais distantes, notavelmente mais para dentro da África, criando das cinzas do Iraque uma versão do estado de guerra perpétua que George Orwell uma vez imaginou em seu romance não-utópico 1984.

Feliz aniversário
No décimo aniversário da Guerra do Iraque, o Iraque continua, em qualquer nível, um lugar perigoso e instável. Até mesmo o sempre otimista Departamento de Estado aconselha viajantes americanos que vão para o Iraque, posto que esses cidadãos "continuam correndo risco de serem sequestrados... porque grupos rebeldes, incluindo Al Qaeda, ainda estão ativos", além de notar que "a norma do Departamento de Estado para negócios americanos no Iraque aconselha o uso de 'Detalhes de Segurança'".

Numa perspectiva mais ampla, o mundo está muito mais inseguro e perigoso do que estava em 2003. De fato, para o Departamento de Estado, que me enviou para o Iraque para testemunhar as leviandades do imperialismo, o mundo tornou-se ainda mais assustador. Em 2003, no momento infame do "missão cumprida", só a embaixada em território afegão foi considerada "extremamente perigosa" na lista de embaixadas além-mar. Não muito mais tarde, ainda, Iraque e Paquistão foram adicionados nesta lista. Hoje, Iemêm e Líbia, antes seguros para embaixadas, agora estão categorizadas como "extremamente inseguras".

Outros lugares antes considerados tranquilos para diplomatas e suas famílias, como Síria e Mali, foram esvaziadas e não contam com nenhuma presença diplomática americana. Até mesmo a sonolenta Tunísia, uma vez calma o bastante para que uma escola de árabe fosse estabelecida na embaixada, conta agora com uma equipe reduzidíssima com nenhum familiar residente. No Egito isso é oscilante.

Explicitamente o grande apologista da estrátegia adotada no Iraque, com a ausência de George W. Bush e dos altos funcionários de seu governo, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair lembrou-nos recentemente de que há mais no horizonte. Admitindo que há "muito tempo desistiu de tentar persuadir as pessoas do Iraque que foi a decisão certa", Blair acrescentou que novas crises estão se aproximando. "Você tem uma crise hoje na Síria, você tera uma outra no Irã em breve", disse ele. "Estamos no meio dessa luta, que vai levar uma geração, e vai ser muito árduo e difícil. Mas acho que estaremos cometendo um erro, um erro profundo, se pensarmos que podemos ficar fora dessa luta".

Pense nesse comentário como um aviso. Depois de algum modo ter transformado todo o Islã em um inimigo, Washington simplesmente atrelou-se a intermináveis crises nas quais não tem nenhuma chance de vencer. Nesse sentido, o Iraque não foi uma aberração, mas o auge histórico de um modo de pensar que agora está lentamente ruindo. Por décadas, os Estados Unidos terão uma força militar grande o suficiente para garantir que a nossa queda seja lenta, sangrenta, feia e relutante, embora inevitável. Um dia, porém, mesmo os caças não tribulados terão que aterrissar. Assim, feliz 10 anos de aniversário, Guerra do Iraque! Uma década depois da invasão, um caótico e instavél Oriente Médio é o legado não terminado da nossa invasão. Eu acho que o alvo da piada somos nós ao final, embora ninguém esteja rindo.


Tradução: Mailliw Serafim e Caio Sarack

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Comandante da Guerra do Golfo, Norman Schwarzkopf morre aos 78 anos

General teve papel fundamental na invasão do Kuwait em 1991, quando os EUA expulsaram Saddam Hussein do país
Norman Schwarzkopf, que foi chefe do Comando Militar Central dos Estados Unidos e o general que comandou as forças aliadas durante a Guerra do Golfo, morreu na quarta-feira (27) no Estado da Flórida aos 78 anos.
Segundo a emissora CNN, o general reformado morreu na cidade de Tampa, onde vivia. Schwarzkopf teve um papel fundamental na invasão do Kuwait em 1991, quando, durante a presidência de George H. W. Bush, os EUA expulsaram Saddam Hussein desse país na Guerra do Golfo.
Schwarzkopf, militar que também foi condecorado pela participação na Guerra do Vietnã, nasceu em 1934 em Nova Jersey e era chamado de "Stormin' Norman" devido à sua forte personalidade. Apesar de se transformar em uma celebridade, Schwarzkopf, que se retirou das Forças Armadas em 1992, superou um câncer de próstata e rejeitou o caminho da política.
O ex-presidente Bush (pai), que se encontra na UTI (unidade de terapia intensiva) de um hospital de Houston, no Texas, emitiu um comunicado através de seu porta-voz para prestar condolências pela perda de um "verdadeiro patriota americano, tido como um dos grandes líderes militares de sua geração".
"Era um homem bom, decente e um apreciado amigo", indicou o comunicado no qual o ex-presidente e sua esposa, Barbara Bush, enviam condolências à família de Schwarzkopf.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Armas russas para Iraque: algazarra em torno do acordo



  
    Especialistas russos acreditam que os rumores sobre o fracasso do contrato para a compra de amas entre a Rússia e o Iraque possam ser provocados pelos EUA. Na segunda-feira na mídia ocidental apareceram publicações citando um representante do primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki. Teria dito que o Iraque havia decidido rescindir o acordo para compra de armas da Rússia em valor de 4,2 bilhões de dólares, devido às preocupações sobre a corrupção.
     As informações foram desmentidas mais tarde pelo ministro da Defesa iraquiano Saadoun al-Dulaimi.
     O acordo acima mencionado foi atingido no mês de outubro durante a visita de al-Maliki a Moscou. Por 4,2 bilhões de dólares o Iraque pretendia comprar sistemas de defesa aérea Pantzir-1S, helcópteros Mi-28N, caças MiG-29M/M2 veículos blindados.
     De acordo com o jornal russo Kommersant, não o Serviço Federal para a Cooperação Técnico-Militar, nem Rosoboronexport - a empresa russa de exportação, que são os responsáveis para implementar o acordo, receberam uma notificação de rescisão do contrato. Nenhuma informação adequada foi recebida também através dos canais diplomáticos.
     As fontes do governo russo dizem que possa haver um terceiro envolvido no escândalo. "Os Estados Unidos tem feito os esforços significativos para evitar que acordo fosse concluído, disse uma fonte nos círculos do governo russo. "Eu não ficaria surpreso se eles tentassem prevenir ou complicá-lo posteriormente. Os norte-americanos não para isso têm permanecido tanto tempo no Iraque para cederem o mercado de armas à Rússia ", comentou de forma anónima outro especialista nos círculos militares e diplomáticos.
     "Está decorrendo uma luta entre diferentes grupos políticos para executar ou não executar este contrato. A liderança iraquiana está sendo fortemente pressionada por Washington, que não está interessada em que o Iraque se torne um comprador de armas russas para uma quantia tão gigantesca", disse o presidente do Conselho Público do Ministério da Defesa da Rússia, Igor Korotchenko.
     É verdade que Nouri Maliki, ordenou a abertura de uma investigação ao acordo que tinha estabelecido com a Rússia para a compra de armas e equipamento militar, mas se tratava de corrupção de funcionários iraquianos e não russos. O ministro da Defesa iraquiano Sadun al-Dulaimi assegurou que o contrato está em cumprimento, e chamou a situação de um mal-entendido, que aconteceu porque informações sobre o contrato não foram recebidas a tempo no Comité Anti-Corrupção do Iraque. Mas imprensa ocidental transformou a informação a seu favor. Moscou por sua vez pretende exigir em breve uma explicação oficial sobre o destino do contrato russo-iraquiano, pois, a concretizar-se o negócio, a Rússia passaria a ocupar o segundo lugar na lista dos principais fornecedores de armamento ao Iraque, depois dos Estados Unidos.
Lyuba Lulko